Realizadas todas as etapas acima, que deflagram a reorganização societária enquanto processo, somente com a averbação e o registro dos respectivos atos no registro competente as operações estão aptas a produzirem efeitos jurídicos perante terceiros, isto é, surge a norma individual e concreta da reorganização societária.
De fato, partindo-se das premissas adotadas anteriormente, para que ocorra o fenômeno da incidência faz-se necessária a atividade humana, i.e., há a necessidade de um agente competente verter em linguagem competente o evento ocorrido, para que ocorra a subsunção do fato a norma jurídica.
Assim, somente com o registro, pela autoridade competente, dos atos relativos à reorganização societária, considera-se constituído o fato jurídico, capaz de deflagrar, de forma automática e infalível, a relação jurídica correspondente.
A exigência de registro encontra-se prevista no Código Civil no artigo 1.118110 (no caso da incorporação), no artigo 1.121111 (no caso da fusão) e no artigo 1.122112 (que trata dos direitos dos credores de contestarem a operação de fusão, cisão ou incorporação no prazo de noventa dias da publicação dos atos).
A sociedade simples deverá registrar seus atos no Registro Civil das Pessoas Jurídicas e as demais sociedades (sociedades empresárias) deverão registrar seus atos no Registro Público de Empresas Mercantis, nas Juntas Comerciais.113
Por sua vez, no caso das sociedades por ações, o registro dos atos relativos à operação de incorporação, e da cisão com incorporação de parcela do
110 “Art. 1.118. Aprovados os atos da incorporação, a incorporadora declarará extinta a incorporada, e
promoverá a respectiva averbação no registro próprio.”
111
“Art. 1.121. Constituída a nova sociedade, aos administradores incumbe fazer inscrever, no registro próprio da sede, os atos relativos à fusão.”
112 “Art. 1.122. Até noventa dias após publicados os atos relativos à incorporação, fusão ou cisão, o
credor anterior, por ela prejudicado, poderá promover judicialmente a anulação deles.”
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Conforme determinação do artigo 1.150 do Código Civil:
“Art. 1.150. O empresário e a sociedade empresária vinculam-se ao Registro Público de Empresas Mercantis a cargo das Juntas Comerciais, e a sociedade simples ao Registro Civil das Pessoas Jurídicas, o qual deverá obedecer às normas fixadas para aquele registro, se a sociedade simples adotar um dos tipos de sociedade empresária.”
patrimônio da sociedade cindida por outra sociedade havendo a extinção da sociedade cindida, deverá ser efetuado pela sociedade incorporadora114, no caso da fusão o registro caberá aos primeiros administradores da nova companhia resultante do processo de fusão115; e, no caso da cisão com versão de parte do patrimônio para outra sociedade, o registro deverá ser efetuado pelos administradores da sociedade cindida.116
No que concerne ao registro dos atos de incorporação de ações a lei restou omissa, razão pela qual neste caso caberá à sociedade que teve suas ações incorporadas o dever de registro, uma vez que a referida sociedade continua existindo, possuindo personalidade jurídica, sendo, portanto, competente para efetuar esse registro e dar publicidade ao referido ato.
Nos termos do disposto no artigo 289 da Lei nº 6.404/1976, os atos de incorporação, fusão e cisão deverão ser arquivados no registro de comércio e publicados. Ainda, no caso de companhia aberta, a operação deverá ser aprovada pela Comissão de Valores Mobiliários117 e, no caso de instituição financeira, exige- se a aprovação pelo Banco Central do Brasil118.
114
Conforme dispõem os artigos 227 e 229 da Lei nº 6.404/1976:
“Art. 227. A incorporação é a operação pela qual uma ou mais sociedades são absorvidas por outra, que lhes sucede em todos os direitos e obrigações.
[...]
§ 3º Aprovados pela assembléia-geral da incorporadora o laudo de avaliação e a incorporação, extingue-se a incorporada, competindo à primeira promover o arquivamento e a publicação dos atos da incorporação.”
“Art. 229. A cisão é a operação pela qual a companhia transfere parcelas do seu patrimônio para uma ou mais sociedades, constituídas para esse fim ou já existentes, extinguindo-se a companhia cindida, se houver versão de todo o seu patrimônio, ou dividindo-se o seu capital, se parcial a versão.
[...]
§ 4º Efetivada a cisão com extinção da companhia cindida, caberá aos administradores das sociedades que tiverem absorvido parcelas do seu patrimônio promover o arquivamento e publicação dos atos da operação; na cisão com versão parcial do patrimônio, esse dever caberá aos administradores da companhia cindida e da que absorver parcela do seu patrimônio.”
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Conforme dispõe o artigo 228 da Lei nº 6.404/1976: “Art. 228. A fusão é a operação pela qual se unem duas ou mais sociedades para formar sociedade nova, que lhes sucederá em todos os direitos e obrigações.
[...]
§ 3º Constituída a nova companhia, incumbirá aos primeiros administradores promover o arquivamento e a publicação dos atos da fusão.”
116 Nos termos do já citado artigo 229, §4º, da Lei nº 6.404/1976. 117 Nos termos do disposto no artigo 254-A da Lei nº 6.404/1976. 118
Registrados e publicados os atos relativos à incorporação ou à fusão, no caso das sociedades por ações, o credor que se sentir prejudicado terá o prazo de 60 dias para sua contestação, nos termos do disposto no artigo 232 da Lei nº 6.404/1976.119
Ainda, os documentos necessários para os registros societários deverão ser apresentados no prazo de 30 (trinta) dias contados de sua lavratura e, se apresentado fora do prazo, somente produzirá efeitos a partir da data da concessão do registro.120
Cabe registrar que alguns doutrinadores consideram ocorrida a reorganização no momento da assembléia que a determinou, sendo este o momento capaz de produzir efeitos. Contudo, a partir das premissas adotadas no presente estudo discorda-se desse posicionamento uma vez que somente com o registro perante os órgãos competentes e a publicidade do ato (i.e., somente com a versão em linguagem competente) haverá a incidência da norma individual e concreta.
Assim, nos termos das premissas adotadas no presente estudo, somente o registro dos atos relativos à reorganização societária é linguagem jurídica competente apta a constituir a norma jurídica individual e concreta.
Contudo, não se deve ignorar o pressuposto de uma série de condutas anteriores, praticadas por agentes competentes (reorganização societária enquanto processo), capazes de produzir norma jurídica individual e concreta (reorganização
119
“Art. 232. Até 60 (sessenta) dias depois de publicados os atos relativos à incorporação ou à fusão, o credor anterior por ela prejudicado poderá pleitear judicialmente a anulação da operação; findo o prazo, decairá do direito o credor que não o tiver exercido. [...].”
120 Neste sentido, verifique-se o disposto no artigo 1.151 do Código Civil: “Art. 1.151. O registro dos
atos sujeitos à formalidade exigida no artigo antecedente será requerido pela pessoa obrigada em lei, e, no caso de omissão ou demora, pelo sócio ou qualquer interessado.
§ 1o Os documentos necessários ao registro deverão ser apresentados no prazo de trinta dias, contado da lavratura dos atos respectivos.
§ 2o Requerido além do prazo previsto neste artigo, o registro somente produzirá efeito a partir da data de sua concessão.
§ 3o As pessoas obrigadas a requerer o registro responderão por perdas e danos, em caso de omissão ou demora.”
No mesmo sentido, são as disposições do artigo 36 da Lei nº 8.934, de 18 de novembro de 1994, in verbis: “Art. 36. Os documentos referidos no inciso II do art. 32 deverão ser apresentados a arquivamento na junta, dentro de 30 (trinta) dias contados de sua assinatura, a cuja data retroagirão os efeitos do arquivamento; fora desse prazo, o arquivamento só terá eficácia a partir do despacho que o conceder.”
societária enquanto produto). Tais condutas são passíveis de comprovação pelos meios de prova fixados pelo sistema do direito positivo.
Considera-se reorganização societária a norma individual e concreta produzida pelos representantes das sociedades, vertida em linguagem competente pelo registro de comércio (órgão competente), na qual, em seu antecedente, há uma descrição de diversas condutas adotadas pelos sujeitos competentes de uma ou mais sociedades, implicando, em seu consequente, a transformação da estrutura ou do tipo societário, com ou sem a transferência de seu patrimônio jurídico.
CAPÍTULO 8. REORGANIZAÇÃO SOCIETÁRIA E SUAS ESPÉCIES
Sumário:
8.1 Reorganização societária no direito positivo.