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Mekânsal Yabancılaşma

2. BÖLÜM

4.3. Mekânsal Yabancılaşma

O sistema financeiro brasileiro, apesar de sua configuração atual intensificada nos últimos quarenta anos, teve as condições de seu desenvolvimento criadas a partir de 1930, período que se fundamenta na conciliação entre as forças políticas que tradicionalmente exerciam o poder no país, as classes proprietárias rurais, e as forças políticas emergentes, representadas pelas novas classes burguesas industriais. Nesse período, a economia nacional sofreu uma expressiva transformação, passando a apoiar-se em um novo modo de acumulação capitalista de base industrial-urbana, além da agrário-exportadora; pautadas em medidas estatais que mais do que apoiavam ofereciam plena sustentação ao novo formato econômico, representando os interesses das classes proprietárias e privilegiando o setor empresarial ao criar condições para o crescimento da exploração do trabalho com políticas de “arrocho salarial”, a conjuntura favorecia a expansão do setor terciário, em especial, o setor financeiro (FAUSTO,

1997). O Conglomerado B nasce em meio a essa expansão e favorecimento do setor terciário, primeiro como Casa Bancária Almeida.

Em 10 de março de 1943, na próspera cidade de Marília, distante 443 quilômetros de São Paulo, onde ‘corria muito dinheiro’, nasceu o Conglomerado B, então batizado com o nome de Banco Brasileiro de Descontos. Seus fundadores eram os donos da Casa Bancária Almeida e Companhia, que existia desde 1934 e operava como importante correspondente do Banco do Brasil. O capital era de modestos 10 milhões de cruzeiros, o que correspondia à mesma quantia que o Conglomerado B, anos depois, pagou pelo prédio de oito andares onde abriu sua Agência na cidade de São Paulo, na Rua Álvares Penteado (VIANA, 2012, p. 10).

Já na década de 1950, quando a aceleração da acumulação capitalista deu-se graças a crescente interferência estatal e recorrência ao endividamento privado externo para o desenvolvimento industrial, as repercussões no sistema financeiro nacional seriam ainda maiores. Os bancos passaram a assumir gradativamente um novo papel nesse processo: àquela função de intermediadores entre a produção, a distribuição e o consumo, eles acrescentaram a de investidores em outros setores produtivos, fundindo sob sua hegemonia os capitais industrial e agrário (ROMANELLI, 1978).

É nesse contexto que o Conglomerado B, com apenas nove anos de existência, assume a liderança como primeiro banco privado do Brasil batendo em 1951 todos os recordes de depósitos à vista, termômetro que media o desempenho dos Bancos, e tornou-se o primeiro no

ranking privado brasileiro. Segundo Viana (2012), o Conglomerado B, desde sua origem, sentia

o potencial de crescimento do mercado planejando crescer com o Brasil. Ainda na década de 1950, precisamente em 10 de março de 1953 que o Conglomerado B migra de Marília, Centro- Oeste Paulista, para Osasco, grande São Paulo. A sede do Conglomerado B levara o nome de Cidade de Deus9.

Era como se fosse um condado. Nela, o Conglomerado B possuía autoridade. Não havia realeza, como nos antigos condados, mas predominavam a ordem, a hierarquia e o cuidado com os funcionários. Visto dessa perspectiva, o Conglomerado B, guardadas as proporções na geografia e na história, foi precursor de Brasília, centro do Governo Federal. Diretoria, Mecanização, Administração de Pessoal, Normatização, Fiscalização, tudo isso ficava na Cidade de Deus (VIANA, 2012, p. 33).

9 O jornalista Assis Chateaubriand, em visita às obras da nova Matriz do Banco, ficou impressionado com o ritmo das construções e escreveu um artigo com o título Pau de matar cobra em que comparava a construção feita pelo Banco à obra de Santo Agostinho, “a Cidade de Deus [que possui 22 volumes] simboliza a eternidade da construção de um novo edifício do conhecimento” (BROWN, Peter. Santo Agostinho: uma biografia. Record, 2005).

Segundo Liliana Segnini (1988), o Conglomerado B foi a instituição financeira que obteve do Estado o maior número de privilégios para a realização de fusões e incorporações, assim como para a criação de novas agências. A autora parte da ideia que ao desenrolar do século XX o Brasil apresenta uma grande concentração de renda, dado que o padrão de vida da maior parte da população encontra-se determinado pelos valores expressos pelo salário mínimo. Durante o período do “milagre econômico”, o trabalhador foi alijado deste e teve suas condições de vida pioradas, representada por dados quanto a queda dos salários, número crescente de moradores de rua e mortalidade infantil, baixo acesso à educação, saúde e moradia10. A contrapartida da super-exploração da força de trabalho operária é expressa pela concentração do excedente apropriado pela burguesia vinculada ao grande capital. A lei da Reforma Bancária de 1964, a Lei do Mercado de Capitais de 1965 e a instituição da correção monetária constituíram os instrumentos institucionais para financiar as condições necessárias para o desenvolvimento industrial pretendido pelo regime. A expansão do capital financeiro durante o regime militar no Brasil se refere à concentração de renda determinada pela pauperização da classe trabalhadora. Nesse contexto, entre todos os bancos nacionais privados, é o Conglomerado B que atinge os maiores índices de crescimento e se consolida como o maior banco privado do país, porém seus números exorbitantes se contrastam com o salário pago aos trabalhadores.

É importante ressaltar que nossa pesquisa não tem a intenção de explorar intensivamente a história institucional do Conglomerado B, outros trabalhos já trataram de maneira competente esse assunto (ACORSSI, 1992; JINKINGS, 1995; GOMES, 2000; SEGNINI, 1988), assim reforçamos nossa centralidade: compreender o antigo e o novo bancário e, principalmente, o conflito entre gerações alimentado pelos gestores do Banco que funciona como recurso para segregar a categoria bancária. Mas para a compreensão a respeito da particularidade do Conglomerado B é fundamental a discussão de alguns aspectos centrais acerca das mudanças no interior do capitalismo, partindo da hipótese de Antonio Gramsci (1996) de que o fordismo era um esforço coletivo para criar um tipo novo de trabalhador e de homem, o modelo que o substituirá, o da “acumulação flexível” também criará um novo trabalhador, um novo homem. Tal apreensão nos possibilitará compreender de modo mais concreto a condição dos trabalhadores dentro dessa instituição financeira.

10 Mortalidade: 9,4 %, expectativa de vida: 59 anos; Crianças na escola: 19,5% (fonte: Merrick_1972_Resultados- preliminares-do-Cen_15861.pdf)

1.3 Fim da Era de Ouro - não para o capital financeiro: algumas interpretações do avanço

Benzer Belgeler