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O tema inspira uma poesia que, além de bela é de grande significação ao texto a ser dissertado:

Julga-se também a paisagem pela serenidade de cada momento perceptivo, refletido na paz do espírito. Valores quantificáveis não podem representar o afeto de uma paisagem construída por sons e odores. Brilhos e cores gravados na própria mente, seu movimento além de ser sentido pode ser observado em sua lentidão como se fosse um respirar, a queda de um orvalho. O próprio silêncio é uma forma de expressar um estado momentâneo de uma paisagem, na ausência do brilho transcende a escuridão, envolvendo as cores com outros matizes, novos ruídos e movimentos diferenciados. No concreto e no invisível diversificam-se os fluxos, transformando a realidade e a própria percepção de observador, pois afinal também somos parte da paisagem. Cacau. (MATEO; SILVA; CAVALCANTI, 2007, capa verso).

A poesia expressa muito claramente a existência de uma condição indivisível, indissociável e interativa, entre o homem e os demais elementos da natureza, iniciada desde os primórdios da vida planetária e intensificada com o estreitamento de suas relações, refletindo direta ou indiretamente no conjunto integrado da paisagem.

O conhecimento da complexidade geossistêmica possibilita uma percepção da interatividade nos componentes da paisagem global e evidencia o grau de responsabilidade participativa individual e dos grupos sociais, na preservação e conservação das condições de sustentabilidade ambiental terrestre, considerando que o crescimento acelerado da crise ecológica está comprometendo, além da manutenção da biodiversidade e do equilíbrio dos sistemas abióticos do meio ambiente, a própria sobrevivência do ser humano na terra.

A humanidade precisa apressar-se no reconhecimento de que faz parte do jogo ecológico da vida planetária e cósmica, desenvolvendo uma consciência que transcenda os limites da sustentabilidade ambiental antropocêntrica, compreender a biocentricidade desse jogo, em que a vida é o centro dela mesma e independente da sobrevivência dos sistemas atuais, inclusive o sistema humano, continuará existindo de uma forma ou de outra, em um processo de autopoésia ou autocriação.

Esse pensar biocêntrico reflete a necessidade de uma visão transdisciplinar sobre os recursos metodológicos de EA que possibilitem uma integração, um encontro ou reencontro do homem com sua própria natureza sistêmica, entre seus grupos sociais e a natureza, enquanto totalidade. Essa integração requer um processo educacional que desenvolva no ser humano uma consciência ecológica profunda ou de pertinência a paisagem, que caminhe para a promoção de um bem-estar socioambiental e comunitário em todas as

escalas regionais. O desenvolvimento dessa consciência é possível a partir da construção de uma relação saudável entre sociedade e meio ambiente, onde haja benefício mútuo e respeito à dialética dos sistemas vivos, abolindo totalmente a atual relação de dominação e depredação do homem sobre a natureza e dos homens entre si.

Nessa perspectiva, é essencial tornar acessível às populações, através de uma linguagem popular, o conhecimento científico do funcionamento sistêmico da paisagem em todos os níveis de organização territorial, possibilitando a compreensão das relações de dependência e interdependência entre seus elementos naturais e sociais, entre os processos de desenvolvimento da biodiversidade, do dimensionamento da disponibilidade e esgotamento das potencialidades naturais e, por fim, da grande responsabilidade de todo cidadão, quanto ao manejo sustentável da paisagem.

É prioritário então, o exercício de um diálogo equilibrado e cotidiano entre o ser humano e a paisagem, na qual ele é componente construtor e reconstrutor. Reforçando esse pensamento Mateo, Silva e Cavalcante (2007, p. 40) concluem que:

A concepção dialética da interação entre as condições naturais e a produção social determina os princípios metodológicos da investigação geoecológica da paisagem. Por outro lado a base metodológica fundamental de aquisição do conhecimento da gênese, desenvolvimento e diferenciação espacial e temporal das paisagens é a análise histórico-temporal. Uma investigação geoecológica da paisagem constitui ainda [...] o conjunto de métodos e procedimentos técnico-analíticos que permitem conhecer e explicar a estruturação da paisagem, estudar suas propriedades, índices e parâmetros sobre a dinâmica, a história do desenvolvimento, os estados, os processos de formação e transformação da paisagem e a pesquisa das paisagens naturais, como sistemas manejáveis e administráveis”. Interpretando uma “análise paisagística.

Segundo o referido método é necessário um estudo integrado e sistêmico da paisagem, considerando seu potencial natural e cultural, suas funções naturais e sociais, as conseqüências da ação humana sobre a mesma, tanto com ou sem planejamento socioambiental, ou seja, que considere a proteção das paisagens, alternativas de uso e ocupação adequados, legislações coerentes ao controle geossistêmico por região.

A partir da compreensão sistêmica da paisagem é possível percebê-la como um complexo que funciona em rede, expresso no meio socioambiental como um todo interconectado, no qual seus elementos internos e externos estão em constante transformação, por consequência da própria autorregulação natural, associada às interferências humanas.

O conhecimento das propriedades inerentes ao funcionamento da paisagem, ou de sua capacidade de produzir e cumprir funções naturais e sociais propicia à necessidade de uma atenção maior, por parte da intervenção humana na natureza. Isso significa que “o não

respeito” aos limites de formação e autorregulação da paisagem compromete o desenvolvimento espontâneo da mesma e, por sua vez, a qualidade e quantidade produtiva de seus recursos naturais e, por fim, as condições socioambientais adequadas à vida.

A análise do funcionamento da estabilidade natural da paisagem esclarece e reforça o conceito de sua sustentabilidade como ponto crucial à manutenção da vida planetária. Assim:

[...] o conceito de sustentabilidade geoecológica das paisagens está próximo, porém é mais amplo que o conceito de estabilidade. Este tem a ver mais com parâmetros indicadores do funcionamento, enquanto que a sustentabilidade está relacionada com a permanência do sistema desde uma visão, não só funcional, como também evolutiva estrutural e produtiva. Uma paisagem sustentável deve ser estável. (MATEO; SILVA; CAVALCANTE, 2007, p. 207).

Esse conceito encadeia uma reflexão crítica quanto à necessidade da mudança de paradigmas com relação às teorias atuais de desenvolvimento econômico, na maioria direcionadas à exploração exacerbada e inescrupulosa dos recursos naturais, visando tão somente o crescimento econômico, ou seja, o acúmulo de riquezas por partes de determinados grupos sociais do mundo globalizado. Para justificar essa reflexão Herreira (1995 apud MATEO; SILVA; CAVALCANTE, 2007, p. 203) diz que:

O Ideal de Desenvolvimento está em crise. A Terra em seu conjunto e suas diferentes partes constituintes mostra sinais de cansaço, de mudanças negativas, de diminuição da capacidade produtiva da natureza. A tecnologia e a eficiência econômica começam a render-se ante as respostas e reações dos sistemas biofísicos, a uma transformação desmedida e ao fato de que não se respeita a lógica própria das leis da natureza.

A EAI postula o homem como um sistema biótico, integrado na paisagem e dotado de uma “razão” diferenciada dos demais seres vivos. Talvez por isso, interaja diversificadamente com a natureza, chegando a intervir nos processos de desenvolvimento da mesma, desconsiderando as relações de interconectividade do seu próprio sistema com os demais da paisagem e, com isso, descartando, por uma mentalidade egoísta natural ou fruto do pensamento capitalista, ou por um despreparo científico e educacional, que bloqueia ou enrijece sua capacidade de desenvolver alternativas criativas, coerentes e éticas, quanto ao uso e ocupação social do meio ambiente, que garantam a sustentabilidade da vida global integrada.

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