4. DUVARDA (YAPIŞTIRICIYLA) FAYANS-SERAMİK UYGULAMASI
4.9. Prova Yapma:
A Conferência de Aparecida ressaltou que o amor esponsal de Cristo por sua Igreja, da Igreja para Cristo, tem lugar na reflexão teológica latino-americana: amor como experiência pessoal comunicada através do anúncio querigmático e missionário da fé. E que no coração deste mistério eclesial que caminha ao encontro da unidade derradeira está a comunhão – comunhão com Cristo e entre os irmãos; na comunidade eclesial e no mundo; da comunidade para a sociedade, num contínuo impulso evangelizador que dissemina a presença de Jesus Cristo que no poder do seu Espírito é capaz de vivificar todas as realidades humanas, dando- lhes sentido divino.
Os discípulos de Jesus são chamados a viver em comunhão com o Pai e com seu Filho morto e ressuscitado, na “comunhão no Espírito Santo”. O mistério da Trindade é a fonte, o modelo e a meta do mistério da Igreja: “um povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito”, chamado em Cristo “como sacramento ou sinal e instrumento da íntima união com Deus e da
446 Cf. Lumen Gentium, 1-4.
447 Cf. SMULDERS, Pieter. A Igreja como sacramento de salvação. In: BARAÚNA, Guilherme (Dir.). Op. cit., p. 418-419.
unidade de todo o gênero humano. A comunhão dos fiéis e das Igrejas locais do Povo de Deus se sustenta na comunhão da Trindade.449
E ainda, em conseqüência: “a vocação ao discipulado é con-vocação à comunhão em sua Igreja”450. E deste modo, “a Igreja, como „comunidade de amor‟ é chamada a refletir a
glória do amor de Deus, que é comunhão, e assim atrair as pessoas e os povos para Cristo”451.
Disto deriva a consciência, bastante avançada teologicamente, de que “a Igreja cresce, não por proselitismo, mas por atração [...] quando vive em comunhão”452.
O Documento falará então de “lugares”453 apropriados à construção da comunhão: a
diocese, a paróquia, as comunidades eclesiais, as conferências episcopais. Falará também de discípulos com vocações específicas: bispos, presbíteros, diáconos, fiéis leigos e leigas, consagrados e consagradas.454 Falará ainda daqueles que deixaram a fé católica e daqueles
que vivem em outros credos, também como discípulos a seu modo, bastante específicos.455 Todos estão a ser chamados à comunhão na santidade de Deus, através do seguimento de Jesus animados pelo Espírito Santo.456
Miranda situa Aparecida no eixo de uma nova configuração eclesial para o enfrentamento da situação de crise que interroga a Igreja latino-americana, e desta, à Igreja universal. A saber:
A Igreja é uma realidade humano-divina. Enquanto divina deve ela sua identidade ao próprio Deus, manifestado e presente na pessoa de Jesus Cristo. Mas, enquanto comunidade de homens e mulheres, esta mesma identidade som existe enquanto encarnada na história, em épocas, contextos e situações existenciais bem determinados. [...] E, como tais contextos vitais sofrem transformações, como nos comprova a história da humanidade, também a Igreja, para realizar sua missão salvífica e fazer jus à sua própria identidade de sinal e instrumento do Reino, deve assumir, desde que se façam necessárias para sua finalidade, estas transformações em sua configuração institucional.
449 Cf. Aparecida, 155. 450 Cf. Aparecida, p. 156. 451 Cf. Aparecida, p. 159. 452 Cf. Aparecida, p. 159. E também, cf. Rm 12,4-13; Jo 13,34. 453 Cf. Aparecida, 84-92. 454 Cf. Aparecida, p. 93-105. 455 Cf. Aparecida, p. 106-112. 456 Cf. Aparecida, p. 71-80.
Daí se explicam as mudanças históricas no culto, nas expressões doutrinais, na organização comunitária, nas linhas pastorais, no serviço da caridade.457
E indica segundo sua leitura, os aspectos salutares desta nova configuração desde as conclusões da Conferência, isto é, a Igreja latino-americana precisa ser uma comunidade eclesial de místicos – experimentadores da fé – missionários, atenta aos primeiros dignitários da Revelação Divina em Jesus Cristo, os pobres.458 De fato, uma Igreja capaz de mostra-se fonte de unidade e de coerência, numa “sociedade fragmentada”459, carente de sentido.
Logo, parece haver lugar na eclesiologia latino-americana para a construção de manifestações pastorais que privilegiem esta imagem salutar da tradição cristã, não significativamente ressaltada no Concílio Vaticano II, ao menos diretamente, que traz como itinerário simbólico a unidade na missão evangelizadora: do Cristo Senhor para o mundo, no Amor.460 Como refletiria Bucker:
A missão unificadora é, pois, a expressão da soberania de Cristo diante da qual nenhuma cultura, em sua autentica identidade, é alheia. Por isso, é verdadeira unidade de diferenças. E por isso também, a missão respeita as „alteridades‟ [...] sem confundir-se com uma nivelação que uniformiza, mas não une.461 Para concluir, sem terminar, “a missão unificadora é consciência do envio ao diferente”462, é diálogo amoroso com o diferente que acaba por impor-se pelo obséquio da
verdade. E a Igreja latino-americana parece poder haurir esta renovação eclesiológica da renovação da consciência teológica que tem de si mesma, a partir deste referencial comunional que é a esponsalidade.
457 Cf. MIRANDA, Maria de França. O desafio de Aparecida: uma configuração eclesial para a América Latina. REVISTA ECLESIÁSTICA BRASILEIRA. 50 anos depois do Vaticano II na América Latina. Petrópolis: Vozes, v.69, n. 273, janeiro, 2009, p. 80.
458 Cf. Ibid., p. 93-102.
459 Cf. MIRANDA, Mario de França. A Igreja numa sociedade fragmentada. Escritos eclesiológicos. SP: Loyola, 2006, p. 147-208.
460 É o que afirma Gonzáles, quando reflete a teologia dos documentos da Conferência latino-americana; parafraseando-o: o centro da fé professada nas quatro conferências gerais é Jesus Cristo – ele é o Mestre, que a Igreja segue quais discípulos, em missão ad gentes – cf. GONZÁLES, Carlos Ignacio. Seguir a Jesús en América Latina. Rutas de las cuatro conferencias generales Del episcopado latinoamericano. 2.ed. México: Buena Prensa, 2006, p. 275-286.
461 Cf. Ibid., p. 314. 462 Cf. Id.
CONCLUSÃO
A Igreja que nasce de Jesus Cristo e de sua Páscoa, como lugar de comunhão, profundamente refletida pelo Concílio Vaticano II, continua a fazer-se, não apenas enquanto universal, mas também enquanto particular, não apenas como comunidade de fiéis, mas também como humanidade redimida inserida no mundo e em relação com o mundo. Esta Igreja de Cristo – este sujeito eclesial – continua seu processo de compreensão de si mesmo, e de síntese da sua identidade. Certamente a grande contribuição do Concílio para a Igreja foi a de ajudá-la a ver-se, compreender-se, anunciar-se. Faz-se oportuna aqui uma recolocação da reflexão de Congar, já citada na Introdução desta monografia – a saber:
[...] o Concílio discutiu, trabalhou em comissões [...] e esse trabalho desembocou em alguns textos. [...] Trata-se de textos, isto é, de conjuntos de idéias. Ora, é preciso, depois disso, que essas idéias sejam aplicadas de modo concreto. Evidentemente, elas mesmas têm o seu dinamismo próprio. E creio que haja realmente, nesse domínio, um dinamismo do Concílio. [...] se o Concílio teve um sentido, foi de passar do domínio ideal ou ideológico para o concreto da vida da Igreja.463
Um caminho a percorrer historicamente, portanto, é o da aventura do diálogo, que traz do campo ideológico, para o concreto da vida pastoral eclesial, aquilo que os Padres conciliares com tanto labor evidenciaram. Neste sentido, a Igreja latino-americana parece estar oferecendo grandes contribuições à Igreja universal, quando já compreende suas relações internas e externas como passíveis de uma nova hermenêutica – como evidenciado na última Conferência do episcopado latino-americano.
O desafio de definição de uma nova hermenêutica, ou ainda de um novo princípio hermenêutico para a eclesialidade católica – isto é, de um novo caminho de conhecimento de si mesma, através do qual, se pode chegar a uma melhor compreensão do mistério da relação que Deus estabelece com a humanidade na sua Revelação, como autocomunicação de amor e amizade – que culmina numa redescoberta das suas características fundamentais, parece ser o caminho, com grandes limitações, delineado neste construto monográfico.
A Igreja-Esposa não pode ser para a Igreja de hoje uma ideia ou uma ideologia, ou menos, uma teoria científica coerente do ser da eclesialidade. A Igreja é feita de seres
humanos, integrados em comunidades em relação uns com os outros, cada qual com sua especificidade, construindo a unidade do Corpo Místico de Cristo no mundo e na história, desde a unidade do Amor do Pai e do Filho, como Povo congregado nesta unidade e por esta unidade. Não é uniforme, mas diversa, e por isso precisa integrar-se, entendo-se como um conjunto orgânico de realidades eclesiais específicas inter-relacionadas e coerentes.
Provavelmente seja este o maior desafio da Igreja-Esposa: compreender-se assim, fazendo-se. A esponsalidade, assim comprendida, não corresponde apenas a uma tipologia matrimonial aplicada à Igreja, mas verdadeiramente é símbolo de sua identidade comunional – verificada nesta pesquisa, como capaz de engedrar e comunicar a vitalidade da mentalidade conciliar na Igreja Católica e no mundo atual.
A Igreja-Esposa-de-Cristo mostra-se substancialmente como uma experiência de comunhão na unidade que a graça trinitária promove e prorrompe. Logo, necessita de adesão, iniciativa e concretização da parte da humanidade eleita para a salvação – não meramente teóricas, mas práticas e enraizadas numa história que caminha para consumação final, porque constrói sua individuação eclesial, projetando-se no Espírito para o encontro com o Cristo- Esposo.464
É uma Igreja atuante e dinâmica, como o desejara o Vaticano II, movida pelo Amor.
464 Cf. FAHEY, Michael A. A Igreja. In: FIORENZA, Francis S.; GALVIN, John P. (Org.). Teologia sistemática. Perspectivas católico-romanas. v.2. SP: Paulus, 1997, p. 57-61.