Nesta seção, foram apresentadas, brevemente, as principais características fonológicas do PB e do IA, apontando algumas das semelhanças e diferenças dessas duas línguas nesse nível, com vistas a subsidiar as análises desenvolvidas na próxima seção.
Ao comparar os padrões silábicos do PB e do Inglês, notamos que o inglês apresenta padrões que não podem ser encontrados em PB. Observamos que, em comparação com o IA, menos consoantes podem aparecer no PB, tanto em posição pré-vocálica quanto pós-vocálica. Podemos perceber, ao compararmos as consoantes do IA com as do PB, que alguns sons consonantais do inglês inexistem no PB enquanto fonemas distintivos, e outros, inclusive, como realização fonética possível de fonemas do PB. Essa ausência é determinante para que falantes do PB adaptem fonemas inexistentes em sua língua materna por outros semelhantes em PB.
Com relação à posição intervocálica, verificamos que esta posição pode ser ocupada por todas as consoantes do PB. Desta forma, há 19 tipos com oposições significativas, divididas, fonologicamente, em labiais, anteriores e posteriores. De acordo com Crystal (2009, p.242), as consoantes do inglês, no nível fonológico, são 25: //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //, //.
Em PB todas as consoantes podem aparecer no aclive da sílaba; já na posição de declive (sílabas travadas ou fechadas - decrescentes) são menos freqüentes e possuem uma limitação com relação às consoantes que podem ocupar essa posição. Observamos ainda que as vogais // e // podem constituir esta parte da sílaba como decrescentes e assilábicas, transcritas fonologicamente // e //, respectivamente, formando com a vogal silábica o ditongo decrescente. A estrutura silábica do inglês permite núcleo simples ou complexo, onset simples ou complexo, coda simples ou complexa, sendo que
nem o onset nem a coda são obrigatórios. A sílaba em IA tende a ser mais complexa do que em PB, uma vez que permite uma maior complexidade dos constituintes marginais – onset e coda – do que o PB.
A sílaba em português pode se iniciar por um ou dois fonemas em posição de onset, ou até mesmo nenhum. Cabe ainda ressaltar as posições possíveis que podem ser ocupadas por uma consoante em PB são o começo da sílaba, entre consoante e vogal, e no final da sílaba. Conforme visto anteriormente, no Inglês, é permitido um agrupamento de até quatro consoantes em coda de final de palavra, considerando-se a sílaba do ponto de vista fonético. Esta característica da língua inglesa impõe certas dificuldades para os falantes brasileiros, cuja língua materna permite a ocorrência de, no máximo, dois segmentos consonânticos ao final de sílabas, com restrições muito limitantes quanto à classe de consoantes possíveis.
Observamos que algumas vogais específicas do inglês, apresentam para falantes do PB uma dificuldade de reproduzir fielmente o timbre de origem, por causa da ausência desse fone como opositivo a outro no componente fonológico do PB, em que eles apenas podem ser atestados como variantes do som que ocorre na palavra originariamente do inglês. Como citado por Assis (2007, p.75 )
os falantes de PB têm dificuldades em reproduzir, no nível fonético, a distinção entre o // e //, por exemplo, já que estes são percebidos como variantes de um e mesmo fonema /i/ por falantes de PB, neutralizando o contraste entre palavras como cheap [tip] e chip [tp], heat [ht] e hit [ht], beat [bt] e bit [bt]. Da mesma forma, a vogal // é geralmente percebida por brasileiros como //, neutralizando o contraste entre palavras como bad [bd] e bed [bd], pan [pn] e pen [pn], bag [bg] e beg [bg].
Pelos mesmos motivos citados anteriormente por Assis (2007), os falantes de PB também têm dificuldades em reproduzir diferenças entre // e // em palavras como pool [pl] e pull [pl], fool [fl] e full [fl]. O falante do PB
enfrenta dificuldade ainda diante de //, inexiste em sua língua materna como fonema distintivo, que tende a ser percebido como //.
4 Processos fonológicos na “reinterpretação” dos
reggaes em inglês pelos melôs maranhenses
Na presente seção, serão apresentados os fenômenos fonológicos verificados no processo de “reinterpretação” do som original dos reggaes em inglês que faz a comunidade lingüística apreciadora desse gênero no Maranhão, de modo a produzir uma seqüência sonora que possa ser reconhecida em português, isto é, associada a algum significado. A análise parte da comparação entre as transcrições fonéticas do trecho cantado em inglês e de sua “adaptação” em português.
Antes de iniciarmos propriamente tal discussão, acreditamos que a tabela 1, disposta a seguir, evidencia de forma geral os fenômenos encontrados e os mais recorrentes neste processo de investigação. Após a identificação dos fenômenos e a quantificação, foi possível constatar que a semelhança entre consoantes foi um dos motivos que conduziram o falante do PBRL a reinterpretar a seqüência sonora em Inglês com padrões fonológicos do PB. É interessante ressaltar que tal processo ocorre em 94,1% dos melôs coletados e analisados nesta pesquisa. Outro processo, com impacto semelhante, é a manutenção da posição do acento, alcançando 90,1% dos 51 melôs. O processo de manutenção da posição do acento vem seguido da proximidade da qualidade da vogal tônica, com 84,3% dos casos estudados – podendo-se ainda observar que estes dois últimos, a manutenção da posição do acento e a manutenção da qualidade da vogal tônica, acabam por se configurar em processos que são conseqüência um do outro.
Quando observamos a estrutura da sílaba do Inglês, podemos verificar que ela tem um nível de complexidade bem maior que o permitido nos padrões da estrutura silábica do português, em termos de possibilidades de ramificação dos constituintes e de presença de consoantes em posições silábicas marginais. Desta mesma forma, observou-se que em 78,4% dos mêlos pesquisados, o falante simplificou o padrão silábico. Em apenas 16,6%, o falante do PBRL buscou a complexificação do padrão silábico.
A tabela abaixo nos permite adiantar que processos como monotongação (27,5%), complexificação do padrão silábico (16,6%) e ditongação (15,7%), embora ocorram, são de baixa incidência.
PROCESSO APLICAÇÃO APLICAÇÃO NÃO TOTAL
Semelhança de consoantes 48 (94,1%) 03 (5,9%)
51 (100%)
Manutenção da posição do acento 46 (90,1%) 05 (9,9%) Manutenção da qualidade da vogal tônica 43 (84,3%) 08 (15,7%) Simplificação do padrão silábico 40 (78,4%) 11 (21,6%)
Monotongação 14 (27,5%) 37 (72,5%)
Complexificação do padrão silábico 10 (16,6%) 41(80,4%)
Ditongação 08 (15,7%) 43 (84,3%)
Tabela 1 - Ocorrência de processos fonológicos na nomeação dos “melôs”
Ao comparar tais fenômenos, deparamo-nos com dois, que são mais freqüentes em quase toda a amostra analisada: trata-se da semelhança entre consoantes e da manutenção da vogal tônica. A manutenção da vogal tônica, fenômeno que discutiremos a seguir, está atrelada a questões que envolvem também a organização hierárquica dos elementos na combinação de unidades que vão além da “palavra”.