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A conclusão deste trabalho suscita uma série de reflexões a respeito das possibilidades relativas ao estudo dos depósitos tecnogênicos em áreas urbanas. Os pontos amostrados são representativos do ponto de vista da diversidade e magnitude da intervenção humana nas dinâmicas da natureza, alterando-as mediante a apropriação dos diferentes elementos naturais, a exemplo dos solos, dos compartimentos do relevo, dos materiais geológicos, dos canais de drenagem e formações vegetais. Ressalta-se que esta apropriação possui um forte componente espaço-temporal que, por sua vez, também se faz presente em seus desdobramentos, dentre estes, a formação dos depósitos tecnogênicos.

No tocante ao tempo, há de se considerar que os depósitos tecnogênicos situam-se no limiar entre dois tempos que fluem em ritmos distintos: o histórico e o geológico. O primeiro remete aos processos e dinâmicas da sociedade, ao desenvolvimento científico e tecnológico, capaz de acelerar a intervenção humana sobre a natureza por meio da técnica. Esta aceleração tem gerado significativas transformações nos ambientes, especialmente os urbanizados, nos quais as intervenções (e seus efeitos) se ampliam e diversificam. Já o segundo remete aos processos e dinâmicas da natureza, responsáveis pela gênese dos recursos naturais imprescindíveis à manutenção e ao desenvolvimento das atividades humanas.

Quanto à dimensão espacial, deve-se considerar a produção do espaço, seus agentes e as desigualdades inerentes ao espaço produzido. O espaço urbano, em especial, é um exemplo do modo (desigual) como os diferentes agentes se apropriam, modificam e interveem na natureza e suas dinâmicas, considerando o acesso ao conhecimento, às técnicas e os interesses econômicos e políticos. Assim, as repercussões desta apropriação sobre os ambientes se manifestam de diferentes modos, dentre eles, a partir de gênese de depósitos tecnogênicos, como observado na área de estudo.

A relação sociedade-natureza mostra-se complexa considerando-se a diversidade de agentes e processos sociais e a forma como estes se organizam e atuam no espaço geográfico, produzindo-o de acordo com a organização social vigente em determinado momento histórico. Sob esta perspectiva, a região noroeste de Goiânia, a exemplo de tantas outras áreas localizadas nos arrabaldes metropolitanos, constituiu-se como um espaço de segregação, destinado à acolher aqueles desprovidos da renda necessária para garantir moradia digna e condições de vida minimamente decentes.

Conforme o histórico de uso e ocupação do solo, as modificações impressas à paisagem na região noroeste são anteriores ao início do processo de ocupação pelos

trabalhadores em luta por moradia. Desta forma, tem-se uma área significativamente alterada do ponto de vista das dinâmicas naturais. Os estudos de caso realizados nos bairros amostrados exemplificam as alterações promovidas pelas ações humanas através da urbanização, responsável pela inserção de novas formas (edificações, arruamentos, sistema de drenagem) que, por sua vez, condicionam novos processos.

Um exemplo representativo é o caso do Jardim Fonte Nova, no qual a ocupação urbana respondeu por alterações na hidrodinâmica superficial, reconfigurando as rotas do escoamento, repercutindo diretamente nos processos de transporte e deposição de sedimentos nos fundos de vale, resultando no aterramento de áreas com morfologia concavizada e, por conseguinte, na elevação dos níveis de base locais.

No caso de Goiânia, os fundos de vale encontram-se significativamente degradados, com a presença de depósitos tecnogênicos que descaracterizam os cursos d’água, lançando no vale fluvial resíduos sólidos urbanos que alteram o traçado da drenagem, diminuindo tanto a área do canal quanto da planície, favorecendo o transbordamento, caso do cenário observado no trecho do córrego da Divisa no Setor Morada do Sol.

Os demais pontos amostrados assemelham-se do ponto de vista da gênese, relacionada à deposição direta de material tecnogênico em áreas marginais aos cursos d’água ou em lotes baldios, pelos próprios moradores ou pelo poder público, fornecendo material para o transporte nas vertentes e a deposição nas áreas de planície e fundos de vale.

Observa-se que a apropriação dos compartimentos do relevo e dos solos altera os processos ambientais, como aqueles ligados à hidrodinâmica e ao escoamento superficial; e contribui, quando desprovido de planejamento adequado, para a instalação de um quadro de degradação ambiental caracterizado pelo assoreamento dos cursos d’água, ocupação e lançamento de resíduos sólidos em áreas inadequadas, compactação do solo, entre outros. A gênese dos depósitos tecnogênicos é, nesta perspectiva, um indicador da relação sociedade- natureza no tempo e no espaço.

A identificação e caracterização destes materiais, considerando sua composição e tipologia, fornecem bons subsídios para o entendimento da dinâmica atual da paisagem. Cabe mencionar as dificuldades em se definir e dimensionar a contribuição humana e natural na formação dos depósitos tecnogênicos, considerando-se a diversidade dos materiais constituintes, os processos atuantes e as formas resultantes.

Do ponto de vista da execução do trabalho, mostra-se relevante destacar alguns pontos para fomentar futuras reflexões e trabalhos com enfoque nas formações tecnogênicas. A primeira consideração é de ordem científica. Os procedimentos metodológicos adotados em

campo e laboratório são adaptações de outras metodologias, de modo que ainda não há um conjunto específico de procedimentos que atenda as especificidades dos depósitos tecnogênicos. Ressalta-se, a exemplo, as dificuldades de coleta de material utilizando-se o testemunhador, devido à resistência do material, em alguns dos pontos analisados. Assim sendo, abre-se a possibilidade para que novos trabalhos se dediquem ao desenvolvimento de técnicas específicas para a amostragem de depósitos tecnogênicos, considerando as especificidades destes materiais e de seus locais e formas de ocorrência.

No âmbito teórico, muitos avanços têm sido realizados, especialmente no Brasil, no sentindo de ampliar as bases conceituais e expandir os conhecimentos relacionados à abordagem tecnogênica, considerando a necessidade de se pensar e analisar os ambientes sob a perspectivas das transformações estabelecidas pelas intervenções humanas e não apenas as dinâmicas naturais primárias. Certamente aqui reside o maior desafio para os estudiosos do assunto: compreender a dinâmica dos ambientes alterados pela ação da técnica humana quando, por vezes, ainda não se tem total entendimento da dinâmica natural deste ambiente.

A segunda consideração refere-se à importância da valorização da empiria nos trabalhos dedicados a compreender os depósitos e formações tecnogênicas. Acrescida às análises laboratoriais e às atividades de escritório, as observações de campo foram importantes instrumentos para a análise do objeto de estudo, integrando aspectos teóricos e práticos. A abordagem deste trabalho justifica-se pelos objetivos inicialmente propostos, de modo a possibilitar novas reflexões acerca das inúmeras facetas da relação sociedade-natureza e seus desdobramentos sobre o espaço geográfico.

Espera-se que este e outros trabalhos dedicados à compreensão dos depósitos e feições tecnogênicas possam subsidiar os estudos ambientais, integrando aspectos naturais e sociais, e também a proposição de medidas mitigadoras para os impactos ambientais ocorrentes em diversas localidades, tanto no meio rural quanto no meio urbano.