O modo de produção capitalista é inegavelmente uma forma muito particular do desenvolvimento das forças produtivas. Trata-se de uma forma social cuja dinâmica própria inclui o incitamento ao avanço produtivo em um nível historicamente inédito. Marx analisa nos Manuscritos de 1857-58 (Grundrisse) o modo como esta relação entre a forma-capital e o desenvolvimento material está dada imediatamente na forma de propriedade ou relação social que o conceito de capital sintetiza. No texto que analisa as formas sociais que precederam a produção capitalista, Marx demonstra a necessidade de uma dada dinâmica do desenvolvimento material posta já na forma-capital (de propriedade ou relação social), a partir da contraposição deste modo de produção às formas sociais que precederam a produção mercantil. Esta análise comparativa entre o modo capitalista de produção e os modos que o precederam também elucida aspectos da conceituação marxiana de força produtiva.
Ao abordar o desenvolvimento produtivo em termos genéricos, Marx divide a história humana em três estágios de acordo com as diferentes formas das relações de produção:
Relações de dependência pessoal (de início, inteiramente espontâneas e naturais) são as primeiras formas sociais nas quais a produtividade humana se desenvolve de maneira limitada e em pontos isolados. Independência pessoal fundada sobre uma dependência coisal é a segunda grande forma na qual se constitui pela primeira vez um sistema de metabolismo social universal, de relações universais, de necessidades múltiplas e de capacidades universais. A livre individualidade fundada sobre o desenvolvimento universal dos indivíduos e a subordinação de sua produtividade coletiva, social, como seu poder social, é o terceiro estágio. O segundo estágio cria as condições do terceiro (Grundrisse, 106).
Embora a história que precede a produção capitalista abarque diferentes modos de produção, estes compõem, em Marx, um único estágio amplo de desenvolvimento que se caracteriza por relações de produção pautadas na dependência pessoal e pelo caráter limitado e local do desenvolvimento da produtividade do trabalho humano. O modo capitalista de produção, segundo grande estágio histórico, caracteriza-se por romper as
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relações de dependência pessoal e estabelecer relações em que a independência pessoal se realiza sob a forma de uma dependência coisal. Esta nova forma universaliza a produção, rompe os limites locais do desenvolvimento e amplia as necessidades e capacidades humanas. Expande a produtividade do trabalho humano criando um metabolismo social universal que, no entanto, mantém-se fundado em relações de dependência da coisa, isto é, do seu próprio produto social criado como capital, sob as quais os indivíduos não subordinam sua produtividade coletiva a seu próprio poder, mas, ao contrário, permanecem subordinados a ela. A contradição, expressa nesta passagem como ausência de domínio social da capacidade produtiva, seria então superada pelo terceiro estágio de desenvolvimento histórico em que o metabolismo social universal desenvolvido sob o modo capitalista de produção, posto como efetivo poder social do conjunto dos indivíduos, permite a livre individualidade e o desenvolvimento universal dos indivíduos; ou seja, em que o desenvolvimento universal se ponha pela primeira vez na forma do desenvolvimento individual, por meio do controle social da produção.
Para compreender a ampla categorização em três estágios em que Marx indica tanto a especificidade da forma de sociabilidade do capital quanto o devir da história, é relevante expor a diferença de dinâmica essencial que separa o conjunto dos modos de produção que constituem o primeiro estágio do modo de produção capitalista. Inicialmente, procuro caracterizar em termos gerais o que Marx entende por modo de produção. O texto da “Introdução de 1857” é um manuscrito que Marx começou a preparar para introduzir a Contribuição para a crítica da economia política apresentando as categorias mais gerais de seu pensamento econômico a partir de uma crítica à teoria econômica clássica. Marx abandonou a redação de uma introdução geral precisamente porque, do ponto de vista do leitor, este nível de generalização das categorias é o resultado a que a análise deve levar76. Embora não tenha sido terminado, o texto traz um delineamento geral da categoria de modo de produção. Como, por um lado, o capítulo anterior tematizou as categorias gerais de trabalho e sociabilidade e, por
76 No prefácio ao mencionado livro, Marx escreve: “Suprimo uma introdução geral que esbocei porque,
depois de refletir bem a respeito, me pareceu que antecipar resultados que estão para ser demonstrados poderia ser desconcertante e o leitor que se dispuser a me seguir terá de se decidir a se elevar do particular ao geral” (Marx, K. Contribuição à crítica da economia política - Prefácio. Tradução e Introdução de Florestan Fernandes. São Paulo: Expressão Popular, 2008, pp. 45-6. Doravante, Prefácio de 1859, seguido do número da página).
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outro, este capítulo objetiva discutir a abertura para o desenvolvimento em diferentes modos de produção, vale expor aqui este delineamento.
Marx inicia pondo em foco a ideia de “produção em geral”, e constrói a noção de modo de produção por meio de uma crítica à “representação superficial” elaborada pela economia clássica a respeito da produção, que se expressa nas “diferentes rubricas que os economistas colocam ao seu lado” (Introdução, 44). Sua crítica se dirige ao caráter autônomo atribuído pelos economistas à produção, à distribuição, à troca e ao consumo, e resulta na dissolução da autonomia dessas categorias e sua redefinição em momentos de um único processo, um modo de produção da vida humana.
Como já desenvolvido, a produção é, em Marx, atividade dos indivíduos efetivos em relação social. “Por isso, quando se fala em produção, sempre se está falando de produção em um determinado estágio de desenvolvimento social – da produção de indivíduos sociais” (Introdução, 41). A produção em geral não existe sensivelmente, como atividade efetiva: “Se não há produção em geral, também não há igualmente produção universal. A produção é sempre um ramo particular da produção – por exemplo, agricultura, pecuária, manufatura etc. – ou uma totalidade” (Introdução, 41). Por ouro lado, não se pode pensar a produção apenas como atividade singular ou ramo específico de trabalho, porque cada produção efetiva particular não existe isoladamente. Esta determinação está dada no fato de que a produção é a atividade especificamente humana ou social, e seus ramos específicos constituem-se como parcelas separadas da produção social pela divisão do trabalho, que supõe precisamente o conjunto da sociedade, a totalidade da produção social: “Finalmente, a produção também não é somente produção particular. Ao contrário, é sempre um certo corpo social, um sujeito social em atividade em uma totalidade maior ou menor de ramos da produção” (Introdução, 41). A totalidade da produção é o conjunto das atividades efetivas e, se seus resultados e relações extrapolam, dada a articulação total, a mera soma dos resultados singulares de cada produção específica, nem por isso ela se identifica com a produção em geral ou produção universal.
Isso não significa, contudo, que não se possa delinear conceitualmente este universal que, como tal, não é efetivo como a produção particular ou a totalidade social da produção, mas abstrato: “A produção em geral é uma abstração, mas uma abstração razoável, na medida em que efetivamente destaca e fixa o elemento comum, poupando-
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nos assim a repetição” (Introdução, 41). Estas linhas abstratas que definem a produção em geral constituem a categoria geral de modo de produção. A despeito de seu caráter abstrato, “esse Universal, ou o comum isolado por comparação, é ele próprio algo multiplamente articulado, cindido em diferentes determinações” (Introdução, 41), ou seja, complexo. Um fator desta complexidade é o caráter histórico da produção humana, que põe cada uma das fases ou modos particulares como resultado da produção passada e como movimento que cria os pressupostos da produção futura, ou seja, seu caráter processual. Cada modo de produção é sempre uma diferença específica no interior das determinações universais:
Nenhuma produção seria concebível sem elas; todavia, se as línguas mais desenvolvidas têm leis e determinações em comum com as menos desenvolvidas, a diferença desse universal comum é precisamente o que constitui seu desenvolvimento. As determinações que valem para a produção em geral têm que ser corretamente isoladas de maneira que, além da unidade – decorrente do fato de que o sujeito, a humanidade, e o objeto, a natureza, são os mesmos –, não seja esquecida a diferença essencial (Introdução, 41).
Esta diferença essencial entre as fases históricas da produção não se revela na teoria econômica burguesa porque a produção em geral é descrita não em seus termos abstratos, mas sob a forma social específica da sociedade comercial. Esta aparece como a forma geral da produção, forma que se apresenta, portanto, desprovida de seu caráter histórico. As determinações da sociedade burguesa se manifestam na concepção do indivíduo que produz isoladamente e cuja relação com os demais se estabelece pela troca de produtos: “O caçador e o pescador, singulares e isolados, pelos quais começam Smith e Ricardo” (Introdução, 39), demonstram que a especificidade da relação mercantil é alçada a determinação necessária da produção em geral. Nesta concepção, o resultado histórico de amplo desenvolvimento social aparece como ponto de partida da história e forma natural da produção humana:
Aos profetas do século XVIII, sobre cujos ombros Smith e Ricardo ainda se apoiam inteiramente, tal indivíduo do século XVIII – produto, por um lado, da dissolução das formas feudais de sociedade e, por outro, das novas forças produtivas desenvolvidas desde o século XVI – aparece como um ideal cuja existência estaria no passado. Não como um resultado histórico, mas como ponto de partida da história (Introdução, 39-40).
No interior desses fundamentos, a história não poderia aparecer na teoria econômica senão a partir da disjunção das categorias econômicas, que fazem com que a distribuição, associada às determinações dos âmbitos políticos e jurídicos, se dê sob
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variadas formas acordes a diferentes períodos históricos, enquanto a produção seja determinada por leis naturais:
Para os economistas, (...) a produção deve ser representada (...), à diferença da distribuição etc., como enquadrada em leis naturais eternas, independentes da história, oportunidade em que as relações burguesas são furtivamente contrabandeadas como irrevogáveis leis naturais da sociedade in abstracto. (Introdução, 42).
Considerando a produção, a distribuição, a troca e o consumo como fases autônomas do processo econômico e, ademais, descrevendo abstratamente a produção de modo que as relações burguesas – os indivíduos privados produzindo isoladamente – apareçam como imanentes à produção em geral, enquanto as demais rubricas estão aptas a adquirir diferentes formas, os economistas apresentam uma explicação superficial da produção. Nela, a produção aparece como ponto de partida e o consumo como ponto de chegada, enquanto a distribuição e a troca figuram como meio termo: a primeira determinando quantitativamente, de acordo com leis sociais, a parcela de produto que cabe aos indivíduos e a segunda configurando a definição qualitativa individual dos produtos a serem consumidos, no interior da delimitação realizada pela distribuição. Marx resume a visão dos economistas:
A representação superficial claramente perceptível: na produção, os membros da sociedade apropriam (elaboram, configuram) os produtos da natureza às necessidades humanas; a distribuição determina a proporção em que o indivíduo singular participa desses produtos; a troca o provê dos produtos particulares nos quais deseja converter a cota que lhe coube pela distribuição; no consumo, finalmente, os produtos devêm objetos do desfrute, da apropriação individual (Introdução, 44).
Ao enfrentar a “bárbara cisão daquilo que é relacionado”, Marx desenvolve sua noção de modo de produção, que articula a produção às diversas rubricas que aparecem ao seu lado na teoria econômica em um todo complexo em que a atividade imediata de transformação da natureza é mediada pela forma social.
Para demonstrar que produção, distribuição, troca e consumo articulam-se em um processo que constitui o modo de produção social, Marx começa pela imbricação entre produção e consumo, e destaca três aspectos que definem a unidade entre ambos. Primeiro, destaca o aspecto em que produção e consumo coincidem, isto é, que o ato de produzir é ao mesmo tempo um ato de consumo. Por um lado, o trabalho consome seus meios de produção, por exemplo, ao destruir a matéria-prima e desgastar os
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instrumentos. Por outro lado, “o indivíduo que desenvolve suas capacidades ao produzir também as despende, consome-as no ato da produção, exatamente como a procriação natural é um consumo de forças vitais” (Introdução, 45). De modo que a produção é sempre consumptiva tanto de seus pressupostos objetivos como subjetivos.
Este consumo produtivo distingue-se do consumo propriamente dito, isto é, o consumo individual dos produtos. Neste sentido, Marx destaca em segundo lugar o fato de que produção e consumo são mediadores recíprocos: a produção medeia o consumo ao criar seu objeto, e o consumo medeia a produção ao criar a necessidade subjetiva que a impulsiona, ou seja, cada um cria a mediação necessária para a realização do outro. Aqui, consumo e produção são interdependentes e mediadores recíprocos, mas aparecem como exteriores um ao outro: “a produção cria o material para o consumo como objeto externo; o consumo cria a necessidade como objeto interno, como finalidade para a produção” (Introdução, 48).
Em terceiro lugar, pondera que a unidade de ambos vai além desses dois aspectos de sua imbricação: “cada um deles não apenas é imediatamente o outro [como no consumo produtivo e na produção consumptiva – VC], nem tampouco apenas o medeia [pela criação de seu objeto, interno ou externo – VC], mas cada um cria o outro à medida que se realiza” (Introdução, 48). O consumo cria a produção ao completar o ato produtivo. É o consumo que realiza o produto, isto é, este só assume a determinação de produto específico no consumo. Além disso, o consumo põe a necessidade da repetição do ato produtivo e com isso “eleva à destreza” a capacidade de trabalho requerida na produção: “o consumo, portanto, não é apenas um ato conclusivo pelo qual o produto devém produto, mas também o ato mediante o qual o produtor devém produtor” (Introdução, 48). Ao impor a necessidade da reprodução do produto, o consumo impulsiona o aprimoramento da atividade produtiva, que molda o produtor em suas capacidades subjetivas. “Por outro lado, a produção produz o consumo na medida em que cria o modo determinado do consumo e, depois, o estímulo ao consumo, a própria capacidade de consumo como necessidade” (Introdução, 48). A necessidade de consumir algo de determinada forma é gerada pelo ato e pela repetição do ato de consumir os resultados da produção; é pois gerada pela presença do objeto. Assim, além de mediar o outro de modo exterior, ao criarem reciprocamente seus objetos, produção e consumo produzem um ao outro. O consumo consolida a necessidade do produto e com
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isso impõe a atividade produtiva, que por sua repetição cria a destreza subjetiva em suas funções e impulsiona aprimoramentos na produção77.
Marx desconstrói a autonomia entre a produção e consumo mostrando que “cada qual cria o outro na medida em que se realiza” (Introdução, 48). Assim, a produção não aparece mais como ponto de partida e tampouco o consumo como ponto de chegada, mas ambos formam um processo em que um é momento do outro e constituem ao mesmo tempo o resultado e o ponto de partida do outro. Neste movimento reflexionante, para usar uma expressão de Giannotti, “a produção é o ponto de partida e efetivo e, por isso, também o momento predominante [übergreifende Moment]. O próprio consumo, como carência vital, como necessidade, é um momento interno da atividade produtiva” (Introdução, 49). A produção é predominante porque nela se realiza o caráter reiterativo da atividade humana, ela é “o ato em que todo o processo transcorre novamente” (Introdução, 49). No consumo, o sujeito se produz, “mas como indivíduo produtivo e que se autorreproduz” (Introdução, 49). Ou seja, o indivíduo apenas se produz no consumo porque consome objetos criados pelo homem e cuja atividade cria objetos para o homem; portanto, como sujeito que produz. A autoprodução humana tem como ponto de partida a criação dos meios de vida para além dos limites da espécie, de modo que a atividade produtiva que cria o mundo humano objetivo é o momento predominante na produção da natureza humana subjetiva, como busquei mostrar no capítulo anterior.
Também naquele capítulo, foi destacada como uma diferença entre a produção meramente animal e aquela que se caracteriza como humana o fato de que os produtos não são imediatamente incorporados ao organismo: a produção especificamente humana constitui uma forma de atividade que se liberta da carência física atual, imediata. Não apenas porque é “uma condição muito peculiar do produto, o fato dele se pôr como ente, coisa-aí, pronta a ser consumida por um terceiro” (Giannotti, Trabalho..., 61-2, citado acima), mas porque, ao extrapolar a medida da espécie, o ser humano pode defrontar-se livremente com seu produto. Por essa razão, a apropriação do produto não é imediata,
77 N’O Capital, Marx exemplifica este impulso que o consumo confere à transformação da produção com
a necessidade de produtos estrangeiros em uma comunidade primitiva, adquiridos pela troca: (...) se consolida, pouco a pouco, a necessidade por objetos de uso estrangeiros. A constante repetição da troca transforma-a em processo social regular. Com o correr do tempo, torna-se necessário, portanto, que parte do produto do trabalho seja intencionalmente feita para a troca (C, I, 1, p. 82).
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mas depende de uma mediação social, de uma forma da relação entre os indivíduos que determine a distribuição de produtos. Marx escreve:
Na sociedade, no entanto, uma relação do produtor com o produto, tão logo este esteja acabado, é uma relação exterior e o retorno do objeto ao sujeito depende de suas relações com outros indivíduos. Não se apodera dele imediatamente. Tampouco a imediata apropriação do produto é a finalidade do produtor quando produz em sociedade. Entre o produtor e os produtos se interpõe a distribuição, que determina, por meio de leis sociais, sua cota no mundo dos produtos, interpondo-se, assim, entre a produção e o consumo. A distribuição se coloca, então, como esfera autônoma, ao lado e de fora da produção? (Introdução, 49).
A distribuição como repartição de produtos determinada por leis sociais caracteriza a concepção da economia política clássica. Porque vê a produção como dada, Ricardo considera que a distribuição é o verdadeiro tema da economia. Marx supera a superficialidade desta teoria ao considerar que
(...) antes de ser distribuição de produtos, a distribuição é: 1) distribuição dos instrumentos de produção, e 2) distribuição dos membros da sociedade nos diferentes tipos de produção, o que constitui uma determinação ulterior da mesma relação. (Subsunção dos indivíduos sob relações de produção determinadas). A distribuição dos produtos é manifestamente apenas resultado dessa distribuição que está incluída no próprio processo de produção e determina a articulação da produção (Introdução, 51).
Como distribuição dos pressupostos materiais do trabalho e consequente divisão dos indivíduos ou das diferentes atividades produtivas entre os indivíduos, a distribuição “determina a articulação da produção”, isto é, subsume os indivíduos a “relações de produção determinadas”. A distribuição é, por isso, a forma social da produção. Assim, não apenas o consumo, mas também o que é tradicionalmente chamado de distribuição aparece em Marx como um momento da produção, como “a diferença essencial” (Introdução, 41, citado acima) que especifica historicamente a produção e define sua forma particular.
A troca, como um momento subordinado à distribuição e mediador do consumo, não pode ser definitiva da produção: “Na medida em que a troca é só um momento mediador entre a produção e a distribuição, por ela determinada, e o consumo; mas, na medida em que o próprio consumo aparece como momento da produção, a troca também está evidentemente incluída como momento da produção” (Introdução, 51-2). É interessante notar que a troca não é aqui sinônima de intercâmbio, mas refere-se ao
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comércio, ou seja, caracteriza uma escolha individual dos produtos de consumo específicos, o que pressupõe um mercado onde esta escolha é possível. Há sociedades em que a distribuição e o consumo não são intermediados pela troca, ou em que são apenas parcialmente mediados por ela. A inclusão da troca como rubrica necessária ao lado da produção denota por si mesma a universalização do modo de produção mercantil pela economia burguesa. De modo que, para Marx,
É autoevidente que a troca e consumo não podem ser predominantes. Da mesma forma que a distribuição como distribuição dos produtos. No entanto, como distribuição dos agentes da produção, ela própria é um momento da produção. Uma produção determinada, portanto, determina um consumo, uma troca e uma distribuição determinados, bem como relações determinadas desses diferentes momentos entre si (Introdução, 53).
A distribuição é um momento da produção porque para produzir, dado o caráter social da atividade produtiva, é necessário que os indivíduos relacionem-se de alguma forma particular. Determinada forma de distribuição dos agentes da produção é uma condição da produção. Marx considera uma possível objeção a esta visão da predominância da produção:
Saber qual a relação dessa distribuição com a produção por ela própria determinada é uma questão que evidentemente faz parte da própria produção. Caso fosse dito, dado que a produção