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O regime higiênico e disciplinar está contemplado na terceira seção do capítulo dois do Regimento do Decreto n. 896/1892.

Os pacientes são classificados por sexo, classe social/capacidade contributiva e tipo de transtorno mental (art. 44), em conformidade com os referenciais de tratamento da época.

Os pacientes têm acesso a banhos diários e tratamento por meio de sessões de hidroterapia15 (art. 46). Ao lado da hidroterapia, as oficinas são uma das

modalidades terapêuticas adotadas nessa época (art. 54). Os trabalhos ali confeccionados, se não são vendidos ou utilizados por quem os produziu, ficam expostos à visitação (art. 55). Caso sejam vendidos, reverte-se 10% (dez por cento) do valor obtido para os enfermos que mais se destaquem na confecção dos produtos ou que, já recuperados, não tenham condições econômicas de arcarem com as despesas geradas pelo seu retorno para casa.

O lazer é assegurado através de banhos de mar (art. 47), exercícios físicos, leituras, jogos e música. O Hospício dispõe de locais apropriados para o desenvolvimento das referidas atividades lúdicas, tais como salas de reuniões e de recreio (art. 45) e biblioteca, bem como dos instrumentos adequados para a prática de cada uma das recreações anteriormente mencionadas: aparelhos de ginástica, livros, jogos e instrumentos musicais (art. 49). Contudo o acesso a essas atividades é restrito aos pacientes de primeira e segunda classe, conforme exposto por Edmar de Oliveira (2003, p. 24).

15 Essa modalidade de tratamento é fundada na mentalidade médica vigente à época, que credita à

Os internos desempenham atividades laborativas, de acordo com as suas aptidões e conforme indicação do Diretor Geral (art. 48).

Os de terceira e muito provavelmente, os pobres e indigentes trabalhavam na manutenção, na jardinagem, na limpeza e na cozinha. Paradoxalmente, se recuperavam em maior número que os primeiros [de primeira e segunda classe] que, paralisados pelo ócio, perpetuavam-se na internação. (OLIVEIRA, 2003, p. 24-5).

As refeições diárias são servidas três vezes em conformidade quer com as diárias pagas pelos pensionistas, quer com o regime alimentar a que cada paciente está submetido em virtude de eventual moléstia física (art. 50).

A ordem no interior da instituição, assim como a disciplina dos pacientes é mantida por intermédio da fiscalização promovida pela rede de “olhares” profissionais que ali trabalham e exercem o poder disciplinar,16 assim denominado por Michel Foucault (1984, p. 189), através da vigilância e submissão dos corpos ou através de sanções, tais como: proibição de recebimento de visitas, proibição de passeios ou qualquer outra forma de recreação, pela reclusão à solitária ou através da utilização de camisa de força ou da célula (cubículo) (art. 51).

A amplidão dos espaços, a disciplina, o rigor moral, os passeios supervisionados, a separação por classes sociais, os diagnósticos e a constante vigilância dos enfermos, materializada arquitetonicamente como um panóptico,17 representam o nascedouro da psiquiatria no Brasil. (ALENCAR, 2003, p. 20).

As correspondências recebidas pelos pacientes ou enviadas por eles são sujeitas ao controle institucional (art. 52), ferindo um direito que já se encontra consagrado desde a Constituição Imperial de 1824 (art. 179, 27) e que se mantém na Constituição de 1891 (art. 72, § 18): o sigilo de correspondência. Esse direito

16 “As disciplinas veicularão um discurso que será o da regra, não da regra jurídica derivada da

soberania, mas o da regra ‘natural’, quer dizer, da norma; definirão um código que não será o da lei mas o da normalização; referir-se-ão a um horizonte teórico que não pode ser de maneira alguma o edifício do direito mas o domínio das ciências humanas, a sua jurisprudência será a de um saber clínico.” (FOUCAULT, 1984, p. 187).

17 O termo panóptico é utilizado primeiramente pelo filósofo utilitarista Jeremy Bentham para se referir

ao modelo prisional que idealizou. Outro filósofo, Michel Foucault, amplia essa concepção, apresentando o panóptico não apenas como “[...] imagem de um novo sistema prisional, mas como o esquema geral de funcionamento do poder no mundo moderno. No projecto arquitectónico de Bentham são identificados os elementos constituintes fundamentais do poder moderno: a centralização, a moralização (no lugar antes se encontrava a violência física) a eficácia e, de todos o mais determinantes, a individualização. Na situação em que um único observador, posicionado numa torre central, vigia a totalidade dos indivíduos (entre si isolados e separados), estes, porque não têm acesso ao acto de vigilância a que estão sujeitos, interiorizam o sentimento de permanente observação e são levados a transformar-se nos agentes mais zelosos da sua própria vigilância. O mero dispositivo geométrico e arquitectónico internaliza em cada indivíduo os constrangimentos que lhe chegam do exterior, sob a forma de um controlo meticuloso tanto do seu corpo como da sua mente.” (ESTEVES, 1993, p. 153).

também é garantido no Código Penal de 1890 que pune a violação de segredo (art. 189).

Cabe destacar que o Regulamento do Decreto 896/1892 prevê, também, nas suas disposições gerais, o asseguramento da liberdade religiosa dos enfermos, tanto os que se encontram internados no Hospício Nacional como nas colônias, através do disposto no art. 85, in verbis:

Art. 85. As familias dos enfermos recolhidos a qualquer dos estabelecimentos poderão enviar-lhes, quer para acompanhal-os nos ultimos momentos, quer para a celebração de actos religiosos, os sacerdotes e pastores da religião a que pertencerem.

Esse direito encontra-se previsto no art. 72, § 3o, da Constituição de 1891. Outro direito garantido aos pacientes é o de visita. Os horários, dias e condições para o recebimento de visitas são previstos no art. 53. Os indigentes têm direito de receber visitas apenas no primeiro domingo de cada mês, a não ser que o médico responsável pelo seu setor conceda uma autorização em caráter excepcional. Os pensionistas, por sua vez, podem receber seus parentes ou responsáveis legais às segundas e sextas-feiras, por duas horas (9h às 11h), salvo quando houver restrição médica.

Ao administrador do Hospício Nacional incumbe, dentre outras atribuições, a realização dos funerais dos pacientes, em conformidade com a vontade do morto, de seus familiares ou de seus responsáveis (art. 60, § 6o). Compete-lhe, ainda, informar

os familiares dos pensionistas, de acordo com as orientações médicas, as ocorrências mais importantes relativas à sua saúde (art. 60, § 10).