A- Mali Bilgiler
3- Mali Denetim Sonuçları
Aldemir Martins (1922-2006) nasceu na cidade de Ingazeiras, situada no Vale do Cariri, interior do Estado do Ceará. Artista multifacetado, trabalhou como ilustrador, pintor e escultor, por isso é comumente anunciado sobretudo como artista plástico. Apelidado carinhosamente de “Índio”, sua fama foi reconhecida, inclusive fora do Brasil, pois levou sua arte e assuntos brasileiros para muitos lugares do mundo:
Migrante que era, o artista cearense nunca abandonou o Brasil. Mesmo premiado em Veneza – pelos seus desenhos de cangaceiros, elogiados inclusive pela revista Time, que destacou o artista pela qualidade e pelo fato de ter bandidos como tema –, manteve, ao longo do tempo uma postura regionalista em suas rendeiras, paisagens do litoral do Ceará, animais, como caranguejos, ou plantas, por exemplo, diversos tipos de palmeiras. Aldemir carregava essas imagens desde a infância e fazia-as perambular pelo Brasil e pelo mundo. (D’AMBRÓSIO, 2011, p.49).
Na obra de Martins há uma presença marcante do regionalismo nordestino, percebido na simplicidade dos temas. O traçado do lápis se aproxima muito dos desenhos de uma criança, mas possuem expressividade ímpar. A principal característica de Martins “[...] era a visão generosa da vida e da arte. Dava valor às coisas mais simples e olhava, sem nenhum tipo de preconceito, para cada profissão” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.41). Seus desenhos ilustram as mais variadas pessoas e objetos, as imagens visuais representam fatos corriqueiros vividos pelos sujeitos comuns, especialmente porque o artista “[...] se apropria de um conjunto de significados, mais que das formas” (SANTOS, 2015, p.33).
110 Além disso, a “sua trajetória aponta formas de circulação de representações históricas de interpretações sobre o Brasil. Nesse caso, na forma de imagens, tão eloquentes quanto os discursos que buscavam sintetizar tais narrativas e interpretações” (SANTOS, 2015, p.22). Martins direciona sua obra para as tensões entre o regional e o nacional, logo, o seu amadurecimento artístico acompanha as mudanças da cultura nacional. A obra do artista cearense transmite ao apreciador certa autonomia, por isso geralmente Martins iniciava suas pinturas a partir de um simples desenho, “ao desenhar um objeto, apropriava-se dele e dava-lhe uma assinatura, uma personalidade. A imagem resultante era um depoimento individual. O objeto ganhava assim a alma do artista” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.42) e uma interpretação particular da imagem.
Entendemos assim que o desenho era vital na produção do artista cearense. A arte de desenhar “[...] era como respirar. Partia do desenho para muitas de suas pinturas e acreditava, como diziam os chineses, que a composição é o osso do quadro. Muitos de seus desenhos, no entanto, tinham uma ideia matriz de criação independente da pintura” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.42). Podemos até associá-los aos desenhos de Picasso, Giacometti ou Goya porque tais artistas também trazem em suas obras uma atitude política de “denúncia, drama, doença e obscuridade humana” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.47). Vale lembrar que assim como o pintor espanhol Pablo Picasso, Martins foi bastante criticado por ser mais desenhista do que pintor e não utilizar a cor adequadamente em suas obras. O artista cearense participou de um curso de gravura sob orientação de Poty Lazzarotto, o que lhe rendeu grande aprendizado.
Como ilustrador literário Martins inicia sua atividade em São Paulo, quando foi contratado pela Livraria Editora Martins. No entanto, o artista produz ativamente entre as décadas de 1950 e 1970 e sua preferência para as obras literárias que ilustra seria a temática do sertão. Este tema dialoga muito com o Romance de 30, por isso encontramos maior reincidência de Martins como ilustrador em obras como “Vidas Secas, de Graciliano Ramos; Os Sertões, de Euclides da Cunha; Violeiros do Norte, Cantadores e Sertão Alegre, de Leonardo Mota” (SANTOS, 2015, p.31).
Para D’Ambrósio,
Aldemir foi um artista múltiplo e tinha uma visão generosa do mundo. Ilustrou crônicas, poemas, romances, contos e capas de discos. Considerava- se “um ledor”, ou seja, “aquele que lê muito”. Amava Guimarães Rosa e Mário de Andrade, tendo também ilustrado obras como O Navio Negreiro, de Castro Alves. (D’AMBRÓSIO, 2011, p.51).
111 Além disso, criou desenhos específicos para “personagens como cangaceiros, beatos, cantadores, tipos reforçados pela literatura” (SANTOS, 2015, p.31) e ressignificados na sua arte. Neste caso, podemos dizer que, enquanto ilustrador e novo intérprete de obras literárias, Martins se apropriou de signos da cultura nordestina, reelaborando uma linguagem peculiar através da imagem visual, mostrando inclusive sua leitura do texto verbal. É muito comum encontrarmos desenhos de animais em sua obra, acentuando-se que, quando desenhava bichos, Martins “buscava ser o próprio animal, lição aprendida com os artistas chineses, entendendo sua movimentação e deslocamento no espaço, seu ambiente natural e seu jeito de andar” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.49). Isto pode ser percebido na ilustração que fez da cachorra Baleia, personagem de Vidas Secas. Mas, quando desenhava um personagem, Martins “[...] concebia [...] um ser no espaço, com gestos e expressões corporais no ato de falar ou de sentar” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.49). Podemos constatar estas questões nas ilustrações dos personagens Fabiano, Sinha Vitória e Menino Mais Velho. Entendemos, assim, que sua obra apresenta uma estética própria e única.
Por outro lado, notamos pouco interesse da crítica pela análise das ilustrações ou por um estudo mais apurado desta produção do artista cearense. Há trabalhos pontuais sobre sua criação, como por exemplo, comentários em blogs de artes visuais na internet, porém os estudos de Jacob Klintowitz (1989), Oscar D’Ambrósio (2011) e de Maria Eliene Magalhães Santos (2015) são quase inéditos para uma abordagem mais profunda da obra de Martins.
A 9ª edição de Vidas Secas, datada de 1963, publicada pela Livraria Martins Editora, teve ilustrações internas do artista cearense, constituídas a partir da série “Baleia”, que ampliam as leituras sobre o romance de Graciliano Ramos. Das ilustrações criadas para esse romance, duas imagens ainda serviram, posteriormente de capa para a obra, o que garante a relevância do seu trabalho. Mais à frente, analisaremos as ilustrações de Martins. Vale lembrar que o universo visual de sua obra “[...] permite justamente novas leituras pela capacidade de sempre nos oferecer uma nova porta de acesso” (D’AMBRÓSIO, 2011, p.59).
Com base no exposto podemos considerar que o ilustrador atua como um novo intérprete do texto verbal, lançando novas direções para o literário, ampliando a voz do texto, e, sendo assim, capaz de expor a sua leitura particular da obra, ressignificando o texto.
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