Antes de falarmos em gestão do patrimônio cultural cabe fazer uma distinção entre
planejamento e gestão, uma vez que estes termos são algumas vezes usados como
termos intercambiáveis e, como veremos a seguir esses termos não são sinônimos
entre si, mas sim distintos e complementares.
Cabe aqui ainda uma breve definição do que se constitui o termo política pública,
que é o conjunto de atividades do governo que influem na vida do cidadão. Nesse
sentido, é importante ressaltar que as políticas públicas de preservação do
patrimônio cultural se constituem como base dos instrumentos de planejamento e as
ações efetuadas pelos diferentes atores sociais se constituem na gestão da proteção
do patrimônio cultural. SOUZA (2013, p. 46) apresenta essa distinção de maneira
clara e sucinta:
planejamento e gestão não são termos intercambiáveis, por possuírem
referencias temporais distintos e, por tabela, por se referirem a diferentes tipos de atividades. Até mesmo intuitivamente, planejar sempre remete ao futuro: planejar significa tentar prever a evolução de um fenômeno ou, para
dizê-lo de um modo menos comprometido com o pensamento convencional,
melhor precaver-se contra prováveis problemas ou, inversamente, com o fito de melhor tirar partido de prováveis benefícios. De sua parte, a gestão
se remete ao presente: gerir significa administrar uma situação dentro dos
marcos dos recursos presentemente disponíveis e tendo em vista as necessidades imediatas. O planejamento é a preparação para a gestão
futura, buscando evitar ou minimizar problemas e ampliar margens de manobra; e a gestão é a efetivação, ao menos em parte (pois o imprevisível e o indeterminado estão sempre presentes, o que torna a capacidade de improvisação e a flexibilidade sempre imprescindíveis), das condições que o planejamento feito no passado ajudou a construir, Longe de serem concorrentes ou intercambiáveis, planejamento e gestão são distintos e
complementares.
[...]
Mesmo percebendo que, na pratica (e não apenas terminologicamente), o planejamento vem perdendo espaço diante do imediatismo e do privativismo característicos da ação do Estado pós-desenvolvimentista no Brasil, seria tolice imaginar que o planejamento desapareceu ou está em vias de desaparecer e que, agora, “tudo é gestão”. (SOUZA, 2013, p. 46,54)
Especificamente na questão da preservação do patrimônio cultural o planejamento e
a gestão têm que andar juntos. O planejamento se baseia na legislação acerca da
preservação do patrimônio cultural e na previsão de condições de um cenário futuro.
A gestão, por se tratar de uma soma da efetivação do planejamento e nos fatores
imprevisíveis, e se concretiza na ação dos atores sociais responsáveis frente às
condições apresentadas no momento presente com base nas condições
apresentadas e na legislação acerca do assunto.
Em planejamento e gestão do patrimônio cultural no âmbito nacional a primeira coisa
que vem à mente é a dificuldade em se planejar e gerir, justamente pela dimensão
continental do Brasil. Mas outros fatores, decorrentes desse primeiro, também
devem ser levados em consideração: a questão dos valores envolvidos na
preservação do patrimônio cultural – valores esses que são bem diferentes nas
diversas regiões do país, possibilidade de relação entre os diversos atores sociais
envolvidos na questão da preservação do patrimônio cultural. Observando essa
dificuldade decorrente da abrangência do território brasileiro e, como decorrência
disso, a grande diversidade cultural, uma questão que deve ser considerada como
forma de solucionar, ou pelo menos contornar a questão, e a efetivação do
planejamento e gestão compartilhados entre as diferentes instâncias estatais.
Sobre isso, a historiadora Michele Arroyo (2013) diz:
Eu acho que a gestão, quando a gente não está no âmbito da cidade, quando a gente passa, por exemplo, para um órgão estadual, federal, isso é
complexo, é complicado. Porque a lógica de gestão de um órgão federal, seja pela questão territorial, espacial mesmo, seja pela questão de valores, a possibilidade de relação com todos esses agentes, ela é diferente. (...) Talvez esse seja o principal desafio: o IPHAN construir uma gestão compartilhada desse patrimônio. [grifo nosso]
O órgão federal responsável pela gestão do patrimônio cultural (incluída a
preservação desse patrimônio como uma de suas responsabilidades) _o IPHAN –
deveria ser o órgão de referência com relação à gestão do patrimônio cultural. No
entanto Michele Arroyo aponta uma situação diferente na realidade de atuação
desse órgão, citando como exemplo a questão da fiscalização:
Então hoje você tem, por exemplo, cidades em que o IPHAN tem escritório técnico e praticamente o IPHAN é a prefeitura, a prefeitura ignora, não tem plano diretor, não tem lei de uso e ocupação do solo, então que aprova projetos é o IPHAN [grifo nosso]. Então o IPHAN assume isso, para o bem e para o mal, e as prefeituras “lavam as mãos”. Então por exemplo, fiscalização. Tudo bem que o IPHAN tem que fiscalizar o que está protegido, mas a principio a fiscalização primeira deve ser do poder publico municipal, porque quem concede o alvará é a prefeitura. Então, a primeira fiscalização deve ser da prefeitura. (...) É, mesmo que o IPHAN tenha um escritório técnico ele não vai ter um escritório técnico organizado como uma prefeitura municipal. Não tem sentido. (...)
Numa situação ideal de gestão compartilhada da preservação do patrimônio cultural,
uma das atribuições que caberia ao IPHAN como órgão gestor do patrimônio cultural
seria a de estabelecer diretrizes para a preservação do patrimônio cultural, sendo
que caberia aos Estados e Municípios estabelecerem suas políticas de preservação
do patrimônio, a partir dessas diretrizes, mas observando as especificidades da sua
realidade. Dessa forma, seria estabelecida, de forma efetiva, uma gestão
compartilhada do patrimônio cultural. Nas palavras de Michele Arroyo (2013), o
IPHAN deveria deixar de ser um órgão-fim para passar a ser “um órgão gestor, no
sentido de orientar, de pensar em diretrizes, de propiciar as articulações possíveis”,
e continua:
um desafio que o IPHAN tem, que é construir, como órgão de referencia, uma gestão compartilhada desse patrimônio cultural, compartilhada não no sentido de transformar as prefeituras em “braços” do IPHAN, mas de estabelecer até onde vai a atribuição do IPHAN, o que é atribuição da prefeitura (que não é o IPHAN que define, já está definido por lei), ajudar as prefeituras a se organizarem nesse sentido, a compor equipes que façam o acompanhamento do patrimônio cultural, a pensar em projetos públicos que promovam a articulação, por exemplo a questão de planos diretores, de lei de uso e ocupação do solo [grifo nosso]. Não é o IPHAN que tem que formular, mas o IPHAN deve ajudar as prefeituras a
entender a importância desses instrumentos e como o patrimônio cultural pode se inserir dentro dessa discussão da cidade.
Na mesma linha, com relação ao ICMS Patrimônio Cultural enquanto uma forma de
municipalização da proteção do patrimônio, o professor Leonardo Castriota (2014)
destaca a ação do IEPHA, que “desempenha aquele papel que eu acho que deve
ser da instância do Estado, que é muito mais de normatizar uma ação do que de agir
diretamente”. Castriota segue fazendo uma comparação da ação do IEPHA com a
ação de outros órgãos de proteção do patrimônio:
Nos outros Estados o que a gente vê é uma ação direta, o CODEPHAAT (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico) em São Paulo tem uma ação importante, tombando e protegendo, mas o IEPHA faz muito mais o que a gente vê em países como os Estados Unidos, que os órgãos de patrimônio, nesse nível, são muito mais normativos, com uma ação de outros agentes.
Citando como um exemplo de sucesso de gestão do patrimônio cultural, Arroyo
(2013) diz a respeito da atuação da Diretoria de Patrimônio Cultural
82do município de
Belo Horizonte:
Eu acho que uma das coisas positivas da Diretoria de Patrimônio, no tempo que eu fiquei lá, foi que a gente conseguiu, em sintonia com o Conselho do Patrimônio, a gente conseguiu imprimir uma lógica de gestão de politica publica que foi sendo assimilada ao longo do tempo e reconhecida. Como eu falo reconhecida eu não digo em termos de concordância, porque são muitos agentes envolvidos e nem sempre você vai conseguir atender de forma satisfatória as expectativas diversas em torno de um bem cultural, de um conjunto, do patrimônio imaterial ou o que seja. Então o que eu acho que foi importante foi o reconhecimento desta politica. A gente viu que, ao longo do tempo, as pessoas passaram a reconhecer que existe uma politica de patrimônio cultural, que existem procedimentos relativos a essa politica de patrimônio cultural e que existe a abertura paras as pessoas discutirem, ponderarem, mesmo que tivessem decisões contrarias á expectativa, assim, de cada um. Então é um ponto positivo, ou seja, você conseguir dentro de uma gestão municipal, que era o caso, reconhecer que existia uma politica de patrimônio cultural, para dentro da própria gestão e para fora dela. [grifo nosso]
82 A Diretoria de Patrimônio Cultural é o órgão responsável pela implementação e gestão da politica
de proteção ao Patrimônio Cultural de Belo Horizonte, instituída em 1993. O movimento de proteção dos bens culturais de Belo Horizonte inicia-se na década de 1980, desencadeado pela reação á demolição do Cine Metrópole e, em 1984, é aprovada a lei que cria o Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte (CDPCM-BH). http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&pIdPlc=ecpTaxonomiaMenuPo rtal&app=fundacaocultura&tax=23503&lang=pt_BR&pg=5520&taxp=0&. Acesso em: 14/03/2014.
Com relação às dificuldades da gestão do patrimônio cultural, Arroyo (2013) destaca
que o patrimônio cultural tem, por si só, um tempo mais lento que o da sociedade
atual (onde a principal característica é o imediatismo):
Em qualquer instancia, o que eu vejo é que o tempo do patrimônio ele é um tempo muito lento. Porque ele demanda muito diálogo entre técnicos, e ai quando você consolida tudo com os técnicos você tem que mudar tudo depois, na hora que você vai colocar isso para fora das instituições. Então, esses dilemas, eu acho que são processos educativos nesse sentido. Eles não são lineares. Tem umas idas e vindas, é uma construção. Eu acho que demora.
(...)
Por isso que eu acho que é importante a gente definir as coisas, mesmo a gente tendo a consciência de que essas definições, essas diretrizes, elas não são estáticas. Elas são uma construção, que pressupõe mudanças. Por isso é que eu acho que esse diálogo é importante, esse diálogo aberto ele é importante. [grifo nosso]
A questão da diferença entre a temporalidade na sociedade contemporânea,
(caracterizada pelo imediatismo, pela velocidade) e a temporalidade do patrimônio
cultural (que demanda um tempo para o diálogo para a conciliação de interesses
diversos) é relevante quando pensamos que esses dois temas se desenrolam num
espaço comum. Há que ser feito um esforço dos diversos atores sociais no sentido
de reconhecer essa diferença e conciliar essas duas temporalidades com o objetivo
de propiciar o tempo para as discussões para a implementação das políticas de
preservação do patrimônio cultural de forma eficiente.
Até agora falamos na gestão do patrimônio material. Quando entramos na discussão
sobre patrimônio imaterial a situação é ainda mais delicada, justamente pela grande
diversidade/pluralidade. Michele Arroyo cita, no entanto, que nesse campo a atuação
do IPHAN está à frente da atuação dos municípios, pelo menos no que diz respeito
ao registro imaterial.
A grande dificuldade que o IPHAN tem hoje é tentar pensar normativas, procedimentos, que sejam iguais para o Brasil inteiro, isso é muito complicado, é muito difícil, porque são situações completamente diferentes [Flavia: fora a extensão do território ...], tem a diversidade, a pluralidade. Mas eu acho que o IPHAN tem aprendido com isso. Eu acho que a ideia é que você tenha normativas que sejam cada vez mais simples, que sejam genéricas mesmo, e que cada superintendência consiga estabelecer procedimentos específicos para lidar com aquele patrimônio cultural que ela tem ali [grifo nosso]. Mas isso é difícil, é uma discussão interna muito grande, mas ela tem caminhado e ela só vai avançar a partir das experiências.
Vemos aqui uma proposta análoga de atuação do IPHAN para o patrimônio
imaterial, uma proposta de ser um órgão que estabelece as diretrizes, deixando a
cargo dos órgãos estaduais e municipais.
No que se refere á salvaguarda
83dos bens imateriais. Arroyo (2013) ressalta que
“seria importante que também existisse uma gestão dos municípios com relação a
esse patrimônio imaterial, porque esse contato direto que as medidas de
salvaguarda pressupõem é difícil ele ser feito pelo IPHAN”.
No âmbito da política de preservação do patrimônio cultural como um todo Arroyo
(2013) enfatiza a importância da definição de diretrizes como forma de garantir a
preservação do patrimônio cultural ao invés de uma lei que estabeleça como a
proteção do patrimônio cultural deve ser feita – isso tudo pela flexibilidade que
importante quando se trata da gestão do patrimônio cultural. A gestão do patrimônio
é uma prerrogativa do Executivo e não do Legislativo:
É preferível você ter as diretrizes definidas e ter essa escuta com a possibilidade da mudança, do que você não ter diretriz e ter que ficar correndo atrás do prejuízo. A ideia que as pessoas têm é que o patrimônio tem que trabalhar com regras muito rígidas, isso pode, isso não pode, e eu acho que não. Se fosse assim, a proteção do patrimônio cultural seria lei. E na verdade, não, você tem uma lei que define como a proteção do patrimônio cultural vai ser, mas ela é essencialmente uma atribuição do executivo, não do legislativo. Uma coisa é você ter uma lei de uso e ocupação do solo ou um plano diretor que vai traçar linhas gerais para a gestão de uma cidade outra coisa é você ter diretrizes normativas do patrimônio cultural. Quando elas viram lei, elas se congelam e a mudança é muito mais complexa. Quando elas são diretrizes, ou seja, a atribuição de gestão e monitoramento é do executivo, lógico que através de conselhos, de discussão com a comunidade, etc, você tem uma flexibilidade que ela é importante no patrimônio cultural. Ela é importante porque você vai ter que tratar o geral, sim, aspectos amplos, sim, mas você vai ter que tratar caso a caso. Porque não tem como você fugir do caso a caso. E caso a caso eu não estou dizendo no sentido de aprova para esse e não aprova para esse não, é que as demandas que as pessoas têm elas são diferentes. E são demandas pontuais. [grifos nossos]
Quando pensamos na preservação do patrimônio cultural, necessariamente
devemos pensar em gestão
84, justamente pela especificidade do tema, que tem
atores diversos e consequentemente demandas e interesses diversos e, como
83 A definição de salvaguarda é justamente a proteção de um bem, concedida por uma autoridade. 84 O termo gestão remete à organizar as ações de grupo de atores sociais, cada um com suas
ressalta Michele Arroyo. A gestão do patrimônio cultural seria feita então, como já
dito anteriormente, através de diretrizes gerais, aplicadas “caso a caso”:
Então eu acho que a ideia de que os escritórios técnicos, por exemplo no caso do IPHAN, ou que esses núcleos de gestão municipal, por exemplo no caso da Diretoria de Patrimônio, tenham que atender às pessoas, ou seja, tem que sentar com a pessoa, tem que discutir, seja ele um grande empreendedor, médio ou pequeno empreendedor, seja ele o proprietário do imóvel tombado, o inquilino, o vizinho, o que for, você tem que sentar, você tem que escutar, tem que entender qual é a demanda, porque isso é que vai fazer você possibilitar essa gestão e ao mesmo tempo pensar em regras que não sejam estáticas, que acompanhem as demandas e as necessidades que esse monitoramento, essa conversa vai dar de retorno para o órgão trabalhar. Então não dá para a gente pensar que a gestão do patrimônio cultural você faz com leis amplas. Não faz. (...) você tem aquele trabalho de formiguinha, de cotidiano, de dia a dia que é isso, é colocar a banca, com os técnicos no meio da área de proteção porque essa escuta é fundamental para a gestão do patrimônio. Por mais que os processos, no sentido mais amplo, de reconhecimento, de entendimento das dinâmicas do patrimônio sejam lentos, o trabalho do dia a dia tem que dar respostas. Ele tem que se apropriar dessa dinâmica da cidade e conseguir dar as respostas [grifos nossos].
Diante do que foi exposto até agora fica cada vez mais claro a importância de se
considerar a gestão como forma mais eficaz de garantir a preservação do patrimônio
cultural. Isso, tendo em vista as especificidades do objeto patrimônio cultural. A não
estanqueidade do patrimônio cultural, que leva à necessidade de ressignificar os
espaços do patrimônio, e a diversidade de atores sociais envolvidos com o tema
reforçam a necessidade de gestão do patrimônio cultural, para garantir sua
preservação.
Michele Arroyo (2013) fala da importância da apropriação e ressignificação do
patrimônio da cidade e das implicações disso na gestão do patrimônio cultural:
uma cidade precisa da apropriação e da ressignificação desse patrimônio [grifo nosso]. Então, aquela lógica de proteção de que tombou, não pode mexer, não pode ter outro uso, isso já passou, não estou nem entrando no mérito, é porque não tem como ser assim, porque a cidade, o próprio patrimônio carece de ressignificações. Se tinha um uso original você tem que manter referencias a esse uso original até para que as novas apropriações possam compreender esse movimento, esse tempo da história. Mas não proibir de forma incisiva, porque senão você vai ter um tanto de imóvel abandonado que não vai servir mais para nada. Porque você querer que o sujeito more numa cada de 400 atrás, da mesma forma, com os mesmos pré-requisitos, inclusive materiais, de espaço, que a pessoa morava há 400 atrás, não, hoje a demanda é outra, as pessoas têm outras necessidades. Então o patrimônio tem que permitir essa ressignificação, seja para a manutenção do mesmo uso ou para outros usos que sejam pertinentes. Ressignificar esses espaços de patrimônio, eu
acho que esse talvez seja o papel mais importante, ou seja, a gestão do patrimônio tem que dar conta disso [grifo nosso].. Ela tem que dar conta desse movimento, para permitir que as pessoas façam essas leituras, para que as pessoas se apropriem,
Ela faz uma comparação entre a gestão do patrimônio cultural em dois casos –
Estatuas da Praça da Estação em Belo Horizonte e Estátuas dos Profetas de
Congonhas:
Por exemplo, se a gente comparar a Praça da Estação em Belo Horizonte e as estátuas que compõem o acervo ali da parte ajardinada com os profetas em Congonhas. Todos os dois têm proteção, cada um em instâncias diferentes, mas com problemas “parecidos”: tanto as estatuas daqui, de mármore de Carrara, quanto os profetas em pedra-sabão, têm problemas de conservação no tempo, seja por questão de poluição, questão de vandalismo, de outros elementos, fungos ou bactérias, que veêm deteriorando esse material. A discussão em Congonhas era: tirava ou não tirava eles do tempo. Aqui também: tira ou não tira as estátuas na época da restauração. A discussão em Belo Horizonte, no Conselho, foi a seguinte: então já como não tem como manter e conservar no lugar vamos tirar os originais da praça, colocar num espaço fechado para visitação pública e contratar novos elementos para a praça, ou seja, novas estátuas para se incorporarem no projeto de restauração, requalificação da praça. Na pesquisa que a gente fez, para a comunidade, para quem frequenta a praça, colocar outras estátuas ali era a mesma coisa de acabar com a Praça da Estação, porque a referencia simbólica da Praça da Estação eram aquelas estatuas. E para aquela comunidade não interessava se era o original ou se era a réplica. Interessava que elas voltassem àquela situação original, ou seja, de estar ali compondo aquele paisagismo. Já em Congonhas a discussão é tirar os profetas de lá e colocar réplicas, para aquela comunidade era uma perda enorme. Para eles o ideal era que os originais ficassem ali, ou seja, aí tem um outro caráter, o da originalidade. Ou seja, a valoração do bem, não é que é mais ou menos importante, mas o valor simbólico é diferente para aquelas comunidades. Então a decisão lá [em Congonhas] foi mantê-los ao ar livre e criar outras formas de preservação, que foram: fazer o escaneamento em 3D de cada profeta para você ter isso guardado de forma a poder fazer réplicas se for necessário futuramente, fazer o monitoramento das bactérias e dos fungos para tentar conter os danos que estão sendo ocasionados nesses bens culturais.