1.2. MÜTEKELLİMÎNE GÖRE DELÂLET
1.2.1. Mantûkun Delâleti
Fernando Pessoa foi o rosto e a máscara de todos aqueles em que a sua personalidade se dividiu, foi sujeito que se observa observando os «outros» e observando-se até ao limite do intolerável. E pasma com a impressão que lhe causam as sensações da leitura de si onde se confunde com a sua própria observação, como acontece com Bernardo Soares,
416
Fernando PESSOA, Apontamentos para uma Estética Não-Aristotélica, In: Textos de Crítica e de
Intervenção, Lisboa, Ed. Ática, 1993, p. 254. A arte para Pessoa era um indício de força e actividade,
sendo a “[...]força vital dupla, de integração e de desintegração [...]. Sem a coexistência e equilíbrio destas duas forças não há vida, pois a pura integração é a ausência da vida e a pura desintegração é a morte. Como estas forças se opõem e se equilibram para haver, e enquanto há, vida, esta é uma acção acompanhada automática e intrinsecamente da reacção correspondente. [...] Como, porém, esta reacção é automática e equilibra a acção que a provoca, igual, isto é, igualmente grande, tem que ser a força de acção, isto é de desintegração.”
“[...] Somos qualquer coisa que se passa no intervalo de um espectáculo; por vezes, por certas portas, entrevemos o que talvez não seja cenário. Todo o mundo é confuso, como vozes na noite.
[...] Sinto-me constantemente numa véspera de despertar, sofro-me o invólucro de mim mesmo, num abafamento de conclusões.
[...] Sou como alguém que procura ao acaso, não sabendo onde foi oculto o objecto que lhe não disseram o que é.”417
revestindo-se de uma hibridez que lhe permite sentir e pensar sem se reconhecer. O que à partida poderia ser um jogo de criança que se esconde para ser descoberta, acaba por ser o drama da sua vida. O jogo de Pessoa é muito dramático. Para dar voz às suas impossibilidades, desconstrói o seu «eu» noutros «eus», descrevendo-os como o seu «drama em gente», e fá-los viver a vida que ele próprio não consegue. Contudo, este processo heteronímico acaba por revelá-lo como rosto atrás das máscaras que ele próprio cria. Alberto Caeiro, por exemplo, um eu criado para sentir de forma objectiva a realidade e acabar com o «eu fictício» de Pessoa, “[...] pus no Caeiro todo o meu poder de despersonalização dramática”418, não consegue deixar de denunciar nele próprio e em tudo o que escreve a ausência do que deveria constituir o «eu», como podemos verificar neste extracto do Guardador de Rebanhos,
“[...]Penso e escrevo como as flores têm cor
Mas com menos perfeição no meu modo de exprimir-me Porque me falta a simplicidade natural
De ser todo só o meu exterior.”419
Pessoa tem consciência desta ausência ao retratá-la no seu «outro» e da sua incapacidade em deixar de ser o rosto atrás das máscaras que vai desenhando. O seu «eu fictício» é a sua realidade, o seu espaço de busca e este «outro» ou «outros» não consegue ser o «eu verdadeiro», aquele que, por ser único, poderia impedi-lo de se sonhar e de se multiplicar nesse sonho. E, apesar de cada um dos seus heterónimos mais conhecidos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, viverem uma
417
Livro do Desassossego, op.cit., pp. 96-97.
418
Carta a Adolfo Casais Monteiro, p. 419
419
suposta autonomia, enquanto poetas, esta vivência acontece na ficção do próprio autor, sendo eles, apenas, os «outros» dum mesmo sujeito, Pessoa, que acaba vencido na sua própria vida pelas vozes dessas personagens heteronímicas e máscaras do seu rosto.
Pessoa julgou poder dar um pouco de sentido à sua existência ao fragmentar-se idealizando poetas «outros» para viverem a sua ficção, mas a sua múltipla criação acabou por se tornar a realidade de uma irrealidade que ele sentiu e viveu como sujeito poético inconsistente e ausente dessa mesma criação.
Prisioneiro das máscaras com que se cobriu para encenar a sua alteridade, colocou a sua existência em dúvida. É notória a dificuldade de Pessoa ortónimo em distinguir, no meio de tantas vozes, a voz do seu verdadeiro «eu», como documentam os extractos de poemas que a seguir se indicam, escritos entre 1930 e 1934:
“Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei.
Continuamente me estranho. Nunca me vi nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é, Atento ao que sou e vejo, Torno-me eles e não eu. Cada meu sonho ou desejo É do que nasce e não meu. Sou minha própria paisagem; Assisto à minha passagem, Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou. Por isso, alheio, vou lendo Como páginas, meu ser. O que segue não prevendo, O que passou a esquecer. Noto à margem do que li O que julguei que senti. Releio e digo : "Fui eu ?" Deus sabe, porque o escreveu.”420
“Dia a dia mudamos para quem Amanhã não veremos. Hora a hora Nosso diverso e sucessivo alguém Desce uma vasta escadaria agora. E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros.Vejo-os meus e fora. Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora. Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo. E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo. Sinto-os a todos dentro em mim mover-me, E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.” 421
---
“[...]Quero saber por onde vou. Inda que vá para render-me
“[...]Quero, um momento, aqui deter-me E descansar a conhecer.
Há grandes lapsos de memória Grandes paralelas perdidas, E muita lenda e muita história E muitas vidas, muitas vida.”422
420
Fernando PESSOA, Novas Poesias Inéditas, 4ª Ed., direcção, recolha e notas de Maria do Rosário Sabino e Adelaide Sereno, Lisboa, Ed. Ática, 1993, p. 90.
421
Idem, p. 90.
422
É aqui evidente um sujeito poético perdido num espaço que não o reconhece, em que não se reconhece e onde as próprias vozes se fragmentam por não se reconhecerem entre elas. Olha os outros com desejo de se encontrar numa breve pausa, no momento, e ser ele o seu «eu». Só que o momento é breve e o vazio entre esse «eu» a que falta identidade transforma-o numa presença vaga e quase espectral,
“Tudo que sou não é mais do que abismo Em que uma vaga luz
Com que sei que sou eu, e nisto cismo, Obscura me conduz.
Um intervalo entre não-ser e ser Feito de eu ter lugar
Como o pó, que se vê o vento erguer, Vive de ele o mostrar.”423
Esta sensação de um «eu» reduzido a pó exprime a vacuidade de um sujeito poético que dela parece viver, qual hóspede do seu próprio abismo. Sendo este sujeito Pessoa que sabemos ter tido, desde criança, a necessidade de se isolar e criar um mundo fictício, não será de admirar que esta dupla sensação de ser e não ser, nele tenha despertado a necessidade de ser «outros» e com eles poder vir a formar o todo das partes que constituíam o seu «eu» desconstruído. Certo, porém, é que Pessoa parece não ter previsto a dimensão deste desdobramento e toda a tensão por ele provocada. Aliás e, como afirma o escritor francês Philippe Lejeune (1938), especialista em autobiografias, que todo o autor múltiplo vive “[...] la tension entre l’impossible unité et l’intolérable division, et la coupure fondamentale qui fait du sujet parlant un être de fuite”424 Pessoa parece comprovar esta tensão quando o seu semi- heterónimo Bernardo Soares ao referir-se a si mesmo o faz como sendo outra pessoa “[...] Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. “[...] Vivo de impressões que me não pertencem“[...] Viver é ser outro”425. Sendo Bernardo Soares uma mutilação da personalidade do seu autor, não será fácil para Pessoa falar de outra pessoa que a ele se assemelha e cobrir o rosto em pedaços com a máscara que ele mesmo fragmentou. Talvez Pessoa não quisesse ser uma personalidade, como afirma o
423
Ibid, p. 100.
424
Philippe LEJEUNE, Je est un autre. L'autobiographie de la littérature aux médias, Paris : Ed. Seuil, 1980, p. 8.
425
poeta e ensaísta mexicano Octavio Paz (1914-1998), ao referir-se aos heterónimos: “[...] São uma invenção literária e uma necessidade psicológica, mas não só. De certo modo são o que teria podido ou querido ser Pessoa; doutro modo, mais profundo, o que não quis ser: uma personalidade”426 , daí a sua incansável fragmentação, cujo «excesso de auto- lucidez», como lhe chama David Mourão-Ferreira, poderá ter conduzido ao seu próprio desconhecimento, “[...] o excesso de luz pode consigo trazer a cegueira; e quando essa luz demasiadamente assim incide sobre o próprio pode inclusivamente dar-lhe a sensação de o tornar invisível.”427 Também parece não haver dúvidas de que Pessoa considerava que «a sua vida girava em torno da sua vida literária, tudo o resto era secundário»428, constatação que tem implícita o quanto ele se devia absorver no trabalho com o consequente esquecimento de si. No meio de tanta diversidade não era fácil garantir uma unidade,
“[...] Quem fui não me lembra senão como uma história appensa. Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo. [...]
Vi sempre o mundo independentemente de mim. Por traz d’isso estavam as minhas sensações vivissimas, Mas isso era outro mundo.
[...]
Eu que me aguente commigo e com os commigos de mim.”429
era menos difícil ignorar-se nesta multiplicidade,
“[...] Nesta vida em que sou meu sono, Não sou meu dono,
Quem sou é quem me ignoro e vive Através desta névoa que sou eu Todas as vidas que eu outrora tive, Numa só vida.”430
426
Octavio PAZ, Fernando Pessoa o desconhecido de si mesmo, 2ª Edição, Trad. de Luís Alves da Costa, Lisboa: Ed. Vega, 1992, p. 40.
427
David MOURÃO-FERREIRA, Nos Passos de Pessoa, Lisboa: Ed. Presença, 1988, p.81
428
V. Cartas de Amor de Fernando Pessoa, Lisboa: Ed, Ática, 1994, p. 150.
429
Álvaro de CAMPOS, In: Livro de Versos, op. cit., p. 286.
430
ausentando-se do mundo através do sonho e das suas sensações, que são a sua verdade e a sua realidade,
“[...] A única realidade para mim são as minhas sensações. Eu sou uma sensação minha. Portanto nem da minha própria existência estou certo. Posso está-lo apenas daquelas sensações a que eu chamo minhas. A verdade? É uma coisa exterior? Não posso ter a certeza dela, porque não é uma sensação minha, e eu só destas tenho a certeza. Uma sensação minha? De quê? Procurar o sonho é pois procurar a verdade, visto que a única verdade para mim, sou eu próprio. Isolar-se tanto quanto possível dos outros é respeitar a verdade”.431
mas arriscando a solidão consigo próprio na escrita em que se desconstrói, no sonho em que se procura e na apatia em que vive, como afirma Bernardo Soares,
“[...] Dia a dia mais e mais se infiltrou em mim a consciência sombria da minha inércia de abdicador. [...]Deixei leituras, abandonei casuais caprichos de este ou aquele modo estético da vida. Do pouco que lia aprendi a extrair só elementos para o sonho. [...] Reduzi ao mínimo o meu contacto com os outros. Fiz o que pude para perder toda a afeição à vida…[...] Envelheci pelas sensações… Gastei-me gerando pensamentos… E a minha vida passou a ser uma febre metafísica, sempre descobrindo sentidos ocultos nas coisas, brincando com o fogo de analogias misteriosas…[...] Caí numa complexa indisciplina cerebral, cheia de indiferenças. [...] Abandonei-me, mas não sei a quê. [...] Hoje sou ascético na minha religião de mim. [...] Não tenho quase necessidades de estímulos. Ópio tenho-o eu na alma. [...] Não faço teorias a respeito da vida. [...] Que me importa o que ela é para os outros?
A vida dos outros só me serve para eu lhes viver, a cada um a vida que me parece que lhes convém no meu sonho.”432
Alheado da sociedade e de quem a ela pertence, a actividade de Pessoa é puramente mental. Nesta realidade onde se sente ausente vive a busca do sentido
431
Fernando PESSOA, Textos Filosóficos, Vol.II, estabelecidos e prefaciados por António Pina Coelho, Lisboa: Ed.Ática, 1968, p. 220.
432
oculto das coisas de forma febril e indisciplinada. O sonho serve-lhe de fuga a esse real e de possibilidade para viver outras intensidades no sentir e dar-lhes forma e voz na sua escrita. Não serão, porém, estas vozes que lhe irão dar descanso na narrativa que, supostamente, conduzem. Na voz de Bernardo Soares, Pessoa acentua o cansaço de «ser», o desejo de deixar de existir e de deixar de ter existido,
“Acontece-me às vezes, e sempre que me acontece é quase de repente, surgir-me no meio das sensações um cansaço tão terrível da vida que não há sequer hipótese de acto com que dominá-lo. [...] É um cansaço que ambiciona o não deixar de existir – o que pode ser ou pode não ser possível -, mas uma coisa muito mais horrorosa e profunda, o deixar de sequer ter existido, o que não há maneira de poder ser. [...] O facto é que me creio o primeiro a entregar a palavras o absurdo sinistro desta sensação sem remédio.
E curo-a com o escrevê-la. [...] Quando a literatura não tivesse outras utilidades, esta, embora para pouco, teria. [...] Escrevo como quem dorme, e toda a minha vida é um recibo por assinar.”433
o inacabamento dos seus escritos e de si próprio. A vida de Pessoa foi sempre um constante adiamento, não só nos projectos de escrita, como a nível da edição dos seus escritos. Indeciso, abandonava os seus projectos sine die, procurando sempre encontrar o momento ideal para os retomar e até mesmo publicar. A título de exemplo e apesar de ter publicado vários textos de prosa e de poesia, que perfazem entre 1912 e 1935 um total de 431434
, como texto integral e não contabilizando os poemas ingleses (publicados em 1918) só publicou um, Mensagem, em 1934. Se existem poemas reveladores da sua falta de capacidade para tomar decisões e de recurso ao adiamento por forma a combater as suas hesitações, Addiamento, de Álvaro de Campos, ilustra bem esta característica da personalidade de Pessoa:
“[...] Depois de àmanhã, sim, só depois de àmanhã… Levarei àmanhã a pensar em depois de àmanhã, E assim será possível; mas hoje não…
433
Ibid, pp. 157-158.
434
José BLANCO, Fernando Pessoa. Esboço de uma Bibliografia, Lisboa: Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1983.
Não, hoje nada; hoje não posso. [...]
Só depois de àmanhã… Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar àmanhã no dia seguinte… [...]
Depois de àmanhã serei outro,...”435
Todo o adiamento, seja ele de que ordem for, implica a suspensão de algo que, em princípio, se deveria fazer e não se faz. No caso de Pessoa, os seus adiamentos acontecem no seu pensamento e impediram-no de levar a cabo os projectos que se propunha fazer. Pensados, mas inacabados, os seus escritos tomaram, por esse motivo, a forma de fragmentos que, de acordo com o seu conteúdo e como afirma Teresa Rita Lopes436, viriam a dificultar a sua leitura, compreensão, organização e edição futuras. Existem textos com uma certa autonomia, da mesma maneira que existem outros completamente descontínuos, mas todos eles, de acordo com o nosso ponto de vista, são o resultado das viagens pensadas, mas não completamente efectuadas, dos anseios repartidos diversamente pelo seu autor e pelos seus «outros» e, por esse motivo, dolorosamente vividos, da vida a que se entregou simplesmente por existir. Como escreve Bernardo Soares “[...] Para viajar basta existir. Vou de dia para dia, como de estação para estação, no combóio do meu corpo, ou do meu destino, debruçado sobre as ruas e as praças, sobre os gestos e os rostos, sempre iguais e sempre diferentes, como afinal, as paisagens são.”437 Para Pessoa viver era sentir e sentir era viajar pelas sensações. Talvez por isso todas as paisagens dos seus textos nos façam sentir como se ele vivesse intensamente o sonho de uma descida ao mais profundo de si onde, alheio às realidades da vida, entra num processo de desdobramento e se torna a voz, ou vozes de uma existência onde não se encontrou:
435
Ibid, p. 244
436
Ao referir-se à edição crítica de Fernando Pessoa II: Poemas de Álvaro de Campos, de Cleonice Berardinelli, Teresa Rita Lopes mostra o seu desacordo com a arrumação dos textos. De acordo com esta investigadora a montagem de alguns fragmentos não respeita a descontinuidade que os caracteriza. Segundo ela, o fragmento pode constituir um corpo inteiro podendo, por esse motivo, impedir o seu autor de o refazer ou de lhe dar uma continuidade, facto que teria acontecido com Fernando Pessoa quando teve a intenção de publicar, num livro intitulado Arco de Triumpho, apenas fragmentos de uma das suas grandes odes A Partida. De acordo com Teresa Rita Lopes o fragmento não permite todas as colagens que muitos estudiosos achem por bem fazer e, por isso, não é fácil trabalhá-lo para edição.
437
“[...] de tal modo me desvesti do meu próprio ser que existir é vestir-me. Só disfarçado é que sou. E em torno de mim todos poentes incógnitos douram, morrendo, as paisagens que nunca verei”438.