O trabalho objetivado nas transformações da natureza é a expressão do caráter histórico do desenvolvimento humano. Pressupõe a manutenção dos resultados do trabalho anterior e novas formas de trabalhos que tenham por pressuposto tais resultados. Trata-se de um percurso sem rota definida de antemão, mas cujo campo de possibilidades é delimitado pelas condições encontradas, ou seja, cada geração põe as condições de produção para a seguinte e assim circunscreve o desenvolvimento ao definir as bases sobre as quais o trabalho irá se realizar. Assim, a determinação histórica da autoprodução humana está pautada no caráter reiterativo imanente à categoria de
mecanização do processo produtivo, ou o tempo de trabalho necessário pra produzir, de cada produto, o suficiente para suprir as necessidades de um número determinado de pessoas por um período definido, sendo estas necessidades determinadas de antemão. A medida da produtividade dos trabalhos deve de qualquer forma ser estabelecida para que haja uma comparação. Mas se a força produtiva é sempre força produtiva de trabalho útil concreto, como avaliar a força produtiva geral de uma dada sociedade para, por exemplo, comparar diferentes momentos históricos? Um indicativo do nível de desenvolvimento produtivo geral de uma sociedade é a amplitude do intercâmbio humano e o desenvolvimento da divisão do trabalho. Ambas as questões serão abordadas adiante.
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trabalho. Este aspecto foi abordado acima no contexto da explicação de Marx e Engels sobre o primeiro ato histórico. Ressaltou-se que a reiteração é necessária para caracterizar a atividade produtiva como trabalho, e que esta necessidade se depreende da dinâmica entre a criação de necessidades e os meios de satisfação: a reprodução do objeto cria os pressupostos e o impulso para as novas atividades. Como ato isolado, a atividade produtiva não se caracteriza como trabalho, porque cada passo teria de ser refeito no decorrer da vida individual, a geração seguinte estaria sempre no mesmo ponto da anterior. De sorte que algo novo apenas se desenvolve a partir da reprodução constante dos resultados do trabalho passado. Este é uma das condições do trabalho desde o princípio do vir a ser do homem:
“(...) nenhuma produção é possível sem um instrumento de produção, mesmo sendo esse instrumento apenas a mão. Nenhuma produção é possível sem trabalho passado, acumulado, mesmo sendo esse trabalho apenas a destreza acumulada e concentrada na mão do selvagem pelo exercício repetido” (Introdução, 41).
Ainda quando a atividade, por sua condição incipiente, não se incorpora em transformações naturais que signifiquem bases ampliadas para a produção subsequente, ela ocorre sobre trabalho acumulado. O acúmulo de experiência resulta na domesticação das forças do produtor e na elaboração de suas capacidades; por isso não apenas conta como trabalho acumulado, mas faz parte dos resultados da produção mesmo quando esta é mais desenvolvida. Quando a produção supera este momento primitivo de seu vir a ser, o trabalho objetivado em produto aparece como condição do trabalho atual na medida em que põe os meios da produção ulterior:
Não se pode fiar algodão que ainda não se produziu, nem pôr em movimento fusos ainda a fabricar, nem queimar carvão que ainda não se extraiu da mina. Assim, entram sempre no processo como formas de existência de trabalho anterior. E desse modo trabalho existente depende de trabalho antecedente (...) (TMV III, 1326).
Por outro lado, o produto do trabalho passado apenas se realiza no consumo. Se os produtos são meios de produção, apenas se efetivam como tais no consumo produtivo. O trabalho anterior é condição para o atual, “(...) embora esse trabalho antecedente, na forma de meios de trabalho ou de material, só seja de alguma utilidade (uso produtivo) em contato com o trabalho vivo, como momento material deste. Só como momento do consumo industrial, isto é, do consumo pelo trabalho” (TMV III, 1326). Tanto o trabalho passado é condição para a produção presente, quanto o trabalho
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atual é condição para que o trabalho anterior se mantenha, ou seja, para que o produto passado se efetive como produto. Assim, se a natureza transformada substitui a natureza dada como condição material de produção, apenas se mantém como natureza humanizada por meio do trabalho contínuo. Se não são consumidos pelo processo atual de trabalho, os produtos do trabalho são reabsorvidos pela natureza, de modo que se o trabalho for interrompido, o processo natural, agora sem a direção da finalidade humana, reabsorve em seu curso próprio a matéria transformada. Giannotti utiliza o exemplo aristotélico71 da esfera de cobre:
O trabalho que toma a esfera de cobre como ponto de partida mantém o trabalho anterior. Sem a reiteração do processo, a esfericidade do cobre se perde, a bola se oxida e o objeto produzido existe apenas no tempo do consumo individual. O homem se alimenta do trigo e o aniquila, a natureza selvagem absorve a esfera como a superfície do lago absorve as ondas provocadas pelo mergulho duma pedra – em ambos os casos o novo objeto não escapa do reino especificamente natural, seja ele físico ou biológico, nada sobrando para indicar a peculiaridade da produção humana (Giannotti, Trabalho, 83).
A produção humana é “o ato em que todo o processo transcorre novamente” (Introdução, 49), ou, como expressa Giannotti, “um movimento circular onde os resultados voltam a ser pressuposições” (Giannotti, Trabalho, 109). O trabalho é um processo. Na medida em que o trabalho resulta em domínio da natureza e estes resultados são seus pressupostos, a ampliação do produto coincide com a expansão das forças produtivas. A história se coloca como possibilidade no caráter reiterativo ou processual do trabalho, nesta “qualidade do trabalho de conservar e cristalizar o trabalho antigo, de formar entre o homem e a natureza brutos o intermediário constituído por sistemas de forças naturais domadas, abrindo dessa maneira o intervalo em que se localizam as forças produtivas” (Giannotti, Trabalho, 92)72.
Apontamos de passagem que Giannotti restringe a ampliação de forças produtivas à criação de meio de produção expandidos, e não considera que o aumento
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Aristóteles, Metafísica, Livro Z, 8, 1033 a, citado por Giannotti, Trabalho..., p. 83. O autor compara a categoria de poíesis aristotélica e a de trabalho da economia moderna destacando, na primeira, a ausência de consideração pelo caráter reiterativo da produção, momento necessário para a compreensão histórica: “Deslocando o trabalho para o universo do processo, retirando-o da esfera da emersão e surgimento da coisa para situá-lo na circularidade da interiorização e da exteriorização, Marx faz dele práxis ao invés de poíesis” (Giannotti, Trabalho, 99).
72 As forças produtivas, contudo, são forças do trabalho social, e não se colocam entre o homem e a
natureza, mas são as próprias capacidades humanas de produção postas subjetivamente e objetivamente no mundo humano, como natureza humanizada.
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quantitativo dos meios de consumo individual seja também fator de ampliação das forças produtivas:
(...) a metamorfose de tudo aquilo que cresce naturalmente (naturwüchsig) num fator propriamente histórico [se dá] graças ao domínio das forças naturais pela produção. Uma condição qualquer de trabalho, um objeto ou instrumento existente na natureza, converte-se numa condição histórica ao se repor como matéria-prima ou ferramenta fabricada. Com isso se forma o conjunto das forças naturais domadas que chamamos de força produtiva (Giannotti, Trabalho, 104).
De fato, a conversão das forças naturais em fatores históricos se dá na medida de seu domínio pelo homem, o que se realiza na atividade produtiva, mas para o autor, apenas aqueles produtos que se repõem como matérias-primas ou ferramentas compõem o conjunto das “forças naturais domadas que chamamos força produtiva”. É evidente que um aumento dos meios de produção implica uma ampliação equivalente dos meios de vida dos produtores, mas o filósofo brasileiro exclui das forças produtivas materiais aqueles produtos que não retornam ao processo produtivo como condições de produção: “Se o produto for consumido individualmente, não houve ganho algum (...); se porém voltar à condição de meio produtivo, amplia-se a base material da atividade humana e com isso se abrem as portas da história” (Giannotti, Trabalho, 99). Esta afirmação subestima o consumo como momento da autoprodução do homem. O consumo individual é parte integrante do processo de ampliação das forças produtivas em dois sentidos: primeiro, ao consolidar a necessidade e pôr a finalidade do novo processo produtivo e, segundo, porque a ampliação meramente quantitativa dos meios de subsistência é o que possibilita a ampliação da população. O aumento da população é, em Marx, uma das condições da produção sobre bases materiais ampliadas e a primeira configuração do aumento das forças produtivas. Resulta do trabalho passado e é condição objetiva da produção tanto quanto os meios de produção objetivos: “Se o crescimento da população depende da produtividade do trabalho, a produtividade do trabalho depende do crescimento da população. O efeito é recíproco” (TMV III, 1239). Os indivíduos produtores são força produtiva e a ampliação da população significa expansão das forças produtivas. Na medida em que coincidem com a possibilidade de ampliação da população, os produtos do trabalho que não retornam ao processo produtivo compõem também as forças produtivas. Estas incorporam-se no conjunto de fatores envolvidos neste domínio, e incluem por isso as capacidades individuais – “a
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destreza acumulada e concentrada na mão do selvagem” – e portanto também os meios que reproduzem e capacitam os indivíduos.
Se a utilização de instrumentos para inscrever na objetividade os fins humanos amplia a potência do trabalhador e se o trabalho, por caracterizar-se como processo, é necessariamente reiterativo, podemos concluir que é da natureza do trabalho impulsionar as forças produtivas? A questão em foco é a do impulso às forças produtivas: busca-se responder se este impulso está dado já no caráter reiterativo do trabalho e quais outros fatores são determinantes para o fomento ou estagnação da produtividade. Viso especialmente investigar o papel das relações sociais como centrais na determinação do desenvolvimento. Apresento em seguida a posição de Giannotti sobre o tema e, no próximo capítulo, exponho o modo como Marx tratou a questão no texto sobre as formas sociais pré-capitalistas, destacando aspectos do modo como as relações sociais, formas vinculadas a determinados patamares produtivos ou níveis de acúmulo de trabalho passado, constituem fatores determinantes do impulso maior ou menor ao desenvolvimento.
Ao mesmo tempo em que afirma uma tendência à diferenciação das atividades de trabalho inscrita na lógica da individualidade técnica, Giannotti responde negativamente à questão da necessidade da expansão das forças produtivas: “Embora tudo faça com que os três elementos do trabalho venham a perder sua naturalidade, não podemos concluir daí a necessidade de um aumento quantitativo dos meios de produção e, por conseguinte, uma tendência natural de aumento das forças produtivas” (Giannotti, Trabalho, 92). Para o autor, esta tendência natural à ampliação da força produtiva no trabalho não se realiza necessariamente porque o fator que determina centralmente são as relações de produção. As forças produtivas são um predicado do trabalho: definem-se como níveis de potência da atividade produtiva. Contudo, o fato da produção não implica em si mesmo o impulso à criação de forças produtivas. Ou seja, nem toda forma social da produção se abre para a história.
Giannotti assume que existe no esquema do trabalho uma tendência à diversificação das atividades que se deve às determinações objetivas das condições de produção, isto é, às variações que a própria natureza ou a relação com outras comunidades impõem à atividade. Esta tendência é imanente à relação do homem com a natureza, e independe da especificidade da forma social:
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Uma individualidade técnica possui um impulso de diferenciação, que se desdobra segundo seu próprio processamento. (...) No que respeita a seu objeto, além das variações que lhe são impostas pelos ciclos da natureza, como aquelas das estações, precisamos ainda considerar aquelas provenientes de seu próprio funcionamento: o esgotamento do solo provoca culturas rotativas ou imigrações, a defesa do território depende do comportamento dos vizinhos e assim por diante. O mesmo, mutatis mutandis, ocorre com o instrumento. Imaginemos um grupo que vai à pesca munido duma rede coletiva. Conforme opera no mar ou num rio, no verão ou no inverno, está criando uma tensão que obriga a rede a adaptar-se à variância das condições: cumpre modificar seu cumprimento ou sua largura, a grossura de seus fios o vão de sua trama etc. Isto tem como efeito reorganizar a necessidade de parceiros, aumentando ou diminuindo seu número, criando novas tarefas pelas quais eles se especificam (Giannotti, Trabalho, 64).
A diversificação das atividades é referida por Marx como divisão do trabalho. O desenvolvimento da divisão do trabalho responde a necessidades ampliadas. Assim, a diversificação das atividades promove uma expansão do consumo ou fruição, que pressupõe o aumento da produtividade do trabalho anterior. Não é possível diversificar funções sem ampliar a produtividade do trabalho social. Contudo, desta necessidade de aperfeiçoamento da atividade produtiva e de criação de novas atividades que se impõe pelas variações naturais, pelas relações com “vizinhos” e ainda pelo resultado da própria atividade, Giannotti não deriva a necessidade da expansão das forças produtivas como imanente à produção humana. Há sociedades cujas relações de produção bloqueiam esta expansão, na medida em que não permitem a concentração de riqueza que ampliaria as bases objetivas do trabalho. Giannotti escreve: “Esta é nossa primeira tarefa: explicar por que, numa sociedade tribal, o excedente assume desde logo uma forma social que impede a acumulação, fazendo com que a sociedade gire sobre si mesma no interior dos estreitos limites duma produção para o consumo”. E adiante: “Não é unicamente porque não podem que as sociedades tribais não desenvolvem uma tecnologia, mas porque não querem. E convém explicar a natureza desse querer” (Giannotti, Trabalho, 128).
O autor lança mão de uma comunidade primitiva específica para exemplificar esta ausência de abertura ao desenvolvimento inscrita nas relações sociais de produção. Examina uma organização tribal em que parte do produto de cada unidade familiar é intercambiado na forma de dádiva, doação que garante status e títulos no interior da tribo. O poder, materializado na posição de chefe da tribo, é alcançado por aquele que possui mais condições de doar produtos e demonstrar generosidade:
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A destruição ostentatória do produto obtém seu fim de arrancar do adversário seus status e seus títulos, reduzindo-o à situação de quem não pode definitivamente retribuir. Mas apesar da violência que esse mecanismo de poder é capaz de assumir, cabe notar como torna impossível sua concentração. Poderoso é quem doa: a generosidade é o traço marcante da chefia. A relativa riqueza da maloca do chefe serve para que obtenha de todos esta ou aquela forma de comprometimento; sua riqueza é sempre mutável, impossível de ser acumulada (Giannotti, Trabalho, 147).
O autor descreve a finalidade da atividade produtiva na tribo em questão como, primeiramente, o consumo individual do produto e, segundo, a conquista e manutenção do poder expressas no título de chefe da tribo e em uma hierarquia de nobreza ou prestígio entre os chefes de família. Na consecução deste fim, de acordo com o autor, os produtores se põem como adversários. O poder é alcançado pela capacidade de doar produtos às demais unidades familiares que constituem a produção coletiva da tribo. Por essa razão, o produto excedente não é acumulado ou concentrado em formas que permitam a ampliação das bases do trabalho ou desenvolvimento de sua produtividade, mas antes despendido como dádiva – e inclusive destruído – como meio de manutenção de poder. Neste sentido, a forma social da produção se estabelece como contrária ao desenvolvimento das forças produtivas. Uma vez que existe trabalho excedente, a comunidade deixa de desenvolver forças produtivas não pela ausência de condições materiais – não porque não pode – mas porque não quer: sua finalidade é outra.
Giannotti pretende distinguir a presença ou ausência de abertura para a história em cada sociedade pelo caráter modal da produção, ou seja, pela forma das relações de produção. Mas caracteriza as relações de intercâmbio primitivas como relações de troca. Ele busca distinguir a “troca primitiva” da troca moderna, apontando que a relação de equivalência, que preside o valor de troca no intercâmbio de mercadorias, não estava presente nessas comunidades. Contudo, concebe ainda como troca a relação em que parte do produto de determinada comunidade, criado no interior de unidades domésticas, constitui-se em dádiva. A doação de produtos às demais famílias é uma forma de demonstrar poder, calcado, como o coloca o autor, na generosidade. Receber presentes significa humilhação. Embora seja contra a tradição reciprocar de imediato, as famílias o fazem em outra oportunidade. Giannotti caracteriza como relação de troca uma relação em que uma parte doa algo e a outra, que não tem qualquer obrigação contratual de dar nada em troca. Aquele que recebe retribui o presente em outro momento porque não é aceito que se devolva de imediato (evitando justamente dar
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caráter de troca à dádiva), embora seja recomendável que haja uma retribuição, não necessariamente na mesma quantidade. Note-se que esta forma de intercâmbio se dá no interior da comunidade e os produtos doados são de mesma espécie. Um exemplo que o autor utiliza é o seguinte:
O cabeça do casal entrega ao marido da irmã parte de sua colheita, mas, em compensação, também recebe do irmão de sua esposa uma partida considerável de inhame. Nesse nível, porém, já se manifesta um fator de diferenciação: as prestações devem considerar o status do recebedor, de sorte que um marido mais nobre recebe mais do que outro de menor prestígio (Giannotti, Trabalho, 167).
Se tomarmos a troca como Marx a define, ou seja, como uma forma específica de intercâmbio em que, primeiro, os bens trocados são propriedade privada; segundo, constituem-se em não-valores de uso para seus proprietários; e terceiro, pressupõe liberdade de contrato (formal ou não), vemos que estas formas de intercâmbio não constituem trocas. A troca se define por esta autonomia, e por isso Marx afirma que ela tem início não no interior das comunidades, mas em suas fronteiras. Elas não são, de início, reguladas pelo valor, mas pela produção excedente e pela necessidade. Mas caracterizam-se como trocas precisamente porque o produto é excedente, não-valor de uso para a comunidade, e há autonomia entre as partes:
A troca de mercadorias começa onde as comunidades terminam, em seus pontos de contato com outras comunidades ou com membros de outras comunidades. Tão logo as coisas se tornam mercadorias no exterior da comunidade, tornam-se também por repercussão mercadorias no interior da vida comunal. Sua relação quantitativa de troca é por enquanto inteiramente casual. São permutáveis pela vontade de seus possuidores de aliená-las reciprocamente (C, I, 1, 81-2). Em Marx, a troca faz necessariamente do produto uma mercadoria. Esta determinação formal adere ao produto quando ele é trocado, isto é, pela natureza da relação: a permuta daquilo que não é útil por vontade recíproca das partes, que não guardam entre si vínculos pessoais ou de obrigação. De modo que dádivas não são meios de troca, isto é, não são produtos da relação de troca entre seus possuidores: se realizam a partir de vínculos de obrigação de doar coisas que são valores de uso para seus possuidores. No exemplo de Giannotti, doam-se inhames e recebem-se inhames. Estes, ademais, não são autônomos. O próprio autor explica que as medidas destas trocas são dadas pelas relações de parentesco:
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Acresce ainda que a unidade de parentesco possui uma fixidez desconhecida por uma individualidade técnica na sua expressão mais simples. Enquanto esta última promove um sistema de distribuição em que os objetos trocáveis não possuem um padrão de medida perfeitamente estipulado, tal dificuldade já se encontra resolvida de antemão pelo sistema de parentesco, porquanto uma mulher se troca por outra, a despeito das diferenças de graça e beleza. A existência dessa medida, que o modo de produção tribal não logra obter na confluência de suas formas de distribuição, como acontece com o capitalismo, não viria a elucidar por que o sistema de parentesco se converte no referencial de todas as trocas? (Giannotti, Trabalho, 155).
Adiante, o autor afirma ainda:
Nessa altura, o sistema de parentesco surge como um pressuposto das atividades ligadas à produção e à distribuição, como espécie de quadro de referência a que todos se reportam. Por certo, a todo momento estamos assistindo a uma determinação recíproca entre o parentesco e os processos econômicos (Giannotti, Trabalho, 169).
Se o sistema de parentesco é o referencial para as “trocas” entre produtos de mesma espécie, pressuposto das relações de produção e distribuição, torna-se evidente que as relações de que trata Giannotti em nada se comparam com o comércio. Este é um