Sarah Kane concebeu sua Phaedra’s Love a partir de uma encomenda do diretor do pequeno e inovador Gate Theatre, de Londres, em 1996. O pedido era que fosse feita uma adaptação de um clássico europeu. Ela recebeu de David Farr, o diretor, um livro das tragédias de Sêneca, do qual escolheu Fedra. A peça, estruturada em oito cenas, estreou em maio de 1996, no Gate, sob a direção da autora. Um ano antes, ela havia estreado na cena teatral londrinense, entre muita polêmica, com a peça Blasted – argumento da própria Kane, então com 23 anos, do qual se pode dizer que, no mínimo, chocou crítica e público. A dramaturga, que sofria de depressão e esteve internada algumas vezes, matando-se aos 29 anos, figura como verbete nos mais recentes dicionários sobre teatro e tem importante histórico de encenação na Europa, em particular na Alemanha.
É pertinente observar que, no obituário publicado no jornal The Independent (23/02/1999),27 o dramaturgo e amigo Mark Ravenhill afirma que Kane era uma escritora contemporânea com uma sensibilidade clássica, que criou muitos momentos de beleza e de crueldade, e menciona Shakespeare, Sófocles, Racine como sensibilidades afins à dela, mas não Sêneca. A própria autora, que abordava temas clássicos do teatro como o amor, o ódio, a morte, a vingança, mas fazendo uso de uma poesia urbana completamente contemporânea28, relata o tratamento das fontes (apud SAUNDERS 2003: 72):
I read Euripides after I’d written Phaedra’s δove. And I’ve never read Racine so far. Also, I only read Seneca once. I didn’t want to get too much into it certainly didn’t want to write a play that you couldn’t understand unless you
26 Uma gravação televisiva está disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4t-NtrLzgkE 27 Disponível em: http://www.independent.co.uk/arts-entertainment/obituary-sarah-kane-1072624.html 28 Citada em SIERZ (2001: 109).
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knew the original. I wanted it to stand completely on its own.29
A despeito da afirmação de Kane, não é difícil constatar o muito que foi preservado da peça senequiana e até paralelos expressivos com o Hipólito euripidiano: por exemplo, o suicídio de Fedra pela forca, fora do palco, antes do regresso de Teseu – um importante diferencial no texto de Sêneca é justamente que Fedra se mata em cena com a espada de Hipólito enfiada no ventre na presença de Teseu. Por outro lado, na peça inglesa, é a própria Fedra que revela seu amor a Hipólito como acontece no texto latino, enquanto em Eurípides é a Ama a desempenhar essa tarefa.
Kane deixou também o testemunho de como deu forma ou “reconfigurou” Hipólito, o protagonista de fato da sua peça como sugere o título, embora um tanto ambíguo. Pode- se adotar a nomenclatura dos estudos da recepção, em que a “reconfiguração” é a seleção e retrabalho do material de uma tradição prévia.30 Isso é o que diz Kane (apud SAUNDERS 2003: 73): “I thought Hippolytus was so unattractive for someone supposed to be so pure and puritanical, and I thought actually the way to make him attractive is to make him unattractive but with the puritanism inverted – because I wanted to write about an attitude to life – not about a lifestyle”.31 Como já se verificou com Müller (p.164), a recepção contemporânea de clássicos antigos parece se sustentar por vezes no conceito da inversão.
O Hipólito da peça inglesa é um misantropo com tintas hedonistas, não um misógino celibatário como em Eurípides e Sêneca. A cena muda inicial em Kane, uma longa rubrica descrevendo ações de Hipólito como uma pantomima moderna, revela o perfil caprichoso do príncipe herdeiro e se apresenta como equivalente estrutural e temático da peça de Sêneca, que abre com a monodia da personagem descrevendo o ambiente agreste em que vive. Roland Mayer, reconhecido editor da Fedra latina em inglês, justifica a afinidade entre Kane e Sêneca (2002: 87) assim:
We can see the grounds for the appeal of Seneca to a modernist sensibility, for he too chose to confront an unconventional theme as directly as his society
29 “δi Eurípides depois que tinha escrito Phaedra’s Love. E até agora não li Racine. Também, só li Sêneca
uma vez. Eu não queria me envolver muito – certamente eu não queria escrever uma peça que não se pudesse entender a menos que se conhecesse o original. Eu queria que ela se sustentasse sozinha”.
30 Ver Towards a working vocabulary for reception studies, em HARDWICK 2003, pp.9-10.
31“[A]chei o Hipólito nada atraente mesmo sendo alguém supostamente tão puro e puritano, e pensei que a
forma de torná-lo realmente atraente seria mantê-lo nada atraente, mas com o puritanismo invertido, porque eu queria escrever sobre uma atitude perante a vida, não sobre um estilo de vida”.
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allowed. The emotional bleakness, the isolation of the characters who scarcely engage with one another, the violence are all there in the Roman play, waiting to be transmuted into a contemporary idiom. Kane acted as a sort of catalyst upon his raw material.32
O enredo de Kane é transportado para a Inglaterra atual e introduz homens, mulheres e crianças do povo como personagens cruciais para o desfecho escatológico, do qual Teseu participa. São eles que conformam o monstro das tragédias antigas que destroça o príncipe Hipólito. A ação dos súditos, uma vingança pela morte de Fedra, é antecipada na peça por uma personagem inédita, a filha da rainha, Strophe ou Estrofe, que assume claramente a função da personagem típica da ama-conselheira. Os cidadãos são personagens não nomeadas, identificadas apenas por sexo e números, que se amontoam na frente do tribunal onde Hipólito será julgado, num aparente misto de revolta e vassalagem. O tema evoca uma passagem da terceira ode coral da peça de Sêneca (Fedra, vv.978-89), na tradução de Joaquim Brasil Fontes (2007: 321):
res humanas ordine nullo Fortuna regit sparsitque manu munera caeca, peiora fouens; 980 uincit sanctos dira libido, fraus sublimi regnat in aula;
tradere turpi fasces populus gaudet, eosdem colit atque odit. tristis uirtus peruersa tulit 985 praemia recti : castos sequitur mala paupertas uitioque potens regnat adulter: o uane pudor falsumque decus!
As coisas humanas, Fortuna as rege em total desordem e com as mãos cegas esparge presentes, favorece a infâmia; a horrível luxúria triunfa dos puros, a perfídia impera nos paços reais. Ao povo agrada entregar os poderes a homens infames, que odeia e venera. A austera virtude colhe castigos por atos justos. A miséria é o prêmio dos castos; potente em seu vício, o adúltero reina. Ó castidade inútil, ó mentira da glória!
A aproximação temática permite também uma aproximação formal, considerando-se que o coro unívoco da peça latina foi transposto para um jogral bastante contemporâneo
32 “Podemos entender os fundamentos do apelo que Sêneca tem a uma sensibilidade modernista, já que ele
também escolheu confrontar um tema não convencional tão diretamente quanto a sociedade de seu tempo permitiu. A desolação afetiva, o isolamento dos personagens que mal se envolvem uns com os outros, a violência – está tudo lá na peça latina, aguardando para ser transmutado para uma linguagem contemporânea. Kane funcionou como uma espécie de catalisador da matéria prima dele [de Sêneca]”.
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com linguagem popular e de baixo calão. Como alerta o dramaturgo Ken Urban (2001: 37), a colega inglesa não estava em busca de opor o certo ao errado, nem mesmo flertava com a amoralidade, mas dramatizava “a busca pela ética”.
Theseus Come far? Man 1 Newcastle.
Woman 1 Brought the kids.