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VEGETAÇÃO DE MANGUES 

2.3 O novo paradigma - a ecologia profunda

Capra (1996) inicia seu livro A Teia da Vida citando o seguinte trecho:

Isto sabemos. Todas as coisas estão ligadas como sangue que une uma família... Tudo o que acontece com a Terra, acontece com os filhos e filhas da Terra. O Homem não tece a teia da vida; ele é apenas um fio. Tudo o que faz à teia, ele faz a si mesmo. Ted Perry, inspirado no Chefe Seattle. (CAPRA, 1996 p. 9).

O pequeno trecho, além de apontar que o referido autor reconhece, valoriza e confirma que a sabedoria da cultura indígena, identifica-se perfeitamente ao pensamento sistêmico do novo paradigma da “ecologia profunda”. A filosofia desse novo paradigma é expressada por Capra (1996) quando diz que:

O novo paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominada visão ecológica, se o termo "ecológica" for empregado num sentido muito mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados nos processos cíclicos da natureza (e, em última análise, somos dependentes desses processos). (CAPRA, 1996, p. 25).

Essa diferença sutil entre o termo ‘holístico’ e ‘ecológico’ pode ser compreendida, tomando como exemplo a Bacia do rio Cocó e a visão holística da referida bacia que significa ver a bacia como um todo funcional e entender as relações de interdependência entre suas partes ou unidades internas, enquanto na visão ecológica acrescenta-se à contextualização da mesma, sua inserção no meio ambiente natural e social, origem das matérias-primas que entram nela, como a utilização de seus recursos naturais que afetam o meio socioambiental e vice-versa, além de outros questionamentos.

Segundo Capra (1996) a “ecologia profunda” foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 70, com sua distinção entre "ecologia rasa" e "ecologia profunda". A primeira tem uma visão antropocêntrica, separa o homem do meio natural e a segunda, amplia o olhar, compreendendo ambos, como elementos de uma mesma natureza, em profunda conectividade e interdependência entre si, se expressando juntos e simultaneamente na vida, em uma grande teia de relações.

Capra (1996, p.26) esclarece que a essência da “ecologia profunda”, segundo seu fundador “[...] consiste em formular questões mais profundas (ARNE NAES, apud DEVALL E SESSIONS, 1985, p. 74)”, o que equivale para Capra (1996) a mesma condição para uma mudança de paradigma e, para tanto reforça dizendo que:

Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma. Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com os outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte. (CAPRA, 1996, p. 26).

A fundamentação teórico-metodológica da EAI contempla a filosofia da ecologia profunda, concebendo a essencialidade de um despertar ou resgate de uma consciência do ser humano, enquanto ser-no-mundo, quanto à percepção de sua relação de dependência e interdependência com os demais elementos da natureza, partindo do princípio de que o homem é apenas uma de suas partes integrantes, não um ser vivo ou elemento isolado ou dissociado do seu todo. A tomada dessa consciência pode contribuir no enfrentamento das questões relacionadas à sustentabilidade da vida planetária.

Um questionamento, mais profundo, sobre a existência do ser humano, leva a uma reflexão de que se existe um EU (ser singular e individual), é porque existe um TU (seres semelhantes e outras formas de vida) e juntos forma-se um NÓS (totalidade conectada). Essa percepção reflete em um chamamento para a responsabilidade que cada indivíduo deve ter no cuidado com suas relações humanas e com o seu meio natural e cultural. Para tanto é fundamental o alcance de uma consciência ecológica ampliada para a existência de um todo unificado, que depende do desenvolvimento dos três vínculos de integração do ser humano: consigo mesmo, com o outro e com a totalidade. O “como” desenvolver esses vínculos abre o leque desta pesquisa para a necessidade de buscar cientificamente teorias com princípios coerentes e propostas de educação do meio ambiente que visem à sustentabilidade da vida universal, através de métodos, técnicas ou experiências de facilitação que possibilitem a aplicabilidade da EAI dissertada.

Esse questionamento faz avançar a EAI para uma visão biocêntrica, posteriormente aprofundada, baseada no princípio biocêntrico o qual fundamenta o Sistema Biodança (SB), criado por Toro (2005), um modelo teórico-vivencial de organização ou resgate biopsicossocial do potencial vital do ser humano, contribuindo com mais um recurso com vistas à integração saudável corpo-mente do homem e sua vinculação com a vida universal, conduzindo-o a um reconhecimento enquanto unidade de um sistema maior, um autoconhecimento do seu sistema vivo e a percepção de sua função existencial, possibilitando uma relação de integridade, prazer e respeito à complexa teia da vida.

2.4 A visão biocêntrica - o princípio biocêntrico e o Sistema Biodança (SB)

“A força que nos conduz é a mesma que acende o sol,

que anima os mares e faz florescer as cerejeiras.” (Rolando Toro, criador do Sistema Biodança).

A visão biocêntrica que fundamenta a EAI baseia-se no princípio biocêntrico do Sistema Biodança (SB), criado por Rolando Toro, no Chile, em fins da década de 1960, a partir da realização de seus trabalhos de dança e criatividade com pacientes psiquiátricos, tendo chegado ao Brasil em 1976 e consiste em:

[...] um sistema de integração humano, de renovação orgânica, de reeducação afetiva e de reaprendizagem das funções originais da vida. A sua metodologia consiste em induzir vivências integradoras por meio da música, do canto, do movimento e de situações de encontro em grupo. (TORO, 2005, p. 33).

A teoria do SB aborda o movimento natural da vida e traz seu eixo na própria etimologia da palavra: Bio (vida) e dança (movimento), o que lhe dá um caráter dinâmico, quanto à evolução do seu pensamento científico, pois, seu objeto de estudo é a própria “vida”. A biodança propõe um resgate de todo o potencial saudável que há em cada ser humano, condição primordial à promoção e preservação de todo e qualquer tipo de espécie viva. Para tanto, parte do pressuposto que a “vida” se constitui em uma grande teia, onde o tudo e todos estão ligados por uma energia vital que sempre existiu e continuará evoluindo de uma forma ou de outra.

A visão ecológica profunda e humanística de Toro (2005), compartilhada com Capra (1996), está no questionamento das condições essenciais de geração ou integração da vida universal, compreendidas a partir de uma totalidade cósmica, em que o homem aparece vinculado a esta. Por isso, todo o pensamento filosófico do SB resultou em uma produção teórica e técnico-científica axionada no princípio biocêntrico, que pressupõe a vida como o centro de toda a existência universal, organizada sistemicamente através da integração de vínculos visíveis e ocultos, desenvolvidos no processo das relações entre todos os sistemas vivos, planetários e cósmicos, incluindo o sistema humano.

Para confirmar o princípio biocêntrico do SB é fundamental rever o pensamento de Prigogine (1990 apud GÓIS, 1995, p. 41):

Entendemos por Princípio Biocêntrico a vivência na qual o Universo aparece como um fabuloso sistema vivente. Quer dizer, o Universo sendo a própria vida surgida há bilhões de anos e que evolui como diversidade e atratividade cósmicas. Evolui por si mesmo e aumenta sua complexidade por meio de relações pouco conhecidas, principalmente, entre gravitação e termodinâmica, possibilitando, em última análise, a coerência universal - dança de determinações e indeterminações de fluxos presentes em um Universo altamente instável, evolutivo, irreversível e auto- organizado.

Prigogine (1988) em seu livro “O Nascimento do Tempo” reforça sua visão sobre o universo quando coloca que: “A evolução do Universo não se deu na direção da degradação, mas no aumento de complexidade, com estruturas que aparecem progressivamente, em todos os níveis desde as estrelas e as galáxias aos sistemas biológicos.” (Prigogine, 1988, p. 24) e Góis (1995) complementa-o ao citar que:

A visão que temos da vida é a do Universo-Vivo, uma grandiosa rede de relações auto-organizadas (Prigogine, 1990; Bohm, 1990; Chew, 1990), gerando-se a cada instante de distintas e infinitas maneiras. O ser humano emerge em um dado instante dessas relações, como uma onda no oceano, construindo-se entre acasos e necessidades, em íntimos processos da fusão e diferenciação, e podendo perceber isso. [...] Essa conexão profunda alimenta e constitui a natureza humana, o húmus interior que nos faz vivos, instintivos, selvagens, corporais e conscientes, íntimos da Vida do Cosmo.

Góis (1995, p. 43-44) cita a definição do “princípio biocêntrico”, segundo Toro, como:

O Princípio Biocêntrico concentra seu interesse no Universo como sistema vivente. Não são apenas os animais, as plantas ou o homem e o reino da vida. Tudo o que existe, desde os neutrinos até os quazares, desde as rochas até os pensamentos mais sutis, formando parte de um fantástico Orologium Biológico é, portanto, um ponto de partida para estruturar as novas ciências do futuro. Prioridade do vivente, ilusão do determinismo físico e abandono progressivo do pensamento linear, para entrar na percepção topológica e na poética da similaridade [...] Através do Princípio Biocêntrico alcançamos finalmente os movimentos originais e as primordiais percepções de vinculação da vida com a vida. [...] Nossas vidas surgem da sabedoria milenar do grande pulsador da vida, do útero cósmico, que se nutre e respira nas afinidades e no amor dos elementos. Na luz da origem, no buraco vazio e paradisíaco da realidade, nos buscamos uns aos outros (Toro: 35 e 36).

A abordagem metodológica do SB apresenta uma possibilidade de desenvolvimento integrado dos três vínculos do ser humano (consigo, com o outro e com a totalidade) a partir de um trabalho grupal, o que facilita positivamente para essa integração. Esse desenvolvimento acontece através do resgate das potencialidades genéticas humanas, originárias de suas protovivências (primeiras experiências de vida ou intra-uterinas) e promovido com a prática das vivências biocêntricas, no caso, do Modelo Teórico da Biodança. Essas vivências focalizam cinco linhas de fortalecimento da identidade humana

(vitalidade, criatividade, afetividade, sexualidade e transcendência) o que direciona para um estilo de viver com mais conexão e harmonia com a Vida (DIÓGENES, 2006).

Para compreender a vida como uma imensa e infinita teia é necessário incorporar a identidade de ser-no-mundo, transcender a visão antropocêntrica e atingir um nível elevado de valorização da vida. Isso pode proporcionar uma ampliação da consciência humana e com isso promover uma mudança de postura diante dos elementos que compõem a Natureza, onde o homem ocupa não o seu centro, mas como parte integrante da mesma, numa relação de dependência e interdependência (DIÓGENES, 2006).

Podemos concluir que tanto Toro (2005) como Capra (1996) têm uma visão ecológica e profunda da vida, ou ainda, uma maneira transcendente de senti-la, pensá-la e fazê-la acontecer. Conforme o SB para cada Linha de Vivência está associado uma protovivência e um desenvolvimento de evolução. No Quadro 1 pode-se compreender melhor essa relação.

Quadro 1 - Protovivências e Desenvolvimento das Linhas de Vivências

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