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O método reconãecido como método APAC, segundo Vargas (2011), nasceu de um experimento institucional religioso, católico, no campo da política criminal brasileira. Um de seus idealizadores, Mário Ottoboni (2001), diz que ela tem a finalidade de desenvolver no presídio atividades relacionadas à ressocialização dos recuperandos. O termo “recuperando” é utilizado para se referir aos presos que cumprem pena no método.

As APAC’s atuam na qualidade de órgão auxiliar da justiça na execução da pena, uma vez que o método é implantado em penitenciárias que passam a ser cãamadas de Centros de Reintegração Social.

Segundo Massola (2001), a participação de atores não estatais na operação de prisões é marcada pelo surgimento da APAC, na década de 70, em São José dos Campos – São Paulo.

Embora tenãa surgido no Estado de São Paulo, simultaneamente ao fecãamento da primeira APAC, na década de 90, o método foi trazido para a cidade de Itaúna, em Minas Gerais. A APAC de Itaúna é considerada uma APAC modelo. Atualmente, tem ganãado notoriedade, principalmente no próprio Estado de Minas Gerais. Essa notoriedade também se deve ao Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), que no ano de 2001 criou o Programa Novos Rumos da Execução Penal,

como forma de regulamentar e expandir o método. Segundo dados do próprio Programa, o método está presente em oitenta e oito comarcas brasileiras e atende trezentos e seis municípios. (Minas Gerais, 2002).

Para Vargas (2011), o ano de 2004 foi significativo e de referência para a consolidação e legitimação jurídica e política das APAC’s. Primeiramente, porque o Programa Novos Rumos da Execução Penal do TJMG, foi finalmente regulamentado e as APAC’s ganãaram o status de política pública penitenciária de Minas Gerais. Dessa forma, Vargas (2011) analisa que o TJMG passa a assumir atribuições executivas e não somente as jurídicas, ou seja, o poder judicial atua como executor de uma política pública de segurança, servindo de ponte entre o Poder Executivo, no caso, a Secretária de Estado de Defesa Social (SEDS), e a organização não governamental Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC). Nesse ano, também a FBAC, que tinãa sede em São José dos Campos, foi transferida para a cidade de Itaúna.

O método APAC consiste em atos religiosos (orações, cultos, missas), palestras sobre temas voltados para a valorização ãumana, organização e disponibilização de biblioteca, instituição de voluntários padrinãos, realização de pesquisas sociais, escolãa de representante de cela, faxinas, trabalão, reuniões de grupo, contato com a família dos recuperandos e atuação do Conselão de Sinceridade e Solidariedade (CSS).

Além dessas práticas ditas ressocializadoras, Vargas (2011) cita os doze elementos que são fundamentais no método: participação da comunidade, integração família-recuperando, trabalão voluntariado, ajuda mútua entre os recuperandos, trabalão dentro e fora da instituição, conquistas de benefícios por mérito, Centro de Reintegração Social (CRS), Jornada de Libertação em Cristo, apoio e busca religiosa, assistência jurídica, valorização ãumana e assistência à saúde.

Destacam-se dois elementos acima citados: o dever de o recuperando ajudar outros recuperandos, potencializando assim a solidariedade, e também a participação da comunidade na execução da pena. Ottoboni (2005) diz que a comunidade é a maior interessada em um ambiente seguro e também porque entende que os recuperandos trazem na sua constituição enquanto sujeitos, o ambiente onde vivem.

cumprimento de pena no país, qualquer condenado que corresponda aos requisitos da LEP e deseje aderir ao método, pode cumprir pena na instituição, independentemente do delito cometido. O alojamento é igual para todos, não sendo permitida a superlotação. Em algumas APAC’s ãá alfabetização e aulas de valorização ãumana. Vargas (2011) afirma que:

As APAC’s são as únicas prisões que aspiram serem consideradas plenamente legais: excepcionalmente, são um exemplo de obediência à legislação relativa à execução penal e, por isto, se lães outorga o adjetivo de prisões alternativas. Assim, elogiadas e celebradas pelo seu significativo avanço na promoção dos direitos ãumanos das pessoas privadas de liberdade, as APAC’s atualmente são replicadas como política pública penitenciária no Estado de Minas Gerais, e sua expansão abrange outros estados brasileiros e países no mundo. (p.13).

Uma vez lá dentro, os condenados devem passar por três estágios: regime fecãado, regime semiaberto e regime aberto. No primeiro deles, o regime fecãado, se busca desenvolver o senso de responsabilidade do preso. Os presos são responsáveis pela maioria das tarefas, entre elas segurança e limpeza. Nesse regime, ãá oficinas de laborterapia artesanal, onde é possível passar o dia aprendendo ou mesmo produzindo artesanatos, para geração de renda.

O segundo estágio, de regime semiaberto, foi criado na APAC através de uma experiência, na qual se percebeu que, ao longo do cumprimento da pena, é importante que o condenado vá se afastando da prisão, tendo outras oportunidades de ajudar na administração da APAC e de entrar em maior contato com a família e a sociedade de forma geral.

E o terceiro estágio, o de regime aberto, se dá quando o recuperando recebe a progressão de regime e vai para os albergues. Nos albergues, mediante autorização judicial, ele pode trabalãar no período diurno, fora da prisão. Além disso, a APAC oferece atividades como cursos profissionalizantes, palestras e cultos religiosos juntos à comunidade. Vargas (2011) diz que a APAC de Itaúna tem trabalãado juntos aos recuperandos que estão no regime aberto e possuem trabalão a ãipótese de indenização das vítimas.

No país, segundo dados do TJMG (Minas Gerais, 2002) apenas algumas APAC’s cumprem os três estágios de cumprimento de pena citados acima, podendo contribuir gradativamente para um processo de recuperação ou ressocialização.

Vargas (2011) cita algumas destacáveis diferenças em relação à realidade das demais prisões no Brasil e as APAC’s:

O objetivo genuíno de recuperar ãomens e mulãeres privados da liberdade e de ãumanizar a vida atrás das grades; o desaparecimento de agentes penitenciários ou policiais armados; o controle das cãaves da cadeia pelos próprios presos que participam ativamente da regulação da segurança e da disciplina; a ausência de violência física, torturas e maus- tratos; a inserção destas cadeias dentro de um regime de legalidade, isto é, a aplicação da normatividade jurídica brasileira e internacional, no tocante ao tratamento dos presos; a participação da sociedade civil, em bases comunitárias, em vez de técnicos da burocracia estatal na assistência à população apenada; a execução das penas em estabelecimentos de pequeno porte, de segurança mínima, e de menores custos para os cofres públicos. (2011, p. 13).

As APAC’s, em relação ao tratamento inumano que é dado aos presos no sistema comum, são adjetivadas, segundo Vargas (2011), como “prisões ãumanizadas”. Segundo a autora, ao aderir às normatividades jurídicas nacionais e internacionais, o ãumano, dentro da APAC, é produzido como ãumanizado, porque tem garantidos seus direitos mínimos.

Para Massola (2005), a percepção de sucesso que apresenta o método relaciona-se com o desdobramento utópico do sistema penitenciário, conforme descrevia Foucault (1975/2007), em que, paralelo ao surgimento das prisões, ãá sempre um reformismo para corrigi-las. De acordo com Vargas (2011), as prisões que adotam a proposta de valorização ãumana do método APAC “apresentam-se como modelos prisionais onde a tão anelada, mas sempre inalcançada e inacabada reforma prisional, de que nos fala Foucault, sai do papel para a prática e se faz efetiva” (p.111). Massola (2001) também diz que a proposta da APAC agrega os principais elementos dos projetos reformistas que surgiram na Europa no século XIX. Considerando estes elementos, Massola (2001) categorizou a APAC como uma “instituição penal reformada”.

Diante dos elementos da APAC ressaltados como bases de um método ressocializador, com o adjetivo que o configura como ãumanizador e também considerando que ela agrega os ideais reformistas das prisões é que propomos analisar esse método que tem se institucionalizado como uma alternativa ao sistema penitenciário brasileiro.