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2.5. S PİNAL K ORD YARALANMASİNDA TEDAVİ YAKLAŞIMLARI

2.6.2. Antioksidan Etki

Nos discursos sobre os nativos americanos feitos por viajantes, no século XIX, constata-se que os elementos de enunciação referentes aos indígenas são feitos de forma a apresentá-los como seres inferiores, primitivos e incivilizados em relação à progressista, madura e civilizada Europa. Esta explicação segue os preceitos dos evolucionistas que consideravam ser esse o estágio inferior de barbárie, dentro da evolução da humanidade, estando esta etapa da vivência indígena em conformidade com os hábitos, com os costumes e com as necessidades de uma fase primária de sociabilidade, a qual a Europa já havia superado229.

O engenheiro belga Pierre Mabilde, que teve o seu relato publicado em Viena no final do século XIX, ao se deslocar pelo interior da Província do Rio Grande do Sul (1848-1866), comparou os índios coroados, com quem conviveu, aos mongóis. Nas semelhanças

227

DOUGLAS, Mary. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976. p. 53-55. 228

GAUER, Ruth C. Da diferença perigosa ao perigo da igualdade: reflexões em torno do paradoxo moderno. Texto xerografado, set. 2005.

229

LAROQUE, Luís Fernando da S. O discurso sobre os nativos americanos: percorrendo a trilha de um viajante. Histórica Unisinos, São Leopoldo, v. 4, n. 2, p. 180-1, 2000.

encontradas, em que utilizou medidas como o ângulo facial, a respeito do caráter dos indígenas considerou que esses possuíam má índole, eram desconfiados, preguiçosos, pouco habituados ao trabalho, ambiciosos, astutos, simulados, traidores, egoístas e orgulhosos.230 O referido autor acreditava que a falta de segurança originária dos contatos com os brancos influiu para a degeneração moral daquele povo. Apesar desse longo arrazoado, os índios deveriam ser respeitados por aqueles que fossem até o centro de suas habitações231.

No estudo do relato desse engenheiro, Luís Fernando Laroque reconheceu a influência do Romantismo unido ao discurso a respeito da civilização e da barbárie. Entretanto, constatou uma contradição na forma como o engenheiro narrou a reação dos nativos frente ao avanço da sociedade nacional, ao mesmo tempo em que os concebia como selvagens, preguiçosos e indolentes232.

Na atenção que Palombini dispensa ao indígena, o seu foco é centrado numa preocupação concernente a uma futura assimilação destes indivíduos. Ele os usa como alegoria para criticar, de maneira positiva, a vida na Itália. Tal recurso literário tende a mostrar, de forma conservadora, a hierarquia social e política existente na Pátria de origem do nosso médico. Em contraposição, são utilizadas críticas negativas à vida no Brasil, em especial, ao comportamento dos brasileiros.

Ocorre, aqui, uma idealização de uma vida aristocrática na Itália. Ressalta o poder desse País como nação conquistadora, na época romana, ou imperialista, na atualidade. Outra maneira na qual utiliza os aspectos culturais é feita pela observação de maneiras clássicas e civilizadas de sociabilização ou da ausência dessas, como é destacado no modelo comportamental apresentado pelos índios em momentos de confraternização com o italiano.

Para Palombini, o índio encontra-se no estado de natureza e é comparado a animais selvagens – tem-se, aqui, uma influência do pensamento de Rousseau. Além disso, o médico, ao abordar esse tema, faz uso disso a fim de criticar os comportamentos relacionados a enfermidades que diagnostica na sociedade gaúcha que está conhecendo. Em especial, critica os excessos no comportamento sexual masculino demonstrado pela alta incidência da sífilis,

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MABILDE, Pierre F. A. B. Apontamentos sobre os indígenas selvagens da Nação Coroados dos matos da

Província do Rio Grande do Sul: 1836-1866. São Paulo: IBRASA; Brasília: INL, Fundação Nacional Pró-

Memória, 1983. p. 23. 231

Ibid., p. 21. 232

LAROQUE, Luís Fernando da S. O discurso sobre os nativos americanos: percorrendo a trilha de um viajante. Histórica Unisinos, São Leopoldo, v. 4, n. 2, p. 184-5, 2000.

visíveis nas suas lesões aparentes. Verifica, também, que o alcoolismo está muito presente e o associa a outras doenças, como a tuberculose, a crimes e à destruição da moral.

Nas questões relacionadas à inserção do índio na civilização, esse aparece praticamente só uma vez no texto como assimilado, na situação de peão índio. No início de sua viagem pelo Brasil, que ocorre em São Paulo, o indígena é visto como receptáculo de promessas ou de atitudes que podem ser consideradas inócuas ou risíveis, feitas por dirigentes do governo paulista, tendo em vista a sua integração. Ironicamente, apesar de todas as suas digressões sobre a qualidade e sobre as potencialidades dos campos rio-grandenses, nega a assimilação do indígena: é o colono imigrante que será o beneficiado e que desfrutará das riquezas desta região graças ao seu trabalho.

Pode-se observar uma modificação no pensamento de Palombini acerca dos indígenas à medida que a sua viagem prossegue e vai adentrando-se pelo interior do Rio Grande do Sul, especialmente na região Noroeste, chegando a zonas de fronteira, inóspitas, que recentemente estavam sendo colonizadas. Essas descrições seguem reflexos de seus condicionamentos culturais:

Tive ocasião de atravessar dois ramos da grande floresta virgem do centro do Rio Grande do Sul, o Mato Português e o Mato Castelhano; o primeiro, naquele ponto, duma légua de largura, e o segundo de três. São eles o limite entre as terras civilizadas e as incultas, ou melhor, bárbaras, porque a poucos quilômetros da estrada que se percorre, encontram-se à vontade os acampamentos dos bugres, dos quais, de passagem, pude ver alguns exemplares já mansos233.

Em sua descrição dos indígenas, observa-se o estranhamento e o temor frente a possíveis contatos:

Há alguns lustros havia ainda, no Mato Castelhano, índios e tigres, que quando podiam incomodavam aos criadores de gado com matanças e rapinas. Deve-se à energia do governo, que, com o emprego de tropas, exterminou quanto fosse possível, obtendo que uns e outros se retirassem mais para o interior, podendo-se, agora, viajar quase seguros234.

Na perspectiva de um encontro com os indígenas, refere já ter conhecimento desses como “tremendos e sérios cabisbaixos, que se sentem donos de suas terras e tratam a todos os brancos como invasores” e os compara com os negros que considera “alegres, joviais e

233

PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 96. 234

sinceros”. No primeiro contato com os indígenas, Palombini destaca os seus comportamentos e os seus esforços para aparecerem “civilizados”. O grau de civilização é observado no comportamento à mesa. Salienta, ainda, a diferença nos gestos e nas maneiras de comer em um momento de sociabilidade entre o italiano e o nativo.

Comiam, repito, sérios e silenciosos, sem gestos incorretos com as maxilas. Apenas o alimento chegava à boca, fosse ele carne ou pão, com um só golpe era trincado pelos robustos dentes, sem forçar a cabeça ou as mãos a auxiliarem. Nem uma anedota ou sorriso, como geralmente se usa entre os brancos durante as refeições, especialmente se de caráter recreativo. Somente olhares rápidos e fugazes235.

Depois reconhece os seus esforços para sobreviverem ao contato com os europeus e serem incorporados pela “civilização”. O autor destaca a maneira de saudar desse povo:

Observava eu aqueles homens, quase virgens de civilização e na iminência de terem de fazer um grande salto no mundo, que teriam desejado estar em equilíbrio com os brancos em um só dia; por isso se haviam apressado em dar-me a mão, tinham comido e bebido comigo, esforçado em demonstrar-se sociáveis, como que preparando terreno para novo encontro...236.

O médico manifesta, também, a sua posição em relação ao lugar ocupado pelo indígena na construção do Brasil. Critica a situação desses que, após terem sido perseguidos e abandonados à sua sorte, necessitavam agora da proteção dos brancos:

...aliás, começava a sentir um certo constrangimento, uma mortificação, pelo fato de prever ter de partir sem ter entrevistado os verdadeiros brasileiros, os verdadeiros donos daquela imensa e esplêndida extensão de terra, tão rica e tão pouco explorada! Aqueles homens que, após terem sido tão perseguidos pelos brancos depois da descoberta da América, vinham agora pedir-lhes proteção, auxílio e conselhos, decididos a aceitar aquela civilização da qual por tanto tempo de esquivaram, que combateram, pela qual sentiram aversão237.

Em suas digressões sobre as conseqüências do contato dos índios com a sociedade, aproveita para questionar essa organização social com os vícios que a acompanham.

235

PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 288. 236

PALOMBINI, op. cit., p. 293. 237

Observava e me compadecia daqueles pobres selvagens, que se encontravam na iminência de imergir no mare magnum da inesquecível civilização. Dentro de poucos anos, eles, protegidos pelas leis, estariam de posse de terrenos de sua propriedade, circundados por cercas mais de convenção do que protetoras, registrados nos livros municipais, tornar-se-iam donos legalizados. Teriam, então, também, roupas e casas, camas e louças, aprenderiam a ler e a escrever, a jogar o osso, em primeiro lugar, e, depois, cartas238.

Neste sentido, o indígena é utilizado por Palombini como alegoria para ilustrar a sua opinião referente à sociedade que está conhecendo. Através dele, critica o hábito contumaz da população de se medicar, o seu comportamento sexual, os seus vícios e a presença de doenças contagiosas, como a sífilis. Admite então que os índios,

...não tardariam em assinar promissórias, tomar a cachaça e aperitivos de todas as denominações e cores; e, enfim, pouco a pouco, com a introdução do deus Amor ou outro... a raça ficará diluída e a grande extensão selvagem tornar-se-á civilizada, habitada não só por homens sadios, como por muitos de nariz avermelhado, ou que falarão, com a maior indiferença, de licores, ioduretos, hidrargírio e Neosalvarsan239.

Na última linha acima há a referência de medicamentos usados para o tratamento usual da sífilis que eram os ioduretos, o hidrargírio e o Neosalvarsam240. Palombini os relaciona do mesmo modo displicente que os fazendeiros a eles se referiam. Gilberto Freire em seu livro Sobrados e Mucambos identifica que os rapazes brancos e de famílias senhoris das áreas agrárias se gabavam das doenças venéreas em uma afirmação não só de virilidade precoce como também de superioridade de classe e de raça241.

Entretanto, os seus preconceitos europeus o impedem de acreditar na assimilação total do indígena que só seria possível para o imigrante:

A grande zona povoada de índios e de feras está circunscrita dentro de uma cinta de mato virgem, que só fortes e voluntários exploradores podem, a caro custo, transpor, e ao derredor estendem-se campos cultivados e surgem cidades. Todos os dias esta

238

PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 293. 239

Ibid., p. 292-293. 240

Hidrargírio era um remédio de fórmula derivada do mercúrio. Salvarsan era o nome do composto derivado do arsênico chamado também de 606, que foi desenvolvido por Ehrlich em 1907. Em 1914 foi desenvolvida uma nova forma de tratamento para sífilis denominada de Neo-Salvarsan ou neoarsphenamine. Ver: PORTER, Roy.

The greatest benefit to mankind. A medical history of humanity from antiquity to the present. Londres: Fontana

Press, 1999. p. 452. 241

FREIRE, Gilberto. Sobrados e Mucambos. Rio de Janeiro: José Olympio; Brasília: Instituto Nacional do Livro, 1977. p. 396.

zona civilizada, invadindo o mato virgem e persuadindo os selvagens à civilização242.

A visão idealizada do colono imigrante e de seu possível sucesso no Novo Mundo está inserida em uma perspectiva colonialista. Palombini reconhece a luta daquele, para se estabelecer em uma terra inóspita, e o sucesso que será alcançado com seu esforço pessoal, o que condiz com o seu projeto de incentivo à imigração.

São estes os mais admiráveis dos trabalhadores: sós e ignorados, sem outra esperança a não ser na própria força e nos recursos naturais, com poucas roupas, com poucos instrumentos de trabalho, com poucas sementes, partem de onde os sentimentos os coagem, freqüentemente a pé, arrastando consigo por léguas e léguas a família, e vão à procura de um terreno que devem contender com os mais poderosos representantes da flora e da fauna243.

Benzer Belgeler