A Revolução Industrial31 iniciada na Europa no século XVIII proporcionou alterações significativas na economia e na sociedade. A mudança nos processos produtivos, que deixaram de ser manuais e artesanais, possibilitou um avanço tecnológico em grande parte dos processos produtivos.
A introdução de conceitos como racionalização e otimização foi buscada em diversos mercados e setores, como uma maneira de aumentar o lucro obtido com a venda das mercadorias e a sua produtividade, conforme ressaltado por Moura:
A industrialização do processo produtivo em qualquer setor industrial depende, como vimos, da produção em massa de mercadorias numa escala capaz de justificar os investimentos na organização do trabalho e intensificação de sua produtividade. (MOURA, 2011, p.. 74).
31“Revolução Industrial foi a transição para novos processos de manufatura no período entre 1760 a algum
momento entre 1820 e 1840. Esta transformação incluiu a transição de métodos de produção artesanais para a produção por máquinas, a fabricação de novos produtos químicos e de processos de produção de ferro, maior eficiência da energia da água, o uso crescente da energia a vapor e o desenvolvimento das máquinas- ferramentas, além da substituição da madeira e de outros biocombustíveis pelo carvão. A revolução teve início no Reino Unido e em poucas décadas se espalhou na Europa Ocidental e nos Estados Unidos da América” (Wikipedia)
Inicialmente, como ressaltado por Paulo Bruna sobre a construção civil, a contribuição da indústria nesse primeiro período foi de simples substituição de materiais não implicando modificações substanciais na arte e na técnica de construir (BRUNA, 1976, p. 35).
O ferro e o vidro foram os primeiros materiais resultantes da revolução Industrial que passaram a ser utilizados em edificações e construções, substituindo materiais anteriormente utilizados. A industrialização desses materiais possibilitou a exportação de produtos feitos em ferro e vidro para todo o mundo. Possibilitou não só a exportação dos produtos, mas de construções inteiras para os países novos que não dispunham de estrutura industrial capaz de produzi-las.
Paulo Bruna, ainda, ressalta:
A importação era completa, pois dos porões dos navios saíam não somente as estruturas, mas também os vedos e coberturas, frequentemente também as escada, peitoris e demais peças de acabamento, e a montagem era feita conforme as instruções e desenhos que as acompanhavam. (BRUNA, 1976, p. 39).
Os projetos e a produção de todas as peças e componentes de pontes, de estações ferroviárias, de ferrovias e de outras edificações de grande porte, eram realizados nos países europeus e trazidas por navios para os países menos desenvolvidos.
No Brasil e em especial no Estado de São Paulo é possível encontrar ainda hoje construções que foram concebidas dessa maneira. A Estação da Luz construída pela São Paulo Railway Company é um exemplo claro dessa prática. A escolha por esse modelo de construção se deu através de um catálogo, e as suas peças, em ferro fundido, foram importadas para o Brasil. Na Figura 3 pode-se observar a estação no ano de 1900.
Figura 3 - Fotografia da Estação da Luz em 1900. Fonte: Guilherme Gaensly.
Segundo Rosa, a utilização das técnicas industriais como um objetivo explícito de aplicá-las a construção civil tem suas primeiras manifestações nas construções do ‘Balloon Frame’ em Chicago, nas primeiras décadas do século XX. (2006, p. 33). Essa construção tinha por base a utilização de seções maciças de madeira formando quadros, que por sua vez eram fechados com placas e tábuas também em madeira, conforme explicitado por Benevolo:
Trata-se de uma estrutura em que não existe a costumeira hierarquia de elementos principais e secundários, ligados através de encaixes, mas onde numerosas tiras finas de dimensões uniformes são colocadas em distâncias modulares e unidas por simples rebites; as aberturas, portas e janelas, são necessariamente múltiplos do módulo fundamental; um estrado de tábuas diagonais garante a indeformabilidade da estrutura, enquanto um segundo estrado de tábuas dispostas como telhas defende o edifício das intempéries. (BENEVOLO, 2006, p. 233).
As construções em Light Wood Framing, como ficaram conhecidas posteriormente, proporcionaram uma maior rapidez na construção de habitações e até mesmo cidades inteiras no oeste americano, possibilitando assim a conquista daquele território. As peças eram transportadas pelas ferrovias e em função disso poderiam ser enviadas para todo o território americano.
No entanto, a madeira não era um elemento abundante em todos os lugares e a busca por outras soluções industrializadas passa a ser necessária, seja na produção privada e até mesmo na produção estadual.
Paralelamente às ações do governo e do mercado privado, arquitetos e engenheiros começam a discutir uma melhor habitação, que agregasse os princípios da industrialização, como racionalização, normalização, modulação e pré-fabricação.
Le Corbusier, sobre o assunto, ressalta:
A noção de “rendimento”, introduzida como axioma na vida moderna, não implica, com efeito, o máximo proveito comercial, mas uma produção suficiente para satisfazer completamente as exigências humanas. O verdadeiro rendimento será fruto de uma racionalização e de uma normalização, aplicadas elasticamente tanto aos projetos arquitetônicos, quanto aos métodos industriais. É urgente que a arquitetura, ao invés de fazer um apelo quase exclusivo a um artesanato enfraquecido, sirva-se também dos imensos recursos da técnica industrial, mesmo que essa decisão deva conduzir a resultados um tanto diferentes daqueles que fizeram a glória das épocas passadas. (LE CORBUSIER, 1928apud BENEVOLO, 2006, p. 474).
Outros avanços tecnológicos também começam a ser utilizados. Edifícios cada vez mais altos são possíveis a partir de inovações técnicas como o elevador e a utilização de ferro em suas estruturas.
Todos esses anseios apareciam em um momento particular, com a necessidade de reconstrução de grande parte da Europa, que havia sido destruída após as duas guerras mundiais. A demanda habitacional, que já era um problema antes desses eventos, tornou-se um problema com maiores proporções, e infelizmente não contava com o apoio da indústria da construção civil, que se encontrava desestruturada.
Na Europa muitas ações em relação a uma melhor racionalização da construção civil e em principalmente em relação à produção habitacional foram realizadas. No entanto, o objetivo desse trabalho não é analisar as soluções dadas naquele continente. Desse modo, não serão avaliada aqui tais soluções.
No Brasil, assim como no restante do mundo, a construção civil foi um dos últimos setores a fazer uso da tecnologia e dos avanços que a industrialização possibilitou. Vale destacar que:
A caracterização da indústria da construção civil como tradicional e conservadora no Brasil se dá principalmente pelo fato de que até o final da década de 70 ela teve grandes investimentos financiados pelo Estado, que
não possuía nenhum programa de qualidade para o setor, fazendo com que muitas companhias não procurassem inovações. (NASCIMENTO; SANTOS, 2003, p. 70).
Além disso, a utilização de mão de obra barata e sem qualificação sempre funcionou como uma válvula reguladora para o desemprego do país, segundo Moura, era iniciativa do BNH privilegiar a manutenção de processos construtivos tradicionais que envolvessem utilização extensiva de mão de obra (2011, p. 78), alavancando a economia e diminuindo o desemprego.
De fato, algumas tecnologias consideradas inovadoras foram implantadas na construção de habitações durante as décadas de 70 e 80, como a alvenaria estrutural de blocos de concreto e as paredes de concreto moldadas in loco com formas deslizantes, ambas as tecnologias importadas, mas que ainda mantinham as características artesanais no canteiro de obras. Moura e Maricato destacam:
A inserção de processos construtivos industrializados, com uso de tecnologia e mecanização, num processo construtivo baseado numa lógica produtiva tradicional, acostumada ao uso extensivo de mão de obra com baixo nível de organização gerencial do trabalho, impossibilitou a incorporação adequada destes novos processos nos conhecimentos produtivos nacionais. (MOURA, 2011, p. 80).
Como em qualquer manufatura, no canteiro, o trabalho que guarda aspectos artesanais vem combinado a uma divisão entre equipes e trabalhadores. Na indústria da construção, entretanto, a separação, a fragmentação, entre as equipes é exacerbada, ferindo a própria eficácia do processo de trabalho. As equipes se sucedem destruindo parte do trabalho da anterior. (MARICATO, 1984, p. 44).
O processo de construção convencional (alvenaria) e até mesmo aqueles citados previamente mantêm as etapas citadas por Maricato. A equipe elétrica, por exemplo, para executar o seu serviço deve destruir parte das alvenarias já executadas. Esse tipo de interface entre as equipes no canteiro de obras resulta em um tempo maior de execução da obra, diminuindo a eficácia e a produtividade da construção civil.
De fato, quanto maior a eficácia de uma equipe, menor o tempo de execução de uma obra. Assim, pode-se diminuir o custo com a mão de obra e a estrutura de canteiro e consequentemente baratear o custo da habitação.
É nesse cenário que as técnicas construtivas industrializadas, que possibilitam um melhor rendimento (aquele mesmo citado por Le Corbusier) e um resultado mais rápido, se inserem na produção habitacional no Brasil.