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O Serviço Social historicamente se afirmou como necessário na sociedade na condição de um exercício profissional, como um tipo de especialização do

trabalho que objetiva uma intervenção no processo social. Apesar de ter um suposto de explicação da vida social como base para essa intervenção, não surge tendo como prevalência o saber na sua função social. Dessa forma, não se afirma como necessário na sociedade como um ramo do saber entre as ciências.

Portanto, o Serviço Social não tem método e teoria próprios, apesar da necessidade premente de sustentar uma matriz teórico-metodológica, que viabilize uma leitura, de preferência crítica da realidade social e, dessa forma, forneça subsídios e parâmetros para a intervenção.

É necessário ter em mente, a distinção entre concepções teórico- metodológicas e as estratégias, técnicas e procedimentos da intervenção profissional. Não se deve atribuir uma estrutura de “metodologia” ao processamento da ação, visto que, a partir de qualquer referência teórico-metodológica existe a necessidade de se lançar mão de estratégias e procedimentos para a implementação do fazer profissional. Desta maneira, a perspectiva teórico- metodológica não pode ser reduzida a pautas, etapas, procedimentos de fazer profissional.

O movimento da teoria, por sua vez, não é de “aplicação” no real. A teoria é a reconstrução, no nível do pensamento, do movimento do real apreendido nas suas contradições, nas suas tendências, nas suas relações e inúmeras determinações. E esse movimento se faz necessário porque a prática social, na sociedade capitalista, não se revela de imediato, reafirmando-se, portanto, a exigência metodológica pra se apreender as múltiplas determinações e relações com uma totalidade, que é histórica.

Dessa maneira, a questão teórico-metodológica vai além de um esquema de procedimentos operativos, uma vez que diz respeito ao modo de ler, de interpretar, de se relacionar com o ser social. Uma relação entre o sujeito cognoscente – que

busca compreender e desvendar essa sociedade – e o objeto investigado

(IAMAMOTO, 1994, p. 174). Assim, encontra-se estreitamente imbricada à maneira de explicar essa sociedade e aos fenômenos particulares que a constituem.

As Diretrizes Curriculares para os cursos de Serviço Social no Brasil atualmente em vigência apresentam como pressuposto a adoção da teoria social crítica e do método materialista-histórico-dialético, como orientação teórico- metodológica.

Tal orientação sustenta-se na leitura da realidade como uma totalidade formada de vários complexos (múltiplas determinações), dinâmica (em constante transformação) e passível de ser apreendida pela razão, embora sempre de maneira parcial e sucessiva, uma vez que é sempre mais rica do que o que podemos pensar dela.

Nesse sentido o documento da ABESS faz a seguinte consideração:

[...] a capacitação teórico-metodológica é que permite uma apreensão do processo social como totalidade, reproduzindo o movimento do real em suas manifestações universais, particulares e singulares em seus componentes de objetividade e subjetividade, em suas dimensões econômicas, políticas, éticas, ideológicas e culturais, fundamentado em categorias que emanam da adoção de uma teoria social crítica (ABESS/CEDEPSS, 1996, p. 152).

O entendimento é que o método dialético permite ao assistente social apreender na dinâmica social, o processo de construção da demanda em suas

singularidades, compreendida na e a partir das determinações universais da realidade, em que a se encontram os espaços sócio-ocupacionais. Apreensão que se dá pela via da mediação, categoria ontológico-reflexiva essencial nos processos sociais, trabalhada por Lukács a partir da teoria social marxiana e que Reinaldo Pontes retomou magistralmente na produção do Serviço Social.

A mediação é instância que garante a possibilidade da síntese de muitas determinações.

Sendo a totalidade ‘complexo de complexos’, cada complexo tem sua existência mediatizada com os demais. Portanto, para insistir no caminho metodológico ‘das aproximações sucessivas’, é imperativo apreender também as mediações que vinculam e determinam esses processos (PONTES, 2002b, p. 87).

A realidade social não se revela a si própria de forma miraculosa e espontânea. As mediações permitem o penetrar nas teias da complexidade que formam a realidade social, revelando as suas contradições e indo além da aparência e do imediato.

O plano da singularidade é a expressão dos objetos ‘em-si’, ou seja, é o nível de sua existência imediata em que se vão apresentar os traços irrepetíveis das situações singulares da vida em sociedade, que se mostram como coisas fortuitas, rotineiras, casuais. [...] esse é o plano da imediaticidade. [...] Neste nível, essas categorias emergem despidas de determinações históricas (PONTES, 2002b, p. 85).

O objeto de intervenção profissional visto exclusivamente do ângulo da singularidade, não ultrapassa as demandas institucionais, tampouco logra alcançar ações mais ousadas no campo das transformações socioinstitucionais.

No processo de ultrapassagem da facticidade é necessário que se tenham visões mais amplas e complexas do real. É preciso aproximar as singularidades com o plano das determinações universais da realidade, ou seja, a universalidade, que é a legalidade que articula e impulsiona a totalidade social. “É no plano da

universalidade que estão colocadas grandes determinações gerais de uma dada formação histórica” (Idem, ibid).

Assim, na dialética entre o universal e o singular encontra-se a chave para desvendar o conhecimento do modo de ser do ser social. E essa dialética é chamada por Lukács (1979) de particularidade, caracterizando-a como um campo de mediações. É, portanto, nesse campo de mediações que os fatos singulares se viabilizam com as grandes leis tendenciais da universalidade e dialeticamente as leis universais saturam-se da realidade.

Dito de outro modo,

[...] faz-se necessário apreender que as grandes leis e/ou categorias históricas do ser social podem estar interferindo nesse ou naquele problema social/fenômeno que se está enfrentando. [...] é necessário capturar, no próprio cotidiano [...] a interferência das forças, das leis sociais, percebendo realmente sua concretude visibilidade (PONTES, 2002b, p. 46).

Para a efetivação desse processo no cotidiano profissional, o desenvolvimento da capacidade investigativa do assistente social é essencial29. Se a realidade não se revela em sua imediaticidade a investigação das situações concretas postas no cotidiano, através do método, constitui-se um recurso indispensável para a apreensão das mediações.

29 A propósito, Imamoto( 2007,p.200) enfatiza a importância de nos diferentes espaços ocupacionais em que o assistente social atua, “impulsionar através de pesquisas e projetos que favoreçam o conhecimento do modo de vida e de trabalho - e correspondentes expressões culturais- dos segmentos populacionais atendidos, criando um acervo sobre os sujeitos e as expressões da questão social que as vivenciam. O conhecimento criterioso dos processos sociais e de sua vivencia pelos indivíduos sociais poderá alimentar ações inovadoras, capazes de propiciar o atendimento as efetivas necessidades sociais dos segmentos subalternizados, alvos das ações institucionais.[...] Isso requer, também, estratégias técnicas e políticas no campo da comunicação social- no emprego da linguagem escrita, oral e mediática -, para o desencadeamento de ações coletivas que viabilizem propostas profissionais para alem das demandas instituídas.