BASIN AÇIKLAMALARI
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De acordo com as várias investigações feitas até hoje sobre o tema, uma ideia prevalece, os fatores cognitivos e os neurológicos e a inter-relação entre ambos são os tipos de problemas mais apontados para a sua origem. Há teorias diferentes acerca das causas que dão origem à dislexia, mas todos estão de acordo que a parte do cérebro que intervém no processo de aprendizagem da leitura e escrita está geralmente acompanhada de disfunções (orientação espacial e temporal, lateralidade, psicomotricidade e esquema corporal); que existe um componente hereditário numa grande variedade de casos, com vários graus de gravidade e com várias maneiras de se manifestar, cuja gravidade final vai depender da pessoa, da família e da escola.
Nas últimas décadas os estudos com disléxicos proliferaram e recorreu-se, nomeadamente ao estudo do cérebro de disléxicos mortos. Desse estudo concluiu-se que os disléxicos diferem dos normais na medida em que o seu hemisfério cerebral
direito apresenta maior número de células que o hemisfério esquerdo, onde se situam os centros de linguagem (cf. Vellutino, 1987; Galaburda, 1986; Gershwin, 1986, cit. in
Rebelo, 1993: 124). A tecnologia de ponta de que hoje dispomos permitiu a alguns investigadores como é o caso de Rumsey et al. (cf. Rumsey, 1997) observar a ativação cerebral de alguns indivíduos durante a leitura. Assim, Rumsey (cf. Rumsey,1997)
“utilizaram a PET Scan para observar a ativação cerebral de indivíduos com leitura deficiente e de 19 bons leitores, encontraram menos ativação da parte médio-posterior do lobo temporal, bilateralmente, e no lobo parietal inferior esquerdo”(cit. in Santos & Navas,
2004: 38). Ainda e com o recurso às novas tecnologias, ― a utilização de IRMF permitiu
detetar diferenças significativas entre as áreas de Broca, em indivíduos normais e em leitores fracos (cf. Georgiewa et al., 1999, cit. in Santos & Navas, 2004: 39).
46 Cada vez mais, a investigação centra a sua atenção no processamento fonológico numa tentativa de comprovar a sua relação com os distúrbios de leitura e as conclusões apontam realmente para uma influência direta do processamento fonológico na aprendizagem da leitura
Existem, assim, várias linhas de evidências convergentes que sugerem que a dislexia é causada por uma deficiência localizada no módulo fonológico, a parte funcional do cérebro responsável pelo processamento de elementos sonoros da linguagem (cf. Shaywitz, 2003; Shaywitz & Shaywitz, 2005). De acordo com esta teoria, a dislexia é a diminuição da capacidade de segmentar as palavras faladas em partes fonológicas e de cada letra para o seu som correspondente (cf. Shaywitz, 2003; Shaywitz e Shaywitz, 2005).
Efetivamente, um irregular processamento de informação por parte do cérebro transporta uma consequente dificuldade do mesmo em relacionar os sons das letras com os símbolos que elas representam. O cérebro é constituído, como já anteriormente foi dito, por dois hemisférios, sendo que o esquerdo controla a componente verbal.
Os estudos de imagiologia levados a cabo também pela Dra. Sally Shaywitz, professora de pediatria, e codiretora do centro de estudos da aprendizagem e da atenção, em Yale University, nos USA identificaram dois caminhos neurais encarregados pela leitura. Um deles é usado quando se começa a ler e a pronunciar as palavras em voz alta (região parieto-temporal) e o outro é considerado uma via mais rápida para a leitura competente (região occipito-temporal).
Os estudos revelam que as pessoas com dislexia quando leem usam circuitos cerebrais diferentes dos que são usados pelos bons leitores. A maior parte da área cerebral dedicada à leitura situa-se na zona posterior (cf. Shaywitz, 2008) e na maioria das pessoas, o hemisfério cerebral esquerdo é o responsável pelos processos de linguagem. Certas áreas, dentro do hemisfério cerebral esquerdo, estão particularmente envolvidas no processamento da linguagem e são tipicamente maiores do que as áreas correspondentes no hemisfério direito, não linguístico. Uma dessas áreas é o plano temporal. O plano temporal é a parte da área de Wernicke, que exerce um papel no processamento fonológico.
Rumsey e a sua equipa de investigação (cf. Rumsey, 1987), já anteriormente referido, descobriram aumentos no fluxo sanguíneo no hemisfério esquerdo de um grupo de disléxicos durante tarefas de leitura, indicando aumentos nos níveis de atividade dentro desse hemisfério. Isso implica que a leitura na maior parte dos disléxicos, assim como na maior parte das outras pessoas, é medida pelo hemisfério esquerdo do cérebro,
47 mas que este opera ineficientemente, ou seja, e tendo em conta a teoria científica, quando a criança está exposta aos estímulos visuais as áreas cerebrais (área de Wernicke, área de Broca e girus angular) envolvem-se em grande atividade. Contudo, na criança com dislexia a área de Wernicke e o girus angular manifestam relativa atividade (cf. Shaywitz, 2008:93), não operando de forma eficiente.
A área de Broca, situada no lóbulo frontal esquerdo, é a responsável pela produção (fala), por sua vez a área de Wernicke, situada no lóbulo temporal esquerdo, está relacionada com a compreensão da linguagem falada. Estas áreas são de fulcral importância para falar e entender aquilo que se ouve. Parece haver uma interrupção de dois sistemas cerebrais do hemisfério esquerdo posterior, um a região parieto-temporal, o outro occipito-temporal (cf. Shaywitz e Shaywitz, 2005; Shaywitz et al, 2001). Os alunos disléxicos apresentam, assim, uma falha nesse sistema, dando-se uma insuficiente ativação dos percursos neurais da região posterior do cérebro, levando-os a usar um outro caminho para lerem, localizado na área de Broca e lado direito do cérebro.
A figura 3 apresenta no cérebro as áreas responsáveis pela leitura (adaptado de Shaywitz).
De acordo com o exposto, Sally defende que pessoas com dislexia têm dificuldades de desenvolver o entendimento das palavras escritas e faladas, devido a um défice no sistema fonológico motivado por uma “disfunção” no sistema neurológico cerebral, ao nível do processamento fonológico. Esta autora procura ainda ser mais persuasiva quando diz que ver as imagens que a imagiologia nos proporciona “não deixam qualquer dúvida de que o problema fulcral na dislexia é de ordem fonológica:
Figura 3. Áreas do cérebro envolvidas na leitura
48 converter a escrita em som. É apenas quando pedimos a um indivíduo disléxico que converta letras em sons que temos provas de uma falha no circuito” (Sally, 2008: 99).
Snowling partilha da opinião de Shaywitz relativamente à etiologia da dislexia. Refere, por isso, que “Tais descobertas corroboram a hipótese de que as dificuldades de leitura dos disléxicos originam-se de problemas de processamento fonológico” (cf. Snowling, 2008: 19).
Fonseca (cf. Fonseca, 2004) propõe, por sua vez, duas hipóteses a que ele designa de causas para a origem da dislexia, sendo estas: as causas exógenas - são as causas exteriores à criança onde o envolvimento predomina; e as causas endógenas - causas interiores (da criança), que se refletem em termos de desenvolvimento desarmónico, de dificuldades de processar a informação.
Dentro das causas exógenas propõe ou destaca as seguintes: Má frequência escolar;
Deficiente orientação pedagógica; Inexistência de ensino pré-primário; Recursos do ambiente escolar; Problemas de motivação cultural; Falta de hábitos de trabalho;
Falta de aprendizagem mediatizada. Dentro das causas endógenas propõe as seguintes:
Carências instrumentais;
Dificuldades de processamento da informação visual e auditiva; Imaturidade psicomotora com problemas de imagem do corpo, de lateralidade e de orientação no espaço e no tempo;
Deficiente desenvolvimento da linguagem ou imaturidade psicolinguística (expressão limitada, vocabulário diminuto, construção sintática pobre, problemas de comunicação verbal), etc.
Problemas orgânicos e genéticos que se podem refletir na dificuldade de aprendizagem, como sejam, por exemplo: o problema do sistema nervoso central, disfunções cerebrais, diabetes, anomalias enzimáticas, afeções congénitas dos elementos constituintes do sangue, etc.
Hipersensibilidade, superestimulação e hiperatividade com problemas globais de atenção.
49 É importante dizer que Victor da Fonseca defende que estas duas causas não aparecem isoladas uma da outra, pois estas não se opõem como se opõe a hereditariedade e o meio. As duas estão interligadas, existindo, entre elas, uma dinâmica dialética, umas são condições das outras. A dislexia existe, e é muito mais do que uma dificuldade de leitura, pois esta aparece inserida em vários problemas que dificultam a aprendizagem.
Sintetizando o exposto sobre a etiologia da dislexia, verificamos que os problemas fonológicos são os mais evidentes e afetam a maioria das crianças disléxicas. O problema mais grave reside na codificação fonológica (fonética verbal), dado que fracassam em tarefas de soletração, leitura e escrita. O hemisfério esquerdo destas crianças apresenta diferenças relativamente ao das crianças sem dislexia, é disfuncional. Sumariamente, as causas da dislexia têm a ver primeiramente com o cérebro, mas não podemos descurar outros fatores, como é o caso do meio ambiente sociocultural em que a criança se move e vive, a escola, a família e o seu estado psicológico. Fatores que, de alguma forma, podem influenciar positivamente ou negativamente a problemática citada. A análise do meio ambiente deve ser feita, segundo alguns autores, quer para compreender quer para tratar os problemas destas crianças.
Não nos podemos esquecer que a criança tem de ser considerada como um ser individual e único, com características e ritmo próprio e com direito “à diferença” a qual deve ser respeitada. Logo, no nosso entender, a problemática da dislexia está sujeita a uma abordagem individual.