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2. LİTERATÜR TARAMASI

3.1. Materyal

O Ministério da Cultura, sob o comando de Gilberto Gil, desenvolveu novas concepções para a criação e implementação de políticas públicas de cultura. O discurso de uma política cultural plural, democrática, articulada e sistêmica, por sua vez, aportou-se nos valores presentes na Constituição Cidadã de 198872. O momento era profícuo para o desenvolvimento de estruturas e mecanismos que garantissem uma intensa interface entre Estado e sociedade.

O Seminário Cultura XXI, por sua vez, além de representar o pontapé inicial para os rumos vislumbrados pela nova gestão da SECULT, expressava-se como um momento de convergência com os valores constitucionais. Nessa perceptiva, o seminário funcionaria como um laboratório para o diagnóstico da situação em que se encontrava a cultura no Ceará (em diálogo frequente com os demais estados e União). Como afirma a própria secretária em artigo escrito para o Jornal O Povo:

Mais do que um fórum para especialistas, o seminário busca sensibilizar a todos para a importância da cultura, não somente na concepção weberiana – de cultura como uma teia de significados construídos pelo homem na qual ele mesmo se deixa aprisionar -

72 Pelo dispositivo da Constituição Federal de 1988, é obrigação do Estado, como consta no Art. 215, parágrafo §

3º, inciso II, a produção, promoção e difusão de bens culturais. A CF Cidadã assegura também a “cooperação entre os entes federados, os agentes públicos e privados atuantes na área cultural”, presente no Sistema Nacional de Cultura (SNC), constado no Art. 216, parágrafo § 1º, inciso V.

68 , mas, sobretudo, como um instrumento à inclusão social, o grande desafio do nosso Estado. [...] Assim, começamos a enfrentar este desafio mobilizando a sociedade em torno da necessidade da construção de uma projeção comum para a gestão da cultura, e buscando respostas. Logo depois do seminário, estaremos debruçados sobre velhas demandas e novas idéias, na elaboração do planejamento estratégico da Secretaria da Cultura do Estado (Secult) para os próximos anos73.

O Seminário foi fundamental para lançar bases de ação para a SECULT. Nas palavras da então secretária, em documento dos anais do “Seminário Cultura XXI: Seleção de Textos”, não seria possível “definir políticas, programas e projetos culturais sem antes constituirmos o devido espaço para a reflexão teórica e intelectual acerca da temática cultural, condição a priori para qualquer ação concreta no campo cultural” (2006, p.7).

Cláudia Leitão expressou, em entrevista, a sua surpresa em relação ao sucesso do Seminário:

[...] resolvi propor ao governador a realização de um seminário chamado “Cultura XXI”, onde se tentaria fazer um diagnóstico da situação da cultura. Eu era tão ingênua, tão neófita, que chamei o então ministro Gilberto Gil. E ele compareceu. Chamei o Brasil inteiro. E o Brasil compareceu. Eu não estava preparada para tanto. O ministro disse que esse foi o primeiro convite que havia recebido desde assumir o cargo. Ele também estava chegando a Brasília, e recebeu um ofício meu que dizia: “Ministro, estou organizando um seminário, no longo do qual pretendi discutir cinco pilares que parecem importantes para podermos começar um trabalho de gestão e formulação de política pública”. (LEITÃO, 2010, p. 98)

A ocasião do primeiro Seminário Cultura XXI foi, em certa medida, a data primeira na qual se colocou na mesa as afinidades entre as ações pretendidas por Leitão para a SECULT e por Gil para o MinC. A secretária destacou uma série de pontos que convergiam entre sua proposta e a do ministro para a criação e promoção de políticas culturais.

Era uma quinta-feira, março de 2003, o teatro do Centro Cultural Dragão do Mar lotado. No longo do pronunciamento, o ministro colocou, de certa maneira, a plataforma do que seria o governo Lula em termos de cultura. Havia muitas afinidades entre nossas maneiras de pensar. Como ele, eu também via a cultura por três vieses muitos distintos. Primeiro, a necessidade de ampliar o conceito de cultura, de modo que abarcasse não só as linguagens ditas artísticas. [...] O segundo viés era a inclusão, a questão da cidadania cultural, um dos primeiros pontos que discuti com minha equipe quando cheguei à Secretaria. O terceiro era a profissionalização, a necessidade de dotar os profissionais do campo de cultura e torna-los menos amadores, porque cultura também é emprego e renda. Quando percebi que esses pontos também eram prioritários para o ministro, entendi que a Secretaria de Estado do Ceará não teria dificuldades de trabalhar com o governo federal, muito embora eu representasse um partido de oposição. Mas essa oposição, felizmente, nunca se colocou. (LEITÃO, 2010, p. 99)

Assim como Gil, Cláudia Leitão buscou, no Seminário, estabelecer os caminhos que seriam trilhados pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. Na perspectiva da então

69 secretária, o alargamento da definição da cultura e o espraiamento das ações da pasta cultural faziam-se necessários. Outro aspecto fundamental seria a transversalização das ações entre as pastas estaduais e a realização de parcerias com entes públicos e não-públicos. Na oportunidade do encontro, segundo Leitão, ficou evidente a tímida presença da secretaria em todo o estado. Essa constatação, por sua vez, foi o cerne das ações da SECULT, entre 2003 e 2006, com a realização de uma política cultural de caráter descentralizador.

Realizado anualmente entre 2003 e 2006, o evento navegou pelos diversos temas que compõem os fazeres culturais e as suas interfaces com a gestão pública de cultura. Cada ano teve um eixo central sobre o qual se desdobraram os pilares específicos do seminário, os temas foram: as relações entre a Cultura e a Gestão; a Economia, o Direito, a Cooperação Internacional; o Planejamento Urbano; e o Desenvolvimento Local, o Turismo, as Cidades, a Comunicação, a Mídia, o Poder. O seminário também deu subsídios para a execução de novas práticas de gestão da SECULT. Com o diagnóstico realizado no encontro, a SECULT buscou empreender um planejamento estratégico que resultou no Plano Estadual de Cultura (2003- 2006).

Benzer Belgeler