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Os estereótipos de género reforçam a ideia de que vivemos numa sociedade onde tudo está milimetricamente organizado segundo uma norma padrão. E, de facto assim é pois, os homens comportam-se como sendo o sexo forte da sociedade e as mulheres como se fossem o sexo fraco, uma vez que estas interiorizaram anos após anos que valiam menos que os homens. “De um modo geral, os homens tendem a ser vistos como sendo mais fortes, activos, competitivos e agressivos do que as mulheres, tendo ainda maiores necessidades de realização, de dominação e de autonomia do que elas. As mulheres, por seu turno, surgem caracterizadas como necessitando, sobretudo, de estabelecer ligações afetivas com as outras pessoas, como sendo mais carinhosas e aptas a prestar cuidados, como possuindo uma autoestima mais baixa e como sendo mais propensas a prestar auxilio em situações difíceis” (Cardona et al.,2011: 29). É preciso referir que os estereótipos de género põem um pouco em causa os membros de um grupo social, avaliando-os e colocando-os todos numa mesma base como se tudo fosse homogéneo. A eles estão associadas crenças “impostas” pela sociedade do que é ser homem e mulher, isto é, que comportamentos devem ou não apresentar tendo em conta o seu sexo. Isto significa que os estereótipos podem ter um cunho negativo, prejudicando a vivência da pessoa no seu dia-a- dia através de juízos de valor discriminatórios.
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Caso exista um pequeno desvio nos modelos dominantes da feminilidade e da masculinidade, são os homens que mais sofrem em termos de julgamentos negativos por parte de todos, embora este facto esteja a mudar e aos poucos já se aceitem comportamentos por parte dos homens com características mais femininas. Cardona et al. (2011: 29) referem que: “Para além dos estereótipos relacionados com a aparência corporal, outros relativos às características de personalidade, aos papéis desempenhados e às ocupações profissionais preferidas por cada um dos sexos tendem, igualmente, a persistir nas imagens que são traçadas do homem e da mulher. Ainda que tenha vindo a sofrer variações em função dos contextos socioculturais, a dicotomia atrás referida – “expressividade feminina” versus “instrumentalidade masculina” – parece continuar a ser usada para manter uma certa ordem social e para distinguir os seres que nasceram do sexo feminino daqueles que nasceram do sexo masculino.”
Para se compreenderem verdadeiramente as questões dos estereótipos é preciso refletir um pouco sobre as investigações que Katz e Braly (1933), referenciados por Amâncio (2010), fizeram sobre o assunto, nas quais conseguiram assimilar que a cultura tinha uma certa influência nos estereótipos e que o sexo masculino apresentava uma multiplicidade de comportamentos que os tornavam parte integrante de um contexto mas com plena liberdade. Quanto ao sexo feminino correspondiam outros comportamentos exclusivos da sua própria condição, que só faziam sentido serem vividos dentro dos contextos femininos.
Amâncio (2010: 87) revela que “ Assim se compreende também que os estereótipos sexuais não assumam a mesma funcionalidade para homens e para mulheres na diferenciação entre os dois grupos.” Se por um lado, os homens pensam que os estereótipos femininos constituem um recurso feminino útil para reconhecer as mulheres, por outro lado, as mulheres preferem universalizá-los. Os estereótipos masculinos são utilizados tanto por homens como por mulheres para controlar o género com pouco poder e dar às mulheres algumas orientações comportamentais. A mesma autora refere que os papéis sexuais serão uma construção social do género, uma vez que a sua função normativa só acontece para o grupo que é dominado.
Pode-se ainda acrescentar que os papeis e os estereótipos de género são um processo característico normal nas crianças e que irão experimentar uma diversidade de comportamentos de papéis de género à medida que vão crescendo, modificando-os sempre que for preciso. Rodrigues (2003) referenciando Maccoby e Jacklin (1974) refere-nos que a exploração que as crianças fazem, em relação aos comportamentos de papéis de género cruzados, é casual e momentânea, resultantes do processo de socialização, muito embora
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em algumas crianças possam ser persistentes e ficarem enraizados. As crianças, na faixa etária entre os 3 e os 8 anos, depois de estabilizarem a identidade de género, percebem perfeitamente quais as características dos homens e das mulheres e quais os seus estereótipos correspondentes. Muito embora consigam também entender que um homem possa ter uma profissão mais feminina e vice-versa. A esta mesma constatação chegaram Bento (2011), Duarte (2013) e Prates (2014) que, nas suas entrevistas às crianças em idade pré-escolar e nas observações realizadas, concluíram que, embora as crianças apresentem opiniões, comportamentos e atitudes estereotipadas, quando levadas a discutir e a refletir apresentam flexibilidade e abertura para desmontar e alterar essas mesmas opiniões, comportamentos e atitudes.
Os estereótipos marcam a vida de uma pessoa, quer sejam positivos quer sejam negativos, e a visão de que a grande parte da sociedade tem em relação aos comportamentos que homens e mulheres devem desenvolver limita um pouco a ideia de que se quer um mundo onde se possa viver em plena harmonia individual e coletiva e em clima de igualdade de oportunidades.
Em investigações realizadas recentemente, Bento (2011), Duarte (2013) e Prates (2014) identificam que os comportamentos e as atitudes das crianças em idade pré-escolar cumprem estereótipos sociais de género claramente associados aos papéis masculinos e femininos que têm vindo a ser expressão na sociedade portuguesa – no âmbito do papel da mulher associado à sua condição de mãe e de dona de casa e de responsabilidade pelas tarefas domésticas e no âmbito do papel do homem associado a profissões que tradicionalmente lhe estão associadas (bombeiro, motorista, futebolista,…), a práticas desportivas e a desresponsabilização sobre as tarefas domésticas.
Também identificam outras atitudes e comportamentos estereotipados das crianças associados a brincadeiras, a desportos, a cores e formas de vestuário, a tamanhos do cabelo, ao uso de acessórios diários, etc.
As investigações das autoras, e de forma mais expressiva a investigação desenvolvida por Prates (2014), demonstram que os estereótipos que observamos nas crianças são consequência, entre outros, da influência do pai e da mãe, pois os questionários que realizou a encarregadas/o de educação de crianças em idade pré-escolar permitem associar opiniões, comportamentos e atitudes destas às expressões manifestadas pelas próprias crianças. Prates (2014) ainda demonstra que as profissionais de educação de infância que participaram no seu estudo também apresentam opiniões, comportamentos e atitudes
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estereotipadas e que algumas dessas são também identificadas nas crianças do grupo que estudou. As conclusões destes estudos evidenciam claramente a influência da família e das profissionais de educação nas atitudes e comportamentos das crianças, podendo identificar- se como “veículos” de estereótipos sociais sobre o género junto das crianças mais novas.
Nos estudos desenvolvidos ressalta que a questão da igualdade de oportunidades para todos os seres humanos é perturbada ou mesmo inibida por estereótipos que são, largamente, diferenciadores quanto à igualdade de oportunidades para meninos e meninas, para homens e para mulheres.
No contexto da escola do 1.º ciclo do ensino básico como serão, nos manuais escolares utilizados, abordadas estas questões? Nunes (2009: 13) expõe que “As representações sociais de género presentes nos manuais escolares correspondem a todo o tipo de conteúdos que veiculam, de forma explícita ou implícita, concepções estereotipadas sobre a feminidade e a masculinidade, sobre o ser mulher e o ser homem e que se fundamentam no facto de se nascer fêmea ou macho.”