OS POBRES LIVRES (c. 1850-1875)
O período fi nal do processo aqui formulado abre-se, praticamente, com a grande insurreição camponesa contra o Registro de Nascimentos e Óbitos e se encerra nos anos imediatamente anteriores à grande seca de 1877-1878, quando o fl uxo de cultivadores pobres livres em direção à plantation confi gura o campesinato regional como o elemento central do novo sistema agrário, que substituirá, a partir de 1889, o trisecular escravismo. Substancialmen- te, o período poderia ser ampliado até Canudos, que pode ser um marco simbolicamente importante da completa derrota camponesa. Mas preferi enfatizar a década de 1870, e especialmente os anos anteriores à estiagem do século, por achar que as últimas décadas do Império pertencem já a outro
tipo de problemática,43 a saber, a organização do novo exército de trabalho
os frades mostraram suas utilidades urbanas, improvisando rapidamente longas “missões” na cidade para controlar a população fl agelada com procissões, rezas e penitências inter- mináveis. Cf. MELLO, J. G. da S. Ligeiros traços..., op. cit., p.67-68; AC/RJ, (Fr. Caetano de Messina) Alguns apontamentos sobre o trabalho dos Capuchinhos de 1836 a 1839 e Memórias históricas sobre as missões dos Rev. P.P. Capuchinhos Italianos; NEMBRO, Metodio da. Cappuccini, op. cit., p.8-9.
42 Para um exemplo do sentido do papel político dos capuchinhos na transição, veja-se a ar-
gumentação de Fr. Caetano contra o Decreto n.373 jun. 1844, que colocava os missionários sob absoluta jurisdição do poder civil. O prefeito dos capuchinhos considerava essa relação como um forte impedimento para a realização das tarefas “apostólicas” de “manutenção da paz e da boa ordem” nos distritos camponeses da sua província eclesiástica, na medida em que destruía pela desconfi ança que o Estado inspirava, o trabalho de convencimento que os frades efetuavam nas comunidades. Cf. SCANDIANU, M. a. doc. cit.; MELLO, J. G. da S. Ligeiros traços, op. cit., p. 67; Decreto n.373, 30 jul. 1844, fi xando as regras que devem observar na distribuição pelas Províncias dos missionários capuchinhos, Colleção das Leis do Império do Brasil de 1844, t.VI, parte I. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1865. p.141-42.
43 O movimento conhecido como o “Quebra-Quilos”, que atingiu Pernambuco, Alagoas, Paraíba
e Rio Grande do Norte em fi ns de 1874, é certamente um irmão gêmeo da revolta contra o Registro de Nascimentos e Óbitos, e contém muitas das características – além de ter as suas próprias – do movimento de 1851-1852. Signifi cou igualmente uma insurreição contra a penetração de elementos que tentavam adaptar a economia e a sociedade dos cultivadores pobres livres ao ritmo de modernização do capitalismo alhures – no caso, uma maior tribu- tação e, sobretudo (e daí o nome), a introdução do sistema métrico decimal nas transações
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rural, que será objeto de um estudo posterior. Esse período corresponde ao grande pulo do Estado sobre os cultivadores pobres livres ainda autônomos, momento em que fi ca claramente estabelecido que o Estado nacional se constitui, na formação nordestina, sob as ruínas da liberdade camponesa, já que só a restrição dessa liberdade e o submetimento dos pobres livres do campo aos interesses funcionais da plantation permitirão a famigerada transição ao “trabalho livre”, a qual, por sua vez, fará possível a consolidação do Estado como Império liberal ou como República oligárquica. Culminan- do o processo de expropriação e pauperização iniciado ainda nas últimas décadas do século anterior, o Estado nacional passará, a partir de 1850, a institucionalizar a subordinação do campesinato nordestino (ao mesmo tempo em que buscará restringir igualmente a liberdade dos imigrantes europeus dirigidos aos cafezais paulistas e fl uminenses) com a promulgação de um punhado de leis que, tomadas no conjunto, podem ser interpretadas como um grande movimento anticamponês, na medida em que essa série de instrumentos e mecanismos legais mutilava a autodeterminação dos cultivadores pobres livres e colocava no papel sua nova condição de classe subalterna fundamental no nascente sistema agrário que vinha substituir o escravismo. As principais leis desse “projeto” estão encabeçadas pela pró-
pria lei de extinção do tráfi co de escravos,44 que, embora considerada um
diploma legal e político dirigido para resolver exclusivamente o problema da crescente perda de legitimidade da escravidão, é também, e de maneira fundamental para quem se aproxima da história dos cultivadores pobres livres do Norte e do Nordeste, o ponto de partida do grande movimento de transformação do sistema agrário e da constituição de um mercado de trabalho centrado na mão-de-obra camponesa.
Se a Lei Eusébio de Queiroz marca o início da grande virada do Estado contra a autonomia das comunidades independentes de cultivadores po- bres livres norte-nordestinos, outros instrumentos legais iriam normalizar comerciais das feiras camponesas. Como a revolta contra o Registro, o “Quebra-Quilos” também foi um movimento que aprofundou diversos confl itos na região, não somente referentes à vida camponesa, notavelmente a chamada “Questão Religiosa”. No entanto, para efeitos dessa periodização, a revolta contra o Registro de Nascimentos e Óbitos, que lhe antecede em 2O anos, representa o marco dos novos tempos, sem que isso implique considerar – nem de longe – o “Quebra-Quilos” como um caso secundário e incluível na in- surreição de 1851-52. Cf. MILET, H. A. Os Quebrakilos e a crise da lavoura. Recife: Typographia do Jornal do Recife, 1876. Não existem estudos modernos que analisem adequadamente, em todas as suas dimensões, a revolta. Uma narrativa compreensiva, com muitas informações encontra-se em SOUTO MAIOR, A. Quebra-kilos. Lutas sociais no outono do Império. 2.ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1978. Para uma discussão sobre os sistemas métricos e seu impacto, ver KULA, W. Las medidas y los hombres. México, D.F.: Siglo XXI, 1976.
44 Lei n. 581, 4 set. 1850. Colleção das Leis, 1850, t.XI, parte I. Rio de Janeiro: Typograghia Na-
cional, 1852, p.203-5; BETHELL, L. The Abolition of Brazilian Slave Trade: Britain, Brazil and the Slave Trade Question, 1807-1869. Cambridge: Cambridge University Press, l970; CONRAD, R. The Destruction of Brazilian Slavery, 1850-1889. Berkeley: University of California Press, 1972.
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171 rapidamente o desenrolar do processo, numa “manobra” fulminante que se dá em um lapso de cinco anos. A lei de terras, sancionada em setembro de 1850 e regulamentada na metade dessa mesma década, precisa ser con-
siderada também como um marco.45 Embora sua aplicação e sua utilidade
imediata tenham sido muito discutíveis na região, é óbvio que se tratava de um mecanismo que, pelo menos, concorria para difi cultar e obstaculizar as formas “livres” de acesso à terra, institucionalizando modernamente os vínculos entre os cultivadores pobres livres, ocupantes, posseiros, invasores,
e os proprietários formais das terras.46 Exatos nove meses depois da pro-
mulgação dessa lei, tão indissoluvelmente ligada às práticas fundamentais dos cultivadores pobres livres, apareceram o Regulamento do Registro
de Nascimentos e Óbitos e o Regulamento do Censo Geral do Império,47
cujas implicações, em matéria de intervenção do Estado na intimidade da organização social e familiar dos pobres livres do campo e das cidades, dispararam o alarme geral contra a ameaça de “cativeiro”, desta vez não mais como um simulacro, mas como um perigo iminente derivado da pró-
pria extinção do tráfi co de escravos.48 Ao mesmo tempo, começaram a se
45 Lei n.601, 18 set. 1850. Colleção das Leis, 1850, op. cit., p.232-36. Para o Projeto de Regula-
mento, cf. Ata de 14 abr. 1851. Atas do Conselho de Estado, v.IV. Direção geral, organização e introdução de RODRIGUES, J. H. Brasília: Centro Gráfi co do Senado Federal, 1978. p.14-60.
46 A inaplicabilidade da lei foi geral. Cf. CARVALHO, J. M. de. Modernização frustrada:
A política de terras no Império. Revista Brasileira de História, n.1, p.29-57, 1981. O artigo, embora trate apenas dos debates parlamentares e se ocupe da situação do sul do Império, oferece um bom panorama dos confl itantes interesses políticos ao longo da lenta (1843-1850) elaboração e discussão da Lei de Terras. Também localizado nas províncias do sul, veja-se igualmente o estimulante artigo de DEAN, W. Latifundia and Land Policy in Nineteenth- Century Brazil. HAHR, nov., v.51, n.4, p.606-25, 1971. De longe o trabalho mais criativo sobre o assunto – embora dentro de uma bibliografi a extremamente limitada – esse artigo está traduzido (aliás, pessimamente) em PELAEZ, C. M. e BUESCU, M. (Coord.). A moderna história econômica. Rio de Janeiro: APEC, 1976. p.245-57. José de Souza Martins fez diversas incursões no campo da interpretação teórica do signifi cado da lei, com hipóteses e conclusões brilhantes e provocativas, porém fortemente contrastantes com a mediocridade do sentido empírico e da sorte desse diploma legal. Veja-se O cativeiro da terra, op. cit., p.29-34, 59 e segs. Para comentários contemporâneos, cf. VASCONCELLOS, J. M. P. de. Livro das terras. Rio de Janeiro: Laemmert, 1860.
47 Decretos n.797 e 798, 18 jun.1851. Mandam, respectivamente, “executar o regulamento
para a organização do Censo Geral do Império” e “executar o regulamento do registro de nascimentos e óbitos”. Colleção das Leis, 1851, t.XIV, parte lI. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1854. p.161-74.
48 Os movimentos de resistência aos recenseamentos são, como se sabe, uma constante na
história das comunidades camponesas do mundo inteiro, freqüentemente porque por trás dessas medidas está a preparação de novos tributos ou de ordens de recrutamento militar. No caso específi co de 1851-1852, o fato de que o controle dos nascimentos passava, a partir desse momento, a constituir um “registro”, poucos meses depois de se terminar com o “registro” dos escravos, pode ter sido um dos elementos principais da inquietação camponesa e da idéia do cativeiro. Por outro lado, o decreto n.798 impunha a fi gura da escravidão da paróquia, isto é, do juiz e de todo o poder político local, como o elemento-chave para que o batismo fosse realizado. Em outras palavras, fi cava em suas mãos a garantia mínima da salvação eterna.
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fazer sentir também os efeitos do novo Regulamento da Guarda Nacional, igualmente sancionado em setembro de 1850, que alterava profundamente o funcionamento desse corpo, tirando-lhe certas características “democráti- cas” e implantando, entre outras coisas, uma rígida disciplina militar entre
os recrutados.49 O “projeto” do Estado para resolver a questão da transição
ao chamado “trabalho livre” no Norte e Nordeste fi cava assim demarcado pelas coordenadas dessas leis, fundamentais para encaminhar a constituição do novo sistema agrário.
O momento culminante do período em questão não é necessariamente um momento cronológico, e sim um momento “mental”, situado no tem- po da constituição de uma “consciência” dos cultivadores pobres livres enquanto substitutos compulsórios do escravismo. Nesse sentido é que a revolta contra o Registro adquire toda a sua verdadeira dimensão e o seu signifi cado. É uma revolta contra a extinção do escravismo, é uma insurrei- ção que tenta sustar o processo através do qual os homens e as mulheres pobres livres do campo e das cidades deixam cada vez mais de ser “livres”, conforme a liberdade perde a sua importância “estamental”, para ter cada vez mais realçada sua condição de “pobres” como nova base fundamental
da sua localização na sociedade que se transforma.50 É um movimento
As características do “Modelo de mappa dos nascimentos” anexo ao Decreto deixavam, ou- trossim, inúmeras ameaças no ar, pois desinteressava-se inteiramente pela cor do indivíduo, e perguntava apenas se o recém-nascido era livre, indígena ou escravo, legítimo, ilegítimo ou exposto. Por outro lado, o 2° parágrafo dos Anos 70 exigia a menção à cor só no caso de crianças escravas, enquanto ignorava a necessidade de identifi car, já agora, no início da crise do escravismo, a cor dos pobres livres. PALACIOS, G. A ‘Guerra dos Maribondos’, op. cit., p.46-47.
49 Lei n.602, 19 set. 1850. Colleção das Leis, 1850, op. cit. A lei reformava o estatuto original
da corporação, datado de 1831, e retirava dele uma série de elementos liberais, dando-lhe um cunho extremamente autoritário. Regulamento das Guardas Nacionaes, Seguido de Todos os Decretos, Portarias, e Avisos, Relativos às Mesmas Guardas. Recife: Typographia de Santos e Companhia, 1837; CASTRO, J. B. de. A guarda nacional, op. cit.; HOLANDA, S. B. de. História geral da civilização brasileira, op. cit., t.lI, v.3, p.279-84; MCBETH, M. The Brazilian Recruit During the First Empire: Slave or Soldier. In: ALDEN, D. & DEAN, W. Essays Concerning, op. cit., p.71-86. Vejam-se as considerações sobre o novo regulamento e o recrutamento militar em Relatório do Presidente da Província de Pernambuco, 1865. Recife: Typographia M. F. de Faria, 1865. p.4-5. O fracasso da Guarda Nacional, amplamente demonstrado nos diversos movimentos armados do período, entre eles na revolta contra o Registro de Nascimentos, está reiterado nesse relatório. Um dos resultados foi uma intensa onda de confl itos em toda a província de Pernambuco, protagonizados por grupos armados que, entre 1865 e 1868, assaltaram cadeias no interior para soltar recrutas. Vejam-se Relatório do Presidente de Pernambuco, 1866. Recife: Typographia M. F. de Faria, 1866, p.3-4; Relatório do Presidente de Pernambuco, 1867. Recife: Typographia M. F. de Faria, 1867. p.2-4; Relatório do Presidente da Província de Pernambuco, 1868. Recife: Typographia M. F. de Faria, 1868. p.3-4; PALACIOS, G. A ‘Guerra dos Marimbondos’, op. cit., p.9-26.
50 A histórica relação da liberdade com a pobreza, que durante séculos justifi cou refl exivamente
cada um dos seus componentes, chegava ao fi m da sua funcionalidade para o sistema por esses anos: “O que precisamos é da reforma de nossas leis, pois as vigentes garantem a vagabundagem, a ociosidade, sob o pomposo nome de liberdade do cidadão, que melhor se chamaria a miséria do cidadão”. Memória do Sr. MAGALHÃES, J. A. de S. Trabalhos do Congresso Agrícola, op. cit; p.232.
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173 “anticapitalista” no sentido de que se opõe às modifi cações anunciadas pelas leis de inícios da década de 1850 e por outros tantos sinais, em nome de uma organização social autônoma e livre, num sentido que autonomia e liberdade começaram a perder.
Os insurretos de 1851-1852 obtiveram uma vitória imediata parcial. Dois meses depois, os regulamentos que tinham provocado o levante foram sus- pensos e, vigiados pelos frades capuchinhos, os camponeses pernambucanos voltaram às suas tarefas, aliás, cheios de premência, pois a época do plantio
também tinha colaborado para marcar o limite da revolta.51
No fi m da década de 1850 – e novamente em fi ns dos anos 60 –, o medo voltou a correr solto pelas regiões da confl agração de 1851-1852, diante do renascimento do boato de que o governo se preparava para, mais uma vez, tentar implantar os regulamentos. Nada, contudo, aconteceu que provas-
se isso, e os ânimos se acalmaram.52 Por esses anos, as estradas de ferro
começavam a cortar os canaviais pernambucanos à procura do açúcar dos engenhos e das usinas, e, co mo estava acontecendo em São Paulo, no Rio de Janeiro e em todas as regiões onde as ferrovias deitavam os trilhos, amplos segmentos de pobres livres ocupados no transporte animal de produtos agropecuários perdiam sua forma de ganhar a vida e se (re) incorporavam à camada de agricultores de subsistência, fosse como cultivadores ainda autônomos, fosse, mais realisticamente, como moradores/trabalhadores
de engenhos e fazendas.53 Assim, pauperização e mudança na base técnica
dos setores de apoio da produção, transporte ou benefi ciamento deram os toques fi nais no processo de condução dos cultivadores pobres livres às fi leiras de trabalhadores rurais para as plantations. Em 1878, os grandes e médios proprietários de terras e de escravos do Norte e do Nordeste, reunidos no Congresso Agrícola do Recife, declararam-se inteiramente satisfeitos com os níveis de oferta de mão-de-obra livre nas suas regiões
51 Decreto n.907, 29 jan. 1852. Suspende a execução dos Regulamentos para a organização do
Censo Geral do Império e para o Registro de Nascimentos e Óbitos. Colleção das Leis, 1852. t.XV, parte lI. Rio de Janeiro: Typographia Nacional, 1856, p.19; DP, 19 jan. 1852.
52 Relatório com que o Exmo. Sr. Conselheiro Manuel Felizardo de Souza e Mello Entregou a Admi-
nistração da Província ao Conselheiro José Antonio Saraiva. Recife: Typographia de M. F. de Faria, 1859. p.1; Agostinho Luiz da Gama, Chefe da Policia de Pernambuco, a Fr. Caetano de Messina. Recife, 18 jan. 1859; Presidente da Província a Idem. Recife, 11 nov. 1859; Pre- sidente da Província, Circular Confi dencial. Recife, 2 out. 1860, em AC/RJ. Em diversos momentos do “quebra-quilos”, a revolta foi justifi cada como uma resposta “[...] à nova lei de recrutamento que a denominam de lei do cativeiro [...]”. DP, 27 nov. 1874.
53 Para esse processo em Pernambuco, veja-se EISENBERG, P. Sugar Industry..., op. cit., p. 56;
Estado da Indústria Açucareira em Pernambuco. DP, 14 jun. 1881 (transcrito do Jornal do Comércio do Rio de Janeiro) apud MELLO, J. A. G. de. O Diário de Pernambuco e a História social do Nordeste. Diário de Pernambuco, Recife, s. d., v.1, p.37-38. Para São Paulo, SPINDEL, C. R. Homens e máquinas na transição de uma economia cafeeira. Rio de Janeiro: Paz e Terra: 1980. p.42, e STEIN, S. J. Vassouras. A Brazilian Coffee County, 1850-1890. The Roles of Planter and Slave in a Changing Plantation Society, Nova York: Atheneum, 1970. p.130.
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de origem, e muitos deles enfatizaram que esse movimento crescente de conversão de camponeses autônomos em solicitantes de terras e emprego nos engenhos e nas fazendas antecedia a grande estiagem desses anos, que por sua vez apenas culminaria a consolidação do processo de destruição
das comunidades de cultivadores pobres independentes.54 Faltavam apenas
normas para disciplinar essa multidão e medidas repressivas para evitar que os ex-escravos – que não tinham outra alternativa de sobrevivência a não ser o reemprego em engenhos ou fazendas, mudando apenas, talvez, de distrito ou de freguesia – trocassem constantemente de local de trabalho,
numa simbólica e vã tentativa de provar a si mesmos que eram livres.55
O melancólico epílogo do processo de nascimento, expansão e subor- dinação dos cultivadores pobres livres de Pernambuco e de outras áreas do Nordeste oriental do Brasil – cuja autonomia e autodeterminação como produtores independentes chegavam ao fi m após quase duzentos anos de convivência e confronto com a grande propriedade escravista e com o Estado que a representa, promove e organiza – , no último quartel do século XIX, pode ser traçado ao longo de duas linhas que resumem, nas postreiras décadas do oitocentos, o processo como um todo. Por um lado, a montagem de um aparelho ideológico e jurídico voltado para disciplinar e reprimir a nova força de trabalho, aparelho esse que se fez acompanhar da edifi cação de outros mecanismos hegemônicos que a revolta contra o Registro tinha mostrado ser imprescindíveis para a manutenção do sistema
54 Trabalhos do Congresso Agrícola, op. cit., Observações do Sr. H. A. Milet acerca da Memória
do Sr. João Fernandes Lopes, p.146; Memória apresentada na 4ª sessão pelo Engenheiro H. A. Milet, p.315; Emendas Substitutivas ao Parecer da Comissão, p.398-400. No seu discurso fi nal, porém, Milet, um dos líderes da fração mais “esclarecida” dos proprietários de terras, adverte: “[...] mesmo nos engenhos contíguos à catinga, onde abundam os braços livres, só se pode contar com eles enquanto não chove: chegando a chuva, retiram-se para plantar seus roçados”, p.431.
55 Novamente os debates do Congresso Agrícola ilustram perfeitamente a preocupação das
classes dominantes nordestinas não com os níveis de oferta de mão-de-obra, claramente satisfatórios, e sim com a necessidade de se estruturarem sistemas jurídico-ideológicos de repressão e enquadramento da força de trabalho. Cf., por exemplo, para as discussões sobre diversos tipos de “colônias” (“orphanologicas”, “agrícolas” “para fi lhos de proletários” etc.), Trabalhos do Congresso..., op. cit., p.136, 148-50, 205-7, 219 e 230; para mostras do papel intuído pelos proprietários para a educação pública rural como mecanismo de dominação, ver p.224, 259-62 e 263-78, e o Projeto Colônia Agrícola Industrial – Auxílio Mútuo – entre proletários, seus fi lhos e os da mulher escrava, da Província de Pernambuco”, de autoria de SOUZA, J. Á. dos S., p.294-302. A justifi car a premência de “leis agrárias” e outras maneiras de criminalizar as diferentes práticas sociais dos pobres livres, há frases como esta: “a aglo- meração de ociosos nos grandes centros de população é um perigo iminente, é uma revolução adiada [...]”, p.450. Ver “Projeto de Repre sentação Deliberada pelo Conselho Administrativo Pleno da Sociedade Auxiliadora da Agricultura para ser apresentado ao Segundo Congresso do Recife [...]”. DP, 15 jul. 1884. Veja-se, também, GEBARA, A. O mercado de trabalho livre no Brasil (1871-1888). São Paulo: Brasiliense, 1986, especialmente cap. 2.
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nascente no seu precário equilíbrio,56 ampliou a margem de instituciona-
lização do poder local dos proprietários da terra e legitimou o seu mando através da multiplicação de patentes de ofi ciais da Guarda Nacional. O