A coleta de dados no início do estudo evidenciou que a organização do trabalho disponibilizou vários sistemas supervisórios, que não estão interligados e sem sistemas de ajuda para os operadores atingirem seus objetivos e metas. A elaboração e uso das planilhas denominadas DICAS pelos operadores da sala de controle é uma evidência concreta da limitação dos sistemas de ajuda oferecida aos operadores e como eles se mobilizaram para preencher as lacunas de busca de informações existentes de forma integrada, abrangendo todos os sistemas.
Por outro lado, conforme apontado como aspecto relevante por Resende (2011), para o desenvolvimento de sistemas informatizados, ao mesmo tempo em que o sistema é limitado nas opções de ajuda prontas, ele é flexível e permite ao operador fazer consultas, construir planilhas de dados, buscar as respostas e ajuda para solucionar os problemas que se apresentam. Essa “margem de manobra” é descrita como um artefato flexível, com janelas para o operador absorver a variabilidade das situações de uso dos artefatos/espaço. “ Trata-se de prever o espaço das formas possíveis de atividade futura” (DANIELLOU, 2007, p. 304 apud RESENDE, 2011, p. 56).
“Conhecer o campo, as estações, ajuda muito no trabalho. Antes de vir para cá, nós visitamos todas as áreas [...] agora, já tem muitas mudanças, a gente não conhece a fundo tudo [...] eu não conheço plataforma, nunca fui visitar [...] nem imagino como seja [...] a gente devia dar uma volta pelo campo de vez em quando [...]”.
“Só uma parte das estações coletoras estão representadas no supervisório, uns 80% do campo, o que eu não posso ver porque não tem, eu posso utilizar outro supervisório, o dos poços por exemplo, o SISAL”.
“Tem uma área que tem 17 estações, aqui eu só vejo 3, tem 14 que ficaram fora do supervisório, porque as que eu não vejo, envia petróleo para as que eu vejo, ela produz para dentro de outra. Nessas que eu não vejo no supervisório, eu vejo o poço, a maior parte, automatizada”.
135 Num determinado ponto da pesquisa, a sala de controle recebeu up grade da tecnologia, virtualizando os hardwares e os softwares, o que resultou, de forma temporária, na retirada dos operadores a possibilidade de consultar os dados em tempo real no PI. Isso, segundo relato dos operadores, limitou suas possibilidades de manobra. Nesse momento, foi verificado que o sistema estava menos flexível, limitando a capacidade dos usuários de complementar uma resposta dada ao conjunto de demandas (RESENDE, 2011). Para essa transição, alguns alarmes foram desativados.
“Sem alarme, mudou o sistema, não tenho consultar histórico” (Operador 3). “A gente termina encontrando uma saída (...). Tem uma outra maneira de se identificar, ou você anota num papel , voltou tal hora eu anoto” (Operador 5).
“Vou dizer para ele: ‘ Você tem paciência, que quem tem acesso ao PI não tá aqui, ele vai pedir a ocorrência do tanque tal, estação tal, mas o administrador do sistema vai lhe dar esses dados. Amanhã eu te envio” (Operador 5).
“Os GV lançam nas planilhas dele, eles avaliam mensalmente, anualmente, faz o fechamento, os GV trabalharam quantas horas, houve uma perda, porque isso aí, aí vem aqui buscar esse histórico se não houve uma parada, uma perda de água, não teve gás para tocar o gerador?... tudo isso eles precisam da ajuda da gente quando eles não têm a informação” (Operador 3) “É comum o GV parar porque o gás tem que ser enviado para a empresa de fora do RN ou do CE, temos que cumprir os contratos com outras áreas externas” (Operador 3).
Como já apontado anteriormente, um ponto de resiliência do sistema é o fato de os operadores manterem contato muito próximo e frequente com as equipes de manutenção e com o responsável pelo desenvolvimento do sistema técnico. Com frequência, estão reportando suas dificuldades e sugestões de melhorias. Algumas vezes, essas sugestões são incorporadas de forma quase que imediata; outras vezes, demoram para que sejam atendidas. Esse contexto se caracteriza de acordo com a literatura pesquisada: o aprimoramento do projeto do sistema ocorre em paralelo à experiência adquirida em situação real de utilização e interação com a tarefa a ser cumprida (RESENDE, 2011). Observe-se o trecho de depoimento de um operador, a seguir.
“Na realidade, a cota aqui era mais alta, ela foi abaixada em função de uma turbina entrar em manutenção. Hoje, temos só uma turbina funcionando, mas eram duas; então, eu sei que posso aumentar, porque a cota anterior era maior do que está prescrito aqui” (Operador 2).
A planilha DICAS, elaborada pelos operadores, “conversa” com o PI e agrega numa tela só todos os elementos mais importantes que não devem ser esquecidos pelos operadores. Ali também há link para a o site interno de pesquisa da empresa, além de telefones úteis e fotos do vaporduto para ajudar a entender os problemas nas ECV. Essa planilha DICA é uma ferramenta que consolida crenças, ritos e valores do grupo de operadores e compõe o quadro da cultura organizacional, conforme definido por Edgard Schein (2009), prevalente entre a sala de controle, supervisores e equipes técnicas responsáveis pela manutenção dos sistemas. Segundo esse autor, a cultura organizacional é um:
“Conjunto de pressupostos básicos que os indivíduos aprenderam na resolução de seus problemas de adaptação para serem considerados válidos e, então serem ensinados aos novos membros como a maneira correta de se perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas” (SCHEIN, 2009).
Atualmente, o Operador 3 está utilizando os recursos tecnológicos disponíveis para desenvolver uma nova ferramenta de ajuda para os operadores, que se referem a ela como sendo um up grade do sistema de ajuda DICAS (antiga planilha em Excell).