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O enquadramento é um instrumento de preservação dos níveis de qualidade dos corpos de água, que considera que a saúde e o bem-estar humano, bem como o equilíbrio ecológico aquático, não devem ser afetados em conseqüência da deterioração da qualidade das águas. Também considera, que os custos do controle de poluição, podem ser melhor adequados, quando os níveis de qualidade, avaliados por parâmetros e indicadores específicos, asseguram seus usos preponderantes. O enquadramento dos corpos de água não se baseia, necessariamente, no seu estado atual, mas nos níveis de qualidade que deveriam possuir para atender às necessidades da comunidade. É um pacto estabelecido pela sociedade que viabiliza a compatibilização da relação entre a gestão dos recursos hídricos e a gestão ambiental, promovendo a proteção e a recuperação dos recursos hídricos. O enquadramento deve, de preferência, constar nos Planos de Recursos Hídricos,

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resultado de um processo de planejamento que estabeleça as prioridades de usos dos corpos hídricos (BRASIL, 2001).

LEAL (1998), considera o enquadramento um elemento de grande importância no processo de gestão, pois traduzem as diretrizes de uso definidas pela sociedade e pelos órgãos gestores para os corpos d’água e estabelece as correspondentes classes de uso e metas de qualidade adequada. Dessa forma, está intimamente ligado ao planejamento do uso do solo e também ao zoneamento ambiental.

O enquadramento dos corpos d’água em classes de usos é atualmente um dos instrumentos de gestão das águas e de gestão ambiental que possibilita a integração do seu controle quantitativo, sua proteção e sua preservação, com o ordenamento dos usos econômicos, ambientais e sociais das águas, bem como dos recursos naturais que interferem nos recursos hídricos (PORRÉCA, 1998). GUAZZELLI et al (1991) consideram a necessidade da interação de duas grandes áreas da engenharia no processo do estudo de enquadramento dos corpos d’água nas diferentes classes: a engenharia de recursos hídricos e a engenharia ambiental.

LEEUWESTEIN e NETTO (2001), fazem uma abordagem semelhante, consideram o enquadramento com um instrumento de planejamento que objetiva assegurar a qualidade de um seguimento de corpo hídrico correspondente a uma classe estabelecida. O instrumento faz também a ligação entre a gestão dos recursos hídricos e a gestão ambiental, promovendo a recuperação dos recursos hídricos.

4.4 Enquadramento dos corpos d’água no Estado de São Paulo

O equadramento dos cursos d’água, como estratégia de controle de poluição das águas em vigor no Estado de São Paulo, se baseia no estabelecimento de regulamentos que os poluidores efetivos ou em potencial devem cumprir. Um dos principais instrumentos dessa estratégia, conhecido como ‘’comando e controle’’, para racionalizar a luta contra a poluição das águas, é a fixação de objetivos de qualidade para todos os corpos d’água das unidades de planejamento, que geralmente são as bacias hidrográficas (GUAZZELLI et al, 1991).

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O enquadramento dos cursos d’água no território paulista foi estabelecido através da Lei 997/76 que dispõe sobre o Controle da Poluição do Meio Ambiente, de âmbito geral, envolvendo água, solo e ar.

A regulamentação da lei de controle da poluição (Lei 997/76) no que concerne a classificação do corpos d’água foi realizada através do Decreto Estadual 8.468/76. A abordagem da classificação das águas, foi estabelecido nos preceitos da Portaria Minter 013/76, instituída em instância federal. Vale ressaltar que o referido decreto também abordou padrões de qualidade do ar e do controle da poluição do solo.

O enquadramento efetivo dos cursos d’água em todo o estado, somente ocorreu no ano seguinte, em 1977, com o Decreto 10.755, conforme classificação prevista no Decreto 8.468/76, acima citado.

A partir de 1978, iniciou-se um amplo programa de monitoramento e controle de qualidade das águas interiores no estado, trabalho esse realizado pela Companhia de Saneamento Ambiental-CETESB, que divulga anualmente o resultado desse trabalho, onde são abordados os principais parâmetros indicadores de qualidade da água. Esse relatório trás ainda, um comparativo de conformidade de cada parâmetro de acordo com enquadramento do curso d’água monitorado. Esses dados serão a base para discussão no próximo capítulo.

4.5 Exemplos de classificação de corpos hídricos em outros países

LEEUWESTEIN e NETTO (2001), em uma abordagem da aplicação do instrumento de equadramento de corpos d’água em outros países, traz três exemplos da aplicação do mecanismo de classificação das águas como instrumento orientador de planejamento, a partir da definição de objetivos de qualidade de água, de um seguimento de um corpo hídrico correspondente a uma classe preestabelecida. Na seqüência, tem-se um resumo do resultado obtido pelos autores, o que nos permite um comparativo com o modelo de classificação aplicado no Brasil, considerando os aspectos institucionais e os parâmetros indicadores de qualidade estabelecido na atual legislação.

• Classificação das águas no Canadá

O Canadá conta com um sistema de Objetivos de Qualidade de Água-OQAs (Water Quality Objetives) com um dos fundamentos da Política Federal da Água, objetivando o

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gerenciamento da qualidade da água. Os Objetivos de Qualidade da Água são características físicas, químicas, biológicas e radioativas de água, da bióta ou do sedimento, baseadas na melhor informação científica possível. Esses objetivos são utilizados pra águas doces, salobras e salinas, e são somente desenvolvidos para corpos d’água que podem ser afetados por atividades antrópicas atuais ou futuras. Há quatro grupos de águas ligados aos objetivos: águas para abastecimento humano, recreação e estético, vida aquática e agropecuária (irrigação e dessedentação de animais). Tais Objetivos são baseados em Diretrizes de Qualidade do Meio Ambiente definidas em valores máximos ou mínimos de parâmetros físicos, químicos, biológicos e radioativos determinados para proteger o uso da água. Existem em vigor vinte diretrizes para os seguintes parâmetros: amônia, algas, alumínio, cloretos, fenóis, cobre, cianetos, fluoretos, chumbor, fósforo, mercúrio, coliformes fecais, molibidênio, nitrato, nitrito, oxigênio dissolvido, sólidos em suspensão, pH, PCB, PAH, prata, pressão total de gás.

Quando não existe informações suficientes para instituir OQAs, objetivos provisórios de qualidade de água podem ser estabelecidos, com valores de concentração mais conservadores. Esses objetivos devem ser acompanhados por um programa de monitoramento ou estudo, que resultará em OQAs finais.

• Classificação das águas na Inglaterra

A Inglaterra aplica padrões de qualidade da água para protege o meio ambiente aquático e seus usos desde 1912, introduzido pela Royal Commission Sewage Disposal. Inicialmente essa comissão propunha uma classificação baseada na demanda bioquímica de oxigênio (DBO) e estabeleceu limites para efluentes domésticos. No âmbito institucional, o Departamento do Meio Ambiente, Transporte e Regiões é responsável pela legislação de águas subterrâneas e superficiais, incluindo água potável, e estabelece padrões ambientais de qualidade. A Agência do Meio Ambiente tem como competência implementar a política, proteger e melhorar o meio ambiente com um todo. A agência monitora a qualidade de água, tendo estabelecido, para cada trecho e para todos os rios do país, Objetivos de Qualidade de Rio. Esses objetivos procuram refletir as necessidades atual e futura dos usuários.

O sistema de classificar rios inclui testes de toxicidades e limites para oxigênio dissolvido (OD), demanda bioquímica de oxigênio (DBO) e amônia total baseados em

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valores de percentis de 95%. A classificação esta baseada em cinco classes de qualidade conforme quadro 4.11.

Quadro 4.11 Classe de rios na Inglaterra ( LEEUWESTEIN e NETTO, 2001)

Classe Usos

1 A – Qualidade boa Água não tóxica para peixes e apropriada para abastecimento público, pescaria e lazer.

1 B – Qualidade boa Água não tóxica para peixes e de qualidade inferior a 1 A, mas com os mesmos usos.

2 – Qualidade regular Água não tóxica para peixes e apropriada para abastecimento público de pois de tratamento avançado. Apropriada, razoavelmente para pesca e lazer. 3 – Qualidade pobre Água poluída sem peixes ou com poucos peixes, apropriada para indústria.

Potencial considerável para uso, se forem desenvolvidas ações. 4 – Qualidade Ruim Água muito poluída, causando incômodos.

• Classificação das águas no Japão

O processo institucional de controle da poluição hídrica no Japão ocorreu no final da década de 60, com a Lei Básica para Controlar a Poluição Ambiental em 1967. O controle específico da poluição das águas, através de lei, iniciou-se a partir de 1978, objetivando, especialmente, a proteção das águas estuarinas contra poluição orgânica. A Agência do Meio Ambiente do Japão é o órgão responsável pelo estabelecimento dos padrões para os corpos d’água, que os encaminha para aprovação ao Conselho Central de Meio Ambiente.

Os padrões têm por objetivos a proteção da saúde humana e a conservação da biota. O padrão de qualidade de água para consumo humano está referenciado em 48 constituintes potencialmente tóxicos, instituídos para todos o corpos d’água a ser aplicado em todo território nacional (quadro 4.12). Quanto à conservação da biota, rios e lagos, há um sistema de classificação com base nos uso de água (quadro 4.13).

Quadro 4.12 Classe de rios no Japão ( LEEUWESTEIN e NETTO, 2001)

Classe Usos

Classe AA Abastecimento doméstico, após tratamento simplificado e preservação ambiental. Classe A Abastecimento doméstico, após tratamento convencional; aqüicultura (água

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cont. do quadro 4.12

Classe Usos

Classe B Abastecimento doméstico após tratamento avançado e aqüicultura (água oligossapróbica). Classe C Água para uso industrial, requerendo tratamento regualar por meio de sedimentação etc.,

e aqüicultura (água mesossapróbica).

Classe D Água para uso industrial, requerendo tratamento avançado por meio de processo químico, e irrigação.

Classe E Água para uso industrial, requerendo tratamento especial, e manutenção ambiental.

Nota: Parâmetros: pH, DBO, sólidos e suspensão e coliforme fecais

Quadro 4.13 - Classe de lagos e reservatórios no Japão ( LEEUWESTEIN e NETTO, 2001)

Classe Usos

Classe AA Abastecimento doméstico, após tratamento simplificado, aqüicultura (água oligossapróbica), e preservação ambiental.

Classe A Abastecimento doméstico, após tratamento convencional ou avançado; aqüicultura (água oligossapróbica) e recreação de contato primário.

Classe B Irrigação, aqüicultura (água mesossapróbica) e uso industrial, requerendo tratamento regular por meio de sedimentação.

Classe C Manutenção ambiental e uso industrial, requerendo tratamento regular por meio de tratamento químico.

Nota: Parâmetros: pH, DQO, sólidos e suspensão e coliforme fecais

A legislação japonesa prevê o enquadramento de lagos, reservatórios e áreas úmidas para evitar o processo de eutrofização. Este sistema de classificação está fundamentado apenas nos parâmetros nitrogênio e fósforo total (quadro 4.14).

Quadro 4.14 Classe de lagos e reservatórios no Japão ( LEEUWESTEIN e NETTO, 2001)

Classe Usos

Classe I Preservação ambiental.

Classe II Abast. doméstico, aqüicultura (água oligossapróbica), e recreação de contato primário. Classe III Abastecimento doméstico, após tratamento avançado.

Classe IV Aqüicultura (água mesossapróbica).

Classe V Aqüicultura (água mesossapróbica) e uso industrial, irrigação e preservação ambiental.

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• Comparativo dos sistemas de classificação:

LEEUWESTEIN e NETTO op cit. consideram que, em geral, os padrões de qualidade d água do Canadá e do Japão são mais rígidos de que os usados no Brasil, conforme indica o quadro 4.15 . A Inglaterra usa, em alguns casos, limites mais flexíveis do que a Resolução Conama 20/86, por exemplo, o parâmetro oxigênio dissolvido é referido em percentis (60 a 80% do limite saturação), enquanto a legislação brasileira adota limites mínimos por classe. A legislação brasileira considera um número maior de parâmetros (76 indicadores de qualidade) para a definição do enquadramento, enquanto que o Japão adota um universo maior de classes de uso, distinguindo corpos hídricos lóticos (rios) e ambientes lênticos (lagos e reservatórios), totalizando 15 classes de uso.

Quanto aos aspectos institucionais, participativos e econômicos, Inglaterra e Japão, são mais centralizadores nas decisões, pois os processos de enquadramento não contam com a participação da sociedade, e não são considerados os aspectos econômicos na definição das classes. O enquadramento é definido pelos órgãos centrais, e as decisões se transformam e norma jurídica.

Os autores consideram, o processo de enquadramento instituído no Canadá como o mais completo. A participação social no estabelecimento dos Objetivos de Qualidade de Águas (OQAs) ocorre em três fases do processo: audiências públicas, caracterização da bacia e de suas condições ambientais, aprovação e revisão dos OQAs. Os aspectos socioeconômicos também são considerados no processo de definição dos objetivos. No entanto os OQAs não têm força de lei no Canadá.

Quadro 4.15 – Comparativo de sistema de enquadramento ( LEEUWESTEIN e NETTO, 2001)

País Nível Classes Total de Parâmetros Total de Participação Social Econômicos Aspectos Jurídica Força

Brasil Nacional/Regional 9 76 sim não sim

Canadá Nacional/Regional 4 20 sim sim não

Inglaterra Nacional 5 8 não não sim

(1) 6 5

Japão

(2) Nacional 9 7 não não sim

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CAPÍTULO 5

ASPECTOS AMBIENTAIS E ENQUADRAMENTO DOS CORPOS

D’ÁGUA NA BACIA DO RIO CORUMBATAÍ

Benzer Belgeler