As histórias da América Latina e do Brasil estão marcadas, nos últimos cinco séculos, pelo encontro violento entre os velhos e o novo continente. A chegada dos europeus trouxe consigo a truculência do sistema colonial, que culminou no genocídio das populações indígenas e no trabalho escravo das populações africanas. Foi o assassinato de milhares de seres humanos e o sequestro de outros milhares, retirados a força de suas terras para servirem, segundo Bastide e Fernandes (2008), apenas como capital ou instrumento de trabalho nos grandes latifúndios monocultores da época. Tal brutalidade, no entanto, promoveu a presença dos valores africanos na cultura brasileira, preservados, apesar das perseguições e tentativas de silenciamento, sendo parte constituinte de nossa civilização. Entretanto:
[...] a pessoa negra traz do passado a negação da tradição africana, a condição de escravo, o estigma de ser um objeto de uso como instrumento de trabalho e tem de lidar, no presente, com a constante discriminação racial e, mesmo sob tais circunstâncias, tem a tarefa de construir um futuro promissor. (FERREIRA e CAMARGO, 2013, p. 173)
A história conta que fomos o país que mais escravizou a população africana, além de termos sido os últimos do mundo cristão a abolir a escravidão. Hoje, o Brasil destaca-se
73
internacionalmente por ser uma nação que possui a maior população negra fora do continente africano e a segunda maior do planeta, estando atrás somente da Nigéria (GENTILLI, CASTRO, ABRAMOVAY e BUSSON, 2012). Dados oficiais (BRASIL, 2011) resultantes do Censo de 2010 realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relatam que são 97 milhões de brasileiros negros, aqueles que se autodeclaram “pretos” ou “pardos”, enquanto o número de autodeclarados “brancos” equivale a uma população menor, 91 milhões.
A sociedade brasileira tem, ao longo de sua história colonial e pós-colonial, se utilizado do racismo como instrumento ideológico destinado de manutenção de uma das sociedades mais desiguais do mundo. A partir de Anjos (2011), assim, compreendemos que à população negra brasileira historicamente computam-se as piores estatísticas sociais, sendo este grupo representativo daqueles que são os mais pobres, que moram nos piores territórios, que vivem nas piores posições sociais, além de sofrerem, em seu cotidiano, as consequências de uma cultura estigmatizadora e depreciadora.
Apesar desta situação, segundo Ferreira e Camargo (2013), durante toda a primeira metade do século XX, o Brasil conseguiu cultivar o mito de que aqui, diferentemente do que ocorria no mundo, não havia exatamente racismo, preconceito ou discriminação, mas sim uma convivência pacífica, igualitária, não conflituosa e harmoniosa entre brancos e negros. Tal concepção, que chegou a ser tomada como discurso oficial, é o que se chama na literatura de “mito da democracia racial”, uma ideia disseminada dentro e fora do país de que, por aqui, as relações raciais são democráticas, brandas e cordiais. (GUIMARÃES, 2011). Desta forma, desenvolveu-se como uma forma de tratar os conflitos raciais no Brasil como se não existissem ou como se fossem mais leves do que o que ocorre em outros países, como nos casos dos Estados Unidos ou África do Sul.
Segundo Alberti e Pereira (2005), esta linha de pensamento ganhou força após a publicação da obra “Casa Grande e Senzala” de Gilberto Freyre, em 1933, que defendia, de forma romântica, que as relações raciais no Brasil eram harmoniosas e que a miscigenação era pacífica, sendo esta, supostamente, a principal contribuição da sociedade brasileira para o resto do mundo. Hoje questionado, o mito da democracia racial “ainda encobre perversamente a discriminação negativa e o preconceito contra essa população, tornando muito difícil o combate efetivo da injustiça para com indivíduos e grupos etnorraciais diversos do branco-europeu” (FERREIRA e CAMARGO, 2013, p. 173-174).
Como consequência, discursos de diferentes naturezas (políticos, acadêmicos, midiáticos) passaram a defender que as evidentes desvantagens sociais do negro no Brasil seria fruto principalmente (ou somente) das relações coloniais de escravidão, atribuído-lhas
74
motivações de ordem destacadamente social, negando ou encobrindo as manifestações cotidianas do racismo nas relações sociais no país. A partir da década de 70, segundo Alberti e Pereira (2005), o grande desafio do movimento negro brasileiro viria a ser a luta contra a concepção errônea de democracia racial, que, nas palavras de Guimarães (2011, p.162):
[...] continua viva enquanto mito, seja como falsa ideologia, seja como ideal que orienta a ação concreta dos atores sociais, seja como chave interpretativa da cultura. E enquanto mito continuará ainda viva por muito tempo como representação do que, no Brasil, são as relações entre negros e brancos, ou melhor, entre as raças sociais as cores que compõem a nação.
Silva e Rosemberg (2008), em trabalho de pesquisa sobre a forma dos discursos midiáticos sobre o negro no Brasil, elencam como os diferentes meios de comunicação reproduzem, de forma costumeiramente preconceituosa, os lugares destinados ao negro na sociedade brasileira. É o caso, segundo os autores, dos estereótipos fomentados na literatura e no cinema: o “bom crioulo”, que é o negro submisso e obediente ou seu oposto; o “negro revoltado”, insubmisso, questionador; a “mãe preta”, a ama de leite, cuidadora de brancos; o “preto velho” ou “pai João”, idoso e supersticioso; o “escravo nobre”, o negro europeizado, bem educado na cultura branca; o “crioul o doido”, o negro cômico, infantilizado, ao estilo dos personagens do comediante Oscarito; a “mulata boa”, jovem, voluptuosa, sexualmente disponível e de atos instintivos; o “malandro”, o negro inteligente, esperto e contraventor.
Na televisão, por sua vez, segundo aqueles os autores, os estereótipos das pessoas negras associam-se à criminalidade nos programas policiais; ao carnaval, ao futebol, a sexualidade; nas telenovelas, à empregada doméstica devotada, supostamente parte integrante da família de classe média, imagem que alimenta o mito da democracia racial. Há também, ainda segundo Silva e Rosemberg (2008) estereótipos em toda a imprensa, na literatura infanto- juvenil, nos livros didáticos. São várias as formas de caricaturar o homem e a mulher negra no Brasil, mas, de uma forma geral, alocando-lhes a lugares e a papeis sociais pré-concebidos, submissos, desvantajosos, exóticos, cômicos e depreciadores, mesmo quando supostamente aparentam ser vantajosos, como uma forma de supostamente “incluir”, como na imagem do excelente jogador de futebol ou da passista de escola de samba.
O estabelecimento prévio dos lugares sociais que possam ser ocupados por negros, no Brasil, dificulta, por exemplo, a inserção de Gilberto (E03), guineense, como estagiário em uma comunidade do interior do Ceará através de sua participação em um projeto agrícola ligado, segundo ele, à Secretaria da Presidência da República. O jovem narra suas angústias ao
75
realizar uma visita técnica àquela comunidade, onde em uma reunião com moradores locais e outros agentes do projeto, sentiu-se impedido de continuar com suas intervenções:
Aí, eu comecei, na minha intervenção [...] O quê que acontece? Alguns contestaram. “Mas o quê que esse negro aí tá achando? Ele veio aqui pra botar moral na gente?” E isso mexeu comigo, e eu fiquei, mas será que eu não podia usar essas palavras? Quer dizer, eu não tô criticando eles, mas eu tô dando uma contribuição para eles. [...] Por exemplo, eu vou em uma comunidade, né, como negro, pra dar uma assistência técnica. Como é que você acha que essas pessoas, que são da comunidade vai me receber? [...] Mas aí eles gozam, essas pessoas fazem preconceito, porque são as pessoas que não têm noção das coisas. Ali que é mais complicado. Agora, comigo como profissional agrônomo, como é que eu vou atuar? Como? Eu acho que eu não vou ter nem aptidão, nem moral de entrar numa comunidade dessas. [...] E eu, enquanto africano, como é que eles vão me receber lá? Como? Isso às vezes me deixa preocupadíssimo. Mas como é que eu vou fazer o estágio? Como? (GILBERTO, E03, p.81).
Goffman (2013, p.14), ao citar tipos de estigma - ou seja, características consideradas depreciativas relacionadas a indivíduos e grupos pelas pessoas consideradas “normais” em determinado ambiente social - faz referência aos “estigmas tribais de raça, nação e religião”, que são atributos que podem ser transmitidos por linhagem e, assim, contaminar todos os membros de uma família. Presentes nas ideologias raciais, características como a cor da pele, principalmente, além de outros traços associados aos corpos negros, são citadas pelos estudantes como ensejos para práticas de racismo.
Aspectos relacionados ao corpo, a partir das entrevistas que realizamos, aparentam ser a primeira das formas de demarcação de fronteiras raciais, antes mesmo dos aspectos culturais, o sotaque estrangeiro, a origem africana. Provavelmente, isso decorre do fato de serem mais prontamente acessados pelos nacionais e seus olhares, não necessitando de uma aproximação para que se decorram os preconceitos. Francisco (E07, p.50), guineense, afirma:
“pra mim, a cor da pele é a questão, associam a escravidão, entende? Olham pra você como escravo. O que vem depois de escravo? Negro preguiçoso, ladrão, doente, tem as coisas que já conheço, né?” Júlia (E14, p.175), moçambicana, subsequentemente, garantiu: [...] tem aquela questão do colorismo [...] Quanto mais escuro é o teu tom de pele mais você vai sofrer”. Pedro
(E04, p.98-100), angolano, por sua vez, no fez um desafio:
[...] tu observas a maneira como os estudantes africanos de pele mais clara, a maneira como eles são tratados aqui, e observa a maneira como os de pele mais escura são tratados. Faz muita diferença, muita diferença mesmo. Não que eles deixam de ser africanos, mas só pelo fato de eles terem a pele bem mais clara aí... [...] É claro, eles continuam sofrendo alguns tipos de racismo ou preconceito pelo fato de serem africanos, mas não são tantos quanto os outros, os negros mesmo, negros...
76
A percepção de Francisco, Júlia e Pedro sobre o fato de que quanto mais escura é a pele piores serão as consequências raciais encontra-se com a de Brenda (E11), cabo-verdiana. Dentre os/as quatorze estudantes entrevistados/as nesta pesquisa, Brenda foi a jovem com a tonalidade de pele mais clara. Apesar de possuir traços que remetem as suas origens guineense/ cabo-verdiana, a jovem, a partir de sua experiência, sente sofrer menos preconceito que seus colegas cabo-verdianos e de outras nacionalidades de pele mais escura, confirmando as implicações da tonalidade de cor. A jovem, que demonstra empatia com os seus, no entanto, e incômodo com as questões raciais, assim afirma:
Eu não me sinto bem-vinda aqui. Quando a gente vai pras lojas, eu reparo que os brasileiros me tratam menos mal do que tratam os outros africanos, tá entendendo? [...] Falam que é um povo muito sujo. [...] Eu sou tipo um, como é que se diz, um canal pra passar o preconceito em relação aos meus amigos, porque é a mim que eles dizem “tu é a africana mais bonita, mais simpática, tem os olhos bonitos e tal...” Só que não corresponderia a realidade. E um amigo meu falou: “mulher, não é por mal não, mas eu não vou me relacionar com as negrinhas não. As africanas, as pretinhas, não.” [...] Como eu lhe falei, eu sou a menos, como é que se diz, rejeitada [...] Muitas das pessoas, quando se dirigem a mim, nem sabem se eu sou africana, aí falam: “aí, esses africanos...” (BRENDA, E11, p.66-104)
Da mesma forma, a identificação racial, ou seja, a inclusão dos valores associados à ideia de raça à categoria social dos/das africano/as, por sua vez, também resulta em um racismo à moda brasileira comum a estes estudantes, expondo-os, também, à experiência imposta pelas relações socioculturais e raciais brasileiras. Segundo Langa (2014, p.108): “no cotidiano, os estudantes africanos percebem a dificuldade dos brasileiros em chamá-los pelos nomes próprios, substituindo-os pela categoria nativa brasileira ‘negão’”. Assim afirma o guineense Gilberto (E03, p.20): “eu tava vindo pra cá, pra UNILAB, aí tinha um cara, eu nem
conhecia ele, ele gritou pra mim: ‘Ei, negão! Ei, negão! ’. Aí eu disse: ‘Será que esse cara tá falando comigo?’. Ele disse: ‘Sim, é tu mesmo.’”
Assim sendo, o preconceito e o racismo assumem contra estes estudantes, em conjunto, formas diversas, capilarizadas e perversas, promovendo processos comuns de exclusão social. Exercem-se em âmbitos diferentes, ora mais individuais, ora mais culturais, e expressam-se de diferentes maneiras, ora mais “sutilmente”, ora mais frontalmente, promovendo, muitas vezes, formas de sofrimento análogas àquelas vividas no cotidiano pelo negro brasileiro, guardadas as diferenças contextuais da situação de imigração para fins estudantis. Na sequência, abordaremos sobre estas manifestações, a partir dos relatos de nossos interlocutores.