O estudo foi desenvolvido em uma amostra representativa de jovens entre 15 e 19 anos de idade, matriculados na Unidade Básica de Saúde da Família (UBSF) Santa Inês, localizada no Distrito Administrativo Vila Jacuí, zona leste do município de São Paulo/SP, tendo sido escolhida por ser a unidade de saúde em que a autora trabalhou como enfermeira durante aproximadamente dois anos. A faixa etária de 15 a 19 anos de idade foi definida por compreender o período da adolescência em que o evento investigado, ou seja, o início da vida sexual, ocorre com maior freqüência e ainda permite comparações, pois nesse período podem ser encontradas proporções razoáveis de jovens que não iniciaram a vida sexual.
A Vila Jacuí é um distrito com 7,7 Km2 de área e, segundo o Censo de 2000, com uma população residente de 141.544 pessoas, revelando uma densidade populacional de 20.102 habitantes por Km2, quase o triplo da densidade populacional da cidade de São Paulo, que era de 6909 habitantes por Km2 (SEADE 2004b). De acordo com SPOSATI (2000), seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é -0,59, o que o coloca na 22a pior posição entre os 96 distritos paulistanos1. Atualmente, faz parte do grupo 4 do Índice de
1
O IDH proposto pela Organização das Nações Unidas é um indicador resultante da composição da esperança de vida, grau de instrução de crianças e adultos e renda per capta e tem como objetivo medir o desenvolvimento de populações não somente do nível de desenvolvimento econômico de uma região, visto que esse fator nem sempre assegura o desenvolvimento do nível de vida das pessoas. Segundo SPOSATI (2000), que propôs um índice a partir desse IDH, notas decimais negativas e positivas foram atribuídas para simbolizar o índice de exclusão/ inclusão social. Através dessas notas, foi construído um ranking dos distritos administrativos pelo afastamento negativo ou positivo do padrão de inclusão, variando de –1,00 a 1,00. O valor 0 representa o padrão mínimo adequado desse indicador. Os distritos Jardim Ângela, Parelheiros e Grajaú obtiveram a nota mais baixa do ranking, enquanto que Jardim Paulista, Consolação e Pinheiros foram os três melhores classificados, com índices perto ou igual a 1,00.
Procedimentos Metodológicos 27
Vulnerabilidade Juvenil (IVJ), englobando os distritos que se classificam em segundo lugar com população jovem mais vulnerável do município de São Paulo (SEADE 2004c)2.
A UBSF Santa Inês está localizada no limite territorial desse distrito, compreendendo o Parque Cruzeiro do Sul, Vila Nossa Senhora Aparecida, Vila Santa Inês, Jardim Imirim e Vila Godoy (mapa no ANEXO I), tendo sido inaugurada em 30 de junho de 2000.
É parte do Programa de Saúde da Família (PSF), uma estratégia de reformulação da atenção básica que propõe uma nova dinâmica tanto para a estruturação dos serviços de saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE 1996), quanto para a relação com a comunidade e entre os diversos níveis de complexidade de atenção à saúde (SOUZA 1999), tendo como foco de atenção a família. Mesmo quando a abordagem é feita individualmente, a intervenção deve objetivar a origem dos problemas e suas repercussões junto à família do usuário.
Para o PSF, família são todos os moradores de uma mesma unidade domiciliar, independentemente do número de indivíduos ou laços de parentesco, em concordância com o conceito de família utilizado nas pesquisas censitárias: “família é o conjunto de
pessoas ligadas por laços de parentesco, dependência doméstica ou normas de convivência, residentes na mesma unidade domiciliar, ou pessoa que mora só em uma unidade domiciliar” (IBGE 2001).
As UBSF trabalham em uma área geográfica delimitada em até 1000 famílias por equipe. Cada equipe conta com um profissional médico, um enfermeiro, dois auxiliares de enfermagem e cinco agentes comunitários de saúde. Cada agente comunitário de saúde (ACS) é responsável por uma micro-área composta em média por 200 famílias. Ele é o profissional que permite o vínculo e o acesso entre a equipe de saúde e a comunidade, já que é morador da micro-área em que trabalha.
2O IVJ, elaborado pela Fundação SEADE, considerou em sua construção dados de 2000 sobre os níveis de crescimento populacional, freqüência à escola, gravidez e violência entre os jovens e adolescentes residentes no local. O indicador varia em uma escala de 0 (menor vulnerabilidade) a 100 pontos (maior vulnerabilidade). O distrito Vila Jacuí alcançou 63 pontos (SEADE 2004c).
As famílias são cadastradas pelo seu respectivo ACS, que as visita pelo menos uma vez ao mês. Cada família tem um número de registro, que é o mesmo para todos os membros da casa. Esse número é o mesmo número do prontuário e é organizado em ordem crescente de micro-área e família. Por exemplo, micro-área 10- família 41/ micro- área 16- família 128. O prontuário clínico é individual, mas o número do registro é o mesmo para toda a família.
Os dados gerados pelos profissionais de saúde do PSF para o diagnóstico e acompanhamento das famílias cadastradas, assim como para o planejamento e gestão das próprias equipes, armazenam o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). Por meio dele, é possível, entre outros, conhecer as informações sobre todos os membros da família, como idade, escolaridade, ocupação, doença referida, procedência, condições da moradia, tipo de tratamento da água para consumo, destino dos dejetos, destino do lixo, meios de transporte utilizados, meios de comunicação utilizados, participação em grupos comunitários ou religiosos, permitindo a caracterização da situação sociosanitária, do perfil epidemiológico e o acompanhamento das ações de saúde desenvolvidas (MINISTÉRIO DA SAÚDE 2003). Esses indicadores sociais e demográficos são atualizados sempre que necessário na visita domiciliária mensal do ACS.
De acordo com o relatório do SIAB de fevereiro de 2002, a UBSF Santa Inês possuía 4061 famílias cadastradas, totalizando 16586 pessoas. Em torno de 99% das famílias tinham acesso à água canalizada proveniente de rede geral, iluminação elétrica e lixo coletado por serviço público e uma proporção menor (86%) tinha acesso a esgotamento sanitário ligado a uma rede coletora. Havia uma porcentagem semelhante de indivíduos de 7 a 14 anos de idade fora da escola (11%) e aqueles com mais de 15 anos de idade e analfabetos (11%).
A UBSF Santa Inês tinha 3474 adolescentes entre 10 e 19 anos de idade, ou seja, 20,9% de sua população total, taxa um pouco maior que a do município de São Paulo, que é de 17,1% (SEADE 2004a). Na faixa etária de 15 a 19 anos de idade, eram 1744
Procedimentos Metodológicos 29
pessoas, divididas em 47,0% do sexo masculino e 53,0% do sexo feminino. Um pouco menos da metade das famílias (42,6% ou 1732) possuía um ou mais adolescentes cadastrados.
3.2.1 Plano Amostral:
O tamanho da amostra (n0) foi calculado baseando-se na precisão desejada para
se estimar a porcentagem de adolescentes de 15 a 19 anos com vida sexual ativa, já que, de acordo com os objetivos desse estudo, foi importante a obtenção de uma amostra que fosse representativa do número de adolescentes que iniciaram a vida sexual. A fórmula utilizada foi (SILVA 1998a):
2 2 0
.
.
d
z
q
p
n
=
Em que:p= proporção esperada dos adolescentes de 15 a 19 anos que tenham vida sexual
ativa
q= 1-p
z= percentil da distribuição normal d= erro máximo em valor absoluto
Considerando p= 60% (MINISTÉRIO DA SAÚDE 2000) e d= 5% para um intervalo de confiança de 95%, tem-se:
369
05
,
0
96
,
1
40
,
0
60
,
0
2 2 0=
⋅
⋅
=
n
n0= 369 indivíduosPara se obter a estimativa final do tamanho da amostra, o valor de n0 foi ajustado
usando-se um fator de correção para população finita (n):
+ = N n n n 0 0 1
Em que N= número total de adolescentes de 15 a 19 anos cadastrados na Unidade de Saúde da Família Santa Inês (1744) em fevereiro de 2002.
Então: + = 1744 369 1 369 n
Procedendo-se aos cálculos e arredondando-se o valor obtido para o inteiro mais próximo, obteve-se o tamanho da amostra.
n= 305 indivíduos
Considerando a possibilidade de perdas, foram acrescidos 30% para que não houvesse redução do tamanho da amostra.
Os sujeitos foram selecionados por meio de um procedimento de amostragem sistemática sem reposição, com intervalo de amostragem igual a 4, calculado segundo o número de famílias que tinham pelo menos um adolescente entre 15 e 19 anos de idade cadastrado (1732), realizando um arredondamento para o inteiro mais próximo. O tamanho final da amostra constou, finalmente, de 433 adolescentes.
Para selecionar as famílias, foi realizada uma listagem por meio do SIAB com todas as famílias com pelo menos um adolescente de 15 a 19 anos cadastrado, disposta por ordem crescente de micro-área (1 a 20) e número da família (1 a 200 ou mais). O início casual foi obtido por meio de um sorteio a partir do intervalo de amostragem, ou seja, sorteou-se uma família entre as quatro primeiras da listagem.
Procedimentos Metodológicos 31