• Sonuç bulunamadı

A ideia de concepção de um Museu Histórico para Londrina teve sua origem na década de 1950, mais precisamente em 1959, ano de comemoração do jubileu de prata da cidade. A partir de registros no jornal Folha de Londrina, datados de fevereiro de 1959, podemos deduzir que o ano do Jubileu de Prata proporcionou o clima que faltava para que o projeto de se viabilizar um museu para a cidade encontrasse eco junto à comunidade local. Em um pequeno artigo, intitulado “Museu de Londrina”, publicado por José de Oliveira Rocha, o autor reforçou a preocupação e a importância de se pensar em um projeto de museu para a cidade:

Penso que já era tempo de cogitar da fundação do Museu de Londrina. Sobre o assunto, aliás, já se tem conversado, inclusive no ROTARY local; contudo, nada, até hoje, foi feito de concreto. Tenho, para mim, que comemoração melhor não há de se fazer, neste período dos festejos do vigésimo quinto ano da cidade, que a criação desse MUSEU e é, inegavelmente, uma oportunidade feliz, para o prefeito a assinatura de um ato, que lhe ligará, indiscutivelmente, o nome à história da cidade. Apesar de com pouca idade, já tem Londrina muita coisa a recolher, para contemplação dos porvindouros e que sirva, no futuro remoto, de elemento precioso para esclarecimento da história dos primeiros dias da cidade. Porque não ir, então, dede já, recolhendo esse subsídio?111

Neste mesmo artigo, o autor lembrou que a ideia de um Museu para a cidade remonta à época em que a CTNP demoliu seu velho barracão de escritórios e o reproduziu, sob forma de maquete, como uma lembrança a ser ofertada a Londrina. Estaria neste ato, segundo o autor, o gérmen de uma preocupação em salvaguardar a memória da colonização da cidade. Para o autor, o jubileu de prata, seria um bom motivo para que o prefeito oficializasse a criação do referido espaço de memória:

A ideia do Museu de Londrina não é minha. Ela vem de longe e remonta à época em que a C.T.N.P., demolindo o velho barracão dos escritórios da firma, reproduziu-o exatamente, como lembrança a ser ofertada ao município. A reprodução, por sinal, ainda está nos novos escritórios da Cia.,

111

a espera de local próprio, que será, inegavelmente, o Museu. É preciso, portanto, construir. Se isso não for possível, pelo menos que, ao criá-lo, localize-o o prefeito em uma das dependências do Paço Municipal. Aqui fica, pois, a lembrança da ideia, que é de outros e vem de longe, para que não morra. Fica, também, o alvitre da localização do Museu, no edifício da própria Prefeitura. Quem sabe dará o prefeito, neste ano jubilar, esse prêmio à cidade?112

Como podemos observar a perspectiva de formação de um museu foi constituída a partir dos festejos do Jubileu de Prata, tendo como referencial o processo de colonização, onde a CTNP desponta como grande ícone de memória. Também é interessante notar que um possível lugar para instalação, dessa instituição de memória, como sugeriu o autor do artigo, seria o próprio prédio da Prefeitura, buscando, dessa forma, garantir um apoio institucional do município, visando sua estruturação.

A movimentação para criação de um museu para Londrina foi assunto nas reuniões do Rotary Club local. Em seus boletins internos, o tema do museu ganhou destaque na publicação interna da entidade. Em novembro de 1960 o Boletim divulgou o resultado de uma enquete, realizada com cerca de 20 pessoas, de variadas atividades da comunidade londrinense, sobre possíveis questões que deveriam ser contempladas visando a criação deste para a cidade. Questões como a possível localização, especialidades temáticas, administração, manutenção e se a instituição teria ou não sócios contribuintes fizeram parte da enquete. Segundo o Boletim a maioria dos entrevistados considerou ser importante que o futuro museu se localizasse na área central da cidade, objetivando dar maior acesso ao público. O museu deveria, também, contemplar outras áreas, além da História, como: “Artes Plásticas, Música, Geografia, Economia, Cinema, etc..” 113

Percebe-se que a demanda por outras áreas culturais e do conhecimento confirmava a carência destas, na cidade. Mais que um museu as pessoas entrevistadas pleiteavam uma espécie de centro cultural que abrigasse diversas atividades. O modelo de gestão, se administrado pelo poder público ou pela iniciativa privada, também foi tema da enquete. A maioria, segundo o Boletim, sinalizou para uma administração de caráter misto, reunindo entidades particulares e o poder público, em uma autarquia municipal. Mesmo com a publicação dos resultados da enquete e os apelos ao prefeito municipal, o museu não foi criado.

Em 1961, o diretor e redator do Jornal Newsy de Londrina, Antonio Vilela de Magalhães, retomou a questão publicando diversos artigos em prol da criação do museu. Em

112 Id., 1959, p.8. 113

um deles reforçou a importância de um museu para dinamizar ações de caráter cultural e educativo na cidade:

Um museu é um órgão cultural por excelência. Capaz de desenvolver atividades dinâmicas, de padronização da cultura e pode através de seus departamentos apresentar-se didaticamente, como coadjuvante das atividades educativas escolares, servindo a professores e alunos. Unindo seus associados e colaboradores, atendendo os mais diversos interessados, aglomerando departamentos específicos, de história, geografia, artes plásticas, teatro, música, literatura e poesia, bem como uma biblioteca geral conselho expressivo, talvez seja uma das mais acertadas formas de aglomerar os interesses culturais de uma cidade como Londrina..114

O fato de neste artigo a questão da multiplicidade de áreas, a ser contemplada no futuro Museu, se assemelhar ao publicado no Boletim semanal do Rotary, não é mera coincidência. Afinal, o jornalista Vilela também era diretor do Boletim semanal do Rotary. O Rotary Club reunia, no período, profissionais liberais, empresários, jornalistas, fazendeiros, o que credenciava a entidade, em termos sociais e políticos, certo poder de influenciar nas questões relativas à cidade e nas decisões do poder público municipal.

Em novembro de 1961 a Comissão de Serviços Internos, do Rotary, deliberou por iniciar os preparativos para a criação do museu. A proposta previa a criação de um Conselho dirigente, tendo como sede provisória a própria secretaria do Rotary. Previa-se a busca de um futuro local para transferência da sede do museu. O dia 10 de dezembro daquele ano foi a data escolhida para realização da Assembleia, para criação da instituição. A Prefeitura seria mobilizada para incluir nos festejos do aniversário a fundação do museu. O reitor da Universidade do Paraná também seria convidado. Foram elencados cinco objetivos que fariam parte dos estatutos da instituição:

1 – Constituir patrimônio cultural e artístico, compreendendo elementos quer sejam de arte ou de cultura histórica regional ou extra-regional, quer sejam de quaisquer ramos do conhecimento humano, que possam a vir a interessar à população de Londrina;

2 – Colocar este patrimônio ao alcance de seus sócios e consulentes da maneira mais acessível e democrática, preservados os justos interesses e direitos do Museu;

3 – Promover sessões culturais, conferências, cursos, aulas, exposições e todas as formas de reuniões de objetivo didático, bem como intercâmbio com instituições congêneres ou pessoas, do país e do estrangeiro;

4 – Incentivar a pesquisa científica e artística através de todos os meios ao seu alcance;

114 MAGALHÃES, Antonio Vilela de. Museu de Cultura de Londrina. Jornal Newsy de Londrina, Londrina,

5 – Através da autonomia dos seus vários departamentos alcançar o máximo rendimento dos seus propósitos e manter, dentro de sua orientação geral, um programa cultural e artístico sempre de padrão elevado;115

Pelos objetivos citados confirmou-se a ideia de um museu que promoveria atividades culturais das mais diversas, além de deixar em aberto a amplitude do acervo a ser constituído.

A Assembleia para criação do museu inicialmente marcada para acontecer em um clube social da cidade, o Grêmio Literário e Recreativo Londrinense, foi, posteriormente, transferida para o salão nobre da Prefeitura. A criação do museu mobilizou diversas autoridades municipais. Além do prefeito Milton Menezes estiveram presentes: o presidente do Rotary, o juiz da 4ª Vara da Comarca, o diretor da Faculdade de Direito, o presidente da Associação Comercial, o presidente da Associação dos Professores do Norte do Paraná, o presidente do Diretório Acadêmico Rocha Pombo da Faculdade de Filosofia, vereadores, professores, rotarianos, representantes da imprensa local e o pioneiro Oswald Nixdorf, representando os pioneiros da cidade.116

Nesta solenidade foi eleita a diretoria provisória tendo a frente, como presidente, o ex- governador do Rotary Club de Londrina, o Sr. Francisco Pereira de Almeida. A maioria dos cargos foi ocupada por membros do Rotary. Chama a atenção a participação nesta diretoria provisória, além de um juiz representante do poder judiciário, do arcebispo da cidade, Dom Geraldo Fernandes. A efetiva participação de membros dos diversos poderes locais confirmava a importância e relevância, naquele momento, da criação do referido museu para a cidade.117 A solenidade de criação foi destaque nos principais jornais da cidade. (figura 16)

Passadas as comemorações a diretoria eleita se reuniu em janeiro de 1962 visando efetivar a estruturação do museu. Ainda sem sede própria vislumbrou-se, para o mês de março do mesmo ano, como primeira atividade, uma exposição sobre o índio brasileiro em parceria com o Museu Paranaense.

Visando angariar peças e objetos para a seção de História do Museu chegou-se a promover uma noite de doações. Porém, como afirmou a ex-diretora do MHL Conceição Geraldo, “o museu não foi levado adiante e estas primeiras doações se dispersaram [...]” 118

115 MUSEU de Londrina em organização. Rotary Club de Londrina, Londrina, pp.1-2, 17/11/1961. 116

FUNDADO o Museu de Cultura de Londrina. Folha de Londrina, Londrina, p.3, 12/12/1961.

117 MUSEU de Cultura de Londrina. Rotary Club de Londrina, Londrina, p.1, 22/12/1961.

118 Entrevista de Conceição Geraldo, outubro de 1989. Acervo de História Oral do CDPH; Algumas das peças e

objetos arrecadadas nesta noite de doações, posteriormente, foram repassadas, já no final da década de 1960, ao Museu criado pela FEFCLL.

Figura 19 - Assembleia de fundação do Museu da Cultura de Londrina119

A não efetivação da estruturação do Museu não desanimou o jornalista Antonio Vilela de Magalhães que, em artigo no Boletim semanal do Rotary, considerou como mérito do movimento pela criação do Museu de Cultura de Londrina, a discussão pela criação de uma Universidade na região Norte do Paraná. Ao mesmo tempo lembrou que apesar do revés inicial do projeto do museu apontou duas razões para insistir nele: “1º - a ideia é boa e deve ser conduzida, ainda que, no futuro o acervo constituído passa [e] à Universidade; 2º - Londrina é razão suficiente para um experimento dessa ordem, principalmente porque tudo o que nela se pretende se consegue."120

Apesar de toda mobilização, entusiasmo e iniciativa do Rotary, envolvimento da prefeitura, autoridades e comunidade, o Museu de Cultura de Londrina ainda que tenha sido oficialmente criado, com eleição de uma diretoria provisória, acabou não se estruturando. Talvez o fato de a sede provisória, do referido museu, se confundir com a da secretaria de uma entidade privada, no caso o Rotary Club, tenha desestimulado um maior envolvimento da comunidade.

O fato é que, provavelmente, como reflexo desse movimento e discussão, anos depois, nas salas de aulas do curso de História da FEFCLL, seria gestado um novo movimento visando à criação de um museu histórico para a cidade. Este por contar com o suporte da Faculdade e, com o envolvimento de alunos e professores dos cursos de História e Geografia, conseguiu se efetivar, culminando com sua criação oficial em 18 de setembro de 1970. Sua

119 Folha de Londrina, 12 dez. 1961, p.3.

120 MAGALHÃES, Antonio Vilela. O Museu de Cultura de Londrina. Rotary Club de Londrina, Londrina, 03

história, transformações, mudanças e reformas, bem como os personagens que participaram de sua trajetória, serão apresentados e analisados nos próximos capítulos.

Benzer Belgeler