GEREÇ VE YÖNTEMLER
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Viver, como talvez morrer, é recriar-se: a vida não está aí apenas para ser suportada nem vivida, mas elaborada. Eventualmente reprogramada. Conscientemente executada. Muitas vezes, ousada.
Lya Luft O motivo primeiro da minha inquetação enquanto pesquisadora, - de verificar como as mulheres, no meio educacional lidam com o seu processo de envelhecimento e se existe, neste meio, projetos voltados para isso - assinalo que o tema da sexualidade não foi abordado com facilidade. Na verdade, não houve uma abertura maior por parte das entrevistadas para falar de algo de foro tão íntimo.
EA: Eu prefiro não falar de toda a minha intimidade [...]. Prefiro deixar a minha vida bem intima resguardada [...].
EC: Olha, falar sobre o envelhecimento já é algo bem complexo. Imagina falar sobre a minha vida bem na intimidade? Prefiro falar sobre outros pontos do envelhecimento (risos).
As entrevistadas restringiam-se a falar de suas vidas de uma forma geral. Houve uma desistência bem no início das entrevistas, justamente porque a participante acreditava que iram tocar muito nesse tipo de assunto e ela dizia que achava que não iria gostar. Imediatamente outra pessoa passou a tomar o lugar da entrevistada, porém condicionou a sua “entrada” a não falar muito nesse assunto de
sexo, o que mais uma vez evidencia a confusão entre os conceitos de sexualidade e sexo. Acredita-se que houve dificuldade em razão dos paradigmas, mitos e preconceitos que supostamente afastam o indivíduo que busca o conhecimento pelo exercício pleno das suas atividades sensoriais. Mesmo com essa negativa, o trabalho fluiu facilmente, articulando um conjunto de ações individualizadas com características próprias que desenharam um perfil próprio.
Um dos desafios, além do tempo para a coleta de dados e o próprio espaço físico, foi o de mediar alguns contrapontos entre as entrevistadas às quais sempre foi proposto um discurso espontâneo com prioridade de escuta. Neste processo, foi preciso fazer, algumas vezes, breves intervalos durante o tempo de cada encontro/aula. Esse modo que apresentou-se (do embate) serviu também para um autoencontro, o que evidenciou a grande dificuldade embutida na extroversão didática ao falarem sobre assuntos supostamente conhecidos, mas ainda empregnados de mitos, paradigmas e preconceitos.
A percepção das mulheres em questão sobre o envelhecimento carrega verdades empíricas familiares, transmitidas de forma verticalizada. Apesar de terem uma visão sobre o envelhecimento, o consideram uma parte da vida em que aparecem as doenças e as perdas são maiores, tanto no campo afetivo quanto biológico. Durante as falas, elas foram estruturando ideias para colocarem em pratica nas suas vidas e nas suas escolas na tentativa de vencerem as “desvantagens do envelhecimento”, abrindo uma brecha para projetos que abordem o tema.
EE: Depois de tanto conversar com as colegas da aula do pós- graduação sobre o envelhecimento, posso dizer que eu mudei muito em relação a mim mesma e quero desenvolver alguma coisa dentro da escola que ajude as pessoas a acordarem e a se darem conta que todo mundo fica mais velho, que o tempo passa e que existem perdas que fazem parte de tudo isso.
EC: Um exemplo bem claro pra mim: As aulas do pós- graduação, desta matéria, foram sobre a questão do envelhecimento. Podia? Podia sim, porque é uma abordagem
sociológica da pessoa. E porque não pensamos nisso nas aulas de Historia, de Geografia ou de Língua Portuguesa?
EB: Acho que o envelhecimento pode ser falado até nas aulas de geografia. Em todas as matérias, para todas as idades. Para os pequenos, podemos falar sobre os cuidados com o corpo, falar sobre hábitos saudáveis de vida, trazer pessoas mais velhas para falar sobre a sua forma de se cuidar. Usar exemplos.
ED: O Plano Político Pedagógico da escola pode ter um projeto sobre o envelhecimento, falando aos professores, funcionários, pais e alunos sobre hábitos de vida saudável e sobre as perdas que temos com o passar do tempo e que podem ser vistas de uma forma mais positiva. [...]. É preciso fazer uma grande reunião sobre isso e levar o que aprendemos aqui para compartilhar com os colegas e daí criar projetos.
Em todos os seis encontros as mulheres abordaram o tema com curiosidade e associavam um ou outro meio de estar atenta ao seu próprio processo de envelhecimento ou estar dedicando algum tempo para falar sobre isso com outras pessoas, incluindo alunos e colegas. A partir daí, foi possível também identificar a não existência no meio educacional do qual as mulheres entrevistadas fazem parte, de programas ou estratégias que abordem os processos que influenciam no cotidiano das educadoras no que se refere ao envelhecimento, ao trabalho, ao lazer, a concepção de corpo, a sexualidade e outros fatores percebidos e comentados.
Nas conversas e nos registros, ficou claro que todas as seis mulheres entrevistadas viveram, há pouco mais de duas decadas atrás, uma imagem da velhice representada por perdas sucessivas, repressão e interdição de alguns sonhos. As percepções construídas quando tinham faixa etária entre 20 a 25 anos, provavelmente tenham restringido algumas das suas vontades.
EB: Depois que a gente tem filho, fica muito mais difícil fazer coisas como estudar mais, fazer outra faculdade ou viver de outra forma que não seja trabalhar muito para poder dar o melhor para os filhos, mas daí o tempo vai passando e a gente vai sentido que não tem mais gás.
Pode-se dizer que os mitos e preconceitos que envolvem as inquietações da pessoa, estabelece um contexto que os preserva. E esse mesmo contexto parece guardar uma corporalidade e uma estética construídas em um enfoque no qual deve-se sempre manter as características da juventude. Resgatar, através do discurso a autoestima e a percepção da própria corporalidade, é um desafio implícitos nos projetos para que sejam elaboradas questões para melhor responder às inquietações que fazem parte do processo de envelhecimento.
Os resultados apontam que a percepção da corporalidade destas mulheres do que foram no passado, numa tentativa velada de reaver no espelho a funcionalidade e a vitalidade, consideradas importantes para uma beleza menos efêmera.
ED: O corpo vai mudando, sem dúvida. O metabolismo está cada vez mais lento. O próprio estresse faz a gente comer mais. Daí o espelho não mente: os quilos a mais nos deixam mais pesadas e mais indignadas com o tempo.
Embora poucas delas se digam satisfeitas com o próprio corpo, evidenciou- se dificuldade em problematizar, nos seus discursos, as alterações ou limitações íntimas que por ventura as incomode. Por vezes, a pesquisadora tentou abordar este tema, mas as falas restringiram-se a sorrisos e meias-palavras, negando a tentativa de abordagem por parte da entrevistadora/pesquisadora.
Em meio a este processo, foi percebido que elas queriam falar muito mais sobre a vitalidade do corpo, trajetória de vida e uma concepção de estética que valorize e reforce seus papeis sociais.
ED: Acho importante me sentir bem e bonita pra mim. Na verdade, quero é ser valorizada pela pessoa que eu já sou e pela profissional que eu quero ser: ainda melhor e mais estudada, por isso estou fazendo este curso de pós-graduação.
Uma das questões que evidenciou a necessidade de buscar conhecimento sobre as transformações do corpo, foi a questão do climatério. A entrada neste período as tem levado a pensar sobre o assunto, embora nem todas falem abertamente sobre ele.
EF: Eu menstruo regularmente, mas sei que o climaterio chega antes da menopausa e que vamos chegando a um período da infertilidade. Isso mexe com tudo: corpo, cabeça [...]. Como vou ao ginecologista, estou bem atenta. [...]. Quando surge dúvida, pesquiso, mas este não é um assunto que é falado na escola. [...]. Acontece mais com quem está passando pelo mesmo processo.
Mesmo diante da necessidade e da falta de abertura para falar sobre temas íntimos, as mulheres professoras sujeitos da pesquisa demonstraram saber bastante sobre as mudanças hormonais causadas pelo climatério e menopausa, como pode ser verficado no capítulo a seguir.