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O Gráfico 3 destaca os dados relativos ao processo de monotongação, na passagem da língua de origem para a de chegada, na adaptação dos melôs, já apresentados na Tabela 1.

Gráfico 3 – Monotongação

Há casos em que o ditongo que aparece na sílaba tônica do original em inglês é substituído por uma vogal que, em português, relaciona-se ao ditongo original, nos processos fonológicos do português. Por exemplo, o ditongo [a] relaciona-se às vogais /o/ e //, na história do desenvolvimento do português (taurus, do latim, originou touro, que varia com [‘to], com vogal simples; no Português Europeu, o ditongo ao [a] em Vou ao mercado, pode ser pronunciado como []).

Gastaldello (2008, p.1) exemplifica o processo do latim para o português utilizando-se de alguns exemplos, como os citados a seguir:

(4.37)

taurus > touro variando com “tôro” aurum > ouro variando com “ôro” paucus > pouco variando com “poco” raucus > rouco variando com “rôco” pauper > pobre

Na verdade, nem precisamos ir tão longe para verificar que este processo ainda se aplica em algumas palavras do português atual. Não é incomum ouvirmos a variação “otoridade” da palavra “autoridade” ou “restorante” da palavra “restaurante”.

Nas adaptações operadas pelos falantes maranhenses sobre as seqüências originais do inglês dos reggaes, em alguns casos, um ditongo original é substituído por uma vogal simples relacionada ao ditongo de mesmo timbre no PB por processos fonológicos típicos da língua de chegada. É o que ocorre no exemplo (4.38).

(4.38) Melô de Dominó

[tl.mi.’na] (Ingl.) o [do.mi.’n] (PB)

Observa-se que a sílaba tônica [na] do inglês é substituída no PBRL pela sílaba [n].

Nos melôs considerados, podem ser observados casos em que a tônica é reforçada através de um processo de ditongação. Nestes casos, o glide é sempre homorgânico à vogal nuclear. No original inglês, ocorre uma vogal simples, no núcleo da sílaba tônica e, na adaptação, ocorre um ditongo.

Em outros casos, no PB, o ditongo de mesmo timbre do original está em variação com a vogal simples no PB, como no caso do exemplo abaixo:

(4.39) Melô do Conhaque Drea (Dreher) [o’a:s] (Ingl.) o [ko’ak] (PB)

Em PB, podemos observar que há variação entre [ai]/[a] na pronúncia de algumas palavras, favorecendo o aparecimento de uma vogal epentética. Bisol (1989, p. 191-192) defende que as consoantes palatais apresentam traços consonânticos e vocálicos e que estes últimos podem se

espraiar para a esquerda, ocasionando o aparecimento da semivogal [y] e, conseqüentemente, a formação de um ditongo. Assim, podemos descrever a ditongação da vogal tônica seguida de palatal (na variedade carioca, por exemplo) em final de palavras (rapaz > rapaiz; paz > paiz) como variação de pronúncia. O mesmo, entretanto, ocorre nas variedades em que a consoante fricativa final em coda é realizada como sibilante. Podemos ainda, em circunstâncias semelhantes, citar, a título de exemplo, rimas de poemas como é o caso da canção de Ivan Lins, “Me deixa em paz”, cuja letra configura a rima com as palavras paz e mais. Vejamos:

(4.40)

Me deixa em paz

Que eu já não agüento mais Me deixa em paz

Sai de mim Me deixa em paz

Outro fenômeno que merece atenção é a ambissilabicidade. No PB, um hiato na forma de base pode ser realizado como um ditongo decrescente seguido de vogal ou mesmo como um ditongo decrescente seguido de ditongo crescente, em que ocorre uma vogal ambissilábica (ex: meia, saia). Collischonn (2005[1996], p.115) define ambissilabicidade como “um termo [...] empregado por foneticistas e fonólogos para descrever consoantes que são consideradas como pertencendo, ao mesmo tempo, tanto a sílaba precedente, quanto a sílaba seguinte”.

Mendonça (2003, p.33) reafirma a definição de Collischonn (2005[1996]) quando mostra que “de um modo geral diz respeito à representação de um único segmento que pode pertencer a duas sílabas consecutivas”, embora enfatize que a ambissilabicidade é um fenômeno relacionado ao licenciamento prosódico e altamente controverso dentro da fonologia. Podemos observar que Mendonça não restringe a ocorrência do fenômeno ao posicionamento silábico de consoantes e assim usa o termo

“segmento”, que pode ser tanto aplicado a consoantes, vogais ou semivogais. Observe o exemplo (4.41), que representa o fenômeno.

(4.41)

Hogg e McCully (1991[1987], p.52) definem a ambissilabicidade como a propriedade que algumas consoantes intervocálicas possuem e que consiste em poder ser ligadas quer à coda da primeira sílaba, quer ao ataque da segunda sílaba, pela aplicação, respectivamente, do princípio de codas máximas e do princípio de ataques máximos. Exemplificando, os autores afirmam que os falantes nativos de Inglês não conseguem distinguir ao certo se o /n/ na palavra honest pertence à primeira ou à segunda sílaba. Propõem para este problema uma solução que seria:

to accept the Principle of Maximal Onsets in the underlying syllabification of the structures of the languages, and then have a rule which, wherever possible according to rules of syllable structure, make intervocalic consonants members of both syllables or, to use the technical term, ambyssilabic.

Um exemplo citado por Collischonn (2005[1996], p.115) é a palavra habbit, em inglês. Segundo a autora, não há uma divisão clara entre as duas sílabas que compõem a palavra. Para ela, é possível, dentro da estrutura do Inglês, as divisões ha.bit [h] e [bit] como também hab.it [hb] e [it], como podemos observar abaixo, através da representação arbórea elaborada por Lass (1984, apud Collischonn, 2005[1996]) e citada pela autora. Nesta representação, é possível observar que a consoante medial está associada a duas sílabas.

(4.42)

Para Mateus e D’Andrade (2000, p. 63-64), só há uma possibilidade de ambissilabicidade em português, que diz respeito à vogal /i/ em contexto intervocálico, em palavras como saia, areia.

Considerando a noção de ambissilabicidade, no exemplo abaixo, a seqüência [w:] pode ser interpretada como um hiato subjacente /oa/, que pode ser realizado foneticamente como [liz’boa] ou [diliz’boa]

(4.43) Melô D’Lisboa

[‘vmi’pw:/’tjude’vw:/’vi'w:] (Ingl.) o [liz’boa] ou [diliz’boa] (PB)

(Ingl.)

(PB)

l i S b o a ou

l i S b o w a

4.4 Reforço da tônica a partir de um processo de ditongação

Benzer Belgeler