Nossa pesquisa buscou olhar para a mulher na organização, a partir da perspectiva epistemológica do construcionismo que coloca essa mulher como agente que constrói a sua realidade em um processo de interação social. Assim, consideramos o que essas profissionais nos contaram sobre suas vidas inseridas em um contexto social e histórico específicos.
Nossa pesquisa revelou a ideia do desaparecimento simbólico da mulher, que envolve a fragmentação e fragilização de sua identidade. Esse desaparecimento acontece na esfera da casa, na medida em que a mulher adentra a esfera do trabalho, e também na organização, na posição da gerência intermediária. Como saída a esse desaparecimento, encontramos a mulher estabelecendo limites à sua trajetória profissional, buscando movimentações laterais e, mesmo, carreiras alternativas ao invés de crescer na hierarquia, evitando, assim, ainda mais comprometimento de seu escasso tempo. Nossa pesquisa, desta forma, traz outra perspectiva para se compreender o fenômeno do teto de vidro nas organizações. Vamos, então, desenvolver esses aspectos a partir do que discutimos no capítulo anterior.
Nosso estudo reforçou elementos da literatura acerca dos sentidos atribuídos as esferas do trabalho e da casa. O trabalho é o espaço produtivo que se soma ao prazer, à realização e à independência, aspectos marcantes nas falas das profissionais entrevistadas. A esfera da casa, por sua vez, se define como o local da família e também como espaço de isolamento e de solidão. Nossa pesquisa, no entanto, revelou que o sentido da casa não se estabelece por si só, mas se define em relação ao trabalho e de duas maneiras, aparentemente
contraditórias: é local para o qual se quer retornar após um dia de trabalho e é também o local do qual se quer se afastar por ser um espaço improdutivo e da solidão. Essa aparente contradição parece nos revelar que a mulher busca distanciar-se do discurso que a confinou à casa (e, portanto, à solidão) e à condição de desigualdade. Assim, negar a casa parece ter o sentido de se impor em termos de igualdade com os homens. Tal conclusão só nos é possível considerando o tempo longo, vivido e curto: os ideais feministas construídos no tempo longo aparecem implícitos nas falas das profissionais e se explicitam nas vozes representadas pela figura da mãe, do pai, do avô. Esta negação, no entanto, parece estar mais no campo simbólico das ideias que na prática do cotidiano, pois a mulher não se desconecta das responsabilidades acerca das atividades domésticas. Para poder trabalhar, ela monta uma estrutura na casa ou fora dela que passa ter um papel importante em sua vida, na medida em que lhe permite estar no trabalho. Essa dinâmica parece ter duas faces: por um lado, a mulher se conecta ao trabalho e, de certa forma, desaparece da casa na medida em que outros atores ali se estabelecem com um status de importância maior que a própria mulher; de outro, a mulher não migra definitivamente da casa para o trabalho, mas tem ainda para si as responsabilidades com as atividades domésticas, o que acaba por representar um acúmulo de atividades para a própria mulher, que poderia se traduzir em uma fragilidade de identidade que ao mesmo tempo nega e reforça a desigualdade. Em síntese, a mulher vai para o trabalho e desaparece simbolicamente da casa.
Somamos a isso a discussão acerca da separação das esferas do trabalho e da casa. Nossa pesquisa reforçou o que a literatura apresenta, pois entendemos, a partir das falas de nossas entrevistadas, que essas esferas parecem não ser tão separadas na medida em que o trabalho tem predominância sobre a casa porque a mulher assim o fez: conferiu ao trabalho o sentido de sua vida e atribuiu à casa a conotação do local do qual se quer afastar, porque ali foi colocada em situação de desigualdade. O ingresso da mulher no âmbito do trabalho, assim, redefiniu a esfera da casa em relação ao próprio trabalho; este, por sua vez, parece ser um guarda-chuva sob o qual diversas relações se estabelecem. A casa parece estar subordinada ao trabalho de tal forma que a mulher se aproxima do trabalho e se distancia da casa, enquanto espaço que um dia lhe conferiu identidade, provocando o seu desaparecimento simbólico desta esfera.
A mulher, então, vai para o espaço do trabalho. Nossa pesquisa revelou que na esfera do trabalho a mulher também desaparece simbolicamente. No contexto do trabalho da gerência intermediária, esta esfera se configura como o espaço do masculino, no qual existe a luta e o combate. Este é o principal sentido que emerge das falas das mulheres entrevistadas
na posição da gerência intermediária. Neste ambiente, as mulheres desaparecem por se moldarem ao contexto predominante do masculino, presente na literatura e explicitado nas falas das profissionais entrevistadas. No contexto da organização existe, por um lado, o reforço do masculino que se traduz na adoção pelas mulheres de comportamentos associados ao masculino; por outro, ocorre a anulação do feminino que esconde a mulher ou cria um distanciamento entre as próprias mulheres. Vale notar que tais comportamentos são adotados e reforçados pelas mulheres. Soma-se a isso a exaltação das diferenças promovidas pelos homens em relação às mulheres, o que reforça ainda mais o masculino. Ainda, a gerência intermediária, que é considerada o ponto mais alto que as mulheres normalmente chegam na organização, coloca essa mulher em interação com hierarquias mais altas, onde há predomínio de homens. A mulher está, então, imersa e submersa no contexto do masculino, sem saber como “trazer as características do feminino naquele momento”, como nos disse a entrevistada 41. Esta condição, no entanto, não é vivenciada pela mulher como uma problemática: estar imerso no masculino parece ser o natural do contexto organizacional; as mulheres não se sentem discriminadas ou tratadas com preconceito.
No entanto, em meio a esse predomínio do masculino, a mulher ainda encontra espaço para expressar, ainda que sutilmente, sua feminilidade traduzida, por exemplo, no “caráter maternal” da gestão com a equipe, conforme nos descreveram as entrevistadas. De forma complementar, a figura da “princesa de chuteira” é marcante para nos revelar a busca pela integração do masculino e do feminino em cada ator organizacional, segundo a fala de algumas profissionais. Tal integração poderia permitir que o espaço da organização deixasse de ser o ringue onde se tem um vencedor, para se tornar um espaço de respeito pelas diferenças, conforme indicam as entrevistadas. Essa talvez seja uma maneira de as mulheres buscarem a sua identidade no espaço organizacional, enfraquecendo ou anulando o seu próprio desaparecimento.
Apoiando-nos nesses elementos, nossa pesquisa também revelou que as mulheres entrevistadas estão imersas em um mundo demandante, ditado por um ritmo muito intenso de trabalho, que também impõe um ritmo acelerado para a vida pessoal. Neste cenário, essas profissionais parecem atuar em todos os lugares, mas, simultaneamente, parecem não estar em lugar algum. Entendemos em nossa pesquisa que esta saturação tem sua intensidade ditada pelo ritmo do trabalho. Mais que dizer que a mulher divide-se entre as tarefas da profissional que trabalha, da mãe, da esposa, da responsável pela casa, nossa pesquisa revelou que a mulher não está em nenhum desses lugares: na organização, ela desaparece como mulher; na casa, também há o seu desaparecimento ainda que existam as responsabilidades com as
atividade do lar; como esposa, ela não está com o seu marido; como mãe, ela fica pouco com os filhos e ainda não tem tempo para ela própria. Assim, diante desta multiplicidade de selves, a fragilidade da identidade parece ser o aspecto marcante da vida desta mulher na posição da gerência intermediária, posição esta que também é marcada por uma crise de identidade. A mulher está em todos os lugares e ao mesmo tempo, não se vê em nada: existe uma permanente sensação de ausência, de estar devendo em alguma esfera. Por conseguinte, a identidade da mulher, especificamente tratando daquela que atua na gerência intermediária, parece ser algo para o qual ainda se busca uma construção.
O desaparecimento simbólico da mulher da esfera da casa e do trabalho trazido por nossa pesquisa aponta para uma fragilidade da identidade desta mulher, que, associada a um contexto social de saturação, ditado pelo ritmo do trabalho, coloca-a em uma posição frágil em relação a si própria. Como forma de lidar com esse desaparecimento que se traduz na fragilidade de sua identidade – aqui entendida por nós como este movimento de estar em todos os lugares e ao mesmo tempo estar ausente de tudo – essa mulher estabelece limites à sua trajetória profissional, buscando movimentações laterais e, mesmo, carreiras alternativas ao invés de crescer na hierarquia, evitando, assim, comprometer mais o seu tempo para a vida pessoal. Neste contexto, entendemos que nossa pesquisa revelou outra perspectiva para se compreender o fenômeno do teto de vidro nas organizações. Em nosso estudo com mulheres na gerência intermediária, o teto de vidro pôde ser compreendido sob o ponto de vista da mulher como resposta a um processo de saturação no trabalho e fora dele: a mulher imersa em um mundo demandante, tanto no trabalho como na vida pessoal, estabelece um limite à sua trajetória profissional dentro da organização ou para fora dela como forma de se manter no mercado de trabalho, trabalho esse que é fonte de prazer e de independência e ocupa uma parte relevante da vida da mulher. Assim, ao invés de ser tratado como uma barreira à ascensão das mulheres profissionais, o teto de vidro parece também ser construído por essas mulheres como saídas para lidar com a demanda da vida contemporânea e o cotidiano das organizações, especificamente na gerência intermediária.
Concluímos, assim, em nossa pesquisa, que essas mulheres gerentes intermediárias desaparecem simbolicamente da esfera da casa, ao negarem este espaço que um dia lhes colocou em uma situação de desigualdade, bem como desaparecem na organização ao estarem imersas em um contexto do masculino. Vimos ainda a mulher de nossa pesquisa imersa em um mundo demandante, tanto no trabalho como na vida pessoal, que se traduz em um contexto de saturação social, que entendemos ser ditado pelo ritmo do trabalho. Este mundo no qual encontramos essas mulheres imersas parece ter duas faces: por
um lado, as conquistas feministas abriram espaço para o mercado de trabalho e assim, para a realização e para a independência, inclusive financeira. Por outro, existe a questão da identidade dessa mulher que parece ainda não ter se definido nas diferentes esferas pelas quais ela trafega, restando-lhe sentimentos de conflito, angústia e dúvida quanto ao seu futuro. Assim, como forma de lidar com essa saturação que se traduz na fragilidade de sua identidade, essa mulher estabelece limites à sua trajetória profissional, compreendido em nossa pesquisa como outra perspectiva para se compreender o fenômeno do teto de vidro nas organizações.
Finalmente, consideramos importante destacar que nossa pesquisa reforçou aspectos trazidos na literatura sobre as mulheres no contexto das organizações e também revelou particularidades da mulher que atua na gerência intermediária.
Dentre os aspectos que nossa pesquisa reforçou estão os sentidos atribuídos ao trabalho e à casa, a predominância do masculino nas organizações e os conflitos vivenciados na relação entre trabalho e vida pessoal. Atendo-nos a esses pontos, pouca coisa parece ter mudado acerca da atuação na mulher nas organizações, pois ainda hoje estamos tratando de questões que se apresentaram há décadas.
Quanto às particularidades da mulher que atua na gerência intermediária, nossa pesquisa revelou a fragilidade de identidade das mulheres com quem conversamos, fragilidade essa que não só se caracteriza nesta posição hierárquica específica, mas também aos outros elementos explorados em nosso trabalho: a mulher está em todos os lugares e, ao mesmo tempo, parece não estar em lugar algum, em um contexto de saturação ditado pelo ritmo do trabalho, principalmente. Assim, a questão da identidade da mulher no espaço organizacional parece ser um processo ainda em construção. Outro elemento que nossa pesquisa revelou especificamente acerca da mulher na gerência intermediária foi outra perspectiva para se compreender o fenômeno do teto de vidro nas organizações. Em nosso estudo com mulheres gerentes intermediárias, o teto de vidro pôde ser compreendido como um limite que a mulher estabelece em sua trajetória profissional dentro da organização ou para fora dela como forma de se manter no mercado de trabalho, em resposta a um processo de saturação em um contexto amplo.
Entendemos, assim, que nossa pesquisa trouxe contribuições para esse campo de estudos, como elencamos a seguir. Em primeiro lugar, identificamos uma lacuna nos estudos sobre mulheres na gerência intermediária das organizações, o que nosso trabalho procurou, de alguma forma, ajudar a reduzir e, acreditamos, firmou passos para futuros estudos. Em segundo lugar, a perspectiva teórica adotada – o construcionismo social – ainda foi pouco
utilizada em pesquisas sobre mulheres e, desta maneira, buscamos contribuir para diversificar pesquisas neste campo temático. Em terceiro lugar, a utilização desta abordagem teórica nos permitiu trazer para a pesquisa o olhar da mulher como agente que constrói sua realidade, contribuindo para as nossas conclusões de duas maneiras: primeiramente, nos possibilitou reconhecer os sentidos como construções sociais que se reforçam no tempo longo e no tempo vivido, trazendo-nos uma compreensão mais profunda acerca de nosso objeto de estudo; em seguida, nos afastou de uma verdade única para descobrirmos múltiplas verdades que se construíam no processo de interação com as entrevistadas, dinâmica fundamental para que os sentidos pudessem ser apreendidos. Por último, acreditamos que os sentidos trazidos por essas profissionais trouxeram elementos para reflexão de direcionamentos futuros desta área de estudos, contribuindo para ampliar a compreensão acerca desta temática no Brasil.
Finalmente, alinhados com a perspectiva construcionista, cabe aqui mencionar que nossas conclusões não buscam fazer generalizações acerca da mulher ou, especificamente, daquela que atua na gerência intermediária. Procuramos, ao longo do trabalho, explicitar os sentidos atribuídos pelas profissionais entrevistadas, sentidos esses que se construíram e se constroem neste momento histórico, no momento de vida de cada profissional e ainda no momento da interação da pesquisa. Fizemos um esforço em trazer o contexto do tempo longo, principalmente acerca da história de mulher, dos ideais feministas e de questões da sociedade contemporânea para compreender essa mulher neste momento presente, percebendo como todas essas vozes continuam a ser reforçadas em um processo de construção social; o tempo longo, dentro da perspectiva de um construcionismo fraco adotada por nós, apresenta certo grau de continuidade, com elementos que perduram no decorrer do tempo. No entanto, na perspectiva da história vivida e no momento da interação, diferentes sentidos emergiram, e procuramos deixar evidente que diferenças existiam: algumas profissionais vivenciavam conflitos, outras não; algumas impunham limites ao trabalho, outras não. Desta maneira, entendemos que a percepção dessa riqueza na diferença também nos instiga a pensar em outros caminhos de pesquisa para que continuemos a contribuir para ampliar esta área de estudos.