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MEHMET AKİF ERSOY’A GÖRE İNSAN

I. BÖLÜM

2. MEHMET AKİF ERSOY’A GÖRE İNSAN

de qualidade bastante ruim.

ANTECEDENTES: O ENSINO JURÍDICO NO BRASIL

A sensação de que o ensino jurídico brasileiro está sempre atra- vessando um período de “crise”, e de que ele pouco contribui para a formação dos seus próprios alunos, tem se mostrado quase perma- nente ao longo da história das nossas faculdades de Direito. Para o século XIX, o diagnóstico do sociólogo Sérgio Adorno, em seu estudo já clássico, é taxativo: “As permanentes críticas dirigidas contra a má qualidade de ensino e contra a própria habilitação do corpo docente, formuladas até mesmo por acadêmicos que vivenciaram esse processo educativo àquela época, sugerem que a profissionalização do bacharel se operou fora do contexto das relações didáticas estabelecidas entre o corpo docente e o corpo discente, a despeito das doutrinas jurídicas definidas em sala de aula”4.

A grande dificuldade de atualização e renovação de métodos pe- dagógicos experimentada pelo ensino jurídico brasileiro ao longo do século XX provavelmente teve grande influência na progressiva dimi- nuição da importância da contribuição dos operadores do Direito para o progresso do país nesse período, principalmente depois do segundo pós-guerra. Nem a proliferação de novas escolas em várias das princi- pais cidades, a partir do advento da República, e nem os sucessivos projetos de reforma do ensino (dentre os quais podemos destacar os de 1891 e de 1931) tiveram força suficiente para modificar essa ten- dência de lenta perda de relevância pela qual passaram as carreiras ju- rídicas no correr do século passado. O destaque excessivo dado, nas escolas, a um tipo de conhecimento meramente retórico e “bachare- lesco”, de pouca valia para o lado prático da profissão, foi muitas vezes identificado como um dos principais erros a ser combatido, como pro- curou deixar claro a Exposição de Motivos da reforma de 1931, que aconselhava “reduzir ao mínimo as preleções e conferências, multipli- cando-se os trabalhos práticos, as demonstrações e as ilustrações, de maneira que o aluno aprenda observando, fazendo e praticando”5.

O problema foi também posto em destaque na célebre aula inau- gural pronunciada pelo jurista e diplomata San Tiago Dantas na Uni- versidade do Brasil, em 1955. Nessa ocasião, Dantas ressaltou a importância da união entre “ciência” e “prática”, entre “cultura jurí- dica” e “profissão”. Para ele, a concepção de uma cultura jurídica me- ramente ilustrativa, sem finalidade profissional, não era apenas errônea, mas também perigosa, e por isso se esforçou em denuciar “o alheamento e a burocratização estéril das nossas escolas, que passaram

a ser meros centros de transmissão de conhecimentos tradicionais, desertando o debate dos problemas vivos, o exame das questões per- manentes ou momentâneas de que depende a expansão, e mesmo a existência, da comunidade”6.

A maior ameaça no horizonte, para Dantas, estaria no declínio do próprio Direito, que já vinha, naquele tempo, perdendo terreno e pres- tígio para outros saberes técnicos, como a Economia, a Administração e as Ciências Sociais, todos dotados de maior capacidade de exercer efetivamente algum tipo de – em suas palavras – “controle social”. Esse desprestígio, como procurou sugerir o autor nas diversas ocasiões em que se manifestou sobre o tema7, decorria, ao menos em parte, de

problemas estruturais do ensino jurídico. Haveria, segundo seu racio- cínio, uma relação circular entre a forma de se ensinar o Direito e a forma de se produzir uma determinada cultura jurídica. A permanên- cia de uma produção de conhecimento ensimesmada, característica das velhas escolas, contribuiria, diante das aceleradas transformações da sociedade e do crescente desenvolvimento tecnológico, para um re- baixamento do status de advogados e juristas, que, rapidamente, dei- xaram de desempenhar papel protagonista nos debates e soluções das grandes questões nacionais. Apenas uma mudança radical de enfoque na concepção do ensino jurídico, que deveria passar a privilegiar “não o estudo expositivo das instituições, mas a formação do raciocínio ju- rídico, adestrado na solução de controvérsias”, é que poderia, para San Tiago Dantas, modificar essa tendência.

O diagnóstico de San Tiago Dantas não constituía grande novidade, a bem da verdade. Antes dele, e apenas no âmbito da Academia de Di- reito do Largo São Francisco, em São Paulo, muitos outros juristas já haviam se ocupado dessa questão. Em 1897, por exemplo, quatro pro- fessores das Arcadas – Joaquim Ignacio Ramalho (Barão de Ramalho), João Monteiro, José Ulpiano Pinto de Souza e Pedro Lessa – apresen- taram, em conjunto, uma extensa proposta de reforma do ensino jurí- dico. Pouco depois, em 1916, o lente João Mendes de Almeida Jr. produziu um detido estudo sobre os ensinos europeu e norte-americano, comparando-os ao brasileiro e propondo já a alteração, dentre outras coisas, da metodologia de ensino baseada em grandes preleções. Na dé- cada de 1970, nomes como Oscar Barreto Filho, Ada Pellegrino Grino- ver, Tercio Sampaio Ferraz Jr. e Fábio Konder Comparato elaboraram também propostas no mesmo sentido, seguidas, na década seguinte,

pelas sugestões de José Eduardo Faria. Como se vê, a constatação da necessidade de mudança no ensino jurídico brasileiro já é velha de mais de século e meio. A grande dificuldade não está em constatar esse fato, mas em buscar os meios de modificá-lo positivamente.

A Fundação Getulio Vargas, com a seriedade e o senso de respon- sabilidade pelo desenvolvimento nacional que lhe são peculiares, viu- se algumas vezes envolvida com projetos de recuperação da qualidade do ensino e da pesquisa em Direito, como nas experiências do Indipo (Instituto de Direito Público e Ciência Política, que funcionou entre 1947 e 1990) e do Ceped (Centro de Estudos e Pesquisas no Ensino do Direito, com o qual a FGV colaborou por alguns anos, na passa- gem da década de 1960 para a seguinte). Ambas as experiências devem ser consideradas no horizonte da missão pública desempenhada his- toricamente pela Fundação, que contempla tanto a produção de co- nhecimento de alto nível em diversas áreas das ciências humanas, como também a formação de quadros dirigentes bem qualificados para assumir posições de liderança nos mais variados setores.

O Indipo foi um núcleo de investigações na área do Direito Pú- blico ao qual estiveram ligados os nomes de juristas como Temístocles Brandão Cavalcanti (seu diretor durante um largo período), Carlos Medeiros da Silva e Olavo Bilac Pinto, dentre outros. O principal fruto das atividades desse órgão foi a edição, por muitos anos, da Revista

de Direito Público e Ciência Política, depois apenas Revista de Ciência Política. Apesar de sua longa existência e importância, o Indipo acabou

tendo suas atividades encerradas em 1990, no auge da crise financeira que se abateu então sobre a Fundação8.

Já o Ceped, cuja ligação com a FGV foi relativamente curta, não deixou de ser, apesar disso, uma experiência acadêmica digna de nota. Criado em 1966, em grande parte por iniciativa do professor Caio Tá- cito Sá Vianna Pereira de Vasconcellos, seu primeiro diretor, o Ceped estava vinculado à Faculdade de Direito da então Universidade do Es- tado da Guanabara (atual UERJ). Contudo, nos seus primeiros anos, possuía grande flexibilidade institucional e pôde, assim, contar com os importantes apoios da Fundação Ford e da USAID, que financiaram o projeto, e também da Fundação Getulio Vargas, que o abrigou fisica- mente na sede de sua Escola de Pós-Gradução em Economia (EPGE), no Rio de Janeiro. Mario Henrique Simonsen, então diretor da EPGE, e outros professores da FGV chegaram a atuar como professores nos

cursos promovidos pelo Ceped. O jurista norte-americano David Tru- bek, então consultor jurídico da USAID, também desempenhou um im- portante papel norteador na implementação da experiência9. Outros

nomes importantes ligados à iniciativa foram os de Henry Steiner e Werner Baer, também juristas norte-americanos, além do brasileiro Al- fredo Lamy Filho.

Duas preocupações básicas, interligadas, norteavam o trabalho de- senvolvido pelo Centro: a atualização dos métodos de ensino jurídico tradicionais, com a adoção de aulas mais práticas e interativas, e o ob- jetivo de formar entre os advogados uma mentalidade voltada para o direito empresarial. Os ‘Cursos de Advogados de Empresas’, promo- vidos pelo Ceped em vinculação com a FGV, funcionaram durante seis anos (1967-1972), e formaram, no total, cerca de 220 advogados10.

Nas palavras do cientista político Luiz Werneck Vianna, “o programa de reformas que se consubstanciou no Ceped partia do suposto desa- juste observado entre as instituições jurídicas brasileiras e a moderni- dade capitalista, disfuncionalidade a ser sanada pela conversão do Direito num ‘instrumento positivo para o desenvolvimento brasileiro’. Tratava-se de romper com uma concepção centrada em percebê-lo como um sistema de regras gerais aplicado por meio de técnicas dedu- tivas. Pela filosofia do programa, o jurista deveria ser formado não como um arquiteto social, segundo a tradição brasileira, e sim educado e treinado numa filosofia de realismo jurídico que o capacitasse a acompanhar o mundo cambiante dos negócios e das empresas”11.

Em 1972, o então presidente da Fundação Getulio Vargas, Dr. Luiz Simões Lopes, chegou a sugerir a implementação de uma réplica dos cursos do Ceped na capital paulista, encarregando os professores de Di- reito da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), como Antonio Angarita e Ary Oswaldo Mattos Filho, de identificarem possíveis parcerias da FGV com as faculdades de Direito da USP ou da PUC, para levar a cabo a ideia. O professor Ary Oswaldo Mattos Filho relata o entusiasmo que sentiu, à época, com a proposta: “Quando o professor Antonio Angarita me chamou em sua sala para dizer que o presidente Simões Lopes havia telefonado dando conta de sua ideia de criar uma espécie de cópia do Ceped na EAESP, eu, numa demonstração de meu juvenil e temerário impulso, comecei a idealizar o despertar de um novo mundo. O professor Angarita, muito embora amazonense, se abeberara na arte inteligente da prudência mineira e tratou a proposta

de Simões Lopes, e muito mais o meu entusiasmo, com o devido come- dimento, pois temia a resistência e o descrédito que corríamos o risco de enfrentar diante das elites jurídicas do estado de São Paulo”12.

Ocorreu até uma reunião, no Rio de Janeiro, que contou com as presenças de vários professores da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, capitaneados pelo seu então diretor, Alfredo Buzaid, além de alguns professores de Direito da EAESP. Ao grupo paulista agre- gou-se uma tríade carioca composta pelos professores Alfredo Lamy Filho, Caio Mário da Silva Pereira e Caio Tácito, que expuseram o modelo do Ceped e a idéia da criação do clone paulista. A iniciativa, contudo, não passou das primeiras tratativas encetadas entre a FGV e as demais escolas. Essa tentativa frustrada, no entanto, não seria es- quecida por Ary Oswaldo Mattos Filho, como ele próprio sustenta: “O projeto conjunto, por razões que não vem ao caso comentar, não vingou, mas o episódio incutiu-nos o sonho de criar uma escola com um projeto de ensino diferenciado, renovador, e que analisasse o Di- reito em face da efetiva realidade brasileira. O sonho ficou hibernando por mais de vinte anos, porém nunca foi esquecido”13.

Antonio Angarita também ressalta a importância histórica do ensaio de implementação do Ceped em São Paulo: “Criou-se no Rio de Janeiro a preocupação de formar advogados de empresa. O Ceped não era um curso de graduação, não era um mestrado, mas sim um programa de capacitação de advogados de empresa. Foi um programa muito bem planejado, com a participação de professores de alta qualidade, que possuíam formação em universidades estrangeiras. O Ary sempre insis- tia que nós deveríamos trazer essa experiência para São Paulo. Em nos- sas muitas conversas, eu relutava. Eu era chefe de departamento, e, hesitante, argumentava que antes de iniciarmos uma experiência como a do Ceped precisaríamos melhorar nossa legitimidade no campo jurí- dico. Éramos novos e eu temia que nosso projeto pudesse ser fuzilado. Eu agi como um timorato, naquele momento. Ary Oswaldo era mais jovem e estava mais intrépido, como é natural. Ainda assim, participa- mos de algumas reuniões no Rio de Janeiro. Eram mesas importantes, onde havia alguns medalhões. Ficamos próximos de algumas pessoas extraordinárias, como Alfredo Lamy Filho, grande comercialista, e o próprio Caio Tácito, de Direito Administrativo. Em minha opinião, nós vivemos essa experiência apenas perifericamente, já que não instituímos o Ceped em São Paulo. Mas é importante mostrar que a FGV sempre

teve entre suas preocupações aprimorar o ensino jurídico. Sem esse re- gistro, tem-se a impressão de que as atuais escolas de São Paulo e do Rio de Janeiro foram trazidas pelo mito da cegonha, o que não é ver- dade. Ambas foram concebidas após um longo processo de amadureci- mento e de reflexão”14.

Nas décadas seguintes, uma série de fatores diversos, desvinculados entre si, acabariam restringindo a atuação da Fundação no campo do Direito, exceto pelas pesquisas realizadas no Indipo (que foram descon- tinuadas, de todo modo, em 1990). Dentre tais fatores, podemos citar inicialmente a forte ênfase que se passou a dar no âmbito da entidade, então, às atividades de investigação (pesquisa), que ganharam relevo em contraposição ao relativo esvaziamento do esforço de formação de pessoal (docência). A Ebape (Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas) chegou a fechar suas turmas de graduação, coisa que, por muito pouco, não ocorreu também com a EAESP15.

Pouco depois, a forte diminuição dos investimentos governamen- tais de que dependia para o seu financiamento mergulhou a FGV em uma séria crise financeira, cujos efeitos foram sentidos por vários anos. Ademais, na década de 1990, houve um período de alguma indefinição Carlos Ivan Simonsen Leal, presidente da Fundação Getulio Vargas

quanto aos rumos a seguir, no momento em que o falecimento de Luiz Simões Lopes, criador e presidente da Fundação por diversos mandatos seguidos, ensejou pela primeira vez uma transição no comando da ins- tituição. Assim, foi apenas a partir do novo milênio, já sob a liderança de Carlos Ivan Simonsen Leal, que a Fundação Getulio Vargas tornou a voltar sua atenção para o ensino e a pesquisa no campo do Direito.

O

início da década de 2000, portanto, ficou marcado

Benzer Belgeler