2.5. S PİNAL K ORD YARALANMASİNDA TEDAVİ YAKLAŞIMLARI
2.5.1. Medikal Tedavi
Na primeira década do século XX, questões políticas ocasionam atrito entre o Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior e o Diretor da Diretoria de Higiene, órgão vinculado àquela secretaria, no que se refere à tuberculose e ao estabelecimento de sanatórios para o tratamento dessa doença.
A criação de hospitais estava vinculada à necessidade de local para o tratamento de tuberculosos, considerando-se que em 1902 os óbitos devidos a essa doença chegaram à cifra de 60% do total de óbitos da cidade de Porto Alegre195. Neste sentido, tal enfermidade foi a
191
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Antônio Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Officinas Typographicas de Emilio Weidemann & Filhos, 1904. p. 12.
192
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Antônio Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr.José Barbosa Gonçalves. Secretário Interino dos Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Typographia da Livraria do Globo, 1905. p. 13.
193
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Antônio Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior ,1904. Porto Alegre. Officinas Typographicas de Emilio Weidemann & Filhos. p. 195.
194
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Carlos Barbosa Gonçalves pelo Dr. Protásio Alves, Secretário da Secretaria de Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Officinas Gráficas da Livraria do Globo, 1908. p. 14. 195
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Antônio Borges de Medeiros pelo Dr. Protásio Alves, Secretário da Secretaria de Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Officinas Typographicas de Emilio Wiedemann & Filhos, 1906. p. 381.
principal causa de óbitos durante a primeira década do século XX. Na cidade de Porto Alegre a mortalidade, por essa doença chegava a um óbito diário196.
O médico Protásio Alves, Diretor de Higiene, reiterava a necessidade da criação de sanatórios para o tratamento dos tuberculosos197. Afirmava que esse melhoramento acarretaria o cuidado de doentes que, outrossim, seriam abandonados ao seu meio habitual, diminuindo o contágio. Por último, a educação recebida no sanatório refletiria na população, ao reduzir desta maneira a possibilidade de contágio pelos doentes nos domicílios198. A importância da presença de hospitais em cidades localizadas no interior do Estado foi demonstrada em Santa Maria, onde um “acontecimento capital é a inauguração de hospital”199.
O Secretário João Abbott discordava de Protásio Alves sobre a necessidade de criar sanatórios ou colônias para o tratamento de tuberculosos. Conforme Abbott, seria “uma tirania” retirar o cidadão do convívio familiar e interná-lo em uma colônia. Esse último considerava que a medida de maior alcance prático e exeqüibilidade seria
...só a propaganda incessante feita pela nobre classe médica, instruindo e educando..., a indicação constante dos meios preventivos para não adquiri-la, os conselhos repetidos para serem evitados, as causas de depauperamento orgânico que se não se manifesta no indivíduo vai ter repercussão na prole, os perigos do alcoolismo com causa do desaparecimento e de moléstia etc200.
João Abbott indicava à iniciativa privada a criação de hospitais, salientava a questão da liberdade individual e a ausência de interferência do Poder Público em questões de saúde.
196 Relatório apresentado ao Sr. Dr. Antônio Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr.José Barbosa Gonçalves. Secretário Interino dos Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Typographia da Livraria do Globo, 1905. p. 208.
197
A criação de hospitais está vinculada à necessidade de local para tratamento de tuberculosos considerando-se que em 1902 os óbitos devidos à tuberculose chegarem à cifra de 60% do total de óbitos da cidade de Porto Alegre. Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros pelo Dr. Protásio Alves, Secretário da
Secretaria de Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Officinas Typographicas de Emilio Wiedemann & Filhos, 1906. p. 381.
198
Relatório do Dr. Diretor de Hygiene. In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, 1903. p. 221.
198
Relatório do Dr. Diretor de Hygiene. In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, 1903. p. 223-224.
199
Relatório da Directoria de Hygiene (Protásio Alves). In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de
Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos
Negócios do Interior e Exterior, 1904. Porto Alegre. Officinas Typographicas de Emilio Weidemann & Filhos. p. 200.
200
Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, 1901. Porto Alegre: Typographia a vapor da Livraria do Globo, p. 9-10.
Em sua declaração, observam-se as questões climáticas, a altitude, a composição do ar relacionadas à higiene. De acordo com esse médico,
[...] possui o Rio Grande zonas belíssimas, em pontos de grandes altitudes, onde qualquer hospital e casa de saúde seria gostosamente procurado pelos enfermos, ou onde o governo colocaria a sua expensa os indigentes que quisessem e tivessem necessidade de buscá-los. Por esse modo atender-se-ia o bem público, sem o sacrifício da liberdade do indivíduo e de seu bem estar e da família201.
As providências tomadas contra a tuberculose constavam de desinfecção dos locais onde moravam os enfermos, de acordo com regulamento sanitário, a fim de se evitar a propagação da doença. É curioso notar que o clima interferia na escolha do local para o tratamento.
Acreditava-se, no início do século, que o alcoolismo e a sífilis estavam vinculados à tuberculose e a outras doenças. A “ação morbigênica da sífilis” e do alcoolismo interfeririam nas causas do elevado índice de tuberculose e das doenças do aparelho circulatório. Ao ser alegado que a ação defensiva da higiene pública encontrava-se impotente e desarmada, nos casos de sífilis e de alcoolismo e em relação às outras doenças, transferia-se a responsabilidade de origem dessas enfermidades e suas conseqüências à esfera individual e doméstica. Assim era afirmado que ao álcool e à sífilis “se deva atribuir não só a mortinatalidade e mortalidade infantil, como a maior parte dos casos de moléstias dos vários aparelhos e a tuberculose, insaciável Minotauro que flagela a população rio-grandense”202.
Observa-se, neste período, uma maior preocupação com a saúde infantil, e as implicações da higiene sobre a saúde escolar são enfatizadas. Começa-se, aqui, a se constatar uma preocupação com a alta mortalidade infantil e com a influência da sífilis neste indicador.
No relatório de 1900, a elevada mortalidade infantil foi salientada em informação proveniente de Jaguarão pelo Delegado de Higiene desta cidade e de Santa Vitória do Palmar. Carlos Barbosa Gonçalves constatou “enorme contigente obituário de crianças até a idade de dois anos” que alcançou quase a metade da cifra total de óbitos. A causa deste fenômeno foi
201
Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo
Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior, 1903. p. 7. 202
Relatório da Delegacia de Hygiene de Uruguaiana, 1900. In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges
de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos
Negócios do Interior e do Exterior, 1900. Porto Alegre: Officinas Typographicas da Livraria Americana, 1900. p. 493-494.
computada à amamentação artificial precoce, feita com alimentos impróprios e de má qualidade203.
No final da década ampliou-se o estudo para a compreensão dos dados contidos nos relatórios, sobretudo no conteúdo dos gráficos dos boletins anuais de estatística demógrafo- sanitária. Em relação à situação de saúde infantil, foi constatado que 33% dos óbitos ocorridos na cidade de Porto Alegre ocorreram em crianças menores de dois anos.204 Os casos de sífilis congênita eram elevados como demonstra o Boletim Anual de Estatística Demógrafo- Sanitária205.
A mortalidade infantil, para o Diretor de Higiene, poderia ser diminuída: “é verdade que pouco cabe diretamente ao Poder Público; indiretamente, porém muito poderá ele fazer; e esta diretoria já está pondo em prática as medidas de caráter persuasório que julga cabível”. Já, para a tuberculose, “a ação frenadora da higiene oficial é a mais clara aplicação”206.
Entre as medidas a serem tomadas, para reduzir a mortalidade infantil, constam:
além de outros meios indiretos conviria o poder público ir em auxílio da iniciativa particular dotando com sua atenção as organizações protetoras da infância, protegendo fisicamente as gestantes no termo da gravidez e a mãe logo após o parto. Os elevados números de natimortos exigem uma providência nesse sentido bem como por de sobreaviso a autoridade policial207.
Esta caracterização policial da prevenção da mortalidade infantil, associada com as interferências educativas nos tratamentos de tuberculose e da sífilis, enfatiza a eficaz capacidade de intervenção de distintos órgãos institucionais utilizados para alterar as condutas
203
Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul, pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e do Exterior, 1900. Porto Alegre: Officinas Typographicas da Livraria Americana, 1900. p.485.
204
Relatório apresentado ao Sr. Dr.Carlos Barbosa Gonçalves, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. Protásio Alves, Secretário dos Negócios do Interior e Exterior, 1909. Porto Alegre. Officinas Typographicas da Livraria Universal de Carlos Echenique. p. 244.
205
Boletim annual de estatística demographo-sanitária. In: Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de
Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos
Negócios do Interior e Exterior, 1903. 206
Relatório apresentado ao Sr. Dr. Carlos Barbosa Gonçalves, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. Protásio Alves, Secretário dos Negócios do Interior e Exterior, 1909. Porto Alegre. Officinas Typographicas da Livraria Universal de Carlos Echenique. p. 244-245.
207
Relatório apresentado ao Sr. Dr.Carlos Barbosa Gonçalves, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. Protásio Alves, Secretário dos Negócios do Interior e Exterior, 1910. Porto Alegre. Officinas Typographicas da Livraria Universal de Carlos Echenique,
dos sujeitos subalternos, a fim de ajustá-los ao modelo de cidadão desejado pela pax positivista208.