MEDYA DEMOKRASİ-İKTİDAR İLİŞKİSİ
2.2. Cumhuriyet’ten 2002’ye basın iktidar ilişkis
2.2.2. Çok partili sistemde basın-iktidar ilişkisi (1946-1980)
É com tom de segredo revelado (gradualmente) que Paes escreve “O amigo dos bilhetes”. Se o título não anuncia o parceiro, também se faz esquiva a primeira página do ensaio, sendo que o autor revela só no final o parceiro epistolar – apesar de “falar de carta, no caso de escritor tão conciso quanto ele, é positivamente um exagero.”. (PAES, 1999, p. 141).
O texto “O amigo dos bilhetes” ocupa-se então em comentar alguns episódios que José Paulo teve com um conhecido contista de Curitiba, no período em que morou no sul para estudar química. Episódios curiosos ocorridos em noitadas são alguns dos tópicos descritos, que servem de mote para o ensaísta mencionar novamente (como o fez em sua autobiografia130) a motivação de escrever o “Balada do Belas-Artes”: “Tentei preserva- lhe [o estabelecimento comercial] a lembrança numa balada” (PAES, 1999, p. 139).
Mas o objetivo principal do texto é trazer um pouco da relação que o paulista teve com o autor de A faca no coração; é trazer à luz “cartas-haicais” (reciprocamente elogiosas), pois seria um “ato de no mínimo sovinice escondê-lo do mundo”, mas que é feito com parcimônia “para não levar mais longe o censurável ato de inconfidência que sempre é tornar pública uma correspondência originariamente privada”. (PAES, 1999, p. 143, 142). Desse modo, José Paulo lembra episódios que julga fundamentais para sua formação e para sua relação com outros autores, tais como Dalton Trevisan. Assim, tal ensaio seria o que Weinberg chama de o lugar de “encontro simbólico, o lugar do diálogo e da amizade intelectual.”. (WEINBERG, 2012, p. 29). O misto de afeto e interpretação traz à tona a hibridez dessa tipologia, a qual pode ser contemplada como um “espaço textual de encontro, confluência, diálogo de diálogos, apropriação criativa de leituras e representação de práticas discursivas assim como modos de sociabilidade intelectual”. (WEINBERG, 2012, p. 30).
Em “El lugar del ensayo”, a professora da Universidade Nacional Autónoma do México discorre sobre aspectos do gênero em questão, dizendo que recorrentemente ele
descreve o que entende por real, a partir de um ponto de vista, atribuindo um sentido ao mundo, às relações estabelecidas nele. O ensaio pode ser encarado como um diálogo, um reconhecimento do outro, um diálogo de amizade e de liberdade, o que permitiria construção do conhecimento, com um olhar crítico (cf. WEINBERG, 2012, p. 20, 21). O contato entre Paes e Trevisan pode ser um exemplo do conceito de “poética da relação”, trazido de Édouard Glisssant por Liliana Weinberg. Essa prática tiraria uma interação de uma opacidade, de esquecimento e/ou anonimato, para um “permanente esforço de salvação do particular e do distinto, na vinculação entre homem e mundo”, construindo uma “sociabilidade intelectual”. (WEINBERG, 2012, p. 32, 31). Tal ideia, afirma Glissant, asseguraria um contato atento ao diverso, feito por aquele que tem a necessidade “de consentir la diferencia de lo otro” (GLISSANT apud WEINBERG, 2012, p. 32). Isto é, por meio da escrita ensaística seria possível, no plano do discurso, trabalhar aproximações, afinidades intelectuais; como se dois mundos (dois escritores, por exemplo, em seus repertórios diversos e consonantes) dialogassem, como sugere a professora, citando o autor de Ensaios: “nuestro mundo acaba de encontrar otro...”. (MONTAIGNE apud WEINBERG, 2012, p. 33).
A escrita acerca desses contatos traz à luz leituras que, por exemplo, autores fazem uns dos outros, resultando em ensaios que se originaram em função de textos pregressos (como ocorre, no caso em pauta, com as cartas trocadas entre o paulista e o paranaense). Os episódios, relativos às cartas em questão, podem (além de verbalizar tal amizade e parceria) reforçar um valor, um juízo sobre a obra de Paes, como o curitibano faz acerca dela: “A mim então, chegado a um haicai, os seus versos perfeitos me dão arrepio no céu da boca e tintilam o terceiro dedinho do pé esquerdo.”. (TREVISAN In: PAES, 1999, p. 143). Obviamente, não se diz aqui que José Paulo precisa de artifícios de autopromoção; diz-se que com tal citação há o reforço de uma imagem (como a do poeta da concisão131). Como argumenta Leila Perrone-Moisés, escritores-críticos132 tendem a ler, traduzir e criticar aquilo que, de certo modo, endossa a própria obra, o que é feito, por exemplo,
131Alfredo Bosi (1986, p. 19) fala de uma “concisão telegráfica” ao ler Epigramas.
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Esse conceito da autora diz respeito àqueles que: a) fazem crítica com regularidade; b) seriam vistos como de vanguarda; c) têm uma preocupação pedagógica (expresso no ensino de literatura, em publicação de manifestos, na elaboração de revistas; d) são poliglotas, cosmopolitas; e) são tradutores. (PERRONE- MOISÉS, 1998, p. 12).
por meio do ensaio. (cf. PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 14). Assim, à luz de Erza Pound, a professora da USP explicita que seria o leitor o indivíduo a dar valor (que não é documental, filológico) ao passado, mas um “valor atual do passado”. E dependendo de como faz, pode-se colocar o atual como condição para a existência do passado, como o fez Borges em “Kafka e seus precursores”. (cf. PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 32).
Desse modo, a leitura poderia ser uma escritura, estabelecendo relações como é salientado por Philipe Sollers. Este teria buscado, em seu processo de leitura e escritura, as bordas, aquilo que ficou de fora da história literária oficial, em nome de uma “normalidade ditada, como autodefesa, pela ideologia dominante: os textos considerados como místicos, pornográficos, loucos”. (PERRONE-MOISÉS, 1998, p. 50). Esse olhar atento àquilo que está além da borda é um dos focos de Paes, o qual procurou, com a literatura erótica, por exemplo, lançar luz a um segmento que o paulista via como recorrentemente pouco difundido. De modo menos evidente, poder-se-ia incluir aí a ideia de estranhamento que perpassa a maioria dos ensaios de O lugar do outro. Os personagens insólitos, marginas; as vozes abafadas; a outridade no romance, são alguns exemplos que corroboram esse olhar que o escritor-crítico José Paulo constrói em seu livro.
O exercício memorialístico em “Um crítico contra corrente” tem como objeto Wilson Martins (mais precisamente os quinze volumes em que são reunidos seus rodapés de críticas a partir de 1954), e o ensaio tem como objetivo salientar a importância, para Paes, do que seria o “último moicano da nossa crítica literária”. (PAES, 1999, p. 119). Isso porque ela teria perdido seu valor com o desaparecimento dos Suplementos Literários, segundo o ensaísta de Taquaritinga.
Para José Paulo, o autor de História da inteligência brasileira teria inúmeros méritos, tais como ter constatado, pioneiramente, o valor do contista Dalton Trevisan, ou ainda o de perceber e reivindicar o caráter precursor de Monteiro Lobato133 no modernismo, já que a personagem Emília, de O sítio do pica pau amarelo, seria “um avatar mirim do herói da rapsódia mário-andradina”. (PAES, 1999, p. 122). Outros 133
Ambos os autores (Trevisan e Lobato) são elogiados por Paes em O lugar do outro. Assim, é possível deduzir que José Paulo acaba reforçando aquilo que Perrone-Moisés diz sobre escritores críticos lerem os autores que reforçam a própria obra.
destaques feitos dizem respeito à “lucidez e ceticismo (...) competência, maturidade intelectual e paixão literária sem a qual não há, tampouco, a boa crítica.”. (PAES, 1999, p. 120). Essas características foram arroladas por Wilson Martins elogiando um biógrafo de Lúcio Cardoso. E elas são, para José Paulo, características do texto de Martins, o que corroboraria o raciocínio de Leyla Perrone-Moisés de que os escritores críticos acabam lendo o que legitima sua obra134.
Comedidamente, Paes ressalta aquilo que Martins lhe soa menos exitoso, como a aversão a vanguardas (como o Concretismo ), ao pensamento de esquerda – aspectos que o ensaísta de Taquaritinga chama eufemisticamente de “idiossincrasias”. O autor de O
lugar do outro faz então uma homenagem ao crítico morto em 2010.
Um dos poucos ensaios em que não há a abordagem de algum tipo de estranhamento, ainda que indiretamente, é “Um alucinar quase lúcido”, texto no qual José Paulo discorre sobre Novolume, livro de Rubens Rodrigues Torres Filho. O ensaísta comenta que a ironia seria a “faculdade-mestra a governar todas as aporias da poética de Torres filho.”. (PAES, 1999, p. 118). Parte considerável da poesia do autor ainda seria marcada por certa “criptografia”, como numa “subjetividade esquiva”. (PAES, 1999, p. 115). Haveria ainda traços que aparentemente coincidem com a poesia paesiana, como os “saltos da ‘matéria autobiográfica’ para a ‘particularidade dos objetos’” e os momentos de “suspensão reflexiva” ou dos trocadilhos que revelam uma relação crítica e reflexiva do eu com o mundo (cf. PAES, 1999, p. 116, 117). Tal coincidência poderia corroborar o raciocínio de Leyla Perrone-Moisés (1990), no qual a autora afirma que os escritores críticos acabam lendo – e escrevendo sobre – autores que os legitimam. Com isso, eles constroem um cânone que é formado a partir de valores a serem perpetuados. (PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 173). Dentre os diversos valores135 citados pela autora de
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No caso, Wilson Martins não é tomado, obviamente, como escritor de texto literário. A proposta aí é pensar num desdobramento do raciocínio de Perrone-Moisés, isto é, de que a matéria (chanceladora) lida pelo escritor-crítico não precisa ser necessariamente literária. Destarte, um crítico que lê textos críticos, biográficos (ou naturezas textuais outras) pode vir a endossar o próprio trabalho com tais leituras. Com isso, seria possível pensar que essas características (como o ceticismo, a paixão literária, a maturidade citados por Martins) estão presentes na crítica paesiana, ou que elas são atributos almejados.
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Perrone-Moisés (1990, p. 155 – 173) elenca dez valores, para os escritores-críticos, que a literatura deveria ter. Dentre essas noções estão a maestria técnica, a concisão, a exatidão, a visualidade e a sonoridade, a intensidade, a completude e a fragmentação, a intransitividade, a utilidade, a impessoalidade, a universalidade, a novidade.
Altas Literaturas, poder-se-ia destacar a maestria técnica (relacionada à citada
preocupação para com a linguagem, que se revelaria na relação crítica e reflexiva do eu com o mundo) já que ela ajudaria o povo a “voltar ao real”, pois os populares constantemente transformariam em jargão os editoriais e as falas dos ancestrais.136 (cf. PERRONE-MOISÉS, 1990, p. 155).
A ironia, a metalinguagem contida, o olhar voltado para si na relação do eu para com o mundo, e o atravessamento da voz poética no eu autobiográfico são aspectos da poesia de Torres Filho sobre os quais José Paulo se debruça, mas que poderiam ser sobrepostos na poesia paesiana. Tal aproximação, como exposto no primeiro capítulo da tese, é enunciada por José Paulo em sua autobiografia ao falar de poemas tais como “A casa”, “Balada do Belas-Artes”, “À minha perna esquerda”.