Talvez, Lehder Rivas ao denominar a cocaína de “bomba atômica58 ” dos pobres não estivesse errado em se referir a uma atomização possibilitada pelas drogas via tráfico. Podemos pensar que há uma operação de atomização que compreendemos como refinamento às avessas. Enquanto o processo de refinamento envolve a purificação de uma substância e eliminação de elementos impuros que a acompanham, o que temos é a potencialização daquilo que pode ser compreendido com o que é mais impuro. O que consideramos neste processo são as incidências do supereu na forma de mais de gozar do sujeito. Este processo é adequado à seguinte descrição: “o supereu é exatamente o que comecei a enunciar quando lhes disse que a vida, a vida provisória que se aposta como uma chance de vida eterna, é o a, mas isto só vale a pena se o A não estiver barrado, ou seja, se ele for tudo ao mesmo tempo” (LACAN, 1969-1970). A frase de Lacan toca a questão das drogas em uma vertente de interpretação deste fenômeno que é a abordada por Melman como um “heroísmo de massa” (MELMAN, 1993). Consideramos esta interpretação válida, já que é ilustrada por uma frase de Lima Barreto: “O burguês bebe champanha, o herói bebe aguardente” (ARANTES, pág. 7 ,2008).
58 O termo bomba atômica não é necessariamente o mais adequado para referência à bomba
utilizadamilitarmente na segunda guerra mundial, o termo seria bomba nuclear, dado a
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Este gozo, do qual tratamos, não é outro senão este do mercado das identidades. Segmentação de consumo que colaborou para precária salvação e permanência do sistema econômico capitalista.
Quando falamos do crackeiro, falamos desta fantasia, que vem empedrada e que junto dela se adquire uma série de atributos mais ou menos maleáveis. O crackeiro é uma identidade capitalizável, sua proliferação serve à mais-valia do medo e o produto que protagoniza seu surgimento tem o seu alvará na proibição e no escândalo.
No seu trabalho com o conceito de angústia, Lacan o descreve como o sentimento que não engana. A angústia, para além da definição de Freud de cessação dos laços emocionais (FREUD, 1923), diz de uma posição fantasmática, a saber, posição inconsciente que o sujeito se situa frente ao Outro é circunscrita em uma cena, que comporta, em um elemento específico: a angústia. Segundo Lacan, este elemento não engana, por não se tratar de um saber, mas especificamente de um não querer saber. Deste modo, esta posição, segundo Miller (1986), opera na conversão de gozo em prazer se mantém intocável.
Esta definição pode nos levar ao tribunal de Noriega, onde o funcionamento da cena possibilita destaque à bomba atômica de Rivas. Desse modo, a negociação implícita por parte da política externa americana é: venda de gozo de transgressão em troca de um inimigo político. Já da parte de Lehder Rivas o pacto é aceito, para além da diminuição da pena que conseguiu com seu depoimento, Rivas se engaja em uma resposta e, mostrando-se como um algoz tenta converter sua atual situação de criminoso capturado, ou seja, prisioneiro, revestindo-a com um suposto orgulho latino- americano populista. Rivas, ao se engajar neste movimento, obtém como resultado imediato a criação da imagem de um Outro completo, sem castração. Esta transação possibilita que a dívida se renove e comecemos a calcular os juros, que serão cobrados na vida breve de muitos que continuam a se arriscar neste jogo com a morte. Entre pequenos varejistas e usuários, a entrada neste jogo como proibido, é acompanhada da tentativa de suturar a divisão inerente à condição de sujeito marcada pelo fracasso imposto pela castração.
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deste jogo seja o México: governado pelo mesmo partido por 70 anos ininterruptos, o PRI59
, contratou e coordenou diversos grupos que atuavam enquanto crime organizado com forte atuação no tráfico de drogas (LABROUSSE, 2010), isto possibilitou uma inflação do crime organizado e corrupção, que tem produzido efeitos devastadores sobre a população mexicana nos dias de hoje60
. Já no contexto brasileiro, atualmente podemos pensar a região que é chamada de cracolândia como algumas zonas de conflito descritas por Zizek (2003). Segundo autor, habitantes de territórios em estado de guerra civil, ao avistarem helicópteros vindos do ocidente, não sabem se estes helicópteros lançarão bombas ou comida. Hoje, se o governo federal ou estadual apresenta publicamente uma ação de enfrentamento ao crack, não se sabe se os usuários de crack receberão oferta de tratamento ou batida policial. Esta indeterminação, a nosso ver, serve a interesses políticos e ao que podemos chamar de administração de desamparo (SAFATLE, 2010).
Portanto, a guerra às drogas não cessa de não dizer sobre a condição do sujeito, visto que “a regulação do objeto com o corpo não se define, de modo algum, como sendo de uma identificação parcial que devesse totalizar-se nele, uma vez que, ao contrário, esse objeto é o protótipo da dotação de sentido do corpo como pivô do ser” (LACAN, 1960 pág. 817). Assim, a negativa de enfrentamento desta impossibilidade de totalização faz com que se foraclua a dimensão da verdade do sujeito, preservando o jogo ao saber tecnológico da administração dos corpos e das substâncias. Esta tentativa de atribuição de sentido ao corpo, não escapa ao corpo social enquanto metáfora moderna, e o lugar das drogas enquanto um flagelo. Assim como definido por Erlenmeyer, que após o contato com o texto de Freud denominado “Sobre a coca” (1884), criticou duramente o enaltecimento feito à cocaína, classificando esta substância como o terceiro flagelo da humanidade61
(ERLENMEYER apud GURFINKEL, 2008).
Portanto, o sonho de Freud ao tentar tratar o mal-estar pela via do
59 Partido Revolucionário Institucional
60 Como exemplo, podemos apontar a matéria publicada no Der Spiegel em 02/01/2011 “ O
México mergulha na violência”. Disponível em:
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2011/01/02/o-mexico-mergulha-na- violencia.jhtm
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entorpecimento proporcionado pela cocaína antecede brevemente a gênese das ideias psicanalíticas e, inegavelmente, tem o seu potencial de satisfação registrado no corpo do psicanalista. Este registro, mesmo com a passagem de quatro décadas, se faz presente pela descrição dos meios mais grosseiros e eficazes para suportar o mal-estar (1930). Esta esperança de Freud, datada do final do século XIX, diz exatamente do que Lacan aponta como a ideia imanente à nossa política da pregação do todo, assim como a ideia imaginária do corpo (2005). Esta esperança, impulsionada pela aurora da modernidade, hoje sustenta o advento farmacológico, enxertando na política a esperança que deste corpo, nada pereça, e caso pereça, sem sofrimento que indique perda, ou seja, onde tudo possa ser administrada e não haja mais nada a ser dito62.
Frente a esta impossibilidade, podemos considerar que Dr Jekyll compreendeu algo da lógica do “flagelo” antes mesmo das políticas de combate às drogas: “agora estou convencido de que meu primeiro lote era impuro, e foi aquela impureza que tornou a poção eficiente” (Stevenson, 2011, pág. 103). É justamente no mercado de contrabando de gozo que podemos afirmar que é na impureza que habita a dimensão da verdade do sujeito. Metáfora crua para uma concepção de objeto a enquanto dejeto mistificado, que por meio das transações comerciais atualiza e intensifica a condição de miséria em uma espiral de omissão e violência. A resposta inconsciente de uma vida que se nega a desejar, facilmente recorre ao último recurso que é: puro gozo trágico e sobretaxado. A tentativa de abstenção de assumir o risco por seu desejo faz com que tal risco adquira exclusivamente esta dimensão trágica na qual a sensação de estar vivo só advém pelo pior do pior.
62 Talvez o cenário mais próximo disso seja a trama descrita na obra de ficção de Aldous
Huxley. Em adminirável mundo novo, a aproximação da morte, bem como de tantas outras frustrações são administradas pela droga chamada de soma. Curiosamente esta palavra é usada para fazer referência ao corpo sem a psique, ou às partes de organismos que não se reproduzem.
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CONSIDERAÇÕES FINAIS
Freud, no diálogo estabelecido com Einstein sobre a guerra, trata do assunto sem recorrer a dados estatísticos sobre o tema. Em sua resposta se detêm em questões de ordem psíquica pautadas em seus próprios estudos. Desta forma, seu texto se dá de maneira muito distinta do modo que se aborda a guerra nos dias de hoje. Geralmente com volumoso recheio de dados jornalísticos e históricos sobre estratégias, escândalos e declarações públicas de chefes de Estado sobre seus objetivos e necessidades.
Neste trabalho, ao tratar da guerra às drogas, optamos pelo segundo caminho na expectativa de que estes dados enriquecessem e favorecessem nossa análise sobre o objeto pesquisado. Não obstante este trabalho tenha lançado mão de argumentos numéricos, como os dados estatísticos referentes ao uso de drogas no Brasil, ou a quantidade de hectares de terras destinados ao narcotráfico que inflaram durante a guerra fria, acreditamos termos atingido o objetivo de apresentar ao leitor o trabalho inconsciente que opera neste processo.
Assim, houve a preocupação de não perdermos de vista as indagações e proposições freudianas. Visto que, a quantidade de informações, em diversos momentos, impôs um verdadeiro desafio de organização e objetividade. Investimos grande parte de nosso esforço na coleta e na apresentação consistente dos dados referentes à guerra às drogas. Este esforço partiu da premissa de que, com uma contextualização sócio histórica traçada, ficamos mais à vontade para operar com a bibliografia pertencente à psicanálise sem incorrer no erro de sustentar posições conservadoras que provocassem uma interferência de julgamentos morais ou apelos conservadores em torno da temática.
Deste modo, pudemos identificar que as drogas surgem enquanto problema social na passagem do século XIX para o século XX. Assim, as medidas proibitivas foram impulsionadas por duas frentes, uma pertencente à sociedade civil organizada e outra às necessidades econômicas. Enquanto sociedade civil organizada, identificamos grupos religiosos que viam nas drogas um perigo para a ordem social e para a instituição familiar.
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Concomitante a estes grupos, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a priorização da longevidade, apoiada sobre a necessidade de maior tempo do trabalhador na linha de produção passaram a demarcar o uso de substâncias enquanto lícitas ou ilícitas.
Assim, notamos que as restrições e o controle das drogas iniciam, sob os ditames de estratégias internacionais, a proibição de determinadas substâncias correspondendo diretamente à regulação das políticas internas atreladas a acordos internacionais. Desse modo, o Brasil tratou a questão das drogas como uma questão prioritariamente policial. Ainda que a política de enfrentamento ao crack reclame tratamento ao usuário e repressão ao traficante, estes dois agentes são facilmente confundidos.
Portanto, com base no discurso do mestre trabalhado por Jacques Lacan (1968-1969), reconhecemos que a política de combate ao crack tem como seu principal nó de articulação a eleição de uma ameaça. Assim, na medida em que esta ameaça é apresentada e passa a ser combatida, temos como produto destas práticas a identidade socialmente reconhecida como crackeiro. Este processo mantém sob recalque o mal-estar inerente à vida cultural atribuindo às drogas uma questão que pertence às formas de administração de gozo.
Esta estratégia não se detém ao crack. Periodicamente, há uma renovação daquele que habita o lugar de inimigo, fazendo com que surja uma nova substância ocupando o lugar de uma ameaça, impossibilitando um giro no discurso. Assim, trabalhamos com a compreensão de funcionamento grupal apresentada por Freud (1921) aplicada sobre a fórmula do discurso do mestre de Jacques Lacan (968-1969).
Já o uso do termo toxicomania por parte dos psicanalistas, ainda que dotado de reflexões interessantes, é infrutífero quando lançado à tarefa de estabelecer padrões de sofrimento na relação com as drogas, visto que é tarefa ética inseparável do ofício de analisar, reconhecer o que este sofrimento diz da singularidade do desejo de cada um. Portanto, o investimento de psicanalistas sobre a toxicomania enquanto categoria clínica diz do impossível de governar, visto que a abordagem da toxicomania só pode ser feita por uma via policialesca. Assim, consideramos a toxicomania mais interessante para a
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pesquisa epistemológica e histórica da nosologia das psicopatologias ao seu uso clínico enquanto categoria.
Quanto ao âmbito político, na medida em que pudemos nos deparar com o panorama traçado neste trabalho, apresenta-se como um verdadeiro desafio pensar por quais meios poderíamos lidar com o ideal de progresso desenfreado e seus efeitos colaterais predatórios. Portanto, temos de refutar a proposta de Freud na esperança de que “tudo o que estimula o crescimento da civilização trabalha simultaneamente contra a guerra” (FREUD, 1932 pág. 143). Independente do que compreendamos por crescimento da civilização, esta proposta já soa um tanto dissonante do que podemos reconhecer nos dias de hoje. No entanto, no que diz respeito às drogas, talvez, uma rota viável, seja insistir no reconhecimento de uma matriz comum na qual estão atreladas legalidades e ilegalidades, ainda que sobre estas ocorra uma seletividade entre aqueles que possuem condições de terem suas dificuldades assistidas, e aqueles que, frente a determinadas adversidades, tem como único e exclusivo destino a vala comum da indigência e do esquecimento.
Assim, com o devido destaque dado ao espaço ocupado pelo crack enquanto ameaça da vez, coberto por discursos que reproduzem os mesmos mecanismos antes aplicados em abordagens a outras drogas, reconhecemos que os combates travados contra as drogas compõe jogos ardilosos onde a violência surge com suas duas faces. Uma por meio da ação e do uso da mão de ferro para punir e subjugar e outra, por meio do desamparo cruel e embrutecedor daqueles que se encontram às voltas com seus tropeços.
Em suma, consideramos os aspectos trabalhados e abordados neste texto, no que diz respeito à política de proibição às drogas e ao seu vício irrefreável no uso da força bélica, assim como as estratégias de dominação política que operam por estas práticas, como estratégias de manutenção de poder que envolvem sacrifício em larga escala. Não é aceitável o argumento de que estas mobilizações visam acabar com as drogas, já que na medida em que este objetivo é manifestado, ele se apresenta como estratégia para ludibriar e escamotear tantos outros objetivos políticos. Pautados sobre esta compreensão, demos destaque à manutenção de uma política do medo e à necessidade de sustentação de uma ameaça imaginária como estratégia de
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tamponamento do mal-estar inerente à vida social.
Por fim, cabe sustentarmos a mesma questão que, apesar de não ser nova, se mantém atual e necessária quando nos referimos à política bélica travada contra as drogas. Por que, ainda, esta guerra?
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