PROFESYONEL GAZETECİLERİNİN TANIKLIĞINDA MEDYA İKTİDAR İLİŞKİSİ (2002-2015)
3.3. Medya kuruluşları ile siyasal iktidar arasındaki ekonomik ilişkiler
O que fica claro na história da imigração judaica é que apesar das dificuldades vividas onde se instalavam, os judeus acabavam criando o seu modus vivendi. De ascendência ashkenazim, pois seus pais vieram da Bessarábia, região pertencente à antiga Rússia czarista, o escritor Moacyr Scliar reflete sobre essa questão em muitas de suas obras. Em Meu filho, o Doutor, por exemplo, Scliar conta que, apesar das perseguições e dos massacres contínuos vivenciados pelos judeus no Império czarista, eles desenvolveram ali uma rica cultura que está “representada na música, na pintura e sobretudo no folclore, permeado do chamado humor judaico, um humor melancólico, filosófico, que representava uma forma de defesa contra o desespero” (2001e:18). Como ressaltado anteriormente, os judeus ashkenazim habitaram, principalmente, o sul do país, sendo trazidos pelos dirigentes da Colônia Philippson, inaugurada em 1904, no município de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
No ensaio Entre Moisés e Macunaíma, encontramos o seguinte comentário de Scliar:
A vida nas colônias acabou gerando uma cultura própria, síntese da bagagem cultural trazida pelos emigrantes e dos costumes locais. Essa cultura girava não apenas em torno à sinagoga e à celebração das festas judaicas, mas também das orquestras de amadores que ali se formaram, dos grupos de teatro, e mesmo de uma produção literária que mais tarde viria à luz em forma de relatos sobre o cotidiano dos colonos (SCLIAR, 2000a:41).
Vemos, assim, que em Moacyr Scliar o novelo das reminiscências é puxado pela memória da infância, da qual emerge o período da imigração, fazendo cruzar as histórias do imigrante judeu e do povo brasileiro, singularizado pelas características regionais, como quer Luiz Antônio Aguiar: “[...] aos poucos foi se formando aqui uma paisagem original com a presença judaica: ‘judeus de bombachas’, judeus tomando chimarrão: eram los gauchos judíos” (AGUIAR, 2000:8). Portanto, fruto híbrido dessa mistura, Scliar lança mão dessas memórias para criar seus personagens e enredos. Quase sempre apresenta um narrador de olhar perscrutativo sobre a realidade, um observador ou um estranho que chega e quer lutar pela adaptação e integração. Para Scliar,
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[...] O olhar do recém-chegado não é igual ao olhar do nativo; ele vê coisas que o outro não vê, fissuras e pertuitos na estrutura social. Por aí ele pode se introduzir para desenvolver novos e insuspeitos ramos da atividade, como os imigrantes judeus nos Estados Unidos que descobriram no recém-criado cinema não apenas o brinquedo desprezado pela aristocracia local, mas a base de uma poderosa indústria cultural. O projeto, porém, pode ser outro, se o olhar vê sobretudo distorções e injustiças; o projeto pode ter como objetivo a radical transformação da sociedade. [...] (SCLIAR, 2000a:59).
A literatura de imigração representa esse olhar que projeta uma nova realidade. Daí vem a abertura para o outro, para a História, mas ela é composta de uma linguagem em que a ironia, a paródia, a intertextualidade, o dialogismo e a polifonia se complementam. Quase sempre o recurso utilizado para exprimir a mescla dessas linguagens parte do deslocamento do sujeito narrador. Para Bakhtin, a interação verbal constituída no texto só pode ser entendida pelo deslocamento do conceito de sujeito, que é realizado pela interação dialógica. Desse modo, “o sujeito deixa de ser o centro da interlocução que passa a estar não mais no eu nem no tu, mas no espaço criado entre ambos, ou seja, no texto”. Descentralizado, o sujeito “é substituído por diferentes (ainda que duas) vozes sociais, que fazem dele um sujeito histórico e ideológico” (BARROS, 1994:3).
Por isso, faz-se presente o recurso da paródia, da ironia e do intertexto, por exemplo. Conforme já foi mencionado no presente estudo, Linda Hutcheon, ao analisar obras de autores americanos numa perspectiva pós-moderna, observa que o uso de vários recursos discursivos e estilísticos, como material histórico e textos canônicos da literatura, como também elementos da cultura popular, presentes na ficção americana, parodiam a realidade histórica e narrativa. Ela explica ainda que, ao criar um novo estilo em que entrecruzam muitos discursos, os escritores rompem com a tradição já consagrada, questionando sujeito, subjetividade, discurso e História na própria trama que enuncia e, desse modo, encenam “a tendência totalizante de todos os discursos no sentido de criar sistemas e estruturas” (HUTCHEON, 1991:174). Desse modo, o romance apresenta possibilidades críticas da realidade histórica e da própria historiografia literária, no sentido de apresentar questionamentos sobre “a natureza, os limites e as possibilidades do discurso da arte” (HUTCHEON, 1991:42), traduzindo-se numa tentativa de resgatar o que ficou marginalizado pelo discurso da História. Aliás,
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algo semelhante é ressaltado por Jacques Le Goff no ensaio “Memória”. Segundo ele, a primeira das quatro regras mnemônicas formuladas por Tomás de Aquino indica que:
É necessário encontrar “simulacros adequados das coisas que se deseja recordar” e “é necessário, segundo este método, inventar simulacros e imagens porque as intenções simples e espirituais facilmente se evolam da alma, a menos que estejam, por assim dizer, ligadas a qualquer símbolo corpóreo, porque o conhecimento humano é mais forte em relação aos sensibilia; por esta razão, o poder mnemônico reside na parte sensitiva da alma”.[...] A memória está ligada ao corpo. (LE GOFF, 2003:449)
Pode-se afirmar, portanto, que a narrativa literária re-encena a narrativa histórica, pois ficção e realidade nela se coadunam, manifestando-se, ao mesmo tempo, o imaginário e o factual. Configurando e refigurando uma outra realidade, a prosa de ficção ou o romance retoma a História não para interpretá-la ou reconstruí-la, mas para recuperá-la como acervo cultural, como quer Bella Jozef. Há que se ressaltar ainda que o fato histórico, em sua condição de signo móvel, integra-se ao contexto espacial do presente (cf. JOZEF, 1991).
O deslocamento dos signos implica também o deslocamento das vozes, dos vários sujeitos que investigam o passado, promovendo o diálogo presente/passado, instaurando-se uma consciência reflexiva que apresenta, quase sempre, a incompletude da História. Nesse sentido, os escritos de Bakhtin se atualizam no romance, e para nós, especialmente no romance de imigração judaica. Segundo Bakhtin, “tudo que é dito, tudo que é expresso por um falante, por um enunciador, não pertence só a ele” (apud BRAIT,1994:14). E assim, o dialogismo, a polifonia, a citação, a intertextualidade são recursos de que se valem alguns escritores representantes da chamada literatura de imigração para retratar a voz da “corvéia anônima”, para denunciar as distorções e as injustiças sociais silenciadas pela História oficial. Ou ainda, os recursos discursivos de linguagem servem para imprimir uma nova realidade e fazer voar a imaginação21, trazendo emoção para o texto.
Mescla de vozes, de imagens e de deslocamentos dos sujeitos no discurso, a escritura de Moacyr Scliar, sempre calcada na memória, é também paradoxal. Ao
21 Remeto o leitor para entrevista de Moacyr Scliar, concedida ao jornal O Estado de Minas, em 05 de junho de 2005, veiculada no caderno “Cultura”.
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mesmo tempo que descentraliza o sujeito narrador e faz emergir do texto vozes que subvertem a cronologia histórica, Scliar resgata da memória a tradição de seus antepassados, como um mecanismo de auto-reflexão sobre o homem, a sociedade e sobre as arbitrariedades do discurso.
Em A Majestade do Xingu, os deslocamentos se dão pela voz narrativa que permite o cruzamento da História e da memória, refletidos nas lembranças pessoais do narrador que intercambiam, não apenas os fatos de sua história pessoal, mas também as experiências e acontecimentos históricos referentes a uma época, como a história da imigração judaica, por exemplo, e a trajetória dos imigrantes no bairro do Bom Retiro em São Paulo, onde situa a loja A Majestade. É também por essa loja, espaço que fecunda a imaginação do narrador, “que se monta um painel que recobre várias décadas da história recente do Brasil, passando pelo extermínio dos índios, a luta dos militantes comunistas e o golpe militar em 1964” (WALDMAN, 2003:110). É, portanto, pelos deslocamentos da memória e do sujeito que as cenas do livro são montadas e apresentadas ao leitor como um leque de opções em que várias histórias são recontadas, emergindo daí o resultado entre o velho e o novo, o passado e o presente, a memória e a tradição. Não se deve deixar de lembrar, no entanto, que o ziguezague desses eventos é realizado pela voz narrativa, objeto de estudo do Capítulo II.
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