2.2. MOLLA HÂLİD’İN BAZI HADÎS KAYNAKLARI VE MESELELERİNE
2.2.2. Müslim ve el-Câmi‘u’s-Sahîh Adlı Eseri
Mestre-escola foi a primeira atividade profissional desempenhada por João Gumes. Com
referência a essa função que desempenhou ainda bem jovem, comentou o seu filho Sadi Gumes:
Aos dezoito anos, por recomendação de seu tio Professor Marcelino José das Neves, foi contratado como professor pelo Capitão Bernardo Pereira Pinto para ensinar as primeiras letras aos seus filhos, em sua fazenda Lagoa do Morro, para onde foi em março de 1876 e lá permaneceu quatro anos, tempo em que teve a oportunidade de estudar o francês e traduzir para o português o livro “O Brasil” de Ferdinand Denis. Resignado do encargo assumido naquela fazenda, contratou com o dr. João José de Faria para ensinar aos de sua família. Voltou, assim, para a fazenda Barriguda, no baixio de Monte Alto, lá permanecendo mais quatro anos. Na convivência de um meio civilizado, constituiu um patrimônio de amizades tão vasto que a custo se afastou, no ano de 1883 (Caetité, 17/10/1970)50.
Vê-se que a atividade de mestre-escola esteve presente no contexto familiar de João Gumes. Tio Marcelino, como era conhecido, exerceu notável influência na vida de Gumes, foi dele a indicação para que o sobrinho desempenhasse a função de mestre-escola em fazendas localizadas na região dos baixios de Monte Alto51. Abordaremos à frente as fazendas da região em que Gumes trabalhou.
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Biografia escrita pelo filho de João Gumes. APMC - Sadi Gumes - Fundo: Acervo da Família Gumes. Série: manuscritos diversos, caixa: 2, maço: 3.
A experiência como mestre-escola foi certamente marcante para João Gumes, que a reelabora em seus romances. Neles, é possível verificar que o sujeito narrador relata de forma explícita fatos, experiências, visões, comportamentos que marcaram de forma significativa a vida do autor. Como se pode observar:
[
Então é que abri a minha eschola primária, porque foi preciso adaptar um dos apartamentos da casa ao fim colimado.
Os meus discípulos de leitura muito aproveitavam nos seus estudos e eu ainda mais porque, ensinando, consegue-se aprender. Alem d‟isso eu ia pouco a pouco conquistando maior estima e consideração e adquerindo bens semoventes não só por compras de novilhas, potros e outros animaes,
como por presentes d‟essa natureza offerecidos, à porfia, pelos meninos e
seus paes (O sampauleiro 1922, p.73-74).
Verifica-se, na descrição do narrador, a relevância que assume, naquele contexto da zona rural, a função de mestre-escola. Destacam-se as relações de confiança e as diversas formas de “gratificações” que se estabeleceram entre: o mestre-escola, os alunos e as famílias. Ressalta-se, também, o aproveitamento que os “discípulos”, ou seja, os alunos adquiriram com os estudos, assim como o mestre-escola.
A atividade de tradutor foi outra das instâncias profissionais que João Gumes desempenhou ainda no período em que trabalhou como mestre-escola, ao traduzir o livro de Ferdinand Denis52 – Le Brésil53. O manuscrito é resultado de um trabalho manual bem acabado. No entanto, por conta do tempo e do manuseio, encontra-se em processo de desgaste. É um livro de capa dura com 544 páginas e numeração centralizada na parte superior da folha. No manuscrito, existem algumas ilustrações referentes ao tema abordado na página, num total de 72. São reproduções de pinturas famosas de Rugendas e Debret, retratando cenas cotidianas e lugares variados do Brasil. Essas reproduções foram feitas com lápis preto. Percebe-se que, posteriormente, algumas foram coloridas. Verifica-se que o livro foi
52 Ferdinand Denis nasceu e faleceu em Viena (1796-1866). Trabalhou, durante quatro décadas, na biblioteca imperial até ser aposentado compulsoriamente. Dedicou-se ao estudo historiográfico das literaturas da Espanha e de Portugal. O pai esperava que ele se tornasse um diplomata, mas ele embarcou para uma viagem ao Brasil,
residindo no país entre os anos de 1816 a 1820. Segundo Antônio Cândido (1981, p.321), “encantado pela
natureza escreveu abundantemente sobre nós e os portugueses”, foi de certa forma o responsável pela
instituição de um “espírito nacional” na literatura brasileira. Denis considerava que um país com fisionomia
geográfica, ética, social e histórica definida deveria ter sua literatura própria, pois essa arte da palavra mantém vínculos estreitos com a natureza e com a sociedade de cada lugar. No Brasil, tornou-se conhecido pelo livro O
Brasil literário, considerado pela crítica como o primeiro livro sistemático de nossa literatura brasileira, escrito
por um estrangeiro.
53 O manuscrito encontra-se no APMC – Fundo: Acervo da Família Gumes. Série: manuscrito, caixa:1. maço:10.
organizado com folhas pautadas e avulsas, depois costuradas e encadernadas. Existem no texto algumas supressões, feitas com grifos e correções em cima da palavra, mas em pouca quantidade, o que não compromete a estética, a qualidade e a organização da obra. A grafia bem definida, legível e de fácil compreensão, proporciona uma harmonia na formatação textual. Após as notas, encontra-se a “taboa das matérias – contidas n‟este volume de Brasil”. São palavras variadas que foram destacadas no decorrer do texto, organizadas por ordem alfabética. Na “taboa”, constam palavras apenas até a letra I; as demais foram suprimidas. Ao final, têm-se 542 notas, numeradas com a respectiva página do livro, que contribuem para a compreensão do texto. O tradutor assina como: João Antônio dos Santos Gumes Júnior, e situa a produção do seu trabalho em Lagoa do Morro, no dia 5 de abril de 1878.
Figura n. 2 - Manuscrito do livro Le Brésil de Ferdinand Denis, traduzido por João Gumes em 1878. Foto feita pela pesquisadora em 01/2009.
Diante da realização dessa obra, questionamos: qual o significado de fazer uma tradução na segunda metade do século XIX? Segundo o Diccionário Prático Illustrado, de Jayme Séguier, refere-se à ação de “fazer passar (uma obra) de uma língua para outra; transladar, verter: traduzir um romance do francês [...]” (1928, p.1138). Nesse sentido, pode-se dizer que o processo de tradução exige que o indivíduo tenha pleno domínio da ação a ser realizada, conheça as especificidades que permeiam a língua para a qual o livro será vertido. No que se refere à atividade de tradutor de João Gumes, é possível fazer algumas
inferências. O desempenho dessa atividade pode ter sido uma forma de João Gumes exercitar o seu francês, levando em consideração a disponibilidade de tempo proporcionada pelo ambiente de trabalho como mestre-escola na área rural. Essa disponibilidade de tempo lhe teria permitido a produção de tamanha obra. Pode-se também pensar que, tendo o livro em francês, traduzi-lo num manuscrito em português seria uma forma de viabilizar a leitura para um número mais amplo de pessoas, inclusive seus próprios alunos54 e, posteriormente, aos seus familiares, já que no texto se veem várias marcas de escritas, possivelmente feitas por crianças e adultos.
Com efeito, a circulação de obras em manuscrito era bastante comum no Brasil da época, revelando a pouca circulação do impresso em vários locais do país. Antônio Augusto Gomes Batista, por exemplo, em pesquisa desenvolvida sobre manuais escolares, verificou que, no Brasil, mesmo durante o século XX, os manuscritos estavam presentes nas salas de aulas, num momento de expansão da letra de forma. Analisando a questão, o autor relacionou uma série de situações em que se torna “aparentemente compreensível” a presença do manuscrito “nas mais diversas esferas da vida pública e privada”, nas décadas iniciais do século XX. Assim, supõe-se “ter construída uma cultura da escrita que teria no manuscrito um dos seus traços distintivos” (2005, p.106). Certamente, tendo em vista esses aspectos da presença do manuscrito na cultura escrita, era esperada sua ocorrência no contexto cultural de João Gumes, na segunda metade do século XIX. Gumes deixou diversas produções em manuscritos, e algumas se configuram em mais de um exemplar sobre a mesma obra. Interessante observar que o período em que Gumes viveu na zona rural exerceu notável influência em sua produção escrita; como veremos a seguir, o seu pensamento tende a mostrar uma dicotomia entre o campo e a cidade, talvez reflexo das discussões que se desenvolviam naquele momento no Brasil de modo geral, em que o rural estava associado ao “atraso”, à “exploração”, ao “analfabetismo”, entre outros, e a cidade como lugar do “progresso”, “desenvolvimento”. No entanto, o pensamento de João Gumes é parodoxal, pois, em outros momentos, mostra que no campo não existe apenas atraso, há também pessoas “engenhosas” que sabem explorar as potencialidades do meio. Assim, é possível
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Galvão (2002, p.10), analisando os materiais de ensino utilizados em Pernambuco no período de 1827 a 1889, observa que, até meados do século XIX, eram praticamente inexistentes os livros de leitura na escola. A autora ressalta, ainda, que, em Pernambuco, nesse período, “diversas leis provinciais preveem concessão de prêmios para os professores que compusessem ou traduzissem livros e compêndios para serem utilizados na
instrução primária”. Nessa perspectiva, acreditamos que a ação de João Gumes de traduzir o livro de Ferdinand
Denis, após a segunda metade do século XIX, guarde semelhança com a situação vivida pelas escolas em Pernambuco: falta de material escrito para leitura.
observar como as experiências e o contato com a cultura do campo repercutiriam no enredo dos seus romances Pelo Sertão: narrativa de costumes rurais do Sertão baiano e Vida
campestre: narrativa dos costumes e hábitos dos lavradores do Alto Sertão Sul da Bahia.
Esse aprendizado deixou marcas na maneira de o escritor ver e perceber a população que habitava a zona rural, observando com atenção seus valores morais, “as raras virtudes”, “a opulência”, sua forma de trabalhar a terra, outras ações e comportamentos, apreendidos e descritos, dos habitantes do campo. Quanto aos conhecimentos adquiridos por ele, em sua vivência na zona rural, Gumes na condição de narrador do romance, comenta que não se restringiam apenas aos conhecimentos intelectuais; ele reconheceu a diversidade e a dimensão desses conhecimentos. Logo, eles estariam até mesmo acima do nível dos conhecimentos de quem recebeu um “diploma científico da Universidade” (Pelo Sertão, 1927, p.1), já que seriam mais consistentes do que os saberes daqueles que adquiriram o título de doutor. Assim, o narrador comenta:
Saibam que muito tenho aprendido nas minhas viagens e que me cabe um diploma científico da Universidade Internacional, mais justamente do que a certos que por lá se têm doutorado. Dizem os velhos: “Lido ou corrido”. E eu, que tenho corrido e lido esse grande livro que a natureza física e animada desdobra diante dos nossos olhos! Eu, que tenho perlustrado com grande interesse esse cantinho do globo, onde se ocultam magnificências, opulências e raras virtudes! (Pelo Sertão, 1927, p.1).
Percebe-se que as suas ideias conferem um destaque especial à necessidade de conhecer, ver, observar a natureza e as suas potencialidades. Esses valores de alguma forma estão presentes nas discussões cientificistas que prevaleceram no século XIX. Os defensores desse ideário, “seduzidos pelo progresso contínuo, propunham que os fatos só são conhecidos pela experiência e que a única válida é a dos sentidos” (RIBEIRO, 2001, p.12). No fragmento de
Pelo Sertão, o sujeito narrador revela também uma explícita manifestação de
reconhecimento no esforço empreendido em relatar o que “realmente viu e ouviu” no seu contato com a natureza, portanto, de acordo com os referenciais positivistas da época, a narrativa seria digna de crédito, pois foi capaz de atingir “verdades positivas ou da ordem experimental” (RIBEIRO, 2001, p.16). Vale relembrar que Gumes nasceu e foi criado na cidade, não consta que tenha realizado diretamente trabalhos agrícolas ou da pecuária; era natural de uma família urbana. É necessário ressaltar, ainda, o fato de que vivenciou a experiência da zona rural nas fazendas de grandes coronéis da região, latifundiários que dispunham de recursos para manter um mestre-escola por quatro anos em suas terras. Nesse
período, Gumes conheceu a “opulência” das grandes fazendas que utilizavam o trabalho escravo, bem como os seus impasses de sobreviência. A compreensão das condições em que se deu sua formação talvez colabore para dar inteligibilidade às ideias que Gumes iria construir sobre o campo e sua população.
Dramaturgo foi outra das atividades desempenhadas por Gumes, que escreveu várias peças
teatrais. A mais conhecida e comumente encenada pelas escolas locais foi A abolição55 (1889). Segundo o autor, é uma comédia-drama; dessa peça existem vários manuscritos feitos pelo próprio autor. Do romance Uma insurreição de negros: pequeno esboço da
escravidão no Brazil (1874), ficou o original manuscrito. De outras outras produções,
contudo, como A vida doméstica, não restaram cópias. O registro da existência de A vida
doméstica encontra-se enumerado na contracapa do romance O sampauleiro, junto ao
registro das demais produções literárias do autor. Ainda como escritor, produziu alguns romances que foram tratados na introdução deste estudo. Podem existir outras produções escritas de Gumes; infelizmente não conseguimos ter acesso a elas.
A função de editor foi outra das diversas atividades desempenhadas por João Gumes ligadas à cultura escrita, já que foi responsável pela implantação da primeira tipografia no Alto Sertão da Bahia. Em 25 de setembro de 1896, editou e fez circular o primeiro periódico56
da região. Um ano depois fundou o jornal A Penna. Mesmo com poucos recursos financeiros, Gumes conseguiu, com auxílio do governo municipal, um prelo para montar sua tipografia, que, em 5 de março de 1897, fez circular o jornal A Penna, publicação quinzenal que, apesar das várias interrupções por questões financeiras, sobreviveu até 1942.
55 AMPC - Fundo: Acervo da Família Gumes, Série: manuscritos diversos, caixa: 2, maço: 1. Além da cópia a que tivemos acesso, existem outras que se encontram com familiares.
56 O Caetiteense, primeiro jornal editado por Gumes, teve vida efêmera: edição única. O Caetiteense, Caetité, 25 set. 1896.
Figura n. 3 – Jornal A Penna, em 1897 e 1898. Fotomontagem feita pela pesquisadora em julho/2009.
As fotos acima foram feitas a partir da página inicial de duas diferentes edições do jornal A
Penna. Essa fotomontagem tem como objetivo mostrar as modificações pelas quais passou o
jornal; como era a diagramação das primeiras edições do periódico: em 1897 (lado esquerdo), constavam duas colunas verticais; na edição de 1898 (lado direito), verifica-se a presença, desta vez, de três colunas verticais. Pode-se observar também que, com a compra do novo prelo, em 1898, o jornal foi ampliado e passou a dispor de um número maior de ilustrações em suas páginas. No frontispício do jornal, pode-se verificar o enunciado: “Publica-se três vezes por mês”. Essa periodicidade não foi constante. Em alguns períodos, o jornal foi publicado três vezes por mês, mas, regularmente, a sua tiragem era de duas vezes por mês. Havia, ainda, mesmo que esporadicamente, edição especial do jornal em função da realização, na cidade, de algum evento especial de ordem política ou educacional.
Inicialmente, o jornal A Penna era uma folha de tamanho compacto medindo 22,5 cm x 16,5 cm, em que constavam apenas duas colunas com quatro páginas. O editorial identifica-o como “orgao dos interesses commerciais, agrícolas e civilizadores do alto sertão”, cujo proprietário-gerente era João Gumes. Foi possível manusear os exemplares originais referentes aos dois anos iniciais de circulação do jornal e observar que estavam encadernados. Porém, dados os constantes manuseios, perderam-se a capa e alguns exemplares. Quanto ao material, é um papel resistente, tipo linho, e o texto apresenta-se bem legível. A partir de 05/06/1898, o jornal A Penna teve sua formatação alterada, ampliando-se suas dimensões, que passaram para 31,5 cm. x 20,5 cm, formato in-quarto, assim como seu
número de colunas, agora três (conforme pode ser observado na figura n. 3). Ainda com referência à materialidade do jornal, foi possível observar que nem sempre a tipografia dispunha de material adequado à impressão do periódico. Em determinados momentos havia falta de papel e tinta, principalmente no período da Primeira Guerra Mundial; nesses momentos de escassez de material, Gumes recorria à utilização de papel de embrulho para imprimir o jornal, bem como à fabricação caseira de tinta. Existem, ainda, alguns exemplares do jornal que foram impressos com esse material alternativo, mas se encontram bem frágeis. No segundo ano, o jornal passou a identificar-se como propriedade de uma associação que tinha como redatores: Deoclecio Silva (professor de Desenho da Escola Normal) e João Gumes. Contava, ainda, com a colaboração do Marcelino José das Neves (professor de Pedagogia).
Conforme Maria da Conceição Reis (2004, p.20), a instalação da imprensa por João Gumes em Caetité fez parte de um projeto pessoal mais amplo, pois, “como ambicionava extinguir o analfabetismo em Caetité e em cidades circunvizinhas, acreditava que a melhor maneira para alcançar esse objetivo era o incentivo à leitura e à propagação de textos” (2004, p.20). Vale ressaltar que a relevância e a abrangência do jornal não se restringiram a Caetité. A Penna circulava em toda a região, com a divulgação de notícias tanto de âmbito local, como regional, estadual, nacional e internacional.
O jornal A Penna tinha uma diagramação, em grande medida, fixa. O número de páginas podia variar, a depender das notícias e informações a serem divulgadas, mas no geral prevaleciam as quatro páginas. Na primeira coluna, com letras em negrito, informava-se o título da matéria a ser comentada, que poderia ser uma questão local ou de nível nacional; geralmente, era uma notícia mais ampla, ocupando duas colunas. Fatos políticos de repercussão em qualquer uma das esferas da vida social eram informados e discutidos de forma detalhada pelo periódico. A Guerra de Canudos, por exemplo, foi um fato abordado por todos os números do jornal no período em que durou a guerra. Apresentavam-se as notícias recebidas por meio de telegramas e cartas a respeito do desenrolar do movimento. O periódico traz, ainda, uma seção denominada “Intermezzo”, que contém piadas e charadas, cujas respostas aparecem no número seguinte do jornal. Sirva de exemplo esta piada:
Um emprezario do theatro, sendo, a instancia dos espectadores forçado a reclamar contra os grandes chapéos enfeitados das senhoras, afixou o cartaz seguinte:
Pede-se às senhoras bonitas o favor de deixarem seus chapéos no guarda roupa. Só às feias é permitido trazel-os.
É escusado dizer qual o resultado (A Penna, 05/07/1897).
A seção de “Intermezzo”, além de funcionar como espaço de descontração e entretenimento, permite visualizar as práticas e normas que prevaleciam nessa sociedade, como mostra a piada, destacando os enormes chapéus que as senhoras usavam para ir ao teatro, dificultando a visibilidade dos demais espectadores. A piada demonstra, ainda, que os espetáculos teatrais que aconteciam na cidade contavam também com a frequência das senhoras. Portanto, presume-se que o teatro era uma prática cultural presente na vida dos caetiteenses. Outra seção era a de “Letras”. Ela apresenta fragmentos de sonetos, poemas, contos, tanto de autores desconhecidos, como de autores de relevância nacional e internacional. Outro espaço era reservado para publicação das notícias referentes ao poder municipal. Em espaço destinado aos comunicados, publicavam-se cartas de leitores, parabenizando aniversariantes, comunicando nascimentos; também eram publicadas notas de falecimentos, casamentos, pessoas que deixavam a cidade ou a ela chegavam:
Antonio Baleeiro Alves, achando-se de muda para Verruga, Municipio da Cidade de Conquista, não pode pessoalmente despedir-se de todos seus amigos de Caculé e S. Sebastião: pelo que vem pela imprensa cumprir esse dever, fazendo-o com a mais viva contrariedade desde que de todos leva indelével saudade, especialmente dos de Caculé, onde apoiado por esses amigos, tem recebido inolvidáveis provas de dedicação; mas em procura de melhor futuro para si e sua família é hoje forçado a separar-se do seio dos seus e terá a maior satisfação se um dia puder cumprir suas ordens, sem excepção alguma no lugar onde projecta sua morada. Caculé 10 de julho de 1897. Antonio Baleeiro Alves (A Penna, 05/08/1897).
Nessa coluna, é possível encontrar notícias referentes a diversas cidades da região. Na seção de “Annuncios”, oferecem-se serviços os mais diversos, desde as utilidades e benesses para a saúde, prometidas, por exemplo, pela “Emulsão Scott” e outros medicamentos, até a venda de selas, serviços de relojoeiro, procura de objeto desaparecido e outros. Trata-se de dados indicadores de que o jornal chegava a um público também diverso. O jornal contava, ainda, com um certo número de assinantes e alguns colaboradores, o que, segundo Reis (2004,