O Associativismo como fenómeno complexo pode ser abordado três perspectivas diferentes: uma de carácter sociológico, uma vez que estamos perante actores sociais que interagem, que se agrupam, que se organizam e participam nestas estruturas sociais; de acordo com vontades e interesses colectivos; outra de cariz mais político-jurídico e outra do ponto de vista organizativo.
Encontram-se referências a associações sociais, educativas e culturais na mais longínqua Antiguidade. Esta temática “remonta as associações à Antiguidade (...) designadamente no mundo grego-romano, onde encontramos associações que desempenham um papel considerável na vida social” (Serrão, 1989, p. 236).
Do ponto de vista político-jurídico, se nos situarmos no direito de associação, este surge como uma das garantias oriundas das modernas Constituições.
Um dos primeiros estudiosos do associativismo e do seu impacto social foi Tocqueville, na sua obra Da Democracia na América, onde se refere ao associativismo como um garante da liberdade e dos princípios democráticos, na medida em que contraria o despotismo da maioria: “A associação reúne, com um feixe, os esforços de pessoas que divergem em muitos pontos, e leva-as a caminhar com ardor para um único objectivo, claramente definido. A segunda vantagem importante representada pelo exercício do direito de associação é a possibilidade de reunião (...). No nosso tempo, a liberdade de associação tornou-se uma garantia indispensável contra o despotismo da maioria” (Tocqueville, 1972, pp. 132-134).
De acordo com o mesmo autor afirma-se e esboça-se já uma primeira tipologia de associações voluntárias e uma distinção clara entre dois tipos de associações: as associações não formalizadas e aquelas que se criam expressamente e evidenciam uma estrutura interna. Assim, identifica a tipologia Tocquevilliana, relativamente às associações formalizadas e voluntariamente constituídas, surgindo aqui, claramente três tipos: as associações de “natureza política”, as “associações civis” (que se subdividem em associações industriais e mercantis, por um lado, morais e intelectuais, por outro, e por fim as “associações religiosas” (Fernandes, 2003, p. 67).
As associações voluntárias possibilitam o interesse por parte das participantes pela gestão da comunidade e pelo seu destino, assim como uma participação social, “de
18 resistência ao poder do Estado e a criação de uma consciência colectiva” (Tocqueville, 1972, como citado em Silva, 2002, p. 5).
Para além de Tocqueville (1972), também, Durkheim (1989) e Weber (1983) se interessam por esta temática das associações voluntárias e dos seus trabalhos é possível chegar a alguns aspectos comuns e considerados fundamentais para a caracterização das referidas associações, como é o caso do “seu papel na criação de uma consciência colectiva, o seu carácter de maior proximidade em relação aos meios onde se inserem e, por último, as suas bases essencialmente voluntárias” (Silva, 2002, p. 6).
Os “grupos secundários” e os “interesses colectivos”, a que Durkheim (1989) se referia, constituíram também uma área de trabalho para o sociólogo Gurvitch (1979), que chegou mesmo a elaborar uma tipologia, na opinião de Fernandes (2003), com algum potencial para o estudo e compreensão do associativismo. Aproveitando, exactamente, a tipologia de Gurvitch, que considera inovadora, vai utilizar alguns critérios para ilustrar a distinção das associações de outro tipo de grupos, colocando o enfoque na participação. Distingue, assim, vários tipos de participação: “a participação de facto, a participação organizada ou voluntária, a participação espontânea, a participação suscitada ou provocada e, por último, a participação imposta” (Meister, 1974, p. 26, como citado em Fernandes, 2003, p. 68).
Também outros autores (Mendes, 1978; Pinto, 1980, como citados em Fernandes, 2003) optam por realçar, num sentido mais restrito, o carácter não lucrativo das associações. O sociólogo Boudon (1990) aponta como traços fundamentais que caracterizam as associações a pluralidade dos elementos, a sua permanência no tempo e os objectivos comuns.
Associação: “em sentido restrito o termo designa um agrupamento de duas ou várias pessoas que põem em comum, de maneira permanente, os seus conhecimentos e a sua actividade numa finalidade que não seja a de partilhar lucros (…). O fenómeno associativo que responde à propensão dos homens para se agruparem para a defesa dos seus direitos, a propagação das suas ideias e a realização em comum de um objectivo colectivo, desempenham um papel importante nas sociedades modernas, ao mesmo tempo complexas e fragmentadas” (Boudon, 1990, p. 21, como citado em Fernandes, 2003, p. 7).
19 No plano jurídico e político, nas modernas sociedades democráticas, o direito de associação surge como uma das primeiras reivindicações identificado como uma liberdade pública constitucional. Assim, “associação” é definida como: “Agrupamento de várias pessoas com o objectivo de alcançar resultados que excedam aqueles que conseguirem com as suas actividades individuais; ou então, como o resultado de um consenso entre indivíduos que se propõem conjugar esforços para a prossecução em comum de determinados fins” (Serrão, 1989, p. 236, como citado em Fernandes, 2003, p. 67).
Mesmo a nível jurídico, as associações apresentam algumas singularidades que identificam o seu estatuto:
1. “A sua natureza de agrupamento voluntário: a associação tem uma natureza não imposta, resulta de um consenso entre pessoas que perseguem um objectivo particular;
2. A natureza contratual do grupo;
3. A permanência temporal da associação: trata-se de fazer a distinção entre uma reunião ocasional de pessoas e algo que apresenta uma personalidade jurídica duradoura, que permanece para além dos indivíduos que naquele momento a constituem” (Guilloume, 1987, p. 21, como citado em Fernandes, 2003, pp. 69-70).
De acordo com Fernandes (2003), juridicamente a existência de uma associação decorre ainda do cumprimento de alguns requisitos, nomeadamente o seu “reconhecimento” materializado através de escritura pública notarial, obtendo personalidade jurídica assim como a respectiva publicação do extracto em Diário da República e elaboração de estatutos próprios.
As associações, em Portugal, organizam-se segundo o modelo do estado moderno democrático, onde reservam por norma ao plenário dos seus associados – Assembleia Geral de sócios- as funções soberanas essenciais, tais como: modificação do pacto social, eleição dos responsáveis e aprovação dos principais instrumentos de supervisão de gerência; atribuem a um órgão de direcção as funções de governo quotidiano da associação e a um órgão de controlo, “conselho fiscal, a fiscalização do uso dos meios financeiros e da regular processualidade de toda a vida associativa” (Freire, 2004, p. 225).
20 Na abordagem das associações em termos organizacionais, o associativismo voluntário surge como algo difuso, desordenado e de acesso difícil.
Referindo-se a esta problemática, Lima (1986) acrescenta que a grande diversidade que caracteriza o associativismo e as formas de organização associativa tem, eventualmente, dificultado o seu estudo. Recorde-se que, sob a designação genérica de associativismo, surgem tipos de associações muito diversas – associações culturais e recreativas, associações desportivas; associações de tipo mutualista; associações sindicais; associações de actividades económicas; associações profissionais; associações de pais; associações de estudantes, etc.
Existe “uma relativa ambiguidade nas definições disponíveis, ou alguma dispersão na focalização do que entendem ser as características mais definidas das associações” (Fernandes, 2003, p. 78). Se uma associação é considerada ou não uma organização é algo que depende da concepção teórica subjacente, quer de organização, quer da própria associação voluntária.
Há autores que incluem as “associações voluntárias” no grupo das organizações formais. Para estes autores, organizações formais são um aspecto da organização social, distinguem-se das pequenas organizações informais (como por exemplo: grupo de amigos) porque são criadas deliberadamente e enfatizam o facto de uma pessoa ingressar por decisão voluntária, destacando algumas das suas características como a organização (Harton & Hunt, 1981, p. 188, como citados em Fernandes, 2003, p. 79).
“Há muitas organizações locais voluntárias – organizações eclesiásticas, clubes recreativos, associações de bairro e outros – que têm dirigentes voluntários, um estatuto mínimo (se é que alguém o pode encontrar), regulamentos ou procedimentos altamente «flexíveis», às vezes esquecidos ou ignorados. Nessas organizações, os aspectos informais obscurecem muitos dos aspectos de «organização formal» já que a associação opera vaga e livremente, de acordo com as necessidades do momento” (Fernandes, 2003, p. 80).
Idênticas perspectivas apresentam outros autores que definem as associações voluntárias como “organizações não lucrativas criadas para permitir que os indivíduos persigam os seus interesses partilhados colectivamente” (Brinkerhoff e White, 1991, p. 127, como citados em Fernandes, 2003, p. 80).
21 Quanto às estruturas associativas, Lima (1986) acrescenta ainda que as suas estruturas e formas de organização são geralmente muito simples e flexíveis, uma vez que resultam da participação voluntária dos cidadãos. Essa ideia tinha sido já apresentada por Meister (1974), quando se referia ao facto do modo de organização interna constituir um traço, que parece caracterizar muitas das associações, ou seja, as associações voluntárias, na opinião deste autor, “raramente apresentam um tipo rígido de organização, sendo essencialmente marcadas por um certo grau variável de flexibilidade” (Silva, 2002, p. 8).
A associação voluntária, enquanto equipas formais configuradas normativamente, não são organizações; contudo, apresentam “diferentes graus de organização que as distinguem, podendo, à medida que se tornam mais complexas na consecução das suas metas, dar maior relevo ao aparelho organizativo” (Fernandes, 2003, p. 89).
Em síntese, nas características particulares atribuídas às associações, concebidas genericamente como organizações não lucrativas, podemos considerar alguns aspectos comuns que nos ajudam a delinear e a precisar o conceito:
a) “Estruturas pouco ordenadas racionalmente, burocratizadas (Mayntz, 1987) ou hierarquicamente diferenciadas” (Giddens, 1997);
b) Decisões participadas e consensuais (Cardoso,1991), ordenadas segundo o modelo democrático (Mayntz, 1987);
c) Estruturas e forma de organização muito simples e flexíveis” (Lima, 1986, como citado em Fernandes, 2003, pp. 91-92). Assim como outras características assinaladas por, Silva (2002):
a) “A existência de inter-relações constantes entre os respectivos membros;
b) A consciência de adesão e de permanência por parte desses membros em relação à sua associação;
c) A existência de objectivos e fins que são comuns e partilhados;
d) O regime de voluntariado de adesão e permanência.” (Silva, 2002, p. 9).
Além destas características comuns, considerámos extremamente importante incluir a definição de “associação popular”, que se entende serem “organizações criadas
22 por iniciativa popular, caracterizadas pela promoção de determinados símbolos e códigos, que no desenvolvimento das suas actividades são apoiadas pelo Estado, pela Igreja, por instituições privadas e/ou por actores locais” (Afonso, 1989, como citado em Guimarães & Sancho, 2001, p. 160).
O autor, comparando algumas características da educação formal e da educação não formal, destaca nas associações democráticas para o desenvolvimento, as seguintes características: “apresentam carácter voluntário, promovem sobretudo a socialização, promovem a solidariedade, visam o desenvolvimento, preocupam-se sobretudo com a mudança social, são pouco formalizadas e pouco ou incipientemente hierarquizadas, favorecem a participação, proporcionam investigação - acção e projectos de desenvolvimento, são por natureza formas de participação descentralizadas.” (Afonso, 1989, como citado em Guimarães & Sancho, 2001, p. 162).
Esta concepção do autor torna-se extremamente importante e pertinente, uma vez que é sobre este tipo de associações que nos vamos debruçar neste estudo, analisando as suas relações, as suas práticas de participação activa e intervenção transformadora, o seu papel na educação ao longo da vida, na construção de uma sociedade mais consciente, crítica, humana e participativa, em resumo, o seu papel na “democratização da democracia”, em prol das oportunidades dos séniores.