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Podemos notar, com esse contexto histórico, que a comunidade Surda luta pela pedagogia gestual, que defende uma língua visual, com expressão corporal, como forma de comunicação. Uma metodologia na qual ouvintes têm aulas de Libras com professores surdos, ensinando a cultura como estrangeira e apresentando as diferenças das identidades culturais dos alunos surdos. O método favorece à organização da identidade dos sujeitos surdos, ampliando o mercado de trabalho para estes e conscientizando ouvintes, através da inclusão social.

Já nos Estudos Culturais, Martín-Barbero (1997) pesquisa diferentes maneiras de investigar a comunicação social, a iniciar pela ligação entre Ciências Sociais e Comunicação perante a crise de legitimidade das instituições de cidadania, articulação entre demandas sociais, processos políticos formais e participação do cidadão. Martín-Barbero (1997) defende como elemento fundamental à comunicação a cultura.

Abre-se assim ao debate um novo horizonte de problemas, no qual estão redefinidos os sentidos tanto da cultura quanto da política, e do qual a problemática da comunicação não participa apenas a título temático e quantitativo - os enormes interesses econômicos que movem as empresas de comunicação - mas também qualitativo: na redefinição da cultura, é fundamental a compreensão de sua natureza comunicativa. Isto é, seu caráter de processo produtor de significações e não de mera circulação de informações, no qual o receptor, portanto, não é um simples decodificador daquilo que o emissor depositou na mensagem, mas também um produtor (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 287).

Aqui é feita uma crítica aos modelos hegemônicos de compreensão da comunicação, pois, para ele, as teorias se restringem a analisar somente os aspectos do dominador, ou seja, os receptores passivos no processo comunicacional, sem perceber que há outros processos de comunicação, além de não levar em consideração a questão do poder associado às condições sociais de produção de sentido. “Pensar os processos comunicacionais em um contexto de mediações culturais significa romper com a redução da questão da comunicação à questão

tecnológica (…). Significa pensar a comunicação a partir de um novo lugar, o popular” (ROSSETTI, 2008, p. 69).

As limitações geradas a partir dos moldes predominantes de investigação da comunicação gerou a necessidade da pesquisa que leva em conta as mediações sociais, claramente culturais, no processo de comunicação (MARTÍN-BARBERO, 1997). A partir da valorização cultural, é trazido para o cenário da comunicação a experiência de um povo e sua dinâmica, entre conflitos, memória e imaginário popular. Trata-se então de entender as diferenças entre modelos de apropriação cultural, “dos diferentes usos sociais da comunicação” (ROSSETTI, 2008, p. 70) e de refletir sobre as competências comunicativas como participação social à democracia dos meios e do uso da comunicação.

O massivo, nesta sociedade, não é um mecanismo isolável, ou um aspecto, mas uma nova forma de sociabilidade. São de massa o sistema educativo, as formas de representação e participação política, a organização das práticas religiosas, os modelos de consumo e os de uso do espaço. Assim, pensar o popular a partir do massivo não significa, ao menos não automaticamente, alienação e manipulação, e sim novas condições de existência e luta, um novo modo de funcionamento da hegemonia (MARTÍN-BARBERO, 1997, p. 310).

A pedagoga Karin Strobel13, em sua tese de doutorado14 em Educação e Processos Inclusivos, explica que diversas escolas de surdos contratam profissionais ouvintes. Acontece que estes têm o “mundo” diferente dos surdos, enxergando esses estudantes de forma especial, como se precisassem de sua compaixão. Muitas vezes o docente que ouve está carregado de preconceito e acredita que ensinando a surdos estão praticando uma atitude de “fazer o bem”, pois, para eles, os surdos precisam de sua ajuda para se desenvolverem.

Segundo muitos relatos de sujeitos surdos, em uma das escolas, hoje já fechada, onde a diretora e as coordenadoras eram ouvintistas autênticas, usava a representação dos surdos como sujeitos ‘deficientes’, a diretora dizia muitas vezes com deboche ‘esses surdos’, ‘esses bandos de surdos’, como se os sujeitos surdos fossem seres inferiores que não tinham capacidade de captação e isto angustiou por dentro os sujeitos surdos nestes anos todos que trabalharam lá, porque estavam com as mãos ‘amarradas’ e boca ‘amordaçada’ (STROBEL, 2008b, p. 70).

13 Karin Lilian Strobel é surda e professora, com doutorado, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Strobel nasceu em Curitiba, no Paraná. Na infância, estudou em escola para surdos, porém a metodologia era oralista. Ela apenas aprendeu a Libras na adolescência. Fonte: Editora Arara Azul. Disponível em: <www.editora-arara-azul.com.br/revista/03/perfil.php>. Acesso: 26 out. 2016.

14 Tese de doutorado em Educação, na linha de pesquisa Educação e Processos Inclusivos, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Disponível em: <http://feneismg.org.br/doc/Tesis_Strobel_2008.pdf>. Acesso: 27 mai. 2015.

No Ices, todos os professores sabem se comunicar em Libras, mas isso não procede quanto aos funcionários de modo geral. Conheci uma senhora, que, por conveniência, acredito que não devo citar o nome, trabalha há mais de trinta anos na escola e nunca aprendeu a Língua Brasileira de Sinais. Ela afirma que os sinais mudam de tempo em tempo e, por isso, ela não consegue acompanhar o ritmo das novidades de símbolos. Interessante essa informação que ela me passou. Antes de conhecer melhor a Libras, cheguei a pensar que fosse uma espécie de sinalização universal ou nacional, porém, como toda língua, ela muda de acordo com as características de cada sociedade – como vimos anteriormente o caso da língua de sinais indígena e urbana – e também é modificada com a chegada de novos sinais, assim como novas palavras são substituídas por outras mais usuais.

Em 2015, participei de um evento nacional, voltado para docentes, o II Congresso de Experiências Exitosas em Educação Bilíngue para Surdos15, que aconteceu na Assembleia Legislativa, em Fortaleza, Ceará, junto com o II Encontro Nacional de Professores de Libras no Ensino Superior (Enples). A prioridade era a comunicação através da Libras. Algumas experiências que tive, acredito que sejam importantes para refletirmos a respeito dessas disparidades.

Um homem, que depois identificou-se como professor universitário de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (UFBA), aproximou-se e disse algumas coisas em Libras, que eu não sei dizer o que era, acredito que pedindo explicação do pôster do meu artigo inscrito. Imediatamente, em Libras, informei que ainda estava aprendendo a Língua Brasileira de Sinais e pedi para ele esperar um pouco. Procurei um intérprete – pois a organização do evento tinha informado que haveria profissionais da área disponíveis, no entanto, não apareceu nenhum. A única opção era soletrar o alfabeto de Libras. Diante daquela situação desconfortável, o receptor resolveu falar. Foi quando apresentou-se e então eu pude explicar sobre o artigo que havia escrito para o congresso.

Confesso que minha primeira reação foi de raiva, pois, já que ele sabia que eu não tinha condições de apresentar um trabalho em Libras, ele, sendo ouvinte, poderia ter dito isso desde o começo. Mas, aos poucos, refleti melhor sobre esse acontecimento. A prioridade ali era a comunicação em língua de sinais, seja ela de onde for, pois a primeira língua que estava sendo considerada naquele ambiente era a Libras, tendo português como segunda língua.

Sair dessa posição de predominância e ser minoria, mesmo em um espaço considerado pequeno, se compararmos com o tamanho e complexidade de uma cidade, ainda que por 15 O congresso tem como objetivo promover uma troca de experiências entre as mais variadas instituições de ensino para Surdos, voltado para educadores e profissionais que lidam direta ou indiretamente com o surdo. Disponível em: <https://sites.google.com/site/congices2/>. Acesso: 23 mai. 2016.

algumas horas durante quatro dias – 13 a 16 de outubro de 2015, pude sentir um pouco do que é ser o “colonizado”, conviver com pessoas que não entendem o que digo e por isso não ter a mínima informação de quaisquer coisa. Encaixa aqui a questão sobre isolamento dentro de uma sociedade, afirmado por Menezes in Rabaça & Barbosa (2001). Felizmente, os surdos não são vingativos e havia em cada palestra um intérprete. Pude ter conhecimento, durante o congresso, de gente que se comunica em Língua de Sinais Alemã e sabe também a brasileira, ou seja, pessoas poliglotas em linguagem gestual e que trabalham em instituições de ensino superior voltadas às pessoas surdas. Eu gostaria de poder estudar em um local assim.

Voltando aos fatos. Primeiro, pude constatar a naturalidade da comunicação em sinais, porque é uma questão de prática e aprendizado igual a alfabetização do ouvinte. Segundo, os surdos mostraram a possibilidade da prática bilíngue, pois isso já é uma realidade para quem trabalha e convive nesse meio. Essas mudanças ocorrem aos poucos. Em A cultura da

participação, Clay Shirky (2011) afirma que "todas as revoluções são diferentes (o que

equivale a dizer que toda surpresa é supreendente). Se uma mudança na sociedade fosse facilmente compreendida de imediato, não seria uma revolução" (SHIRKY, 2011, p. 50).

Figura 5 – Palestra em Libras no II Enples, no dia 13 de outubro de 2015

Um fator relevante é levar em consideração os diferentes tipos de cenários onde transcorrem o processo comunicacional. Entender a multiplicidade desses cenários nos permite conhecer a diversidade de mediações no processo de recepção. Muitos investigadores caíram na leviandade, com uma posição relativista a respeito da possibilidade de agência dos sujeitos, levando em conta que não havia algo preso, ligado, às estruturas, sendo apenas culturais, acabando assim no limbo da subjetividade. Logo, foi considerado que os receptores eram capazes de dar um novo significado aos referenciais dos veículos que transmitem informação, sem então se importarem tanto com isso.

Benzer Belgeler