1.2. ĐSLAM ÖNCESĐ ĐRAN’DA DĐN
1.2.4. Mazdekizm
7.1.1. A infância, os locais e os gestos familiares
Na convivência familiar, algo “bom” é comunicado, emerge o desejo de seguir
O primeiro aspecto que se evidencia, portanto, refere-se ao fato de que o pertencimento é gerado dentro de um contexto previamente estruturado, cuja existência e discernimento de algumas referências torna-se essencial para a veiculação e recebimento do conteúdo da tradição local, tornando viva a difusão desses conhecimentos passados. Ao contrário das tendências da modernidade, apontadas por Arendt (2005), a dinâmica apresentada pelos entrevistados demonstra um apreço pelo conhecimento tradicional, evidenciando um movimento de continuidade entre o passado, o presente e o futuro.
Em Morro Vermelho, os primórdios da experiência do pertencer acontecem no período da infância, expressa no reconhecimento genuíno e na aceitação de uma proposta realizada e transmitida pelos predecessores.
Os locais assinalados pelos entrevistados se fazem conhecer por meio de suas descrições acerca das atividades cotidianas de seus familiares e de seus conterrâneos. Assim, enquanto relatam sobre a maneira como os parentes realizam o trabalho, servem à igreja local ou rezam em sua própria casa, manifestam-se, ao mesmo tempo, os primeiros contatos significativos com a tradição, comunicados através da forma como aquelas pessoas vivem a devoção a Nossa Senhora de Nazareth, nesses contextos. Nesses espaços, a presença da Padroeira lhes é apresentada como um aspecto da realidade nos quais podem ver a Sua ação. A materialidade dos espaços em que os entrevistados recebem a tradição demonstra a importância do aspecto concreto para o processo de rememoração da história de seus ancestrais. A lembrança desses contextos aparece vinculada à maneira como eles são utilizados pelos parentes dos depoentes,
183
ou seja, como portadores de uma mensagem para os entrevistados. Assim, Frochtengarten (2006) assinala como é fundamental a presença de certos recursos que podem ser captados pelos sentidos para a comunicação de um modo de vida.
A manifestação da religiosidade mariana também é observada nos gestos realizados pelos parentes durante a organização da festa da Padroeira, na maneira como vivem as suas obrigações laborais e familiares, na forma como se dedicam à Santa através dos cuidados prestados à igreja, vividos e ordenados segundo a tradição que lhes é legada pelas antigas gerações, com o intuito de comunicar a fé na Santa à gera ção póstera. Assim, Bosi (2003) comenta que a transmissão de um modus vivendi, arraigado nos “valores antigos, religiosos, artísticos, morais, lúdicos”, concretizados na maneira como viver o cotidiano, utilizando-se dos recursos tradicionais próprios ao contexto, é uma maneira de comunicação do sentido da tradição.
A tradição torna-se vivaz, uma vez que esses gestos comunicam algo bom para a vida em seus diversos âmbitos; que, nesse primeiro momento, identifica-se com as pessoas citadas pelos entrevistados, suscitando o desejo de segui-las. Esse é, indubitavelmente, um exemplo da função da narrativa, assinalada por Benjamin (1994) e Frochtengarten (2006). O intercâmbio entre as experiências transgeracionais favorece uma vivência compartilhada para os ouvintes, de maneira que estes se vêem estimulados a participar das práticas locais integrando a cadeia da tradição.
Dessa maneira, a vivacidade da tradição é observada na maneira como os entrevistados se deparam com uma vida dentro da comunidade, familiares e moradores, identificando uma forma de viver a devoção que se demonstra de forma diferente e atrativa. A inclinação em direção a esses modos diversos é verificada, sobretudo, pela presença de um envolvimento, por parte dos entrevistados, caracteristicamente interessado e curioso por algo que aquelas pessoas trazem em si; que já identificam como um “bem”.
Capítulo 07 – Discussões – Confrontações e reconstrução
184
7.1.2. Os momentos habituais e instrumentos da tradição local
Compartilhando a vida da comunidade, descobre-se um modus vivendi guiado por Nossa Senhora de Nazareth
A inserção na vida comunitária dá-se, inicialmente, por meio da convivência familiar; tornando-se uma via de acesso para se vivenciar os valores que nutrem aquele certo jeito de viver a devoção mariana vinculada à vida cotidiana. O exercício da mente humana em receber o que lhes é transmitido consiste em uma das funções da tradição, como nos assinala Arendt (2005).
A participação dos momentos habituais, oferecidos pela tradição – como os serviços prestados à igreja local, as celebrações, a leitura das escrituras e as reuniões coletivas que provocam uma reflexão sobre o conteúdo da devoção, o auxílio na realização da festa – provocam, em certo momento, um impacto nos depoentes. Este gera um maravilhamento, caracterizado pela curiosidade, pela observação, pelas perguntas e pensamentos acerca do valor que aqueles gestos carregam e por uma atração mais consciente acerca do que mobiliza aquelas pessoas. As condições materiais da tradição, assim como os instrumentos que ela oferece, têm uma função peculiar no processo de transmissão uma vez que auxiliam no processo de reflexão e atualização desse conteúdo, segundo Arendt (2005). Entretanto, os entrevistados nos mostram que essa dinâmica é desencadeada mediante algo que lhes atrai suscitando a busca pelo significado daquilo que os chama atenção.
Esse “se maravilhar” pode ser compreendido, sobretudo, como um “sentir-se golpeado” que permite aos entrevistados se darem conta de um modo de vida que é guiado por Nossa Senhora de Nazareth, cuja presença confere um sentido para o trabalho, as responsabilidades, os problemas, o sofrimento e a aflição, os relacionamentos, a construção da festa e o cuidado com o outro, percebido naquilo que eles vêem corriqueiramente. A presença da Padroeira, portanto, traz algo de excepcional para o que é trivial ou problemático. O sentido revelado pela tradição e comunicado na forma como se vive o cotidiano tem um
185
aspecto educativo, como nos assinala Weil (2001), uma vez que oferece auxílio para viver as circunstâncias presentes, sejam elas favoráveis ou desfavoráveis. Dessa maneira, o método tradicional tem a potencialidade de alcançar o coração humano, utilizando-se das histórias vivas para transmitir o conhecimento da história global. A percepção da tradição e dos sentidos que ela carrega, traduzidos na maneira como é vivida pelos familiares, permite uma percepção prática e menos abstrata do seu conteúdo, uma vez que se encontram vinculados à vida concreta. A tradição, segundo a autora, oferece alimentos à alma suprindo as necessidades da vida concreta e moral.
Esse deslumbramento, vivido como uma surpresa pelos entrevistados, ao compartilhar a vida da comunidade, mantém a postura de abertura frente ao que lhes está sendo oferecido, desperta no convívio com os seus familiares. Tal posicionamento é essencial para que cresça a familiaridade com a Padroeira; e o conhecimento d’Ela dá-se fundamentalmente através da vivência dos recursos oferecidos por aquele local, ou seja, através da participação na vida familiar e na vida comunitária: por meio das escrituras, conhece-se mais a vida de Maria; através da festa, percebe-se mais a Sua ação; as mudanças proporcionadas pelos milagres relatados atestam a Presença de Nossa Senhora. A intimidade com a Padroeira, facilitada pela abertura dos entrevistados, favorece a percepção de algo fora do comum dentro do que seria óbvio.
7.1.3. A presença da autoridade
A oferta de uma hipótese de vida e de um método para vivê-la
A dinâmica da tradição nessa comunidade, fundamentada na confiabilidade da testemunha dos conhecimentos precedentes, é a antítese do que Safra (2004) percebeu no espaço clínico como um tipo de sofrimento humano comum na contemporaneidade, ao se defrontar com os efeitos do fenômeno do desenraizamento, expresso na falta de confiança entre os homens e destes com o seu entorno. O processo de transmissão tradicional fortalece o que o autor chamou de ethos humano,
Capítulo 07 – Discussões – Confrontações e reconstrução
186
uma vez que estimula o sujeito a se apropriar da história do grupo no qual se encontra inserido e se lançar no mundo de forma integralmente humana: considerando o passado, que oferece noções fundamentais para lidar com a realidade no presente; instigando o processo de apropriação desses conhecimentos de forma pessoal, e obtendo, por fim, um conjunto de experiências que possa ser legado aos seus descendentes no futuro.
O processo de reconhecimento da autoridade em Morro Vermelho, caracterizada pelo modo diverso de viver a tradição e por oferecer algo “bom”, é delineado, para os entrevistados, pelo sentir-se atraídos por esse “algo” valoroso que essas referências carregam consigo, e, conseqüentemente, pela crescente familiaridade com Nossa Senhora de Nazareth que acontece no convívio com essas pessoas; elementos estes essenciais para que os entrevistados verifiquem, ao longo da vida, a proposta colocada pela tradição.
Assim, a tradição oferece a construção de referências que proporcionam uma possibilidade de vida e o método para vivê-la. Dessa maneira, Safra (2004 e 2006) afirma a importância da presença dessas pessoas para a formação pessoal, uma vez que o acolhimento que elas podem oferecer aos sujeitos mais novos é fundamental para que eles possam se desenvolver integralmente. Dessa maneira, sentindo-se amparados, inicialmente, pelos conhecimentos oferecidos por essas referências, o herdeiro, aos poucos, começa a se lançar em experiências que ele ainda não vivenciou de forma mais segura e criativa.
7.1.4. A condição para o cumprimento da função da tradição é a sua verificação À abertura dos entrevistados segue-se a verificação da tradição como condição indispensável para que se estabeleça um relacionamento, de forma personalizada, com o conteúdo da tradição: a própria Padroeira.
Essa verificação constitui-se, principalmente, na aplicabilidade do aprendizado obtido na convivência com as autoridades reconhecidas ao longo da vida dos entrevistados, assim como na
187
utilização dos instrumentos que a tradição oferece, em circunstâncias muito concretas de suas próprias vidas, como uma hipótese de enfrentamento de tudo o lhes acontece no cotidiano.
E o que os depoentes constatam é que, vivendo o dia-a-dia da comunidade, cresce a percepção de que Nossa Senhora vai entrando em suas vidas, por meio da oração: forma suprema do relacionamento com a Santa. O pedir ou rezar é suscitado por algo inesperado ou impensado, atestando, assim, a presença de uma força externa aos depoentes, que tem condições de intervir no momento presente, impulsionando-os ao reconhecimento de uma Presença. Diante dessa constatação, o que emerge é um viver segundo a certeza de que a circunstância revela a presença de uma instância superior à condição humana, a Padroeira, que tem um poder de intercessão diante de situações em que a capacidade humana é insuficiente.
O processo de apropriação da tradição, segundo Arendt (2005) e Frochtengarten (2006), passa pela utilização dos recursos da tradição que veiculam informações sobre a própria existência de seus descendentes. Nesse sentido, a utilização de práticas ou objetos da cultura local é essencial, uma vez que, sendo portadores de uma experiência vivida pelos ancestrais, pode desencadear um contato personalizado com o conteúdo tradicional; aspecto esse fundamental para que a função da tradição se cumpra: a sua perpetuação de forma autêntica.
Diante do fenômeno do desenraizamento, também presente no contexto brasileiro, associado à migração desmedida, que gera uma adaptação dezenraizadora ao novo contexto, ao desemprego, à integração entre diversos grupos de forma homogeneizada, às relações humanas balizadas pela competitividade, à urbanização desenfreada e à verticalidade das metrópoles provocando efeitos psicológicos como a humilhação social, fendas no percurso biográfico dos sujeitos, ceticismo e falta de esperança, compartilhamos da visão de Weil (2001), Bosi (2003), Safra (2004), Gonçalves Filho (1998) e Frochtengarten (2005 e 2006), cujos trabalhos elucidam como esse fenômeno é prejudicial à formação humana e como ele traz conseqüências sociais sérias.
Capítulo 07 – Discussões – Confrontações e reconstrução
188
O que o nosso estudo nos mostra é exatamente a importância da tradição e de certa maneira de vivê-la, instigando o sujeito ao processo de verificação e posterior apropriação dos conhecimentos precedentes. Respondendo à urgência de um resgate da nossa cultura brasileira, retomando o significado da nossa própria história, conforme explicitada pelos teóricos citados acima, mostramos inicialmente alguns aspectos essenciais que evidenciam a vivacidade da tradição em Morro Vermelho, condição esta essencial para a experiência de pertença, indicando- nos um caminho interessante para compreender em que medida é possível essa tarefa.
Façamos agora o processo de reconstrução do dinamismo de apropriação da tradição pelos entrevistados, essencial para o emergir da consciência do pertencer; que coincide com a construção da festa de Nossa Senhora de Nazareth.
7.2. A apreensão do significado da tradição: