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II. BÖLÜM

2.1.2. MARUF

Na obra A memória, a história e o esquecimento, Paul Ricoeur utilizao termo “operação historiográfica”91,expondo sua intenção de indicar o campo percorrido pela análise epistemológica. A expressão, narra o próprio filósofo, é proposta por Michel de Certeau, em 1974, inicialmente como “operação histórica”, na obra organizada por Pierre Nora e Jacques Le Goff, sob o título

Fazer história. O termo definitivo surge no ano subsequente, na obra

publicada por Certeau, intituladaA escrita da história. Recorre-se ao texto

89 LAUXEN, Roberto. Paul Ricoeur e o desejo de viver. Entrevista feita a Catherine

Goldenstein. Revista do Instituto Humanitas Unisinos. n. 363, ano XI, 30 mai 2011. Disponível em:

<http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_content&view=article&id=38 97&secao=363>. Acesso em: 20 mai. 2013.

90 CARVALHAL, Tânia Franco. Discurso de encerramento da XXVI Feira do Livro. Porto

Alegre: 16 nov. 1980. [Documento datiloscrito]. PUCRS. DELFOS – Espaço de Documentação e Memória Cultural. Acervo Moysés Vellinho.

91 Expressão de Michel de Certeau, que Ricoeur adota, expondo sua intenção de indicar o

campo percorrido por sua análise epistemológica. RICOEUR, Paul. A memória, a história e o

esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp, 2007. p. 146.

em que é fixado o termo, buscando observar os aspectos que baseiam a análise do historiador:

A historiografia (quer dizer “história” e “escrita”) traz inscrito no próprio nome o paradoxo – e quase o oximoron – do relacionamento de dois termos antinômicos: o real e o discurso. Ela tem a tarefa de articulá-los e, onde este laço não é pensável, fazer como se os articulasse. Da relação que o discurso mantém com o real, do qual trata, nasceu este livro92.

A ênfase no discurso e sua vinculação à realidade, expressa por Certeau em 1975, também ocupa Ricoeur, o qual publica, em 1976,a obra

Teoria da interpretação: o discurso e o excesso de sentido. Os quatro ensaios

que integram a edição mostram que a análise de Ricoeur se direciona também para o discurso: “um texto escrito é uma forma de discurso, discurso sob a forma de inscrição, então, as condições da possibilidade do discurso são também as do texto”93. Nesses ensaios, Ricoeur dirige-se para uma teoria da interpretação, voltando-se para a análise do símbolo linguístico. Aavaliação parte do símbolo dotado de duplo sentido, em cujo interior “há algo de não semântico e também de semântico” 94 , assinalandoque sua estrutura não é “puramente semântica”95. Ao avaliar o duplo sentido que contém o símbolo, Ricoeur o distingue da metáfora, vista em sua origem,nos estudos de Aristóteles, como um tropo, utilizado como marca retórica para tornar atraente o ato discursivo. A metáfora, integrada na estilística entre as figuras de linguagem, “é uma invenção livre do discurso”96, a qual só faz sentido numa enunciação. O símbolo, contudo, vincula-se ao cosmos; seu sentido vai além de um desolocamento de significado e envolve questões subjetivas (ao texto):

O duplo sentido dos símbolos é a marca do discurso literário, o qual se configura por meio da metáfora,

92 CERTEAU, Michel de. A escrita da História. Tradução de Maria de Lourdes Menezes. [1ª

edição brasileira]. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. p. 11.

93 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 35.

94 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 57.

95 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 57.

96 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 61.

marcada pela ambiguidade, envolvendo os sentidos figurativo e o literal dos símbolos, os quais envolvem significações explícitas e implícitas.[...] A metáfora ocorre no universo já purificado do logos, ao passo que o símbolo hesita na linha divisória entre o bios e o logos. Dá testemunho da radicação primordial do Discurso na Vida. Nasce onde a força e a forma coincidem.97 [Grifo nosso]. A análise do símbolo, portanto, orienta a produção e a recepção dos discursos produzidos pelo historiador, em sua narrativa, e pelo intelectual, quando concebemos o manifesto escrito como produto de sua prática. Sua marca no tempo aproxima os discursos e a leitura,enquanto resultados de um sujeito estabelecido em uma realidade em um determinado período histórico. Os símbolos se vinculam ao rastro, às fontes, aos documentos do passado e tornam-se representação da vida através da refiguração da memória a partir do ato da leitura. Ao se unir à vida, a marca simbólica liga- se também à identidade, à força perene da cultura e da tradição. Os símbolos relacionam-se ao que permanece, ao que sobrevive: “Os símbolos têm raízes. Os símbolos mergulham na experiência umbrosa do poder.”98

Sob a orientação da simbologia que integra o ato discursivo, retoma-se os três níves de organização do discurso histórico admitidos pelo filósofo: 1) o documental, 2) o da explicação/compreensão, e 3) o da representação literária do passado99. A primeira etapa compreende da “declaração das testemunhas oculares à constituição dos arquivos”100, estabelecendo-se, assim, a prova documental; a segunda etapa, que o autor entende como o principal desafio epistemológico, é a fase de escrita, com base na intenção historiadora de busca da verdade histórica, “de representar o passado tal como se produziu” 101 ; na terceira, o pensador descreve como a

97 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 61-71.

98 RICOEUR, Paul. Teoria da interpretação. Lisboa: Edições 70, 1976. p. 81.

99 RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp,

2007. p.196.

100 RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp,

2007. p. 146.

101 RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp,

2007. p. 147.

“representação literária do passado”102, prática que se dirige à recordação ativa do passado, é elevada na história ao nível de reconstrução.

Com base nessa sistematização, destaca-se a perspectiva do teórico em relação aos sujeitos de pesquisa: ele define tanto o historiador como os indivíduos investigados – os quais se entendem como as “falas” que emanam das fontes – como sujeitos da investigação, e não objetos, uma vez que a operação historiográfica103 resulta da interação entre as “vozes do passado” provenientes dos documentos históricos, os quais direcionam a prática de pesquisa para o objetivo do historiador, considerando sua subjetividade e sua capacidade de compreensão. Percebe-o como elemento social, também em transformação, ao longo do processo de produção do conhecimento.

Ricoeur assinala que o historiador, ao reconstruiro passado por meio da escrita, cria um terceiro tempo, que designa como presente histórico, definindo-o como “espaço comum de experiência”104. A hipótese que conduz o trabalho de Ricoeur consiste em “tomar a narrativa por guardiã do tempo, na medida em que não haveria tempo pensado que não fosse narrado”105. É através dessa relação entre tempo e narrativa que o texto histórico se aproxima do literário, ao relacionar a composição da narrativa literária à narrativa histórica. O filósofo associa que, assim como o escritor, ao entrelaçar os eventos, constrói a intriga que orienta a narrativa literária, o historiador, ao estabelecer relações entre as fontes através da escrita, é responsável pela tessitura dos eventos históricos – ele organiza os “discordantes” em um todo “concordante”106.

A prática da narrativa, define Ricoeur, “consiste numa experiência de pensamento mediante a qual nos exercitamos a habitar mundos estranhos a

102 RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp,

2007. p. 196.

103 Expressão de Michel de Certeau, que Ricoeur adota, expondo sua intenção de indicar o

campo percorrido por sua análise epistemológica. RICOEUR, Paul. A memória, a história e o

esquecimento. São Paulo: Editora da Unicamp, 2007. p. 146.

104 RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: o tempo narrado. São Paulo: Martins Fontes, 2010. v. 3.

p. 397.

105 RICOEUR, Paul. Tempo e narrativa: o tempo narrado. São Paulo: Martins Fontes, 2010. v. 3.

p. 411.

106 O autor usa o termo “concordante-discordante” ao se referir à organização da intriga na

narrativa.

nós. Nesse sentido, a narrativa exercita mais a imaginação que a vontade, embora continue sendo uma categoria da ação”107. Tomando como base o “vivido”, que integra a própria complexidade das ações humanas no tempo,o teórico aponta o leitor como sujeito agente nesse processo, ao refigurar o texto no ato da leitura. O leitor, em seu processo de ressignificação do texto, também é responsável, através da leitura, por integrar os tempos do narrado, do narrador e da narrativa ao seu tempo, a partir de sua subjetividade e de sua apreensão do mundo.

Benzer Belgeler