4. BULGULAR VE TARTIŞMA
4.2. Maxma-14 Kiraz Anacında Köklendirme Çalışmaları
particular do sujeito”, Freud apaga os limites de fronteira da antítese da subjetividade e da objetividade. A objetivação está permeada pela subjetivação desde o início, pois o sujeito só percebe a realidade que lhe faz sentido: um sentido que de algum modo se relaciona com o seu ego.
Assim, é próprio do ser humano selecionar, recortar, montar e representar a realidade. Só nos relacionamos com a imensidão do mundo por partes que nós mesmos escolhemos de acordo com as condições psíquicas, emocionais, individuais e sociais de que dispomos. Percebemos e experimentamos a vida de uma maneira sempre única, por mais que estejamos entre semelhantes.
2.8 DEPOIS DA NOTÍCIA: A EXPERIÊNCIA
Walter Benjamin, por volta de 1935, já citava o jornal como um dos indícios, dentre outros, da decadência da possibilidade da experiência, pelo homem. Dizia ele:
“Se a imprensa se propusesse a fazer com que o leitor pudesse se apropriar de suas informações como de um aparte da sua experiência, faltaria inteiramente com seu objetivo. Mas seu objetivo é exatamente o oposto, e ela o atinge: excluir rigorosamente os acontecimentos do contexto em que poderiam afetar a experiência do leitor”. (BENJAMIN,1983, p.31)
Para Benjamin, os princípios da informação, bem como a sua diagramação e forma lingüística - substituindo as antigas relações entre os homens e colocando a informação no lugar da narrativa - contribuem para que nenhum leitor tenha “qualquer coisa para contar ao outro”. A informação, no seu entender, visa comunicar “o puro em-si do acontecimento”, enquanto a narração – “uma das mais antigas formas de comunicação”, aproxima o narrador do leitor ou do ouvinte, oferecendo-se como experiência e possibilitando a experiência. (BENJAMIN,1983, p.31)
O que Walter Benjamin diagnosticava então, como a “ruína e desaparecimento da experiência” (BENJAMIN,1983, p.50) na modernidade, tem a ver com as conseqüências da primeira guerra mundial para o ser humano que, a
partir de então, no seu entender, teria se empobrecido em termos de experiências compartilhadas.
Atualizando esse diagnóstico para os dias de hoje, Giorgio Agamben comenta que
para efetuar a destruição da experiência não é necessário mais uma catástrofe, bastando para isso a pacífica existência cotidiana em uma grande cidade. Pois, a jornada do homem contemporâneo já quase não possui nada que possa traduzir-se em experiência: nem a leitura do jornal, tão rica em notícias (...). (AGAMBEN, 2004, p.8-9)
Segundo Agamben,
o homem moderno volta à noite para a sua casa enfraquecido por uma confusão de acontecimentos – divertidos o tediosos, insólitos ou comuns, atrozes ou prazerosos – sem que nenhum deles se tenha convertido em experiência. Essa incapacidade para se traduzir em experiência é o que torna hoje insuportável – como nunca antes – a existência cotidiana. (AGAMBEN, 2004:8-9)
Sob o seu ponto de vista, não é o caso de se afirmar “que hoje já não existam experiências”, mas que “estas se realizam fora do homem”. E “o homem as contempla com alívio”, como no caso de uma visita ao museu ou a um lugar turístico, em que “ a maioria da humanidade se nega a adquirir uma experiência: prefere que a experiência seja capturada por uma máquina fotográfica”.(AGAMBEN, 2004, p.10)
A despeito dessa compreensão da experiência como algo que não está mais ao alcance do homem, desde o início da era moderna, o teórico americano John Thompson parte da concepção de que o homem ainda experimenta a vida, embora essa experiência seja diferente de décadas atrás. É uma experiência “seqüestrada” em alguns tipos de vivências, mas enriquecida, por outro lado, pela complexidade e reflexividade possibilitadas especialmente pela mídia.
Ele denomina de “seqüestro da experiência” a institucionalização de sistemas especializados de conhecimento, os quais, na modernidade, passaram a concentrar determinadas formas de vivência que até então eram incorporadas à rotina da vida diária. É o caso da doença mental, da velhice, da morte, dos castigos imputados aos criminosos, enfim, acontecimentos que, segundo Thompson, deixaram de estar incorporados ao curso normal da vida para se transformarem em
“fenômenos destinados a especialistas” e vistos como “extraordinários”. (THOMPSON, 2005, p.196)
No seu entendimento, a mídia operaria, a “desseqüestração da experiência” 7, ao possibilitar que o homem contemporâneo experimente, por seu intermédio, essas vivências extraordinárias que não mais fazem parte de sua vida. Segundo Thompson, na modernidade, co-existem duas qualidades distintas de experiência à disposição do homem: a experiência vivida – que ele entende como aquela “que adquirimos no fluxo temporal de nossas vidas, ela é imediata, contínua e, até certo ponto, pré-reflexiva, no sentido de que geralmente precede qualquer ato de reflexão explícito” – e a experiência mediada – aquela “que adquirimos através da interação ou quase-interação mediadas”. (THOMPSON, 2005, p.197) Esses dois tipos de experiência se entrelaçam no cotidiano do homem moderno, estruturando a sua relação com o mundo.
Como alega Thompson, embora a experiência mediada esteja cada vez mais presente na vida do homem moderno, isso não quer dizer que não exista mais a experiência vivida. Ele acredita, inclusive, que ainda é a experiência de vida do sujeito contemporâneo que tem mais poder e capacidade de influenciá-lo. Apesar da crescente intromissão da experiência mediada no cotidiano do homem atual, Thompson está convicto de que esta é uma experiência que é acatada pelo sujeito de forma “tênue, intermitente e seletiva”. (THOMPSON, 2005, p.199) Ou seja, cada um absorve em graus diferenciados de relevância a experiência que obtém com a mídia.
A experiência mediada, para Thompson, se diferencia da experiência vivida em quatro aspectos: por se tratar de uma experiência que, na maior parte das vezes, encontra-se distante espacialmente e até temporalmente dos contextos práticos da vida diária; por acontecer em um contexto diferente daquele onde o evento de fato ocorre, acarretando à experiência mediada um caráter de experiência sempre recontextualizada; por se tratar de uma experiência em que o sujeito concede maior ou menor peso ao que experimenta, de acordo com a sua própria estrutura pessoal, e, finalmente, pela possibilidade que a experiência mediada oferece de ser experimentada pelos indivíduos de formas similares, mas sem o compartilhamento dos mesmos contextos de vida. (THOMPSON, 2005, p.197–201)
Mas, será que ainda podemos separar tão facilmente a experiência com mídia da experiência sem mídia, em nossa vida ordinária? Será que, mesmo longe do contato com qualquer meio de comunicação - quando conversamos e discutimos uns com os outros, por exemplo -, essa conversa não é perpassada pelas informações a que tivemos acesso pelo jornal, pela televisão, pela internet? Não é comum, em nossos bate-papos corriqueiros, nos exprimirmos assim: eu li no jornal, eu assisti na televisão, eu entrei na internet, eu vi no cinema, etc.? Então, que experiência que podemos ter, hoje, que seja só vivida ou só midiatizada?
O planeta Terra torna-se cada dia menor diante da televisão ou da tela do computador; tudo é conhecido e alcançável ao olhar, mas, ao mesmo tempo, quase nada está ao alcance das mãos ou dos pés. O que pode ser tocado ou sentido verdadeiramente torna-se pouco diante do muito que há para se conhecer. Tomamos conhecimento de muitos fatos, mas pouco fazemos com tanta informação.
A verdade é que, para acessar o mundo, hoje, não é mais necessário dispor de mãos nem de pés. Esses membros foram substituídos pelos dispositivos comunicativos, os quais se encarregam, agora, de prover a experiência humana. O jornalismo, como uma forma específica de comunicação que se utiliza de todos os dispositivos comunicativos para buscar o acontecimento e (re) apresentá-lo socialmente, introduz algo do real para o público que, possivelmente, de outro modo, não conseguiria acessá-lo. A informação sobre o acontecimento se transforma, ela própria, em um tipo de acontecimento capacitado, portanto, a oferecer experiência àqueles que com ela se interage. O jornalismo, assim, realiza uma espécie de terceirização da experiência.
Mas, é com essa experiência terceirizada que o homem cada dia mais se relaciona com a diversidade de acontecimentos no mundo. É porque não é mesmo necessário presenciar e vivenciar pessoalmente tudo o que acontece ao nosso redor que podemos tomar conhecimento de tantas ocorrências em um único dia.
Quantos de nós já visitaram ou participaram do cotidiano de uma favela, por exemplo? Sabemos que as favelas existem e o quanto elas nos são próximas quando as avistamos, rapidamente, do interior dos nossos veículos, ao nos movermos pelas cidades. Podemos perceber, de longe, que as casas ali construídas são mal acabadas, muito próximas umas das outras, que as ruas não são pavimentadas e que, por tudo isso, as pessoas que ali vivem devem ser privadas de conforto, de saúde, de segurança.
Mas, a nossa idéia de favela extrapola em muito as nossas ligeiras observações cotidianas. Ela é construída, dia após dia, pelas informações que amealhamos por intermédio dos meios comunicativos. É através dessa intermediação midiática que formamos o nosso conceito de favela e mais do que isso, decidimos que tipo de relação podemos estabalecer com aquele espaço público e com o seus habitantes.
Se a favela é para nós um local perigoso, inseguro, abrigo de traficantes e de criminosos em geral, tendemos a nos afastar dela; mas se a compreendemos como um espaço público criativo, carente de iniciativas políticas eficientes e merecedora da nossa atenção, colocamo-nos em condições de convivência com as diferenças e incorporamos a favela e seus habitantes em nossas vidas.
Assim, os meios comunicativos acabam por nos dizer o que pensar, como pensar e, no final das contas, como viver as nossas vidas. Devemos, portanto, saber selecionar as informações que recebemos e nos acostumar a raciocinar que o que vemos, lemos e ouvimos é uma representação do real; não é o real.
A experiência do homem moderno é uma experiência diferenciada da experiência tradicional porque é permeada pela mídia. Mais do que isso: é a experiência possibilitada e viabilizada pela mídia, na qual o jornalismo cumpre com uma função distinta e definida que é a de informar a sociedade sobre si mesma; (re) apresentar a sociedade a si mesma; falar para a coletividade a respeito dela própria, num processo tão imbricado que impossilita distinguir o que experimentamos por intermédio da mídia e o que exprimentamos fora dela.