O Ceará Moderno foi a tônica da campanha de Lúcio Alcântara desde seus primeiros discursos. Este foi o caso da Convenção Estadual do PSDB, ocorrida em Fortaleza no dia 23 de junho de 2002, em que Lúcio afirmou: “Nós buscamos a modernidade, esta é a nossa luta aqui no Ceará. Mas, e modernidade, o que é? É democracia, é legalidade, é desenvolvimento, é justiça, é participação, é educação”. A simbólica de um ciclo modernizador foi resguardada aos Governos das Mudanças durante todos os pleitos concorridos (1986, 1990, 1994, 1998 e 2002), percebe-se na fala que a temática central dos discursos mudancistas, a modernização da máquina pública aliada à inclusão social, ainda continuava presente nas performances políticas do candidato tucano.
Um dos desafios que se coloca às estratégias de campanha de ciclo longevos, como o aqui analisado, é a amálgama discursiva necessária entre as simbólicas supostamente antagônicas: mudança e continuidade. O recurso que alia essas duas moedas pode ser evidenciado nos diversos slogans que compuseram o nome da chapa da qual Lúcio Alcântara foi o representante no pleito de 2002: “O Ceará Cada Vez Melhor”, “O Ceará não Pode Parar”, etc. O termo “melhor” do primeiro slogan indica a manutenção de um ritmo ascendente a determinado processo, isso quer dizer que há um esforço para atingir etapas superiores de desenvolvimento, como analisa Carvalho (2004). O segundo slogan sugere a noção do movimento contínuo de ações, uma gestão que nunca para de trabalhar, buscando imputar a estagnação e/ou retrocesso aos oponentes políticos.
A construção de uma cearensidade, na campanha de Lúcio Alcântara, seguia o entendimento do Ceará como uma comunidade simbólica, em outras palavras, uma ideia do “que seria o cearense” e o “que seria o Ceará”. Essa construção de uma identidade cearense seguiu os preceitos modernos constituintes das culturas nacionais, por meio dos quais o Estado- nação exercia uma força central na produção e canonização de significados e temáticas para as práticas culturais modernas (HALL, 2014).
81 O caráter “universal”, “oficial” e “legítimo” configura-se como condição fundamental para a compreensão do Estado moderno, detentor do domínio simbólico e físico sobre os agentes (BOURDIEU, 2014). Todavia, o discurso cultural nacional não é tão moderno como se diz, ele “constrói identidades que são colocadas, de modo ambíguo, entre passado e o futuro. Ele se equilibra entre a tentação por retornar as glórias passadas e o impulso por avançar ainda mais em direção à modernidade” (HALL, 2014, p. 33).
Uma série de elementos compõem a forma como uma narrativa sobre o passado pode ser estruturada. Um deles, do qual a campanha de Lúcio lançou mão, é o mito fundacional. O retorno a uma origem mítica do Ceará pode ser percebido em discursos da campanha e em documentos do Governo. Como exemplo, destaco a fala do então candidato na Convenção Estadual do PSDB:
Quando o nosso grande escritor José de Alencar escreveu em seu grande livro Iracema aquela frase poética que deve ser um marco dístico, que deve ser um lema do nosso povo: “lá além, muito além daquela serra que azula no horizonte, nasceu Iracema”. Eu diria que nasceu mais que Iracema, a matriz da nossa gente, nasceu o povo, nasceu a civilização, nasceu uma cultura e é a isso que eu vou ser fiel, e é para essa gente que eu vou governar, e é com essas tradições que eu vou trabalhar.
A fala de Lúcio elucida, portanto, um marco de origem da sociedade cearense. A história de Iracema desempenha o papel de mito fundador do Ceará. Da união da índia Iracema com o português Martins Soares Moreno não nascia apenas Moacir, o filho da dor, ou as características físicas que formariam um cearense miscigenado, mas também os hábitos, valores e visões de mundo que comporiam a cearensidade, “natureza essencial” de cada habitante do estado.
A obra alencarina é um exemplo metafórico de como o Estado fomentou uma narrativa e traçou um marco fundacional, resultando no Ceará Mítico. Como aponta Hall, esse recurso funciona como “uma história que localiza a origem da nação, do povo, de seu caráter nacional de um passado tão distante que eles se perdem nas brumas do tempo, não do tempo “real”, mas de um tempo “mítico”” (2014, p. 33). As obras culturais, nesse sentido, são ferramentas importantes para a construção de um imaginário popular e têm, historicamente, desempenhado um papel fundamental na construção e reforço de identidades e narrativas.
Já o “futuro” foi celebrado na campanha de Lúcio na figura de um Ceará Moderno, fruto das políticas implementadas pelos Governos das Mudanças. A cearensidade, da qual a campanha se beneficiou, foi a construção de uma ideia que rejeitava e silenciava os estigmas da seca, da agrura e da pobreza, focando, assim, no discurso modernizador do mudancismo que, segundo as peças da campanha, levou energia para todos os cearenses; garantiu a infraestrutura
82 necessária para o desenvolvimento industrial e para a exportação; e gerou emprego e renda (CARVALHO, 2004).
A cearensidade é encarnada pela imagem do cearense que “antes de tudo é um forte”, um indivíduo miscigenado e que com essas características tornou-se um vencedor, como se expressa no jingle: “Um homem forte nasci, branco, caboclo, índio valente, e na mistura dessa gente que venceu eu sou feliz” (CARVALHO, 2004, p. 85).
Além disso, o Ceará é um espaço, uma localidade geográfica, as qualificações celebratórias sobre o estado também estão expostas no material de campanha: “Terra da luz, terra do sol”. Os termos “luz” e “sol”, no trecho destacado, exercem o efeito de “trocadilho”, recurso publicitário, e parece apontar para as características climáticas do estado, aonde a intensa luz solar é presente na maior parte do ano. No entanto, o termo “Terra da Luz” também remete ao feito do Ceará ter sido a primeira província a abolir a escravatura, em 1884. O jingle busca, portanto, articular um arsenal de fatos que contam a história do Ceará, além de atrelar tais situações à campanha de Lúcio Alcântara.
No processo de construção da campanha, a equipe do candidato tucano realizou um documento em diálogo com a sociedade que, sob o título “Movimento Ceará Cidadania”, lançava as suas intenções e promessas de campanha. Nele, a cearensidade ganhou protagonismo tornando-se um dos eixos de interação do Programa79. Com a vitória de Lúcio Alcântara, o material foi expandido e compôs o programa de governo que passou a ser intitulado “Ceará Cidadania: crescimento com inclusão social”. O plano de governo de Lúcio Alcântara foi elaborado por meio da colaboração de 900 voluntários de todos os lugares do estado no sentido de construir “soluções para os grandes desafios enfrentados pelo Ceará” (CEARÁ, 2003, p.11).
O documento elencava 4 Eixos de Articulação do Plano de Governo para desenvolver as ações: eixo 1 – Ceará Empreendedor; eixo 2 – Ceará Vida Melhor; eixo 3 – Ceará Integração; e eixo 4 – Ceará – Estado a serviço do cidadão. A implementação das ações desses eixos de forma transversal e concatenada tinha como intuito reduzir as desigualdades sociais e regionais e promover a inclusão social80, objetivo geral da gestão Lucista, além de fortalecer a construção de uma “consciência coletiva sobre as questões de interesse local e
79 Além da Cearensidade, existiam mais quatro outros eixos de interação: “Participação e Gestão Compartilhada”,
“Valorização Regional”, “Desenvolvimento Local” e “Qualidade de Vida Urbana”.
80 A inclusão social tornou-se a pedra angular do programa de governo de Lúcio, pois era em torno de uma alta
desigualdade social que se firmavam as críticas ao Mudancismo, do qual Lúcio era representante. Moraes (2003), nos apresenta que, segundo o Atlas do Desenvolvimento Humano (PNUD-IPEA) do ano de 2000, na comparação com os demais estados e o distrito federal, o Ceará ocupava a 23ª renda per capita e a segunda maior desigualdade de renda, a 23ª taxa de alfabetização, a 5ª posição no ranking de estados com percentual de pessoas com quinze anos ou mais analfabetas, além de ser o quinto estado mais pobre do País.
83 regional, objetivando firmar a identidade das regiões” (p. 25). Ainda no documento, vê-se as variadas frentes que compõem a cearensidade:
Todos os fundamentos expostos [...] perderiam qualquer sentido se fossem desvinculados da noção de que o Estado tem uma formação histórica que molda sua identidade e condiciona seu papel no contexto do conjunto de Unidades Federativas do País. Todos os fundamentos que dão sustentação às políticas, aos programas e às ações propostas neste documento, só serão verdadeiramente enraizados na sociedade cearense se forem combinados com o fortalecimento da identidade cearense em
meio às tendências homogeneizadoras da globalização, sem pretensão de
isolamento, mas com a consciência do direito à expressão e à valorização de uma cultura própria.
Dessa forma serão preservados os traços culturais do Estado, mas sem perder de vista que ele faz parte de um todo (Nordeste, Brasil e o mundo), recebendo influências externas, mas buscando, por essas influências, renovar-se, modernizar-se e absorver o que vier para melhorar as condições de vida e para o seu povo. Todavia, com a
preservação dos valores que fundamentam e dão identidade ao Ceará e aos cearenses (CEARÁ CIDADANIA, 2003. p. 26, grifos meus).
A partir do trecho acima, pode-se apreender a ideia de que o Ceará tem uma identidade própria, consolidada pela sua história (geográfica, populacional, gastronômica, etc.). Em outras palavras, uma identidade essencializada que compõe um eu coletivo que se forja no âmago da pluralidade dos muitos eus (HALL, 2000). Esse argumento foi fortalecido quando, “diante das tendências homogeneizadoras da globalização”, ressaltou-se a necessidade de preservar os valores que fundamentariam a identidade cearense.
Os trechos “o fortalecimento da identidade cearense em meio às tendências homogeneizadoras da globalização” e a “preservação dos valores que fundamentam e dão identidade ao Ceará e aos cearenses” indiciam a existência de dois fenômenos no bojo da cearensidade: a) um conjunto de signos que significam a vida em comum do povo cearense dentro de sua pluralidade; e b) uma diversidade cultural dentro do território cearense. Seria, portanto, na identificação destas duas dimensões que se pautaria o desenvolvimento das políticas públicas do Governo do Estado.
O argumento da identidade cearense como essencial para a elaboração das ações do governo estabelece um jogo de correspondência. Assim como os cearenses, o documento oficial com o “norte” das ações governamentais também se baseava na suposta cearensidade. Essa identificação de “Povo e Plano de Governo Cearensidade” traria ao documento a característica de incontestabilidade, visto que seu conteúdo foi forjado pelo povo e “para o povo cearense”.
A “tradição” se revelaria nos saberes e fazeres que contariam a trajetória histórica do povo cearense. O “moderno” sinalizaria o “avanço necessário” para que o estado se inserisse no âmbito econômico globalizado, fenômeno que, em tese, garantiria emprego e distribuição
84 de renda. A dupla dinâmica dessa identidade, no argumento do plano de governo, funcionaria como uma simbiose perfeita, uma vez que a modernização, garantia para o avanço social e econômico do Ceará, preservaria em seu âmago os valores fundamentais que constituiriam a identidade do Ceará e dos cearenses.
A cearensidade foi, portanto, um eixo estruturante fundamental na construção tanto da campanha como do governo de Lúcio Alcântara. Esta retórica discursiva foi utilizada como marca de gestão, buscando, dessa forma, se estabelecer como uma insígnia política hegemônica no contexto estadual. Nessa perspectiva, uma série de ações foram tomadas a fim de garantir a valorização das práticas de cada região do estado, bem como o uso do potencial natural de praias, serras e sertão do Ceará, como previsto no Plano de Governo. A análise dos documentos aqui expostos nos dão pistas para entender a estruturação das ações forjadas no bojo da gestão da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, sob o comando de Cláudia Leitão. Como apontou a própria secretária, as práticas da secretaria buscaram respeitar as diretrizes do Programa de Governo de Lúcio Alcântara. É, portanto, sobre como a cearensidade foi encampada nas práticas da SECULT que o próximo tópico busca se debruçar.