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Inicialmente, para definir o que entendemos como promoção de uma teoria, partimos de sua definição nos dicionários. No Aurélio, encontramos as seguintes acepções do termo: do latim promotione “Ato ou efeito de promover. Elevação ou acesso a cargo ou categoria superior; ascensão”; do inglês promotion “O conjunto de atividades que visam fortalecer a imagem de uma marca, instituição, indivíduo, etc., […]” (FERREIRA, 1999, p. 1648). Consideramos, portanto, que as marcações do outro na escrita acadêmica podem funcionar de modo a destacar aquilo que outro afirma em detrimento do dizer de quem escreve.

As acepções dicionarizadas da palavra promoção funcionam como um ponto de referência para conceituarmos o que estamos chamando de efeito de promoção. A nossa ideia é que a escrita pode, de acordo com a forma que é organizada, denotar que aquele que escreve está promovendo aquilo ou aquele que utiliza como fundamentação. Esse efeito reforça a ideia de que o autor, a teoria ou o conceito que são citados como referência no trabalho – ou em outras palavras, que se repetem e se redizem –, pertencem a uma categoria superior.

Isso demonstra que há um ponto em comum entre o que consideramos como efeito de promoção de uma teoria, autor ou conceito, e o significado da palavra promoção apresentado pelo dicionário, pois a ideia de “ato de promover” é a essência de nossa conceituação do termo: característica do trabalho acadêmico inserido em uma comunidade científica pela exaltação e reprodução de outro, cuja escrita não se desloca do já-dito, mas se resume na repetição ou ainda na utilização de uma teoria, de um autor ou mesmo de um conceito teórico tal qual uma propaganda que serve apenas como forma de legitimá-los, sem delegar-lhes outra “utilidade”.

77 Também falamos em operacionalidade, em razão de acreditarmos que uma escrita que origina, a partir da repetição, um efeito de promoção de uma teoria, de um autor ou de um conceito teórico não desenvolve em sua estrutura uma operacionalização destes para contextualizar sua investigação. Compreendemos, pois, que existe uma relação entre a falta de articulação e mobilização da fundamentação teórica utilizada na proposta de pesquisa e a produção escrita baseada na reprodução.

Nesse sentido, sustentamos que tal utilização de uma teoria funciona como um modo de garantir a inserção e aceitação de um texto acadêmico em uma comunidade científica, mesmo que os conceitos teóricos não estejam operacionalizados (utilizados em análise de dados ou na metodologia, por exemplo) ou não tenham funcionalidade no trabalho em que são empregados. Além disso, dependendo da forma como são desenvolvidas as marcações do outro na escrita acadêmica, dar-se-á destaque àquilo que é citado do outro em detrimento do dizer do pesquisador.

Ao falarmos em funcionalidade, estamos remetendo à representação e à relevância da produção na sociedade, ou seja, como uma nova produção exerce função social na comunidade, contribuindo com desenvolvimento social, respondendo questionamentos e desenvolvendo novos conhecimentos. Se a escrita não se desloca do já-dito, dificilmente poderá contribuir de forma produtiva para a sociedade, pois ela funciona como mecanismo de exaltação do que já foi produzido anteriormente.

Sabemos que a produção caracterizada pelo efeito de promoção pode ser comparada com outras de divulgação científica, porém é importante esclarecer que essa modalidade de escrita que promove autor, teoria ou conceitos se diferencia daquela que tem como objetivo a divulgação científica e que contribui com o desenvolvimento do conhecimento sobre a ciência, mesmo que de forma diferente, através de um aprofundamento sobre um tema com propósito de disseminá-lo/ vulgarizá-lo / difundi-lo.

O trabalho de Rossi-Landi (1985) trata a linguagem como trabalho linguístico e mostra como são estabelecidos os valores funcionais e sociais de um discurso produzido. Ele nos auxilia a descobrir as diferenças de se produzir um texto que tenha funcionalidade social, que possa se consolidar como trabalho linguístico, e não como um processo de reprodução.

A partir de uma concepção marxista, Rossi-Landi (1985) define o trabalho linguístico e o aproxima do trabalho de produção de material não linguageiro. Para Marx, o trabalho é uma atividade de intervenção dos homens sobre a natureza, assim sendo, para Rossi-Landi (1985, p. 64) “qualquer riqueza ou qualquer valor, qualquer que seja a acepção

78 em que se tomar, é o resultado de um trabalho que o homem realizou ou pode tornar a realizar”.

O estudioso, ao considerar a produção linguística como trabalho, reconhece a fala e a escrita como produtos da linguagem que não existem em estado natural; é necessária a ação do homem para configurá-las como produtos. Rossi-Landi (1985, p. 66) afirma que essa característica difere os humanos dos outros animais, visto que por meio da produção do sujeito sobre a linguagem, “que constitui ‘o social’, ele forma historicamente a si próprio”. Assim, o autor demonstra que o trabalho com a linguagem converte o sujeito à condição de sujeito histórico-social e, consequentemente, o insere na sociedade.

A proposta de Rossi-Landi tem influência marxista, perceptível também no momento que o autor defende a ideia da existência de um mercado linguístico, no qual “[…] as palavras, expressões e mensagens circulam como mercadorias” (ROSSI-LANDI, 1985, p. 85). Cada mercadoria assume, nesse mercado, um valor. De modo geral, o valor de uso é a função socialmente atribuída a um dado produto, a sua utilização. O valor de troca é a possibilidade de o homem trocar objetos de valores parecidos, ou seja, com uma mesma utilidade social. Conforme Rossi-Landi (1985, p.88, grifo do autor),

Toda palavra, expressão ou mensagem apresenta-se no mercado linguístico como

unidade de valor de uso e de valor de troca. Deve-se, de fato, ter um valor de uso,

isto é, estar em condições de satisfazer a uma necessidade comunicativa qualquer, para poder assumir um valor de troca, mas, para o caso oposto, deve apresentar-se como valor de troca, para que seja possível remontar o seu valor de uso e desfrutá- lo. É através de uma dialética complexa entre os dois tipos de valor que, quando eu digo alguma coisa, você compreende. Deixe de lado aqui a elegante questão de saber se um valor de uso apenas expressivo é suficiente para a existência dessa dialética.

A afirmação do autor nos apresenta a ideia de que para que um discurso obtenha funcionalidade social é necessária uma relação dialógica entre um valor de uso e um valor de troca. Em se tratando da linguagem, o valor de uso, relacionado à função específica do produto, pode ser considerado como o sentido inicial de uma relação entre interlocutores, a primeira referência que fazemos a uma palavra ou mesmo a um discurso. O valor de troca compreende a troca de elementos que tenham valores de uso socialmente diferentes. Podemos dizer que, no caso da linguagem como trabalho, existe a possibilidade de termos discursos equivalentes, sem valor de troca, pois não há diferenças quanto ao valor de uso, considerando que os “produtos” são iguais, ou seja, sem funcionalidades distintas.

Espera-se que o aluno, ao escrever um texto acadêmico, desenvolva os dois valores em sua escrita, tanto o de uso como o de troca, para assim estabelecer uma relação dialógica

79 entre aquele que é citado e aquele para quem o texto é escrito. Um texto que tenha esses dois valores será aquele cujo autor mobiliza a voz do outro para fundamentar a si próprio e demonstra operacionalidade dos conceitos propostos que são retomados na análise dos dados.

Nesse sentido, partimos da ideia de que a teoria empregada em trabalhos acadêmicos tem um valor de uso e um valor de troca que permitem que o texto funcione como um produto a ser trocado e utilizado socialmente, visto que se trata de uma investigação que não se limita ao uso de um discurso já estabelecido. Mas, diferentemente do exposto acima, o aluno pode redigir um texto provido apenas do valor de troca, com uma escrita que se utiliza da troca do seu dizer pelo do outro, um discurso sem valor de uso para o trabalho que foi proposto, tendo em vista que as marcações da voz do outro não funcionam como argumentos ou fundamentação da investigação proposta, mas sim como mecanismos textuais que desenvolvem um sentido de destaque, que colocam em evidência uma determinada teoria.

Ao observar que a produção escrita pode ser reproduzida e repetida, constatamos que existe um modo de escrita que desenvolve apenas um valor de troca, sem valor de uso, e assim, leva à construção de um sentido que constitui o que chamamos de efeito de promoção. Esse efeito de sentido é mais bem verificado nas análises que fazemos de trechos das monografias.

Sabemos, contudo, que é possível utilizar uma teoria que garanta a produtividade (valor de troca) de um texto e desenvolver um modo de escrita que vá além da reprodução do já-dito, garantindo a criatividade e a autenticidade da produção (valor de uso e valor de troca), mesmo quando estamos num processo de formação, que, independentemente de seu conhecimento, gera pressão e tensão sobre aquele que escreve/produz.

4.3 A promoção de um autor, de conceitos teóricos e de uma teoria: uma análise dos

Benzer Belgeler