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IX. MENEMEN’E BAĞLI NAHİYE VE KÖYLER
Ao longo da captura dos dados junto aos prontuários, observou-se, em alguns poucos documentos médicos, que ocorreu a prática de ser internado mais de um membro da mesma família. Abaixo lista com nomes de internos em que constava informação de algum parente internado, sendo desprezados aqueles em que havia apenas suspeita:
Quadro 15 – Pacientes de diversas etnias em que consta no prontuário que teve, ou tinha, um parente internado nas dependências do Hospício São Pedro, entre os anos de 1900 a 1925 (para primeira internação)313
codigo nome idade estado civil classe internação ano ano alta motivo da alta diagnóstico profissão 466 Adelina 30 solteira 4 1917 1934 falecimento demência precoce serviço
doméstico 553 Hortência 35 casada 4 1919 1919 assistência confusão mental serviço
doméstico 123 Catharina [irmã
de Margarida] 54 casada 4 1906(mar) 1906(mai) falecimento mania crônica degeneração hereditária não consta 124 Margarida 40 solteira 4 1906(22/3) 1906(30/3) falecimento “faleceu durante o período de observação” não consta 904 Luiz
descendente
24 solteiro 4 1923 1927 assistência demência precoce* não consta 1173 Giovanna
italiana
24 solteira não consta
1900 1901 assistência não consta não consta 1172 Maria
italiana
55 casada pobre 1900 1905 falecimento mania crônica não consta 278 Eduardo 25 solteiro 4 1913 1914 assistência degeneração hereditária demência precoce jornaleiro 802 Ernesto 26 solteiro 1 1919 1920 assistência demência precoce não consta 160 Urbano 32 solteiro 4 1909 1910 não consta epilepsia jornaleiro 1123 Walter 36 casado 3 1925 1958 falecimento enfraquecimento mental, com idéias de crime e
perseguição, de natureza tóxica (álcool num degenerado psicopata) [alcoolismo]
Comércio Informações extraídas do Banco de Dados da autora (2013).
309 Recordando, Dados Comemorativos é o título dado para a guia de recolhimento que possui perguntas a serem feitas
aos que levam os doentes ao HSP. Esta guia surgirá ao final da década de 20. Nos Dados Comemorativos, o alienista escreve informações prestadas por alguém que conhece a pessoa a ser internada. PHSP de Luiz, 24 anos, solteiro, primeira internação em 1923.
310 A grafia do sobrenome de Luiz é com s, e de Clara com duplo z. 311 PHSP de Clara, 25 anos, solteira, internada em 1914.
312 Neste tópico, não serão informadas as localidades de procedência para evitar qualquer possibilidade de identificação,
no futuro.
313 Foram encontrados mais dois casos de internos com parentes que não foram incorporados. Optou-se em agregá-los em
Luiz, descendente de italianos, internado pela primeira vez em 1923, sairia em 1927 para assistência em domicílio, retornando em 1931, e vindo a falecer em 1937, nas dependências do HSP. Nos Dados Comemorativos de julho de 1931, nas respostas a formulário da época, é possível observar que Luiz tivera uma irmã no São Pedro:
Houve ou há casos de alienação mental nos avós, pais, tios ou irmãos? Sim, uma irmã
morreu neste Hospital.
A que causa é atribuída a moléstia atual? Ao trabalho excessivo.
Que atos praticados pelo paciente deram lugar a suspeitar da alienação mental? Dizia
palavras incoerentes, ria sem motivo, falava só. Ficava muito tempo quieto distraído314. A irmã em questão é Clara315, de 25 anos, solteira, com 1,51 altura e 41 quilos. Internada em 1914, em seu prontuário não está registrada alguma menção ao internamento de Luiz: quer por ter sido ela internada antes, quer porque Clara faleceu em 1918, cinco anos antes da entrada de Luiz. O nome dos pais de ambos é idêntico: L. e A. Curioso é perceber que, mesmo tratando-se de pessoas com mesmo sobrenome, a grafia deles estava escrita de forma diversa. Enquanto Clara e seus pais possuem no sobrenome duas letras “ZZ”, Luiz possui um “S”, e seus pais um único “Z”. Isto corrobora que os internos nem sempre tiveram seus nomes escritos de forma correta pelos alienistas.
Um terceiro alienado, de nome João316, apenas com o nome do pai anotado, L. e sobrenome escrito com “S” (mesmo som dos sobrenomes de Luiz e Clara), procedente da mesma cidade de Clara, confirmaria que foram na realidade três os irmãos internados. João, solteiro, internado aos 20 anos, em 1911, portanto antes de Clara e Luiz, sairia em 1938, por falecimento. Em seu prontuário não consta qualquer menção quanto a parentes, e, no entanto, ele esteve no HSP no período em que Clara e Luiz estiveram. Todos os três foram internados com o diagnóstico de “demência precoce”.
Alguns casos chamam a atenção por terem sido os parentes internos no mesmo dia, estando as vezes os prontuários juntos, com a mesma guia de encaminhamento sendo compartilhada. Maria e Giovana, italianas, e, respectivamente, mãe e filha, traziam no prontuário a seguinte requisição da Chefatura de Polícia expedida em fevereiro de 1900:
Solicito-vos a admissão nesse estabelecimento das alienadas Maria e Giovanna, a primeira de 55 anos de idade, casada com G., e a segunda solteira com 24 anos de idade, filha de G. e Maria e ambas residentes em (...). Acompanha o respectivo atestado médico.
Em folha de almaço manuscrita, sem entendimento da assinatura:
Atesto que Maria e Giovanna acham-se sofrendo de alienação mental; a primeira ha 16 anos e a segunda ha 8 dias. E por ser verdade passo a assinar.
(...) 8 de fevereiro de 1900
314 PHSP de Luiz, 24 anos, solteiro, primeira internação em 1923. 315 PHSP de Clara, 25 anos, solteira, internada em 1914.
O médico (assinatura ilegível)317
Enquanto o diagnóstico de Maria é de “mania crônica”, Giovana sequer tem em seu prontuário um diagnóstico anotado. Mas em outubro de 1901, segundo Guia da Chefatura de Polícia, a sorte de Giovana mudaria:
Ao Sr. Diretor do Hospício São Pedro
Achando-se curada a alienada Giovanna, conforme me comunicastes em vosso ofício (...), de 7 do corrente, podeis entregá-la ao seu pai, Sr. G., portador deste.
Saúde e Fraternidade.
Maria, a mãe, não teria o mesmo destino: faleceria nas dependências do hospício, em 1905. O caso de Catharina e Margarida, irmãs com ascendência germânica, surpreende por alguns dados anotados no prontuário318 de Catharina, em específico na guia de encaminhamento da Chefatura de Polícia, em março de 1906: “Rogo-vos providências no sentido de serem admitidas neste estabelecimento as alienadas Catharina e Margarida, a primeira com 54 anos de idade, casada, a segunda com 40 anos, solteira, ambas filhas de J., (...)”319. Catharina internada com diagnóstico de “mania crônica degeneração hereditária”, faleceria em maio de 1906, 2 meses após sua internação. Já Margarida, solteira, internada junto com a irmã, em 22 de março de 1906, viria a falecer em 30 de março do mesmo ano, e no campo do diagnóstico é possível ler: “faleceu durante o período de observação”320.
Outras duas irmãs, de ascendência italiana, Octacília e Atalice tiveram tratamento diferenciado de Margarida e Catharina por parte dos familiares.
Octacilia, de 18 anos, foi encaminhada pela Santa Casa para ser internada no HSP em 1921, com diagnóstico de “psicose maníaco depressiva”. Em fevereiro de 1922, um irmão da enferma encaminha uma carta manuscrita a uma pessoa de nome A., que ao que tudo indica não fazia parte do quadro de funcionários do hospício (não há como saber como esta carta estava no prontuário), com o seguinte conteúdo:
Exmo. Sr. A.
Em primeiro lugar, muito estimarei, que ao receber esta, esteja gozando saúde, e felicidade em companhia de vossa digna família.
Pois me vejo obrigado, há escrever-lhe esta, pedindo-lhe notícias de minha irmã Octacilia. Que há tanto tempo, não soubemos notícias. Eu me dirijo ao Sr. porque é a única pessoa, que posso me dirigir, e conseguir notícias. Pois eu escrevi 2 cartas para Octacília, e de nenhuma, tive
317 PHSP de Maria, 55 anos, casada, internada em 1900; PHSP de Giovana, de 24 anos, solteira, internada em 1900.
Ambas compartilham o mesmo prontuário.
318 Na primeira coleta de dados dos prontuários, o documento de internação de Margarida não foi encontrado, apenas a
menção do seu nome em Guia da Chefatura de Polícia. Na coleta de 2012, o prontuário foi localizado.
319 PHSP de Catharina, 54 anos, casada, internada em 1906. 320 PHSP de Margarida, 40 anos, solteira, internada em 1906.
resposta. Uma dessas cartas foi endereçada ao Sr. Peço-lhe [para] me desculpar, de tantos incômodos. O Papai pede-lhe que, se o Sr. empregasse Octacilia em sua casa, seria um bem, que o Sr. nos (...) [faria]. Porque a pobre andar rolando de uma casa a outra é triste.
Sem mais de vosso criado. L.321
Em papel timbrado da Santa Casa, de 27 de março de 1922, é comunicado “que nada tem esta Provedoria a opor a que seja reconduzida ao seio de sua família, a enferma Octacília (...)”.
Na mesma folha, mais abaixo, escrita a seguinte declaração:
Declaro que em virtude de uma carta de 28 de fevereiro deste ano firmada pelo Sr. L., irmão da paciente a quem se refere o presente ofício, e na qual se encontra um pedido do pai do signatário para que empregue Octacilia, a administração do Hospício São Pedro me entregou hoje, (...) a fim de reconduzi-la à minha residência (...) onde a mesma estava empregada quando adoeceu. (...). (assinatura não legível)322.
Dois detalhes chamam a atenção. Primeiro que se ela estava internada no Hospício São Pedro, de onde foi retirada, qual a motivação de ter confirmação/aprovação da Santa Casa para a retirada da paciente? E segundo, Octacília é entregue a alguém que não é da família, mas sim patrão.
Já Atalice, cujo pai tem o mesmo nome que o pai de Octacilia (e ambas possuem mesmo sobrenome), foi internada aos 22 anos, em 1923, um ano após a saída de Octacilia do HSP. Com diagnóstico idêntico ao da irmã, “psicose maníaco depressiva”, ela era casada e moradora em cidade distinta da que residia Octacilia. Em 28 de novembro de 1923, é comunicada a alta de Atalice: “tendo dado alta do Hospício São Pedro, a reclusa Atalice, conforme comunicação da Chefatura de Polícia, rogo-vos o especial obséquio de mandardes retira-la daquele estabelecimento (HSP), dando-lhe o destino conveniente”323. O pedido foi feito pelo Intendente da cidade da qual Atalice é procedente.
Em 30 de novembro, são solicitadas “providências no sentido de ser entregue ao portador deste, Atalice, que se acha recolhida a esse estabelecimento de que sois digno Diretor”.
Em 8 de janeiro, Atalice será entregue a seu marido I.: “declaro (que) pelo administrador do Hospício São Pedro, me foi entregue hoje às 18 horas minha esposa Atalicia”.
O que pode ser observado é que existia toda uma burocracia quando da retirada de algum enfermo. Atalice não retornaria ao São Pedro. Tanto Atalice quanto Octacília não possuem em seus prontuários menção de algum parente internado.
321 PHSP de Octacília, 18 anos, solteira, internada em 1921. 322 PHSP de Octacilia, 18 anos, solteira, internada em 1921. 323 PHSP de Atalice, 22 anos, casada, internada em 1923.
Por fim, um caso bastante curioso. Os três internos a seguir têm em seu prontuário o nome do pai, que é idêntico, o italiano V., “com numerosa família e extremamente pobre”324.
Em 1902, a italiana Rosina, de 25 anos, casada e diagnosticada com “excitação maníaca” permaneceu nas dependências do HSP até 1908, quando então sai para assistência em domicílio. A cidade de origem de Rosina é distinta da cidade de seus outros dois irmãos. É provável que tenha se mudado quando casou325.
Em 1910, o descendente de italianos S. foi internado aos 14 anos com diagnóstico de “demência precoce”. O pai aparece com nacionalidade italiana nos prontuários, assim como suas irmãs, mas este rapaz, o qual só tem por nome um “S”, não consta como italiano fato que leva a supor que tenha nascido no Brasil. Outro detalhe é que o nome do meio dele é de origem germânica326, assim como o sobrenome de Rosina (são sobrenomes de origem germânica, mas são distintos). Mas no caso de Rosina, o sobrenome germânico deve ter sido contraído quando do casamento. “S” faleceria em 1920, com 24 anos.
Finalmente, a italiana Rosa, igualmente casada como Rosina, e mais velha que a irmã, com 32 anos de idade, seria internada com diagnóstico de “degeneração hereditária, melancolia crônica, psicose maníaco depressiva”. Era ela procedente da mesma cidade de “S”, e na guia da Chefatura de Polícia consta que “já esteve recolhida a esse estabelecimento”327. Como “S”, viria a falecer nas dependências do HSP em 1919.
Pelas datas, é possível observar que tanto Rosa quanto “S” estiveram na instituição num mesmo espaço de tempo. Ambos não foram retirados pela família, diferente de Rosina. Nenhum dos prontuários dá indicação que qualquer um deles tivesse um parente internado no Hospício São Pedro. Poucos foram os que apresentaram em seus prontuários o registro de que possuíam algum grau de parentesco com outro internado. Dos exemplos expostos acima, alguns foram encontrados ao acaso, ou por compartilharem a mesma guia de encaminhamento (caso da mãe e filha, Maria e Giovana, e das irmãs Cathariana e Margarida), ou fazerem parte de um grupo de prontuários relativamente pequeno, o de italianos. É plausível portanto, que o número de prontuários em que há indicações de parentes internados possa ser maior.
324PHSP de “S”, 14 anos, solteiro, internado em 1910. 325 PHSP de Rosina, 25 anos, casada, internada em 1902.
326 É provável que sejam originários do trentino, região onde são frequentes italianos com sobrenomes germânicos,
isto devido a região trentina ser desde a “Idade Média um ponto de passagem nos Alpes Centrais, ligando Roma à Alemanha (...) [ocorrendo] o encontro das culturas latina e germânica, na fronteira lingüística natural entre o Tirol alemão e o Tirol italiano (...)”. ALTMAYER, Everton. História da região trentina. In: Comunità Trentina Del Brasile. Disponível em http://www.trentini.com.br/?pagina=conteudo&unidade=1&idioma=port&id=42, acesso em 27 de maio de 2013.