1. YUNAN MĠMARĠSĠNE GENEL BAKIġ
1.4. Tapınak Mimarisi
1.4.1. Temel nizamlar
1.4.1.1. Dor Nizamı
Nesta seção, trazemos à discussão a ideia de que o ingresso da mulher no mercado de trabalho e seu consequente afastamento da casa a fez desaparecer simbolicamente desta esfera. O trabalho passou a ter grande relevância na vida da mulher, fruto de uma construção
social e as duas esferas – casa e trabalho – que em dado momento histórico se estabelecerem como separadas, já não parecem tão distantes assim. O trabalho passou a ser a grande esfera em torno da qual o restante da vida da mulher se estabelece. Vamos desenvolver estas ideias a seguir.
Como a revisão da bibliografia nos mostrou, ao final do século XIX, com o crescimento das indústrias, a produção doméstica migrou para a produção industrial redefinindo a relação entre público e privado e também a relação dos homens e das mulheres com o trabalho e a vida doméstica (ALVESSON; BILLING, 1997). Neste momento, ocorreu uma separação entre a esfera do trabalho e a esfera da casa, cada uma assumindo um sentido diferente: a esfera do trabalho passou a ser a esfera masculina do trabalho remunerado, e a esfera doméstica era o local da mulher com os cuidados com a casa e com a família. (HOLLWAY, 1996). Tal arranjo confinou a mulher à casa, em uma posição de subordinação e dependência do homem, o que provocou questionamentos acerca da dominação da mulher, reforçados pelos movimentos de feministas da meados do século XX. Foi um momento de questionamento do papel da mulher na família, no trabalho e na sociedade, na busca pela transformação nas relações humanas e pelo abandono das relações baseadas na discriminação social e de gênero (SARDENBERG; COSTA, 1994). A mulher, então, adentrou o mercado de trabalho chegando, nos dias de hoje, a quase metade da mão de obra empregada, tanto no mundo quanto no Brasil.
Com esses elementos da bibliografia e com base nas falas de nossas entrevistadas, apresentadas no capítulo anterior e nos apêndices, notamos que aos sentidos originalmente atribuídos a cada esfera, outros se somam ou, ainda, se reforçam. Vamos, então, discutir os seguintes aspectos: o trabalho como espaço produtivo e remunerado; e a casa como local do marido e dos filhos.
Primeiramente, o sentido do trabalho com espaço produtivo e remunerado se reforça com a entrada da mulher nesta esfera, pois, para as entrevistadas, não só o trabalho traz o recurso financeiro, como ele também é local de prazer, realização, reconhecimento e liberdade. A liberdade é tratada como possibilidade de independência financeira, que envolve também a independência do marido. Desta maneira, a esfera do trabalho além de ser o espaço produtivo, é também fonte de prazer, satisfação, realização. Esses sentidos aparecem em estudos trazidos em nossa revisão da bibliografia como o de Sulerot (1970) e Amaral e Vieira (2009) onde o trabalho é visto como fonte de realização e satisfação. Somamos isso a vozes do movimento feminista, que construíram sentidos acerca do envolvimento da mulher com o trabalho na medida em que sustentavam que a mulher não poderia se realizar somente na vida
doméstica, no papel de mãe e esposa (FRIEDAN, 1971). Aqui, então, nas falas das entrevistadas esses sentidos se reforçam e se reproduzem. Assim, a realização da mulher, antes associada à esfera da casa, foi transferida para a esfera do trabalho. Acrescenta-se a isso a possibilidade de independência que a afasta da posição de subordinação ao homem, outro elemento do discurso feminista que aparece não só na fala das entrevistadas, mas também se reforça nas vozes representadas pelo pai, pela mãe, pelo avô. Cabe-nos ainda comentar que o trabalho, associado ao prazer e à realização, aparece como algo muito relevante na vida dessas mulheres. Novamente temos aqui a manifestação do tempo longo no qual a participação da mulher no mercado de trabalho foi construída socialmente sob o ideal de igualdade e de não subordinação. No tempo curto, tal construção se manifesta no fato de que a mulher não consegue se imaginar sem trabalhar, como um caminho sem volta: a identidade da mulher parece se construir também em torno do trabalho.
Em suma, ao sentido construído inicialmente à esfera do trabalho como espaço produtivo, somam-se o prazer, a realização e a independência, aspectos marcantes nas falas das profissionais entrevistadas como um todo. Tais sentidos reproduzem e reforçam aspectos dos ideais feministas, que tiraram a mulher da casa e lhe conferiram independência em relação ao homem, colocando o trabalho com atividade relevante em suas vidas.
A casa, por sua vez, é o local do marido e dos filhos, sentido que aparece nas falas das profissionais e que está presente na literatura que aborda a separação entre a casa e o trabalho atribuindo funções específicas a cada esfera, sendo a casa o espaço da família (HOLLWAY, 1996; D´INCAO, 2009). Em nossa pesquisa, no entanto, este sentido parece se definir principalmente em relação ao trabalho. Na fala das entrevistadas que são casadas e tem filhos, a casa como local do marido e dos filhos define-se a partir do que denominamos em nossa pesquisa de rupturas simbólicas: especificamente o casamento e a maternidade estabelecem novas dinâmicas com relação ao trabalho, pois nesses momentos da vida, a mulher busca concentrar sua jornada para estar em casa mais cedo. Ou seja, é um momento no qual a mulher impõe algum limite ao trabalho, limite esse que normalmente não existe ou é bastante difícil de ser atingido. Em síntese, nas falas das entrevistadas, o sentido da casa como espaço dos filhos e do marido somente aparece quando a mulher menciona o trabalho na busca de impor um limite à sua jornada para estar em casa mais cedo, por conta do casamento ou dos filhos.
Além da casa como local da família se definir em relação ao trabalho, esta esfera ganha um sentido adicional como o espaço de negação ao trabalho: é onde não se produz, onde não há contato com o mundo, onde não se aprende. A casa como local do “não-
trabalho” deprime: a vida não está ali, está fora dali, no trabalho. Tal sentido, da casa como local de isolamento também apareceu em nossa revisão bibliográfica como, por exemplo, no trabalho de Betiol e Tonelli (1991). Em nossa pesquisa, além do sentido de isolamento atribuído à casa, aparece também a intenção da mulher de se afastar desta esfera. Em momentos nos quais as mulher fica em casa, por exemplo durante a licença maternidade, aparece o anseio pelo retorno ao trabalho pois ela “quer sua vida de volta”.
Esse afastamento se reforça na negação das atividades inerentes ao espaço da casa, outro elemento presente nas falas por meio das vozes representadas pela mãe, por exemplo, que não ensinaram a filha a cuidar da casa ou a cozinhar e explicitamente a orientaram a não se envolver em afazeres domésticos. A vozes feministas se reforçam aqui questionando o papel da mulher na casa e na família (SARDENBERG; COSTA, 1994), pois parece ser marcante a questão da busca da igualdade para as mulheres. Desta maneira, não basta ela estar na esfera do trabalho, ela deve também negar a esfera da casa como local que foi construído socialmente como espaço de desigualdade e subordinação traduzido, por exemplo, nos trabalhos domésticos como responsabilidade exclusiva da mulher. Cabe ressaltar, no entanto, que apesar das vozes feministas ou a figura da mãe terem promovido esse afastamento da mulher da casa, no tempo curto não é isso que se apresenta. Em nossa pesquisa, as entrevistadas que são casadas e tem filhos revelam que, no cotidiano, as atividades da casa estão sob sua responsabilidade, elemento que também aparece na literatura que explora o acúmulo de funções da mulher entre o trabalho fora de casa e tarefas domésticas (BRUSCHINI; RICOLDI; MERCADO, 2008; SILVA; REBELO; ROSSETTO, 2010). Mais que compreender esse processo como um acúmulo de funções, talvez ele também possa ser compreendido como uma fragilização da identidade dessa mulher que quer, por um lado, se afastar da casa enquanto espaço de desigualdade, mas por outro tem que estar nele para cumprir as funções que acabam por representar a própria desigualdade.
Assim, a mulher foi para a esfera do trabalho, que é fonte de prazer e realização, mas não deixou a esfera da casa. Para poder trabalhar e se ausentar, garantindo prazer ao trabalho como indicaram nossas entrevistadas, ela deve garantir que exista uma estrutura na casa, ou fora dela, que cumpra o papel que antes lhe cabia, sob o risco de o trabalho tornar-se inviável. Essa estrutura parece desempenhar um papel central para, não só permitir que a mulher trabalhe, mas também para garantir o prazer de trabalhar e afastar o “sofrimento”, a “culpa” e a “loucura” desse ritmo do dia a dia, termos utilizados pelas entrevistadas. A estrutura montada é “a que salva”, é o “anjo da guarda”. A mulher, no entanto, torna-se dependente dessa estrutura para garantir a sua atuação no trabalho: segundo o que nos
disseram algumas profissionais da pesquisa a empregada torna-se a pessoa mais importante da casa, é a babá que manda na agenda, o que nos parece reforçar a conexão da mulher com o trabalho e seu afastamento intencional da casa. Não encontramos na literatura trabalhos que explorassem o sentido dessa estrutura que oferece suporte à mulher para que ela trabalhe. Assim, esse é um dos pontos de contribuição de nossa pesquisa que nos dá embasamento para o que sintetizamos em seguida.
Até este ponto, vimos que a mulher adentrou a esfera do trabalho que é fonte de prazer, realização e independência e busca se afastar da esfera da casa. No entanto, as atividades acerca da casa ainda estão sob a sua responsabilidade e, assim, resta-lhe montar uma estrutura que dê suporte à família enquanto a mulher se ausenta. Essa estrutura ganha uma importância central, sem a qual a mulher não pode estar no trabalho e ter o prazer de trabalhar. Assim, apesar de a mulher ainda ser responsável pelas atividades que se estabelecem na casa, entendemos que ela deixa de ser a figura central desse espaço, antes exclusivo seu, na medida em que outros atores ingressam neste contexto – por exemplo, a empregada, a babá – e que ganham um papel relevante na casa, importância essa atribuída pela própria mulher. A mulher está no trabalho e, de certa forma, desaparece da casa. Esse esvaecimento da esfera da casa aparece e se reforça nas falas das mulheres solteiras sem filhos: a casa não aparece em suas falas, é o trabalho que predomina e que toma conta de sua vida, até o momento em que ocorre alguma crise pessoal como um problema de saúde ou uma separação. Esse momento de crise impõe certo limite ao trabalho, mas ainda assim a casa não aparece nas falas, o que também nos indica e reforça o sentido da casa como local do marido e dos filhos.
Em síntese, os dados de nossa pesquisa nas falas das profissionais entrevistadas reforçam os sentidos atribuídos à esfera do trabalho e à esfera da casa trazidos pela literatura (SULEROT, 1970; BETIOL; TONELLI, 1991; ALVESSON; BILLING, 1997; AMARAL; VIEIRA, 2009). Ao trabalho é atribuído o sentido do espaço produtivo que se soma ao prazer, à realização e à independência, aspectos marcantes nas falas das profissionais entrevistadas como um todo. A esfera da casa, por sua vez se define como o local da família, presente na fala das mulheres casadas e com filhos e ausente nas falas das mulheres solteiras e sem filhos. Em nossa pesquisa, no entanto, esse sentido somente se define em relação ao trabalho e de duas maneiras, aparentemente contraditórias: é local para o qual se quer retornar após um dia de trabalho e é também o local do qual se quer se afastar por ser um espaço improdutivo e da solidão. Essa aparente contradição parece nos revelar que a mulher busca distanciar-se do discurso que a confinou à casa (e, portanto, à solidão) e à condição de
desigualdade. Assim, negar a casa parece ter o sentido de se impor em termos de igualdade com os homens. Tal conclusão só nos é possível considerando o tempo longo, vivido e curto: os ideais feministas construídos no tempo longo aparecem implícitos nas falas e se explicitam nas vozes. Esta negação, no entanto, parece estar mais no campo simbólico das ideias que na prática do cotidiano, pois a mulher não se desconecta das responsabilidades acerca das atividades domésticas, elemento também presente na literatura (BRUSCHINI; RICOLDI; MERCADO, 2008; SILVA; REBELO; ROSSETTO, 2010). A mulher, então, apoia-se em uma estrutura na casa ou fora dela que passa ter um papel importante em sua vida, na medida em que lhe permite trabalhar. Essa dinâmica parece ter duas faces: por um lado, a mulher se conecta ao trabalho e, de certa forma, desaparece da casa na medida em que outros atores ali se estabelecem com um status de importância maior que a própria mulher; de outro, a mulher não migra definitivamente da esfera da casa para a do trabalho, mas ainda tem para si as responsabilidades com as atividades da casa, o que acaba por representar um acúmulo de atividades para a própria mulher, que pode ainda assumir um sentido de fragilização de sua identidade, que ao mesmo tempo nega e reforça a desigualdade – no primeiro caso, negando a casa e, no segundo, sendo ainda responsável por ela.
Esta discussão nos remete ao ponto de que a esfera do trabalho parece ter um contorno mais amplo, a ponto de talvez de não existirem duas esferas tão delineadas. Estamos em consonância com a visão trazida por Martin (1990) de que existe uma dominância da esfera do trabalho sobre a esfera da casa e que esses contornos, aparentemente rígidos, não o são na prática. Podemos, também, resgatar neste momento a discussão trazida por Runté e Mills (2004), que é reforçada em nossa pesquisa. O discurso dominante acerca da separação da esfera da casa e da esfera do trabalho, que não são de fato vivenciadas como separadas, cria a necessidade de busca de um equilíbrio que se desenha em torno do aumento de produtividade e comprometimento para abrandar as consequências negativas em torno da família. As falas de nossas entrevistas nos revelaram essa busca de efetividade no uso do tempo no trabalho para poder sobrar tempo de dedicação à esfera pessoal. O ingresso da mulher no âmbito do trabalho, assim, redefiniu a esfera da casa em relação ao próprio trabalho; este, por sua vez, parece ser um guarda-chuva sob o qual diversas relações se estabelecem. A casa parece estar subordinada ao trabalho de tal forma que a mulher aproxima-se do trabalho e distancia-se da casa enquanto espaço que um dia lhe conferiu identidade.
Concluímos, assim, esta seção com a ideia de que as esferas do trabalho e da casa não são esferas de fato separadas, e que isso é produto de um discurso construído socialmente
que procurou delimitar o espaço das mulheres. Por outro lado, o trabalho ganhou predominância sobre a casa porque a mulher assim o fez: conferiu ao trabalho o sentido de sua vida e atribuiu à casa a conotação do local do qual se quer afastar, porque um dia ali sentiu-se em situação de desigualdade. Esta dinâmica, que se estabeleceu a partir das vozes feministas, se reforça e se mantém até os dias de hoje. Assim, a mulher vai para o trabalho e desaparece simbolicamente da casa. Esse desaparecimento não é total, pois à mulher ainda são conferidas responsabilidades às atividades desenvolvidas na casa, o que acaba por se traduzir em um acúmulo de funções que pode ser entendido como um processo de fragilização de sua identidade, além de trazer consequências para o cotidiano desta mulher, como discutiremos mais adiante.