[Originalmente publicado como NUNES, Hélio Alvarenga. Visibilidade na periferia, Papel
das Artes, n. 8, Rio de Janeiro, set. 2008, p. 8-9.]
O panorama artístico brasileiro continua polarizado, apesar das inúmeras iniciativas que têm como proposta abarcar a multiplicidade de manifestações de nosso país-continente. O recém lançado catálogo do Projéteis Funarte traz, dentre 23 projetos, nove do Rio de Janeiro e três de São Paulo, dando a impressão de existir uma espécie de sistema de quotas para artistas de outros estados. E, apesar da ênfase no mapeamento nacional e do esforço por divulgar o pro- grama em 19 capitais, muito provavelmente ocorrerá o mesmo com o Projeto Rumos, pen- dendo talvez mais para São Paulo.
O problema de grande parte dessas iniciativas, incapazes de despolarizar efetivamente, não é tanto o sistema de quotas, mas o fato de que “nacionalizar” parece significar apenas levar os artistas da periferia para o centro. O Projéteis realizou cinco exposições, todas no Rio. E o Rumos provavelmente só realizará uma em São Paulo, apesar de o edital prever a possibilida- de de itinerância. As tentativas de dar visibilidade à diversidade nacional continuam seguin- do uma lógica polarizada.
Como moro em Minas, não foi sem razão, portanto, que a primeira proposta da editora Cleu- sa Maria para o tema desse artigo fosse contar sobre os artistas que vivem e trabalham aqui, ainda sem a visibilidade que seus trabalhos merecem. É sem dúvida um tema de vital impor- tância. As duas escolas de arte de Belo Horizonte formam aproximadamente 60 profissionais por ano. Nem todos atuarão como artistas. E só uma ínfima parcela terá alguma visibilidade Ilustração 64: Paulo Nazareth, 2008.
À esquerda, galinhas d'angola no Palácio das Artes: A gente pisava na bosta das galinhas do Paulo e depois leva - va a sujeira para a exposição do acervo Roberto Marinho, que ocorria nas galerias adjacentes. À direita, “Louco ou sábio, continua andando com seu embornal carregado de objetos misteriosos.” (Piti)
nacional ou internacional. Muitos entre os invisíveis têm bons trabalhos, sem dúvida. Mas hoje é difícil para mim escrever sobre eles, pois venho notando uma mudança significativa no panorama mineiro.
Belo Horizonte ainda é uma periferia artística, mas muita coisa está mudando. Há pouco mais de dois anos, quando propus minha pesquisa para o mestrado, esbocei um quadro sombrio sobre a carência das instituições daqui. Diagnosticava tantos problemas de visibili- dade, a ponto de propor ser o catálogo de exposição, o souvenir, mais importante que a expo- sição em si. O que me interessava na época era a impossibilidade de um contato mais dura- douro com a produção contemporânea; não só mineira, mas nacional e internacional. Minha preocupação era a formação dos jovens artistas mineiros, que só podiam ver arte no catálogo ou no livro, e como esse olhar de segunda-mão afetava suas poéticas.
Inhotim ainda não era uma realidade tão palpável e dinâmica como é hoje, responsável por um salto de qualidade surpreendente, principalmente, entre os estudantes de arte que lá tra- balham como monitores. Eu tinha a impressão de se tratar de uma extravagância que logo iria desaparecer; no que, ainda bem, me enganei redondamente, já que continua expandindo sua coleção e sua importância, com os dois novos e sensacionais pavilhões: o de Adriana Va- rejão e o de Doris Salcedo.
Por isso, na época, boa parte de minhas preocupações se voltaram para a inadequação do Museu de Arte da Pampulha (MAP), que, tendo sido projetado para ser um cassino, não po- dia mostrar seu acervo. Mas hoje percebo que justamente esse problema foi uma das causas da virada mais importante de Belo Horizonte nos últimos anos, a Bolsa Pampulha. Agora em sua terceira edição, ela reformulou o modelo deformado dos salões em uma residência artísti- ca que não só deu grande visibilidade para os artistas mineiros contemplados, mas estabele- ceu Belo Horizonte como um centro de formação e convivência para artistas de outros esta- dos, inclusive os centrais. Morar em BH pode vir a ser uma boa alternativa para o jovem ar- tista em busca da tão desejada visibilidade nacional e internacional.
Outra instituição importantíssima, o Palácio das Artes, por mérito próprio, mas no mesmo vetor, reestruturou seu setor de artes plásticas, substituindo um sistema exclusivo de convites e propostas, para o qual era necessário ter um certo cacife, por concorrência aberta (para a metade das exposições, ao menos), tornando-se assim mais democrático e acessível aos jo- vens artistas e à produção contemporânea.
Até mesmo o Museu Mineiro, que era uma instituição apagada e anacrônica, cristalizada em torno de uma exposição permanente de obras barrocas e de algumas pinturas modernistas
pouco importantes, tem promovido iniciativas para acolher nossa produção contemporânea, na forma de intervenções e instalações.
Talvez seja temerário afirmar isso, mas depois de quase 40 anos, ocorre hoje em Belo Hori- zonte uma efervescência artística tão notável quanto a histórica manifestação Do Corpo à
Terra, que ocorreu em 1970, no Parque Municipal, ao lado do Palácio das Artes. Há hoje um boom de boas exposições e muitas outras ações interessantes, demonstrando que as melhores
iniciativas de despolarização vêm justamente da periferia.
O aumento da participação de artistas residentes em Minas nas bienais e nas exposições de vulto, nacionais e internacionais, parece resultar dessa nova força que adquire hoje o contex- to artístico mineiro e suas instituições.
E isso continuará. Novos artistas, como Paulo Nazareth, que ilustra o artigo, estão sendo for- mados nessa efervescência. Sua participação na edição passada da Bolsa Pampulha, para onde levou sofás velhos e onde vendeu “bosta de artista emergente”, sua exposição recente no Palácio das Artes, onde criou galinhas d'angola, e a quase simultânea intervenção no projeto Mesa de Queijos do Museu Mineiro, para onde levou uma cabra para dar leite, renderam ao Paulo uma visibilidade sem igual; mas não só. Seu trabalho, quase impossível de categorizar, mas que orbita a crítica institucional, tem se tornado cada vez mais contundente e maduro, algo que seria impossível na Belo Horizonte de alguns anos, de instituições cambaleantes, quase invisíveis e cristalizadas em torno dos “artistas mineiros de renome”.