Para dar conta do número de entrevistas que deveriam ser realizadas, formou-se uma equipe com duas entrevistadoras, além da pesquisadora responsável (que realizou mais da metade das entrevistas). As duas entrevistadoras foram treinadas para a aplicação do instrumento e para a abordagem do jovem, sendo acompanhadas semanalmente com muita atenção. Todos os instrumentos preenchidos foram revisados em conjunto com a entrevistadora e, posteriormente, foram anotadas as respostas pré- codificadas na coluna para digitação do banco de dados.
As entrevistas foram realizadas, majoritariamente, no próprio domicílio dos adolescentes selecionados. É preciso salientar que a entrevista foi conduzida respeitando-se a privacidade do jovem e, mesmo tendo sido planejada para ser conduzida no domicílio do adolescente, foi dada a opção para que ele escolhesse o local em que se sentisse mais confortável para responder as perguntas, como por exemplo, um cômodo específico de sua casa, quintal, casa de vizinhos/parentes, espaço público, centro de juventude e outros. Além disso, foram oferecidos aos entrevistados preservativos masculinos, panfletos educativos sobre prevenção de doenças sexualmente transmissíveis/Aids e uma listagem com os serviços disponíveis na cidade de São Paulo para mulheres vítimas de violência.
O trabalho de campo estendeu-se de junho a dezembro de 2002. O nome e endereço dos adolescentes selecionados foram coletados no prontuário de sua família, lembrando que a amostragem sistemática utilizou como parâmetro o número de registro das famílias que tinham ao menos um adolescente cadastrado.
Em cada família selecionada, foi entrevistado apenas um adolescente. No caso de famílias em que havia mais de um adolescente entre 15 e 19 anos de idade, foi realizado um sorteio entre os adolescentes (mediante a ordenação crescente por idade) com o objetivo de selecionar apenas uma pessoa nessa faixa etária em cada família.
No caso da não possibilidade de realizar a entrevista com o adolescente da família selecionada após três tentativas, ele foi descartado do estudo. É preciso deixar
claro que as entrevistas tiveram a possibilidade de serem realizadas em quaisquer dias da semana e na primeira tentativa frustrada, buscou-se agendar um horário com o adolescente por meio de algum familiar, o que nem sempre foi bem sucedido.
Foram entrevistados 406 adolescentes. Houve 27 perdas, que deveram-se a: a) Recusa: uma mãe e um pai não permitiram que a entrevista com suas filhas mulheres
fosse realizada sem a sua presença; dois adolescentes alegaram desinteresse em participar do estudo.
b) Falta de qualidade dos questionários: duas entrevistas não foram consideradas confiáveis pelas entrevistadoras, portanto foram descartadas.
c) Mudança do adolescente: dois adolescentes estavam internados na FEBEM, uma adolescente não podia permanecer em seu domicílio por conta de desavenças com os vizinhos, segundo contou sua família, e três adolescentes haviam se mudado com sua família.
d) E outros 15 adolescentes não foram encontrados em seus domicílios após três tentativas ou já haviam completado 20 anos de idade.
O total de perdas (6,2%) foi considerado adequado ao esperado pelo plano amostral (30,0%). Vale destacar que houve uma excelente receptividade por parte dos adolescentes selecionados e suas famílias. Muitas vezes, os adolescentes recomendavam amigos e parentes para serem entrevistados e muitos, que não faziam parte da amostra, solicitaram às entrevistadoras participação na pesquisa.
A confiabilidade dos dados coletados pelas duas entrevistadoras foi checada tanto por meio da comparação dos dados sociodemográficos dos adolescentes e seus pais com as informações contidas na ficha de cadastro do SIAB, quanto por meio de uma visita domiciliar posterior à entrevista para a confirmação dos dados preenchidos em mais da metade das entrevistas.
Os resultados obtidos neste estudo foram apresentados e discutidos com toda a equipe da Unidade de Saúde da Família Santa Inês nos meses de janeiro e fevereiro de 2004.
Procedimentos Metodológicos 33
3.4 Instrumento:
Foi utilizado um formulário estruturado com questões fechadas (ANEXO II)3. O pré-teste do formulário foi realizado nos meses de fevereiro e maio de 2002 na própria UBSF Santa Inês, com adolescentes de 15 a 19 anos de idade que procuraram espontaneamente o serviço.
O formulário foi divido em sete partes:
1- Informações sociodemográficas dos adolescentes. 2- Estrutura familiar.
3- Informações sociodemográficas das mães/madrastas que coabitavam com os adolescentes no momento da entrevista.
4- Informações sociodemográficas dos pais/padrastos que coabitavam com os adolescentes no momento da entrevista.
5- Opinião dos adolescentes sobre os valores e atitudes de seus pais e mães acerca das questões relativas à sexualidade e relacionamentos familiares, além de aspectos relativos a conversas sobre sexo.
6- Questões relacionadas ao namoro.
7- Perguntas específicas: a) caracterização do início da vida sexual para aqueles que já tiveram alguma relação sexual; b) descrição das razões para não ter iniciado a vida sexual e da intenção de iniciar a vida sexual para aqueles que nunca tiveram relação sexual.
O instrumento foi preenchido com muita facilidade e, na maior parte das vezes, com rapidez (cerca de 15 a 20 minutos). A ordem em que foram colocadas as questões, iniciando com perguntas sobre as informações mais gerais sobre os adolescentes e sua família e finalizando com as perguntas relacionadas à sua sexualidade, portanto, mais íntimas e que poderiam trazer algum embaraço aos jovens, possibilitou o
3 Algumas questões foram baseadas no instrumento utilizado no Projeto Gravidez na Adolescência: Estudo Multicêntrico
estabelecimento de um ambiente de tranqüilidade e confiança durante a entrevista. Todas as questões com alternativas foram pré-codificadas, bastando que o entrevistador circulasse o item correto. Do lado direito de cada pergunta, havia o nome da variável conforme sua entrada no banco de dados, entretanto, a resposta final nessa coluna somente foi marcada pela pesquisadora responsável, após análise e discussão dos questionários com cada entrevistador e checagem da fidedignidade dos dados ali apresentados.