Com Geração 80 pretendia-se um resgate daquele período tido, por muitos, como uma década em que nada aconteceu. Planejava-se um musical, nesse caso para ser apresentado em bares, salões e similares. A platéia poderia comer, beber, dançar durante a peça, numa estrutura “interativa” (palavra muito usada na época) – o que pode ser constatado nas anotações da primeira reunião para o projeto:
1a reunião, com apresentação do grupo e dos novos componentes. (...) Foi colocada a idéia de que o espetáculo seja apresentado num espaço não convencional, como um bar, por exemplo. Um convênio seria formado entre o grupo e a gerência do local para que os espectadores pudessem, pagando ingresso para uma peça, se sentir como num bar. Essa opção poderia facilitar a escolha de um local quando se tratar de outras cidades, pois libera da necessidade de um teatro. E o ideal é que estréie e cumpra temporada no ABC. 101
Os encontros, a princípio, ocorriam duas vezes por semana, e o que começou a ser criado durante as improvisações foi pouco a pouco se mostrando muito mais conveniente para uma peça de câmara que para um show de variedades. No primeiro ensaio, em 31 de janeiro de 2001, surgia uma
100 Quando da entrega da primeira versão do texto, em janeiro de 2002, minha presença nos ensaios tornou-se esporádica.
Julgou-se necessário um afastamento para que meu contato com o texto emitido pelos atores pudesse ser distanciado. Nos ensaios em que estive ausente o Diário ficou sob responsabilidade da atriz Neusa Dessordi. A ela agradeço a generosidade e a competência com que se desincumbiu da tarefa.
improvisação em torno da aids: “um amigo visita o outro no hospital. Não há palavras, nada para ser dito, não há como receber conforto. É tudo grave, desconhecido, vexatório, triste.” 102
No mesmo ensaio surgiu um outro tema que também viria a fazer parte do espetáculo: a gravidez indesejada e suas implicações. A reação da família, que muitas vezes expulsava a filha de casa e, lógico, as famílias que aceitavam, arcando com as conseqüências de ficarem ‘mal faladas’.
No ensaio seguinte, em 02 de fevereiro, surgiam as primeiras idéias de possíveis cenas corais. Uma delas dizia respeito à formatura, aos amigos que finalizam um ciclo e, cada um seguindo seu caminho, podem ou não continuar se encontrando. Outra idéia era abordar o tema das viagens, feitas em grupo ou em casais, as dificuldades de se conseguir permissão da família, as mentiras acerca das companhias.
Essas e outras cenas de caráter menos intimista estavam presentes na estruturação final, mas não chegaram a dar o tom de musical, inicialmente pretendido. Ao optar-se por acompanhar a trajetória de cada um dos formandos ao longo dos anos oitenta, as cenas mais dramáticas, baseadas na relação entre personagens definidas, ocorreram em maior quantidade. Sendo assim, o Teatro da Conspiração viria a sofrer a mesma inversão de expectativas que o Grupo Galpão sofrera em relação à sua pocket opera: os planos iniciais foram, pouco a pouco, sendo substituídos por uma prática que, mesmo “sem querer”, encaminhava o trabalho para um outro rumo.
É bem provável que algumas reflexões encaminhadas pela direção e pela dramaturgia tenham acabado por direcionar as opções do grupo na formulação das cenas:
Quais temas e relações são inerentes a todo ser humano? Quais as situações que nos tocam num espetáculo/filme? A partir da análise desses elementos, poderemos utilizá-los em nossa cena, garantindo uma maior empatia e podendo utilizar os temas políticos e sociais como pano de fundo para situações pessoais:
• temas: infância, morte, amor, paixão, medo, perigo de vida, fim de relação, traição, primeiras experiências, ciúme, pressão e influências do meio
• relações dramáticas: pais-filhos, amantes, irmãos, amigos, inimigos, indiferentes 103
Analisando esse trecho, agora, a posteriori, pode-se ver o quanto a procura pela construção de uma cena que contivesse, além de todo um conteúdo referente ao tema geral do espetáculo, a década
102
Registro do Diário de Dramaturgia.
103 Registro de 17/01/2001 no Diário de Dramaturgia. Quanto ao tema “relações dramáticas” recomenda-se a consulta à
Poética: “6. Examinemos pois, entre os fatos, quais os que nos parece serem capazes de assustar ou de inspirar dó. 7.
Necessariamente ações desta espécie devem produzir-se entre amigos ou inimigos, ou indiferentes. Se um inimigo mata outro, quer execute o ato ou o preparo, não há aí nada que mereça compaixão, salvo o tratamento recebido considerado em si mesmo; 8. O mesmo se diga de pessoas entre si estranhas.9. Mas, quando os acontecimentos se produzem entre pessoas unidas por afeição, por exemplo, quando um irmão mata o irmão, ou um filho o pai, ou a mãe o filho, ou um filho à mãe, ou está prestes a cometer esse crime ou outro idêntico, casos como estes são os que devem ser discutidos.” (Aristóteles, [s.d.], p. 260)
de 80, um tema e uma relação dramática pré-definidos como ideais, iam, aos poucos, conduzindo o trabalho para o que chamamos de “câmara”. Muitas das cenas corais eram um composto de micro- relações. O que abria a situação para o público e permitia que ele compartilhasse dessas intimidades era o recurso da narrativa:
Desde o princípio queríamos fazer uma peça não só para palcos do tipo italiano, mas também, e principalmente, para espaços não-convencionais onde o público pudesse ficar mais próximo dos atores. Isso condicionou, de certa forma, a nossa opção pelo uso das narrativas - as personagens dialogariam entre si, mas ao ator caberia, também, buscar o olho-no-olho com a platéia, encarada quase como cúmplice de um relato. 104