C. MİLLİYETÇİLİK
3. Mehmet Akif ve İslamcılık
A rede pública de saúde do município de Ipatinga conta, desde o ano de 1986, com psicólogos lotados em UBS. No final da década de 1980, profissionais recém-aprovados em concurso realizado pelo Estado assumiram cargos da área da
saúde, dentre eles, três psicólogos, uma psiquiatra e uma enfermeira. Estes técnicos juntaram-se aos já contratados - uma médica, uma psicóloga e uma assistente social. De acordo com trechos do texto ainda em elaboração do “Plano Local de Saúde Mental”
Esse grupo se auto-denominou “Equipe de Saúde Mental da Rede Pública de Ipatinga”. Essa Equipe passou a reunir às sextas-feiras para pensar, estudar e planejar uma nova prática de assistência em saúde mental no município (D4).
No início da década de 1990, a Prefeitura de Ipatinga realizou concurso para a área de saúde. A proposta do concurso público foi motivada pela gestão da época, pertencente ao Partido dos Trabalhadores, que tinha à frente da Secretaria Municipal de Saúde a médica sanitarista Lêda Vasconcelos. Em 1992, os aprovados tomaram posse, e neste grupo estavam doze psicólogos e dois psiquiatras.
A proposta inicial feita pela Secretaria de Saúde para estes profissionais foi centrada em ações programáticas.
Os profissionais deveriam dar apoio aos diversos programas existentes (mulher, crianças, etc) e também tentar, junto com a equipe da unidade de saúde e comunidade, trabalhar os problemas de saúde levantados pelo diagnóstico sócio-sanitário do território no qual estava inserido a Unidade de Saúde de sua lotação (COSTA, 1993, p. 02).
Um dos psicólogos aprovados neste concurso relata que:
Existiam psicólogos na saúde é, em alguns postos de saúde, atendendo a essas demandas tradicionais do momento pré-reforma, que eram aquelas demandas de pouca configuração assim em termo de quadro psiquiátrico, neuroses leves, transtornos de ensino e aprendizagem, dificuldades no relacionamento familiar, esses, essas pequenas disfunções em crianças (...) E aí nós chegamos e começamos a trabalhar “posto de saúde” (P1).
As práticas desenvolvidas eram oriundas da clínica tradicional. Realizava- se triagem dos casos através de entrevistas, agendavam-se atendimentos psicológicos individuais - que permaneciam por períodos prolongados – realizavam e recebiam encaminhamentos de outras especialidades. Os psicólogos atuavam de maneira isolada, e esta dinâmica era observada também no trabalho das outras especialidades em saúde. Não havia espaços permanentes de discussão de casos, diálogo e intervenções interdisciplinares. Um dos psicólogos do grupo ilustra o trabalho desenvolvido nesta época:
(...) consulta ambulatorial, com marcação de consulta, demanda livre, sem nenhuma integração com as equipes no sentido de um programa, no sentido de uma orientação de saúde mental. Então era a psicologia encravada num posto de saúde atendendo aquilo que a psicologia tradicionalmente vinha atendendo (P1).
O público que demandava o atendimento, por encaminhamento ou demanda espontânea, se caracterizava majoritariamente por quadros leves de neuroses, quadros clínicos secundários a um outro adoecimento, crianças com dificuldades escolares, pessoas com problemas conjugais e familiares diversos, ou que se queixavam de problema dos “nervos”.
Em cerca de metade dos casos que chegam até nós encontramos patologia orgânica ou sintomas físicos associados, além dos fenômenos psicossociais (...). Da asma à isquemia, passando por crises glicêmicas e tireóide alterada. (...) Há outra parte das pessoas que vêm, ou são encaminhadas, sabendo que o motivo do seu sofrimento não é algo que acontece por causa de seu corpo; elas acatam, embora com reservas, que existe um profissional dos “nervos”, para as inibições e “traumas”, para o que acontece em regiões que não podem ser reveladas nem pelo exame de sangue, nem pelo “elétrico”, nem mesmo pela cintilografia virtual mais sofisticada (...). As pessoas que procuram o serviço espontaneamente, sem indicação de alguém, são raras. Outros chegam sob forte influência e até mesmo sob certa coação. Esses últimos dificilmente permanecem em tratamento da primeira vez: há os que retornam meses, às vezes anos, depois das primeiras entrevistas (BORGES, entre 2001-2002, p.02-3).
Em consonância com a atenção em saúde mental desenvolvida na época em todo o país, a assistência às pessoas em sofrimento mental se dava através do recurso da internação e de maneira exclusivamente ambulatorial, em nível secundário.
Muita histeria, um pouco de neurose obsessiva e, menos, psicoses não apareciam [na APS], até porque não havia fluxos de encaminhamento. O quê que acontecia: as neuroses graves e as psicoses elas eram automaticamente encaminhadas para a psiquiatria que funcionava na Policlínica (...) que era também um atendimento exclusivamente ambulatorial, com marcação de consulta (...) caso de crise magna, caso de surto, etc, eram encaminhados diretamente pra Belo Horizonte [hospitais psiquiátricos], nem passava pela Policlínica (P1).
Havia também uma questão porque não havia uma disciplina de encaminhamento, qualquer um, a qualquer momento, naquela época, poderia ou pegar uma ambulância que os vereadores tinham, ou pegar um carro particular e levar diretamente pra lá [refere-se a hospital psiquiátrico], era um depositário de doença mental ainda nessa época, de forma que foi assim (P1).
Na primeira metade da década de 1990, além dos psicólogos lotados em Unidades da APS e no Centro de Especialidades Médicas – Policlínica – havia, neste ambulatório, dois psiquiatras que recebiam os casos mais graves em saúde mental. Porém, a demanda que se criou neste tipo de atenção tradicional foi infindável.
(...) o profissional psiquiatra não conseguia fisicamente dar conta desses atendimentos, a não ser espaçando esses atendimentos numa escala tal que impedia qualquer tipo de tratamento. Atendimento de seis em seis meses, receita pra seis meses, completamente inviável né. Era isso ou internação. Assim, da parte dos serviços de saúde né (P1).
Outras alternativas fora da rede pública assistencial também eram procuradas pelos familiares das pessoas em sofrimento mental grave. No município de Ipatinga e região não houve instalação de hospital exclusivamente psiquiátrico, o
que não significou a inexistência de espaços asilares e de segregação de pessoas em sofrimento mental. Há relatos de estabelecimentos filantrópicos presentes na cidade que historicamente recebem pessoas acometidas com vários tipos de deficiências, físicas e mentais, e também aqueles que desenvolvem quadros psiquiátricos, de dependência química e outros sofrimentos psicossociais36. Tais estabelecimentos são ainda considerados por trabalhadores e moradores da região como depositários de pessoas indesejadas socialmente. Na década de 1990, a situação era ainda pior.
(...) como não havia nada de política pública nesse sentido, qualquer um fazia o que lhe aprouvesse. Num certo sentido faz, mas hoje menos, porque nós temos instrumentos pra coibir isso, na época não. Então assim, tinha vários locais em que um determinado fulano, uma determinada fulana abriu uma casa, abriu uma sede de fazenda, abriu um sitio, e colocava lá, internava lá, vários tipos de pessoas com problemas de sofrimento mental, problemas de deficiência mental, problemas de abuso (...). Então tinha várias, mas várias. Não havia essa distinção que a gente julga hoje essencial entre sofrimento mental, doença mental, deficiência mental, abuso de químicos, né (P1).
Além da internação em hospitais psiquiátricos, principalmente na capital mineira, e em abrigos e asilos da cidade, as famílias buscavam através de práticas culturais e religiosas – “enclasuramento, raizada, descarrego, botar pra fora” (P1) – alternativas à assistência medicalizada.
3.3.2 Início do movimento local pela Reforma Psiquiátrica: reunião dos