Jasão! Jasão
Que voz é essa,
que se solta de teu peito, mulher! Medeia
Não sou esperada. Perturbo teu bem-estar. Ai de mim, ó, ai de mim, se ao menos a morte me
partisse! Será que te assusto e agito teu espírito!
Minha voz é para ti uma tempestade sobre um oceano sem fundo,
te inspirando a angústia da morte? Procuras te ocultar,
tu e os teus diante de minha pessoa, que devo me deter em meus tormentos, trancada em habitações retiradas?
Durante três vezes cinco dias não me desejaste, não me chamou com tua própria voz,
nem pela boca de um escravo.
MÜLLER: Medeia (...) Jasão Jasão
Mulher que voz Medeia
Eu
Não sou desejada aqui Que uma morte me leve Três vezes cinco noites Jasão tu não
Me quiseste Com a tua voz não E não com a voz de um escravo nem Com mãos ou olhar
A análise dos 150 versos que compõem o monólogo de Medeia será feita apenas por amostragem, devido à extensão. É de se notar como Müller recorre a dispositivos retóricos como os que fazem da Medeia senequiana uma oradora de fala altamente persuasiva:
Medea
Du Mir Liebst du sie Jason deine Söhne Willst du sie wiederhaben deine Söhne Dein sind sie Was kann mein sein deiner
Sklavin Alles an mir dein Werkzeug alles aus mir Für dich hab ich getötet und geboren Ich deine Hündin deine Hure ich
Medeia
Tu A mim Tu os amas Jasão teus filhos Queres tê-los novamente teus filhos
Teus eles são O que pode ser meu tua escrava Tudo em mim teu instrumento tudo de mim Por ti eu matei e gerei
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Em termos gerais, a temática e a elocução dos 16 primeiros versos do monólogo de Müller se assemelham muito aos vv.447-500 da peça latina, que incluem uma fala estendida de Medeia e um trecho de diálogo com Jasão. Analisando-se somente os versos iniciais em alemão, registra-se no primeiro a iteratio do pronome “tu”, gerando o efeito de ansiedade tão evidente no texto senequiano. Também nos dois primeiros versos há a figura denominada em latim como conversio, repetição em orações seguidas dos termos finais (“teus filhos”). Nos versos quatro e seis, identifica-se o emprego da epanadiplose, o uso repetido de uma palavra ou locução no início e fim do mesmo verso (sublinhadas).
A linguagem de εüller é mais “erodida” que a senequiana, revelando desagregação, mas ao mesmo tempo recorre com frequência a dispositivos retóricos balizadores, como a contentio – quando se usa palavras ou expressões com sentidos contrários no mesmo verso (Die erste Nacht ist mein Es ist die letzte; “A primeira noite é minha É a última”). Também ocorre quatro vezes, não sequenciais ao longo do monólogo, a construção trimembre assindética, frequente na elocução trágica senequiana,25 além de uma polissindética:
Vom Hochzeitsmahl aus Vätern Brüdern Söhnen Do banquete nupcial de pais irmãos filhos Mein Herzfleisch Mein Gedächtnis Meine Lieben Meu coração Minha memória Meus queridos Händen zerlaugt zerstickt zerschunden vielmal Mãos marcadas maculadas imundas muitas
vezes Bewohnt von Hunden Ratter Schlangen seid ihr Habitados por cães ratos cobras
Das bellt und pfeift und zischt Ich hör es gut Latem e chiam e sibilam Eu ouço bem Nesse mesmo monólogo, Müller alude a imagens da peça senequiana quando, por exemplo, εedeia afirma “Quero fazer a noiva em tocha nupcial”. Boyle (2014: 335) comenta sobre a reprodução dessa imagem na peça Medeamaterial: “Heine Müller was similarly impressed with the image: ‘Ich will die Braut zur Hochzeitsfackel machen’”. Vale a pena comparar no texto alemão a ideia da morte como um presente (Der Tod ist ein Geschenk) e a do exílio como presente em Sêneca (v.492: munus est fuga), ambas são falas irônicas de Medeia. O verso registrado como tricolon “εãos marcadas maculadas imundas muitas vezes” evoca o verso 280 de Sêneca: totiens nocens sum facta. E ainda o verso final da segunda cena do tríptico, uma pergunta que Medeia dirige à Ama na presença de Jasão (Amme Kennst du diesen Mann; “Ama conheces este homem”), retoma um dos últimos versos da peça latina, o v.1021, quando Medeia questiona diretamente Jasão: coniugem agnoscis tuam? O monólogo de Müller é pontuado de referências metateatrais.
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Müller chegou a admitir em entrevista à imprensa alemã que apenas a cena final, os 114 últimos versos que compõem “Paisagem com argonautas”, era um texto novo quando a peça foi montada. Esse monólogo de Jasão é bastante cifrado, apesar de algumas menções de nomes – Shakespeare, Nero, Fritz Lang, Boris Karloff. Mas a personagem não cita o próprio nome nenhuma vez, referindo-se inúmeras vezes a si mesma apenas com o pronome pessoal “eu”. É possível identificá-lo, no entanto, pelo contexto e pela alusão à viagem na nau Argo (“Eu minha viagem marítima”), momento do texto teatral em que Müller resgata o tópos do risco a que se submete o marinheiro fiando-se em estreita madeira em alto mar (“A árvore abatida lavra a cobra o mar/ Fino entre o eu e o não mais eu o casco”), que ocorre nos versos 306-8 da Medeia senequiana.
No parágrafo em prosa editado à parte do texto teatral, que serve de rubrica à peça toda, Müller afirma que “Paisagem com argonautas” pressupõe as catástrofes humanas e que o “eu” ali é coletivo. O herói grego na peça alemã morre ao final, absorvido pela paisagem contaminada por conflitos, numa passagem do mito à história, segundo Müller (1984: 124). Em entrevista no ano em que criou Medeamaterial, o autor afirmou que havia descoberto que a paisagem pode ser um fenômeno político. Para Müller, a viagem de Jasão é o primeiro mito grego da colonização, com resultados negativos para o mundo. Na rubrica, ele sugere (1993: 23): “A paisagem pode ser uma estrela morta, onde uma missão de resgate de um outro tempo ou de um outro espaço ouve uma voz e encontra um morto”.
Fernando Peixoto, admitindo que possa parecer simplificadora a avaliação, sumariza a obra de Müller como uma síntese de Brecht e Artaud, um projeto teatral do século XX, que ele descreve assim (1987: xv): “Uma destruição de tempo e espaço que rompe com o discurso linear, mas não perde o fio de múltipla condução a uma compreensão reveladora de passado-presente-futuro, mergulha de forma implacável no campo da ética e do comportamento do indivíduo inserido no contraditório processo social transformador”.
É preciso reconhecer que há uma mudança na trajetória dramatúrgica de Müller a partir de meados dos anos 1970, após uma estadia nos Estados Unidos, quando ele começa a tentar novas formulações, como, por exemplo, o primeiro tratamento dado ao mito de Medeia, o texto Medeaspieal, de 1974, que se limita a uma rubrica em prosa formatada em um longo parágrafo, sem qualquer fala atribuída a qualquer personagem. O primeiro editor de peças de Müller nos Estados Unidos, Carl Weber, observa que, com esse texto, Müller faz uma exploração do “teatro de imagens” (apud MÜLLER 1984: 46). A encenação que
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decorre da rubrica é uma pantomima moderna, com Medeia amarrada a uma cama e violada pelo colonizador Jasão, com restos de corpos caindo do céu ao final, evocando o desmembramento da peça curta de Artaud “O jato de sangue”. O uso pantomímico, no sentido moderno de encenação sem falas, do mito de Medeia já havia sido explorado pelo diretor Bob Wilson, em Deafman Glance, de 1970, quando o duplo filicídio ocorre em cenas mudas.26 Bob Wilson tornou-se um dos principais encenadores dos textos de Müller.